FIGURAS EM AVEIRO LIGADAS AO DESPORTO

Zeca «O guarda-redes»

Quinta-feira, 26 de Novembro de 1998 – pág. 17 Daniela Sousa Pinto

José Augusto Teixeira da Rocha o Zeca nasceu em Matosinhos, no dia 26 de Agosto de 1926. Chegou a Aveiro com 16 anos. Gosta muito da cidade e do Beira Mar, do qual nunca se desligou e, ainda hoje, aos 72 anos, não perde a oportunidade de ensinar aos mais pequenos as técnicas da baliza e de dar uns toques... Do que ele gosta mesmo é de jogar à bola.

 

Começou a jogar futebol, como todos as crianças: na rua, e por brincadeira. Na Beira-Mar, o bairro onde vivia e ainda vive , pertencia à equipa dos "pequenos leões" que jogavam contra uma outra equipa do mesmo bairro: os "pequenos azuis". Jogavam com bolas de trapos, no paralelo, mas isso pouco importava pois o que interessava era jogar à bola.

Mais tarde, integrou o plantel do desaparecido Futebol Clube de Aveiro (FCA) e só aos 22 anos foi chamado a jogar no Beira Mar. Entretanto, teve que cumprir serviço militar. Ainda fez dois treinos: um no Senhora da Hora e outro no Custóias. «Queriam que eu lá ficasse, mas já estava habituado a Aveiro. Já não quis ficar por lá...» Entretanto, integrou o plantei da equipa de Mamarrosa. «Estive a jogar um ano. Eles davam-me 100$00 para pagar os serviços e para o bilhete do comboio.» Nesse ano, a equipa de Mamarrosa ganhou o campeonato sem nenhuma derrota:

Zeca aos 25 anos

«Fomos a equipa que sofreu menos golos e a que fez mais pontos.» Terminou o serviço militar e voltou para o FCA. Como este clube devia 15 escudos ao Beira Mar pelo aluguer do campo, «eu fui para o Beira Mar como forma de pagamento...»

Deixou de jogar futebol aos 32 anos. No futebol não ganhava dinheiro e, por isso, tinha que trabalhar para poder comer. Às terças e quintas-feiras fazia os treinos logo de manhã cedo. Durante o inverno trabalhava na apanha de junco numa bateira e, durante o verão, nas marinhas de sal. Sem a contrapartida do dinheiro, o que o fazia jogar era «o gosto pelo futebol.» Um prazer que, ainda hoje, faz questão de não pôr de lado. Acompanha as Velhas-Guardas do Beira Mar e vai, todos os dias, para o Estádio Mário Duarte até às 21 horas, ver e ajudar no treino dos miúdos. «Treino os guarda-redes. Gosto muito dos miúdos e entendo-me bem com eles. Jogo com eles, ensino-lhes algumas coisas. O treinador não se importa que eu ajude e eu gosto muito de o fazer. Às vezes jogo com eles, o que é uma luta, porque todos querem ser da minha equipa.» Não esconde a alegria que sente quando fala em crianças e naquilo que lhes pode ensinar.

Com as Velhas-Guardas tem percorrido o país. Este ano, já jogaram com o Espinho, Estrela da Amadora, Benfica, Porto e Almeirim. «Ainda não perdemos nenhum jogo! Normalmente, não jogo. Fico na reserva, sou roupeiro, massagista e já tenho sido juiz de linha!» Passa, assim, uns bons bocados.

Despedida do Beira mar em 1958

Admite que o futebol é cada vez mais um negócio de milhões. «Antigamente, jogava-se à bola por amor à camisola...

Agora, jogam por amor aos milhões de contos que ganham. Ganham dinheiro a mais, é um exagero! Mas a culpa não é dos jogadores, é dos clubes. O futebol tornou-se um negócio de milhões!»

Tem muitas saudades daquele tempo, dos bons momentos e da camaradagem que afirma já não existir nas equipas de hoje. «O espírito de equipa, a união entre os jogadores é fundamental, para o bom desempenho do conjunto».

Quando pode, vai ver o Beira Mar. Não fica muito nervoso, porque diz ter-se habituado aos momentos de grande tensão. Considera que a actual situação do Beira Mar ainda se pode alterar. «Pode ser que se safem! É preciso uma grande força de vontade, mas...»

Viveu momentos muito felizes, os quais permanecem na sua memória. Momentos de glória e de alegria, mas principalmente de união. Foi o desporto que fez dele um homem feliz.

Aos mais novos deixa um conselho: «Dediquem-se apenas a uma modalidade, seja ela qual for. Mas façam desporto.» A todos os que gostam de ir ao futebol pede: «Acudam sempre pelo Beira Mar, quer esteja a jogar bem quer esteja a jogar mal, porque é muito importante que os jogadores se sintam apoiados.»

Homem feliz, ainda gosta de praticar desporto, e não perde a oportunidade de fazer um joguito de futebol.


Ora, bolas!

Zeca conta:

«Sou do Beira Mar, mas também gosto do F. C. do Porto.»

«A defender, o importante é olhar para o pé e para a bola. Só assim se consegue fazer boas defesas.»

«Sempre disse que o Mateus − o "Ninguém" − ia subir à primeira. Era um jogador de grande valor.»

«Os treinos eram muitos duros. Uma vez, fingi que estava a mancar de uma perna para poder ir embora. Já não tinha forças.»

«O Virgílio, num jogo contra Ovar, em que estávamos a perder por 1-0, fez falta para penalte. Nesse jogo, se ganhássemos, recebíamos 100$00; era muito dinheiro! Eu defendi e o Virgílio até me deu um abraço!»

«Se eu tivesse 20 anos, estava a ganhar muito dinheiro...»

«O melhor jogador do Beira Mar é o meu colega Palatsi!»

«O melhor jogador português é o Figo. O João Pinto, do Benfica, também é muito bom, mas faz-se muito à falta...»

«O melhor jogador de todos os tempos foi o Matateu. Uma vez, mandou-me um pontapé na testa. Foi tal a força, que fiquei com as travessas da bota marcadas.»

 

Jogador: José Augusto Teixeira da Rocha (Zeca)

Posição: guarda-redes

Características: muita resistência e elasticidade. "Estava no baliza, mas dirigia o defesa."

 

 

Página anterior.

Página seguinte.