Escola Secundária José Estêvão, n.º 6, Jan.-Maio de 1992

Uma das muitas possibilidades de intervenção que as redes de comunicação, como o Apple Link - AGE, oferecem consiste na participação em Grupos de Discussão ou mesmo em Congressos Mundiais sem sair da nossa Escola. Como exemplo, disso, apresentamos aqui os textos (versão portuguesa) dos textos que enviámos para um Congresso sobre a integração dos deficientes nos sistemas escolares. Céu Cruz, Maria do Rosário Ruivo, Carmo Leitão e Teresa Granjeia apresentaram uma comunicação sobre o assunto, partir da realidade da nossa escola e não só, ao Congresso Independence'92.


Apesar de neste momento decorrerem as férias da Páscoa e a escola estar fechada, não queremos deixar de participar, embora limitados, enviando a nossa solidariedade, num pequeno contributo, a uma conferência tão importante para o prosseguimento do encontro da Humanidade consigo mesma.

1. A Escola Secundária José Estêvão é uma escola pública, sendo o ensino estatal dominante e o de melhor qualidade no nosso país.

2. Há anos que a nossa escola é frequentada por alunos com graus diferentes de necessidades educativas especiais e que estão integrados em classes regulares.

Até agora, não se registaram casos de marginalização ou de rejeição por parte dos outros alunos.

3. No decurso deste ano lectivo, foram introduzidas alterações na lei da integração dos alunos portadores de "incapacidades" no ensino regular. Estas alterações visam identificar a "deficiência" como diferença e não como estigma. Ao substituir-se a designação de deficiências por dificuldades, introduziu-se o direito à diferença no sistema normalizado.


4. Actualmente frequenta a escola
um número significativo de alunos com necessidades educativas especiais ligadas a casos de:

a. dislexia

b. deficiências auditivas e visuais

c. disfunções cerebrais mínimas

d. privação cultural

e. alunos que tendo feito uma aprendizagem mecânica até ao 7.º ano de escolaridade apresentam dificuldades em se integrarem numa aprendizagem da significação simbólica mais complexa.

f. alunos com dificuldades de aprendizagem motivadas por problemas de desenvolvimento, avolumadas pela ausência de referentes familiares e sociais.


5. Estratégias implementadas:

a. Apoio pedagógico acrescido, individual ou em pequenos grupos, que se traduz por uma maior proximidade com o professor.

b. Adaptação dos curricula e instrumentos de trabalho.

c. Condições especiais de frequência e avaliação do aproveitamento perspectivado em termos de desenvolvimento de competências, de capacidades e de aquisição de valores.

d. menor número de alunos por turma.


6. Adesão dos professores ao actual projecto:

a. Há os que ao longo dos anos olharam os alunos como objectos de ensino e não como sujeitos da aprendizagem e são resistentes à necessária mudança de atitudes.

b. Há os professores recém-formados que, embora se lhes reconheça uma certa heterogeneidade, evidenciam uma deficiente formação humanista e uma falta de convicção nos seus projectos profissionais e pessoais, o que lhes dificulta a compreensão da complexidade do processo educativo. Os conflitos daí decorrentes não são assim tão raros.

c. Há os outros que, não tendo perdido a utopia e acreditando que só vivendo a diferença se cresce, asseguram na prática a sobrevivência do projecto, apesar dos obstáculos que permanentemente se levantam.

Incomoda-nos a tendência recente de formação de "ghetos" de natureza variada, onde a coberto do direito à diferença, se esconde a perpetuação de uma sociedade normalizada e intolerante. ■
 

Aliás, Escola Secundária José Estêvão

 

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