Inteligência artificial

 

Era maio cantante, mas chovia;
Imaginem! O típico mês das flores
Do canto do cuco, das abelhas, dos gaios
E da inspiração criativa do poema;
E eu, num furtivo abrigo da intempérie
Dei comigo a cismar no que chamam I. A.
Pouco ou nada sei sobre o que isso seja
Embora já tenha matutado no que me diz:
No caso limite, será o assalto sem arma
E sem permissão, ao átrio do pensamento
Visando a intromissão na criatividade, volição,
Nas complexas funções do intelecto humano
E a previsível intenção de nova escravatura.
Contudo, alguma consolação me anima
Embora disso não tenha tanta certeza:
O de saber que não será capaz de roubar
Aquilo a que ainda chamam «consciência»
E todo o complexo que lhe está associado
Esse obscuro fenómeno que abriga e gere
A essência do ego. Afinal, aquele que sou.
O que na verdade temo não é a artificialidade
O grande medo está na previsível iminência
Da gananciosa apropriação do fenómeno
Por uns poucos – os donos desta revolução.
Contudo não enjeito este novo “modus vivendi”
Aceito-o, embora tendo atenção aos algoritmos,
Porque o meu maior desejo é sentir a natureza
Como ela é e com tudo o que ela representa
Como dádiva incondicional, única e justa,
Concedida a uma humanidade a voar no tempo
Perdida e prisioneira da sua própria condição.

                          Julho de 2026

 

 

17-07-2026