Escola Secundária José Estêvão, n.º 20, Dezembro de 1997


PROGRAMAS DE FINANCIAMENTO E DE TEMPO, PROJECTOS E CLUBES, MALDIÇÕES E OUTROS E LUGARES COMUNS CONTRA A AUTONOMIA DAS ESCOLAS

Das apreciações do sistema à confiança no sistema & os projectos abandonados à sua sorte

 

A vida das escolas é feita de muitos actos felizes e bem sucedidos e de muitos outros menos felizes e mal sucedidos. A autonomia das escolas vai, cada vez mais, assentar em iniciativas autónomas de relacionação com as comunidades em que se integram, vai espelhar-se em acordos de colaboração com agentes locais (públicos e locais). Ao mesmo tempo, há-de verificar se uma tendência saudável da apresentação de projectos de acção para que os equipamentos instalados nas escolas correspondam a necessidades de facto e não a decisões afastadas de realidade e, que por essa via, conduziram e conduzem a situações de subaproveitamento de recursos. Acontece que as organizações têm tendência a armazenar materiais e equipamentos com medo de virem a precisar deles mais tarde e então não haver meios de os obter. Esta situação é tanto mais grave quanto é certo que uma parte dos equipamentos instalados se tornam obsoletos ainda antes de serem utilizados. As escolas precisam de esclarecer o que vão fazer com os equipamentos que acham necessários. O mesmo se passa com o tempo atribuído a funções e actividades de complemento curricular. O tempo autorizado para ser destinado a actividades não lectivas das escolas passa a ser considerado um bem precioso, um recurso sem o qual muitas das funções da escola nunca serão cumpridas.

Para este ano, à semelhança do que fez em anos anteriores, a escola apresentou / 15 / projectos e candidatou-se a financiamentos ou à clássica distribuição de tempo. Concorre-se a programas de apoio ao novo ensino secundário (que estranhamente está organizado para pagamento de formadores – isto é, está virado exclusivamente para financiamento de professores das escolas profissionais – os formulários dão a exacta medida do que se pretende –, concorre-se a programas para apoio do ensino das ciências (liderado pelas universidades, só temos que assinar e esperar... ), concorre-se com clubes e actividades de complemento curricular (e as horas são distribuídas já muito depois do ano ter começado e os projectos terem caído pelo buraco do tempo) e concorre-se também ao nónio. Uns sim, outros não.

Mas em tudo isto o que mais dói é a falta de instrumentos claros de apreciação das candidaturas. Por exemplo, as escolas que tenham transformado em dinheiro o seu crédito horário para actividades de apoio ficariam prejudicadas na atribuição de horas para actividades de complemento curricular. Esta escola, que nunca fez qualquer conversão de crédito horário e sempre o utilizou para actividades com os alunos, recebeu uma autorização de 6 horas para o conjunto dos clubes (publicamos a lista de clubes escolares candidata). Está bem? Está mal? Não sabemos. Não sabemos se as escolas que transformam o seu crédito horário em dinheiro recebem ainda mais horas por este processo, pois não sabemos quais são as escolas que fazem uma coisa ou outra. Só conhecemos o nosso caso. Não temos possibilidade de saber da justeza da atribuição e muito menos saber se foi usado ou não o tal único critério anunciado. Ouro exemplo: Candidatamo-nos ao Nónio. Sabemos, pela lista publicada na Internet, que esta escola não está entra as seleccionadas. Mas não recebemos qualquer comunicação formal que nos esclarecesse as razões verdadeiras, pois não aceitamos o simples argumento de falta de qualidade, porque não somos ingénuos e conhecemos alguns outros projectos que foram seleccionados. Os processos de candidatura desgastam. E moem mais se não conhecermos bem os porquês e os comos da coisa. O apelo à participação das escolas é curto e não irá longe se não for acompanhado de regras e esclarecimentos claros que se entendam. Outra coisa que não tem sentido é o empolamento financeiro que é dado aos programas. No caso do Nónio, há empolamento dos dados financeiros. De facto, os candidatos seleccionados que conhecemos não receberam promessa de financiamento acima dos 10% do orçamentado. Será que não fomos seleccionados porque 10% do orçado na nossa candidatura era uma miséria e o único critério tem a ver com números errados.....

Não há tradição de apresentação de projectos nas escolas públicas e muito menos com estudos de viabilidade económica e financeira, nem as escolas estão habituadas a fazer as execuções financeiras adequadas, quando o financiamento atribuído não tem a ver com o orçado candidatado. Não se cria confiança no sistema se não houver comunicação clara dos resultados.

Para exemplo, publicamos as partes do nosso plano que ficaram claramente prejudicadas pelos concursos. Fazem parte do nosso património de riqueza de intenções e pobreza de reconhecimento. Tentaremos fazer algumas das coisas propostas, apesar do sistema que as não reconhece. ■

Arsélio Martins
 

 

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