Escola Secundária José Estêvão, n.º 18, Fevereiro de 1997

Outra opinião. Outra posição

Por Arsélio Martins,

Presidente dos Conselhos Directivo e Pedagógico


T
odos os anos, desde que se fala em área-escola, que há professores e turmas que a contestam, assim como há turmas e professores que a defendem. A contestação assume maior amplitude e também maior arrogância no ensino secundário. Por um lado é a arrogância típica da ignorância. A maior parte dos professores do secundário consideram-se muito especializados e consideram que há muitas pastilhas ou farrapos especializados, não têm qualquer vergonha em dar uma de cientistas ignorantes do resto dos saberes e muito menos lhes interessa o problema de saber se os alunos do secundário algum dia fazem qualquer integração dos saberes. São cientistas de uma ciência bem rasteira, mas são especialistas. Os alunos do secundário, especialmente os melhores e mais activos e que querem prosseguir estudos, estão mais preocupados com esta ou aquela nota, nesta ou naquela disciplina, que lhes permita continuar os estudos. E, se num ano ou noutro ainda podem fazer alguma coisa dos professores e propor quanto mais não seja uma diversão integradora, quando as coisas apertam aceitam as regras do jogo: pouco tempo para dar os farrapos especializados (a que chamam programas disciplinares), pouco tempo para estudar (porque é preciso aturar cada vez mais professores/explicadores a explicar os mesmos farrapos especializados) e nenhum tempo para criações e demonstrações de sabedoria global que nem tradução em nota directa têm.

Para os que prosseguem estudos, a coisa não vai acabar mal. Os entendidos hão-de considerar que se não sabem juntar hoje os 2 e 2 das diferentes disciplinas, mais tarde o irão fazer com certeza, ajudados pela montureira que entretanto os saberes serão. Um dia, a quantidade há-de explodir numa qualidade nova – este é o hino dos que mandam para as universidades a cidadania. Também se não ficarem cidadãos de corpo inteiro, não há problema – ficarão cientistas, especialistas ignorantes, quem sabe se até doutores ou reproduções destes professores.

O problema sobrante é o dos cidadãos que não prosseguem estudos e que devem possuir uma formação tão especializada quanto possível e tão integrada quanto o necessário para que as coisas façam sentido, quando se forem integrar no mundo real, esse mundo que – infelizmente – é tão exterior à escola a ponto de esta o não reconhecer.

Mas o que mais irrita nesta coisa da área-escola é que há muita gente que fala da coisa, sem nunca sequer ter lido a respeito. Ou pior. Muitos dos que não têm problemas em deixar de lado a área-escola consideram-se gente respeitável, cumpridora das leis e que cora ao mais pequeno incidente com cheiro de ilegalidade. E, no entanto, eles sabem que «A organização curricular, comum a todos os cursos do ensino secundário regular baseia-se na existência de três componentes de formação (geral, específica e técnica, tecnológica ou artística), de área de natureza interdisciplinar. de frequência obrigatória (Área-Escola) e de uma área constituída por actividades não curriculares, de frequência facultativa (Actividades de Complemento Curricular), ...».

Eu compreendo os estudantes que querem discutir o tempo que perdem na área-escola, porque esta lhes pode aparecer como coisa inteiramente marginal e sem valia. Nada na lei estabelece que os saberes a integrar na área escola têm de ser concorrentes com os das disciplinas, nem nada na lei ou fora dela estabelece que algumas disciplinas (qualquer delas) não podem assumir papel predominante e integrador dos diversos saberes, a partir da sua própria organização curricular. Há disciplinas que precisam porventura de mais tempo e podiam ir buscá-lo à área-escola. A ser assim, eu também compreendo e aceito a posição dos professores / 15 / que confessam que não sabem o que hão-de fazer com a área-escola que lhes abandonaram no colo. E que pedem ajuda ou querem discutir. Não compreendo nem aceito as posições dos professores que, armados da ignorância mais atrevida (incluindo a falsa ignorância da lei) e entrincheirados nos limites das suas especialidades culinárias – muitos saberes para poucos sabores – se penduram nos seus bicos de pés para gritar a plenos pulmões que não podem perder o seu tempo com essas brincadeiras… que o que estão a fazer é muito mais sério, blá, blá, blá, ... Muito menos compreendo os pais que, quando incitam os seus à área escola, vigiam os filhos sem verem o valor da coisa e os valores que se depositam ficam na sua formação e só estão à espera de ver valores (números) acrescentados às notas das disciplinas mais envolvidas.

Comuniquei ao Conselho Pedagógico, na presença de todos os seus membros (incluem-se alunos) que se há alunos e professores a declarar que não fazem coisa alguma na área-escola, devem também assumir que o seu ensino secundário não fica completo e que não é legítimo esperar que os serviços da escola passem certificados do ensino secundário a esses alunos. Merecem louvor todos os que discutem em busca de um caminho. Esse caminho pode até passar por exigir que a lei da organização curricular do ensino secundário seja modificada. Com a mesma firmeza, se deve dizer que merecem ser responsabilizados pelos seus actos os que não cumprem a lei. O que se faz nas outras escolas ou o que se faz em Coimbra ou o que já se fez não se constitui lei em vez da lei, nem constitui desculpa.

Sei que vamos fazer esforços para que a área-escola seja útil para os estudantes (quaisquer que sejam os seus destinos e percursos). Não há qualquer necessidade de fazer da área-escola a complicação que faz perder tempo ou que perde de vista os saberes disciplinares e os prejudica. Há necessidade de estudar e aprender. Há necessidade de defender posições. Estão em curso reflexões participadas sobre o ensino básico e vai começar em Abril uma reflexão participada sobre o ensino secundário (em 6 de Maio o Departamento do Ensino Secundário promove um encontro sobre o secundário, nesta escola). Haja coragem para defender todos os diferentes pontos de vista. Siga-se o exemplo dos estudantes. ■
 

 

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