Escola Secundária José Estêvão, n.º 13, Set.- Dez. de 1994

Em edição do Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, com reprodução na capa de um óleo sobre madeira, de Dórdio Gomes. do Largo da Igreja de Nossa Senhora da Oliveira (Guimarães). oferece Luís Forjaz Trigueiros um volume – O Prélio Solitário, – que reúne conferências, intervenções académicas, crónicas ensaísticas e artigos de um período compreendido entre 1967 e 1988, "Temas e tópicos de Literatura Portuguesa" é como Trigueiros o subintitula, e esses temas e tópicos ora nos trazem de volta Tomaz de Figueiredo, Vitorino Nemésio, Afonso Lopes Vieira, Camões e o Brasil, os estudos queirosianos de guerra Da Cal, Tomás Ribeiro, Hipólito Raposo, Fernão Lopes, o Conde Sabugosa, Branquinho da Fonseca, ora apresentam pistas como "Para uma Redescoberta do Homem Português", já a "Literatura como Protagonista", "Transcendência e Sociedade", ou vocação e sacerdócio em Fernando Namora. Intencionalmente se não citaram "Fialho de Almeida, ou o Prélio Solitário", ou Carlos Malheiro Dias, ou "Para uma Geografia Literária do Minho", porque forçosamente arrastam a outros tipos de reflexão.

"Tomaz de Figueiredo, a posse de um estilo "é a retoma de um Tomaz cada vez mais terso, mais minhoto e mais vivo; Vitorino Nemésio é, como o título indica, "a festa de escrever", uma festa que Nemésio, – relembra-o um seu aluno da Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa – encarnava também como Professor, imaginativo, vivo, paranomástico, ora decorrente ora recorrente, ora – raramente, – circular, ora difuso, naquela festa que arrancava a duas colegas o seguinte diálogo, (com as palavras todas):

– Vais ao cinema logo?

– Não, logo tenho o Nemésio,

A importância não está na casual troca de palavras, mas na ênfase do "logo tenho o Nemésio", que talvez se possa traduzir melhor, não com reticências, mas, decididamente, com um ponto de exclamação entusiasta.

Surgem-nos, em O Prélio Literário, Afonso Lopes Vieira e a sua aristocracia populista, o seu amor ao povo, como realidade tangível, a sua defesa do "reaportuguesamento de Portugal", a sua Campanha Vicentina, o restauro fiel dos monumentos, as relações com Aquilino. o interesse pelo Cinema, Camões – é o Camões das relações luso-brasileiras, do "freamento do Português do Brasil", na tese de aproximação do Português do Brasil do de Camões, – de Quinhentos, – por Mendonça Teles ou Gladstone Chaves de Melo, Ernesto Guerra Da Cal é um dos temas obrigatórios para quem aborda estudos queirosianos, e mais uma vez Luís Forjaz / 11 / Trigueiros no-lo recorda. "Tomaz Ribeiro e A Mala da Europa" é uma reconstituição da nova Mala da Europa, – vinte e três anos posterior à primeira (de 1866-71), – e mais uma vez a oportunidade de se falar de contactos luso-brasileiros, – uma das dominantes de Luís Forjaz Trigueiros, – e, ao mesmo tempo, do autor de D. Jaime, de Sons que Passam e da História da Legislação Liberal Portuguesa, que foi director da nova Mala da Europa, aí exercendo um papel relevantíssimo na aproximação do Brasil de Portugal, (com atenção seguido pelo autor de Um Jardim em Londres). Seguem-se "Hipólito Raposo, Prosador", "Fernão Lopes, Cronista da Luta pela Independência". O Conde de Sabugosa é uma viagem aos livros que não nos marcaram e mais tarde redescobrimos, em contrapartida aos que nos vieram a decepcionar depois de um primeiro entusiasmo distanciado no tempo; é o Donas dos Tempos Idos, o In Memoriam, colaborado, entre outros, por Lopes Vieira, Alfredo Pimenta, Antero de Figueiredo, Correia de Oliveira, Agostinho de Campos, Cândido de Figueiredo; é a referência a Rodrigues Cavalheiro, um estudioso dos Vencidos da vida, a Jacinto do Prado Coelho e à síntese, no Dicionário de Literatura, de Carlos Eduardo Soveral; é o evocador de quadros palacianos; é o levantamento histórico, pelo amigo de Eça de Queirós, do Palácio Real de Sintra ; é o autor das Neves de Antanho e a sua distinção entre bibliófilos, bibliófobos e biblioclastas; é o pedido de colaboração na Revista de Portugal, ao conde de Sabugosa, pelo autor de Os Maias; é a colaboração de Sabugosa na Revista Moderna, de Paris, com o primeiro número apresentado pelo mesmo Eça; é, mais uma vez, a chamada à colação de Ernesto Guerra Da Cal; é a acção de bastidores do Conde de Sabugosa em momentos graves do reinado de El-Rei D. Carlos; é o autor de Gente d'Algo, o reabilitador da figura e acção de D. Sebastião e o reeducador do povo. Branquinho da Fonseca, – tão esquecido, e até por quem tanto lhe deve, – é chamado a uma releitura. Nas "Pistas para uma Redescoberta do Homem Português", fala-se de António Quadros e de Portugal, Razão e Mistério, passando por Saudosistas, Integralistas, por Leonardo Coimbra e pela Filosofia Portuguesa, dos mais velhos aos mais novos, como "esse ensaísta de minucioso e agudo aprofundamento dos temas nacionais que é Pinharanda Gomes". Em "Literatura como Protagonista" o pretexto é João Bigotte Chorão, como em "Transcendência e Sociedade" o que está em causa são as "muitas maneiras diferentes" de cumprir Portugal, – um Portugal "apesar de geograficamente diminuído" ainda "bastante rico espiritual e culturalmente". A fechar o volume, Luís Forjaz Trigueiros apresenta-nos a intervenção que fez, em 1988, (na sessão solene comemorativa do cinquentenário da estreita literária de Fernando Namora), na Academia das Ciências de Lisboa, onde, perante os confrades e convidados, teve a oportunidade de pôr em relevo as seguintes palavras de Namora:

"Dos Minhos ao Algarve, mas sobretudo aquém Tejo, é uma peste de casario despersonalizado e desfeador, estilo casa de banho com sanita à janela, – tumores incrustados / 12 / numa paisagem que em vão os rejeita. Estar-se numa vila do Douro ou da Beira Baixa acabou por dar no mesmo. O tempo e a ambiência deixaram de habitá-las. As pessoas deixaram de pôr nelas o que lhes vai por dentro. Dos Minhos aos Algarves, um país dia a dia perde o seu rosto, quer nas coisas naturais que o modelam, – penhascos, bosques, praias, falésias, – quer nas coisas que são do seu génio e

igualmente modeladoras: a habitação, o urbanismo, os artefactos, os monumentos, os espécimes artísticos. [...] Mas quem fala destas

coisas? Quem disso se preocupa?

 Drogados da demagogia do imediato, exaltamo-nos com o efémero e esquecemos aquilo, balizando a nossa personalidade, é o alicerce do futuro" .

Voltando aos ensaios remetidos para o termo da recensão, surgem-nos "Carlos Malheiro Dias, Impressionista Social", "Para uma Geografia Literária do Minho" e, last but not least, "Fialho ou O Prélio Literário". São os ensaios que merecem atenção especial, embora se recomendem, entre todos os temas e tópicos de Literatura Portuguesa do Luís Forjaz Trigueiros ora presente, o último citado, sobre Fialho; "Vitorino Nemésio, a Festa de Escrever"; "Tomaz Ribeiro e A Mala da Europa", pelo cuidado posto na perquirição e "Para uma Geografia Literária do Minho".

Carlos Malheiro Dias, Impressionista Social" é a retoma de um dos temas mais caros ao autor de Perspectivas e Novas Perspectivas. O próprio Trigueiros escreve:

"Não se trata de um mistério crítico-biográfico, mas não é a primeira vez que, relendo Malheiro Dias, recordando o seu longo e árduo trânsito literário, sinto a tentação de um trabalho fascinante, que procurarei apenas enunciar e que é o do perfil do escritor Malheiro Dias e do homem Malheiro Dias, tão paralelos que não podem encontrar-se ambos, tão complexos que, no entanto, ambos se completam e identificam. Isto é, Malheiro Dias personagem de si próprio, protagonista do romance interior que não escreveu. [...] Volto ao tema: eis Carlos Malheiro Dias evocado agora de novo [...] a complexidade da sua vocação avulta, ao conviver mais uma vez com o painel variado em que ela se cumpriu e representa. E, então, outra faceta se nos depara e talvez mais rica, e se intersecciona com as outras e sem dominá-las se lhes ajusta e as completa: a do cronista que ele também foi, a do jornalista de rasgo e de vasta respiração literária, escritor quando jornalista e de certo modo jornalista quando se faz testemunha, nas suas evocações históricas, de episódios ou acontecimentos que não viveu. Jornalista, tal como vejo a função e tal como procurei, anos seguidos, exercê-la: não fugaz anotador de factos, mas homem que tem a exacta consciência de que não basta viver o seu tempo, tem de reflecti-lo e comentá-lo". Na Rádio, um comentador de três ao vintém contrariava, – em dizer vendido à circunstância política, – este papel do jornalista, mas foi éter que já se dissolveu, não é para reter, quando se chama a atenção para as palavras de Luís Forjaz Trigueiros e se põe em realce o cronista que repartiu a vida entre Brasil e Portugal, nas palavras de Josué Montello; "Prosador, romancista, historiador, jornalista, cronista, orador, ele foi” sobretudo "um impressionista social", nas palavras de Trigueiros, que mais uma vez trata a figura deste escritor do Norte, director da Ilustração Portuguesa, da Revista da Semana, co-fundador de O Cruzeiro, autor das Cartas de Lisboa, dos romances Os Telles de Albergaria e de Paixão de Maria do Céu.

Para Uma Geografia Literária do Minho" nasce da ideia que ocorreu ao autor em conversa com João Amândio Ribeiro. Num dos livros de Trigueiros, Paisagens Portuguesas (Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1985, 2.ª ed. de 1987), "há um capítulo intitulado Geografia Literária de Portugal, pretexto para procurar fixar como diferentes regiões do nosso país foram vistas, estudadas ou apenas sentidas, ou até, digamos, interpretadas, por escritores, filhos ou não dessas diferentes áreas regionais". Ao longo das pesquisas feitas alguns projectos de trabalho foram aparecendo e "Para Uma Geografia Literária do Minho" deixará "as portas abertas para outras geografias mais completas, quer sobre o Minho quer sobre outra província". Assim será, mas esta é, dir-se-á também, de leitura obrigatória, e não só para os que no Minho nasceram e no Minho vivem, – que outros lá encontrarão, lugar, como, por exemplo, Sebastião da Gama, numa toada minhota: "Vejo de Santa / 13 / Luzia / quanto de lá posso ver. / Vejo Ponte, vejo Braga./ Só não vejo o meu amor [.,.] Vejo de Santa Luzia / quanto de lá posso ver. / Pra ver de Santa Luzia / quanto de lá quero ver / até os olhos daria”.

"Fialho de Almeida ou O Prélio Solitário" é o regresso de Luís Forjaz Trigueiros a Fialho de Almeida, que já sagazmente tratara em Perspectivas. Ocorre-lhe perguntar-se se Fialho esgotará "o seu pendor combativo, de natureza mais panfletária que reflexiva", nas Pasquinadas e em Os Gatos ou "se a ficção não terá sido, igualmente, para Fialho, uma forma de combate, se a problemática social (que o impeliu a avergoar indiscriminadamente, ao calor de reacções tantas vezes elementares, mesmo quando fundamentadas, os homens e os costumes de que era testemunha) não estará subjacente a algumas das páginas mais aparentemente impressionistas que nos deixou sob a roupagem de recriação imaginada". Por várias razões o ensaio, como é de deduzir da temática sugerida, apresentará motivos de leitura interessada, mas uma reflexão de Trigueiros nos deterá particularmente a atenção: "A sua obra [de Fialho] é feita de espadeiradas na água. Esbracejava, escrevendo. Invectivava, não discutia.

Empenhou-se toda a vida num duro prélio, mas um prélio solitário". Fialho espelharia, – neste entendimento, – "um modo de expressão natural", era produto de motivações e ordem congénita e funcional", mais do que de razões éticas, O tom panfletário de Fialho reflectiria a sua maneira de ser, ainda que imposto pelas circunstâncias, E aí ficaria a espadeirar na água, nesse prélio solitário em que se empenhava, escrevendo até, às vezes, contra quem já não poderia defender-se, e sempre e sempre destemperada e imparavelmente. Mas, deslocada a questão para o belo título do volume, – O Prélio Solitário, – que somos nós, que fazemos nós senão espadeirar na água, esbracejar, neste prélio solitário em que Fialho, Luís Forjaz Trigueiros e todos nós nos debatemos?  
 

Aliás, Escola Secundária José Estêvão

 

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