4ª Série - Número 1 - Dezembro de 1996 - pp. 28-30

 

A ópera «Iadelaide»

 

Na Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa, o Prof. Vitorino Nemésio, – que trisou como meu professor e presidiu ao júri da minha licenciatura, – tratava as moças por «senhorinhas»; o Mário de Albuquerque, das terras de Albergaria-a-Velha, – ainda não se dirigiam, ridiculamente, os políticos, aos Portugueses e Portuguesas», ou vice-versa, – tratava-as por «senhoras» e aos moços por «cavalheiros»; o Pinto de Carvalho referenciava, indicava, chamava os alunos pelo nome todo:

– Idalina da Conceição Pires de Lemos!

Foi o nome da Idalina o primeiro que ouvi o Professor pronunciar e que de imediato fixei, repercutia na memória auditiva como uma obsessão, veio a aparecer, metamorfoseado em Odete, – numa Odete que poderia ser Cristina, Luísa, Patrícia ou Maria, – em poemário deste antigo colega, à volta dos anos sessenta:

"Luísa!, Cristina!, Odete Conceição Pires de Lemos!, a Primavera vem aí".

Antes, no Seminário de Beja, – frequentado, como se sabe, por Hernâni Cidade e Aquilino Ribeiro, e de que fui expulso, por falta de vocação, fixara os nomes do mantuano Públio Virgílio Marão e de Marco Túlio Cícero. No Colégio da Murtosa, os de Joaquim Guilherme Gomes Coelho e de João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett. Logo depois, no velho Liceu de Aveiro, – para todos nós, sempre, o de José Estêvão, e de cuja proposta de restituição oficial de nome fui porta-voz, em sessão plenária do VI Congresso do Ensino Liceal, no palco do Teatro Aveirense, – foi a turma do 4.º Ano, – hoje, com mudanças, andanças e trangalhadanças de muito engenho e poucos efeitos substantivos, o 8.º, – a turma mais viva, irrequieta, imaginativa, criativa, lembrada e solidária que tive, e ai os grandes heróis tinham também nomes completos, a título de exemplo se citando de cor alguns, esperando-se que sem incorrecções de monta:

– Álvaro Gomes de Bastos Araújo;

– Patrício Bismarck Bento Álvares Ferreira do Agro;

– Joaquim António Calheiros da Silveira;

– João Fernando Resende Vieira;

– António Manuel Pais de Sousa Pasmal;

– João Rebelo Pereira Bóia;

– Joaquim José Ferreira Lopes Campanhã.

E mais e mais, entre três dezenas, passando pelo Gonzalez, – muito alto; pelo Araújo, – o / 29 / "Quiliquitites", (de Euclides); o Ramos, o mais velho dos irmãos, – o "Sarratos»; o Lino; o Manuel Ferreira, de Ílhavo, e o Fernando da Costa Ferreira, médico, casado com uma americana que gosta de Portugal à brava; o Brito, das Aguadas, e o António Capão, antigo colaborador da Labor, – como o José de Melo, – e interessado por codornizes e chapins, por teares, por uma série de autores do século passado, do Júlio Dinis ao Cesário Verde, por ele divulgados, em edições para-escolares acessíveis, na Estante Editora, de Aveiro; o Alberto Porfírio, hoje general; o João Bela, etc., etc., tudo o que cabia na "Sala de Geografia", no primeiro andar, lá ao fundo, a Norte, – naquele nobre edifício que hoje é do "Homem Cristo", ao pé da estátua do José Estêvão, por antonomásia o Tribuno, fixe, de bronze, de pé, a apontar aos de Ílhavo para Ílhavo, – lá onde, naquela sala, as presas de um elefante, mapas, carteiras de dois lugares, a secretária sem estrado, o quadro-preto, um globo terrestre, sabe-se lá quê!, recordado pelos amigos, só por eles, no Comboio Azul. Foi mesmo com elementos dessa turma e dessa Sala que se fez o primeiro jornal de parede que conheci, – O Farol, – ulterior ao jornal da Academia, impresso, do Mário Sacramento, (esse com o beneplácito e patrocínio do José Pereira Tavares, o outro, o nosso, não à revelia mas sem autorização explícita de professores ou do Reitor e cujo título viria a ser usurpado, mais tarde, – nós já fora do Liceu, – não interessa por quem). Entusiastas do Farol, o futuro Prof. de Medicina, Álvaro Gomes de Bastos Araújo, já falecido, e este vosso colega e signatário da croniqueta, conhecido então por «o Marquês», título que deixava a milhas o de "Barão", do Tavarede, simples "Barão de Requeixo".

Ouve-se a voz do Pascoal, – engenheiro e professor do Secundário e que uma vez arranjou maneira de me pôr a vice do Beira-Mar, sendo ele presidente do velho e glorioso clube, – ouve-se a voz do Pascoal, com a mania de vencer todos os jogos, já muito beiramarzinho:

Primum milium pardalorum est...

Vêem-se o Gonzalez, a responder, muito compenetrado, ao Dr. Assis Maia (Pai); o João Bela a entrar sempre atrasado na primeira aula da manhã; o Resende Vieira, hoje oficial do Exército, meu companheiro de carteira, sem vontade nenhuma de aulas, a xingar o Campanhã, com abafados risos do Silveira, este sempre da "Oposição", até pelo Marquês de Pombal só porque o Marquês expulsara os jesuítas; o João Bóia, pachola, fazendo-as pela calada; o Bismarck, sem pança, futuro notário.

Ora foi nesse 4.º Ano que a "Ladelaide" aconteceu.

– Não te esqueças...

– Hã?

– Não te esqueças de que estás a escrever para a Labor, a relançada Labor.

Claro que não, – responderia eu, – na medida em que se têm em vista, no número do relançamento, o fundador José Pereira Tavares, apaixonado pelo Teatro Escolar, o próprio Teatro Escolar, e, aliás, é sobre isso, – será?!, – que se escreve, ao abordar uma "opereta" de rapazes, os tais do 4.º Ano e da opereta "Ladelaide", com Reitor, Professores, o fim da macacada. Mas vamos a ver então.

Uma bela manhã, aí pelas oito e meia ou nove e meia, começou a circular a grande novidade, murmurada ouvido a ouvido: o Joaquim José Ferreira Lopes Campanhã estava apaixonado.

– Que tens, pá?

– Nada...

– Nada?!...

Insistiu-se, e soube-se, e daí a uma hora, mais ou menos pelas dez e meia da manhã, bem podiam os profes explicar, demonstrar, questionar ou perorar, que estava tudo noutra. Eu e o Álvaro, fomos ao gabinete do Reitor, – a figura seca ou que, pelo menos, infundia respeito, do Dr. José Pereira Tavares, – e expôs-se que precisávamos do Ginásio, lá para as cinco horas, para uma representação cénica. / 30 /

– E ele disse que não?

É o dizes. Chamou um contínuo, talvez o Patacão, o Moreira, o Gamelas ou o Estimado, e deu as ordens: pelas cinco horas, o Ginásio livre e com cadeiras, pronto. Que recomendaria a coisa aos Professores. Recomendaria, – tal e qual, – sem nada inquirir, talqualissimamente. Livres como os pardais. Como queríamos. À solta!

Foi a desorganização mais organizada possível, da nossa parte, mas eu estava metido nisso com o Álvaro. A malta era toda da corda e, quanto a desorganizações organizadas, já uma vez o bisneto de Thomaz Ribeiro, – do poeta de D. Jaime e de Sons Que Passam e um dos directores da Mala da Europa, – o nosso colega prof. escritor Rodrigo Emílio, escreveu: "o José de Melo [...] é o desencaminhador de almas mais bem orientado que há", e ele lá deve saber os porquês, porque ele é que sabe, escreve livros, compra livros, além de que conhece a peça que eu sou. O certo é que, pelas cinco horas, estava tudo preparado, ou quase, no Ginásio, o próprio palco, as gentes iam entrando: profs, colegas de vários anos, funcionários, uma pessoa à pressa convidada. Ia começar a função.

Talvez poucos se recordem do "libreto" da Ladelaide, tão parco, tão curto, que rezava assim: «Rapaz apaixonado sofre por Ladelaide, como Quixote por Dulcineia, como jano por joana. Ela chama-se Ladelaide. Quem será o rapaz apaixonado?»

Menos culto em termos de verdadeira cultura que reflexo das leituras que corriam pelos liceus e de troca de impressões com colegas de anos diferentes, o libreto, distribuído à porta do Ginásio, era assim que rezava. O apaixonado Campanhã, resignado, – que remédio! – acabou por aceitar e assistir, como se não fora com ele. Entravam, entretanto, grupos de professores, – uns cromos, não dos de agora, que de quando em vez põem gravata, mas daqueles professores antigos, aprumados, direitos, cheios de regra e de método, de disciplina e de postura, – professores que a pouco e pouco se iam sentando nas primeiras filas da vasta sala multifuncional que servia para a Educação Física, para ensaios do Orfeão, como sala de representação teatral da estudantada. Depois, a malta, expectante e buliçosa. Até que o Reitor fez a sua aparição e, momentos após, ruidosa aparição fizeram, junto do palco, à laia de orquestra, tachos e panelas, pratos, garfos e facas e colheres, pandeiretas e tambores, violinos e violas e guitarras, – até perpassa por momentos a "Desfolhada" do Ary e da Simone, – em ruidoso espalhafato. Versos cantados por vários, vestidos de muitas e variadas maneiras, dos fatos berrantes ao lençol e ao turbante, muito e muito ruído. Os profs sem tugirem nem mugirem. José Pereira Tavares, hierático, digno, um ou outro sorriso discreto perante a palhaçada. Assim, não só ali, mas pelos dias fora. José Pereira Tavares não reprovou nada, nada, até pareceu aplaudir, sem exactamente, exactamente, propriamente aplaudir.

Está feita a história da "Ladelaide". Não valerá a pena traduzir em sentença fabular o que se pensa de quem, sem perguntar do que se tratava, liberalmente permitiu uma histórica representação que para a História fica. Petite histoire que seja.

José de Melo Cunha *

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* Prof. do Q. N. D. da Escola Secundária de José Estêvão. Antigo colaborador da Labor (3.ª Série), para que escreveu "O Estruturalismo, a Gramática e a Lua» ; "Para um Latim Funcional» e sobre "Fidelino de Figueiredo – 1889-1967», (artigo biográfico e evocativo do Professor e Historiador da Literatura). Autor, entre outros trabalhos, de três fotobiobibliografias de Miguel Torga, a última datada de 1995 (Estante Editora, Aveiro); de Entendimento e Ensino da Poesia; de Academias e Tertúlias Culturais nos Sécs. XVII e XVIII; da antologia Pedagogia e Educação e de Encontros (ensaios sobre Vergílio Ferreira, Tomaz de Figueiredo, Natália Correia, Urbano Tavares Rodrigues e Tomaz Kim).