Aida Viegas, Oliveira do Bairro. Memórias de um século. Águeda, AVI, 1994, pp. 47-58.

Carnaval

Muito animado e divertido era o Entrudo, nesse período as pessoas entusiasmadas brincavam com alegria e despreocupação!

No Domingo Magro começava a paródia. As crianças eram as primeiras a dar início aos festejos; nas escolas, viviam a festa do galo com aquela alegria e entrega de que só elas são capazes, começavam pela manhã, só terminan­do à tardinha.

Nos três dias de Entrudo, após a refeição do meio dia, as pessoas juntavam-se nos largos para aí aguardarem a chegada das contradanças e cegadas e a passagem dos entrudos.

Quando algum rancho se fazia anunciar pela respectiva bandeira trazida, na frente, por um rapaz de bicicleta, as pessoas formavam uma roda demarcando assim o espaço onde o grupo iria actuar.

Por vezes os componentes das contradanças, vendo o povo reunido num local, dirigiam-se para outro propositadamente. Havia fortes despiques entre grupos de terras vizinhas ou até da mesma terra; nestes casos perseguiam-se uns aos outros chegando a exibir-se ao mesmo tempo no mesmo arraial o que punha o povo em polvorosa, já que querendo ver os dois, não sabiam para qual deles se deviam voltar.

Chegaram a formar-se, aqui à volta, em alguns anos, nove ou dez contradanças e duas ou três cegadas.

Quase todas as povoações tiveram as suas contradan­ças; as de Oiã, Troviscal, Mamarrosa e Águas Boas eram sempre das melhores. Malhapão e Bustos, por exemplo, eram peritos em cegadas.

A exibição que começava no Domingo Magro, prosse­guia no Domingo Gordo e só terminava na terça feira de Carnaval.

Durante toda a tarde passavam os entrudos, mascara­dos das formas mais diversas.

As mimosas, popularmente chamadas bichaneiras, com a sua cor amarelo forte, pelo Carnaval, enfeitavam tudo e todos: bicicletas, burros, carneiros e cães, vinha tudo para a rua jogar o Entrudo.

O que mais encantava rapazes e garotos era empoeirar a cabeça das miúdas com pó de arroz o qual se vendia em caixinhas e quando faltava era substituído por farinha.

Rapariga que chegasse ao fim de um dia de Entrudo sem parecer uma moleira, poderia considerar-se uma heroína, pois as lutas travadas entre moços e moças eram deveras renhidas. Eles tentavam destapar-lhes a cabeça e pôr-lhe o pó de arroz; elas tentavam fugir amarrando fortemente o lenço que então usavam e escaparem às investidas masculinas. Com frequência, os olhos eram atingidos nestas demandas facto que era muito incómodo e desagradável.

Tudo servia para se disfarçarem, se enfeitarem, se divertirem: a cara pintada com um tição, uma máscara improvisada, roupas velhas ou trocadas entre homens e mulheres.

Bastava um simples lenço, chinês ou minhoto, ao pescoço para dar à pessoa um ar de Carnaval, de brincadeira. A alegria era constante e a imaginação prodigiosa; deitavam mão de tudo para fazer um coche puxado por carneiros, um automóvel armado em papel e movido por duas bicicletas, enfim um sem número de coisas curiosas e deveras interessantes.

À noite realizavam-se bailes nos salões, continuando aí a exibição das contradanças e dos entrudos.

As partidas de Carnaval eram também um modo de diversão muito frequente e ninguém se agastava ao ser enganado ou assustado por um entrudo, pois “no carnaval ninguém levava a mal”.

 

FESTA DO GALO

A festa do galo começou no concelho de Oliveira do Bairro e alargou-se a algumas povoações vizinhas de outros concelhos.

Não se sabe bem em que terra terá sido feita pela primeira vez, porém, é voz corrente que a ideia que presidiu a esta festa foi mostrar ao professor o apreço e reconhecimento que o povo tinha pelo seu trabalho.

O galo, o rei da festa, comprado inicialmente com a participação de todos, era levado num carroço enfeitado de bichaneiras, por um grupo dos alunos mais velhos, à casa do professor no meio de grande farra. Ao galo foram-se juntando outras aves de capoeira.

A festa realizava-se no Domingo Gordo e variava de terra para terra. De início, os alunos colectavam-se para comprar o galo. Depois, os galos começaram a ser oferecidos pelos pais e o dinheiro passou a custear outras despesas, tais como: foguetes, serpentinas e papel de seda para enfeites, estes além das mimosas, eram feitos com serpentinas, canas da índia e bandeirinhas de papel. Era hábito o professor presentear as crianças com gulodices.


Festa do Galo em Malhapão.

Em Malhapão começou a fazer parte da festa uma brincadeira muito interessante - o partir da cântara, antecipado da leitura do testamento do galo. Esta leitura, feita por um aluno com boa entoação e voz forte, era muito apreciada, toda a gente gostava de assistir juntando-se no arraial. Malhapão inteiro vinha, não só ver mas participar.

Numa cântara era metido o maior galo do carroço. Pela asa da cântara passava-se um adival. Uma das pontas deste amarrava-se no velho sobreiro, a outra passava por cima de um ramo de outra árvore, ficando solta até ao chão. Esta ponta da corda, comandada por dois homens iria fazer subir ou descer a cântara.

Os alunos da quarta classe eram os candidatos a parti-la. Um de cada vez, de olhos vendados com um pano, depois de volteado para se desorientar, começava às pauladas no ar tentando acertar na cântara.

O miúdo depois de três tentativas dava o lugar a outro. Começava-se a brincadeira pelos mais novos e pequenotes para a festa durar mais tempo.

O galo estrebuchando fazia balançar a cântara que, por sua vez, subia e descia segundo a vontade dos homens que comandavam a corda. O público, entusiasmadíssimo, gritava ordens controversas.

- Para a direita! - diziam uns. Para a esquerda! - gritavam os do outro lado. - Mais para cima!... Dá-lhe agora. O rapazito baralhava-se de tal modo que, por vezes, vinha sobre a assistência de pau em riste. Era ver quem mais corria, e a risota era geral.

A certa altura um mais espertalhote mexia o lenço de forma a ficar a ver e a cântara despedaçava-se ante os aplausos da assistência, saltando cacos por todo o lado.

O galo ao ver-se em liberdade e meio aturdido pela pancada fugia. Logo era perseguido e apanhado por um aluno que receberia como prémio uma quantia igual àquele que partisse a cântara: uma moeda oferecida pelo professor.

Com o correr dos anos a festa passou a integrar-se nas actividades escolares.

A partir daí, a sala de aula começou a ser enfeitada pelos alunos da quarta classe, que eram os organizadores e responsáveis por tudo. As bichaneiras, as camélias, as canas da índia nunca deixaram de estar presentes na ornamentação que foi sendo enriquecida progressivamente com serpentinas, flores, tiras e balões em papel colorido.

A arte da decoração sempre aperfeiçoada era transmitida pelos mais velhos aos mais novos.

Tornou-se habitual no final da festa o professor oferecer um lanche aos alunos o qual começou por ser pão, tremoços e figos secos e mais tarde foi sendo alterado.

TESTAMENTO DO GALO

Quadras recreadas com base em relatos orais.

Aos meninos e meninas,
E aos Senhores Professores
Nesta tão linda festinha
Eu quero cantar Louvores.

Daqui de dentro da cântara
Agora não canto, eu falo:
-
Foi para mim uma honra
Ter vindo à festa do galo.

Mas como o tacho ou caçoila
Não me sai do pensamento;
Antes que se faça tarde,
Vou ler o meu testamento.

À rapaziada nova
Com bigode a despontar
Deixo a crista vermelha;
Eles gostam de a levantar.

Gostam de levantar a crista.
Mas tem que ter juízo.
Ficam também c ‘os miolos
P ‘ra terem tudo o preciso.

As minhas penas mais lindas
São para as moças solteiras,
P’ra elas se enfeitarem,
E as porem nas cabeleiras.

O meu pescoço altivo,
A que chamam as goelas
Deixo-o para um bom petisco,
Juntamente c'o as moelas.

Para os velhos vão as coxas.
Cuidado!... Comam com jeito
E para as mães de família
Deixo as penas do peito.

Deixo pr’às mulheres viúvas
As minhas esgravatadeiras,
Para esfregarem as costas,
Quando tiverem coceiras.

Deixo os fígados ruins
Aos maridos rabugentos,
Para untarem a barriga,
E fazerem unguentos.

Por mal que vos pareça
Esta minha doação,
É a uma franguita nova
Que deixo o meu coração.

Dizem que antigamente,
No tempo das avozinhas
Lugar onde havia galo,
Não cantavam as galinhas

Agora, diz a galinha:
- Eu calada é que não fico! 
E, há p’raí muito galucho, 
Que nunca há-de abrir o bico

Por isto deixo aos homens,
Aqui no meu testamento,
(Se quiserem ser felizes!...)
Um moderno pensamento.

Cantem à vez, lá em casa.
Façam da vida um namoro
Ou cantem ao desafio,
Ou cantem os dois em coro.

Distribuam as tarefas
Com amor e alegria
Os filhos crescem melhor,
Onde reina a alegria.


Quem recriou estas quadras foi a própria autora deste livro, em 1987, época em que era professora em Malhapão. Ouviu os primitivos versos da boca de seu Pai José Caetano de Oliveira.

 

AS CONTRADANÇAS

As contradanças que se viam nos nossos entrudos não se assemelhariam muito às clássicas danças de salão: mas tinham nelas as suas raízes, embora fossem de sabor bem mais popular

Não é muito conhecida a data em que elas terão começado a alegrar os carnavais das nossas terras. Sabemos porém que um rico e abastado lavrador(*), nascido e criado no lugar da Silveira, mandou construir no século passado, uma casa, ainda existente, que já tinha uma sala própria para estes grupos se exibirem para a sua família e criados.

Sabemos que a última contradança a formar-se no nosso concelho foi a que se organizou em Malhapão e que saiu para a rua durante anos.

Pode dizer-se que, nas décadas de 40 e 50, as contradanças tiveram o seu auge, quer em número, quer em diver­sidade de trajos e cantares.

Chegavam a formar-se e a apresentar-se cerca de uma dezena em cada Carnaval.

Era muito discutível afirmar quais seriam as melho­res pois havia grande despique entre elas.

Todas as terras queriam que o seu grupo sobressaísse e fosse o mais aplaudido, não poupando esforços para que isso sucedesse. Tinham fama as contradanças de Oiã, da Mamarrosa, do Troviscal e de Águas Boas.

Por vezes chegavam até nós, grupos de fora do con­celho, nomeadamente de Fermentelos e de outras terras vizinhas.

As contradanças eram formadas por mais ou menos pares conforme o maior ou menor número de raparigas e rapazes solteiros, e só na falta destes se recorria aos casa­dos. Os menos jovens, no geral eram tocadores e cantado­res ou então acompanhantes a servir de claque. No grupo dos tocadores, composto de vários instrumentistas, nunca faltava o acordeão. Todos os ranchos tinham uma bandeira de seda bordada, enfeitada com muitas fitas, também de seda, de diversas e garridas cores.

O par que transportava a bandeira abria o desfile, a que se se guiam todos os outros, indo atrás os cantores e os músicos a fechar o cortejo.

Os trajes variavam de ano para ano e de terra para terra, mas eram sempre, bem ao jeito das nossas gentes e tradições, alegres e coloridos.

As raparigas traziam na mão uma pandeireta ornada de fitas, que muito enriqueciam as danças com o seu colorido.

Por sua vez os rapazes traziam, preso ao punho por uma fita, um pau curto e torneado e que tinha na ponta uma maçaneta de tiras de serpentina.

Também estes, tal como as pandeiretas, entravam nas danças, servindo especialmente para acenar à multidão na marcha final. Os passos de dança eram mais ou menos variados, conforme os ensaiadores e a arte dos intervenien­tes, porém todos os grupos, apresentavam obrigatoriamente a marcha de entrada, um ou dois viras e a marcha de despedida. Nos intervalos das modas, para que os dançarinos pudessem descansar, alguns pares destacavam-se do grupo cantando ao desafio ou recitando versos alusivos às suas terras e gentes.

Aqui deixamos algumas quadras cantadas na contradança de Oiã no ano de 1948, ano em que foi inaugurada a rede eléctrica de Malhapão.

Cada um dos lugares da freguesia tinha a sua quadra. Das originais, porém, só conseguimos recolher as que se seguem.

               OlÁ

Oiã nasceu ao luar.
Com suas belas tradições
E um berço de embalar
Que anima os corações.

 

        SILVEIRO

Junto ao rio Levira
Com seus belos arrozais
Sempre bonito o Silveiro
E seus belos pinheirais.

 

               MALHAPÃO

Malhapão está contente.
Já tem luz e energia.
Com a sua boa gente
Engrandece a freguesia.

 

               CARRIS

Carris embora pequeno
Também é nosso vizinho.
Tem raparigas bonitas
Que são mesmo um amorzinho.

 

               ÁGUAS BOAS

Águas Boas tão perfeita,
Com vinhedos e choupais,
Com muitas casinhas brancas,
Verdejantes milheirais.

 

CEGADAS

Das várias actividades que se desenrolavam pelo Carnaval, as Cegadas eram das mais apreciadas quer pela música, quer pela crítica mordaz que caracterizava os seus ditos e versos, brejeiros e jocosos.

Formavam-se grupos de doze a quinze elementos, todos do sexo masculino. Vestiam camisa branca e calças pretas, usando ao pescoço um lenço vermelho, tabaqueiro, com as pontas enfiadas por dentro da parte exterior de uma caixa de fósforos.

Havia sempre um dos elementos disfarçado de militar ou polícia que tentava em vão impor a ordem.

Todos, excepto o militranga e o porta bandeira, vinham munidos de cajados com os quais marcavam o com­passo e batiam fortemente no chão em sinal de assentimen­to ou chamada de atenção ao público, quando este prolon­gava demasiado as risadas ou os comentários, impedindo ou perturbando desta forma o prosseguimento da actuação.

É que a assistência não regateava aplausos se as pia­das eram directas e apimentadas, e mais ainda se deixavam facilmente descobrir os visados sendo esses conhecidos da maioria dos presentes.

A bandeirola tinha pintados o nome e o distintivo do grupo. A sua actuação desenrolava-se da seguinte forma:

entravam a marchar cantando, seguia-se uma pausa duran­te a qual os componentes formavam uma roda, deslocando-se dois a dois ao centro, onde travavam um diálogo em rima. De vez em quando entrava em cena o magala tentan­do manter a ordem, pois os que dialogavam, simulavam por vezes grandes discussões.

Nestes despiques é que vinham à baila todos os acon­tecimentos do ano. Era “o cabo dos trabalhos”!...

Em seguida dançavam um vira. Repetiam a pausa com os diálogos e terminavam com a marcha de despedida.

Os versos das cantigas entoadas, escritos proposita­damente para o efeito em cada terra por alguém mais inspi­rado ou erudito, deviam apresentar de um modo crítico e divertido os factos mais relevantes ocorridos nesse ano. Rapazes solteiros ou homens casados eram aceites indiscriminadamente nos grupos desde que tivessem sido convidados e entregassem ao caixa, como depósito de garantia para as despesas, uma determinada quantia previamente estipulada. Há vinte anos, quando se realizou em Malhapão a última cegada, a importância depositada foi de quatrocentos escudos por pessoa. Se cumprissem a missão a que se propunham até ao fim, receberiam não só o que haviam depositado mas também a parte que lhes coubesse do dinheiro angariado nas actuações, depois de deduzidas as despesas feitas.

O banqueiro era sorteado ou eleito pelos intervenien­tes. Se algum deles desistisse antes do términos das cegadas o dinheiro que tivesse depositado no início, revertia a favor dos restantes.

Os ensaios decorriam geralmente à noite e começavam com um mês de antecedência.

Os componentes do grupo deslocavam-se em bicicletas e deste modo percorriam toda a região.

Entre as terras onde tiveram mais implantação e foram mais famosas as cegadas, conta-se Malhapão e Bustos. A última a sair no concelho em 1971 tinha o nome de “Os Parodiantes de Malhapão”.

Desta divertida paródia aqui ficam alguns dos versos da autoria de António Fresco.

Fui ao Porto e vim agora
De lá trouxe esta menina;
Ela é linda e jeitosa
O seu nome é Sarafina.

Fui ao Porto e vim agora
Arranjei um amorzinho.
Estava-me a vir, a vir embora
E deixei-a no caminho

Já não quero ser do Porto
Nem no Porto ter alguém.
Já não quero a liberdade
Que as moças do Porto têm.

Esta não é a Sarafina,
Sarafina já morreu.
Pois c'o maldito machado
Quis matar o vizinho seu.

 

         Estribilho

Eu venho do dar e toma
Ora toma, ora toma.
Eu venho do toma lá

Eu nunca vi dar sem toma
Ora toma, ora toma;
Nem o toma sem dá cá.

O Porto a que se referiam era o Porto das Cales em Malhapão.


NOTAS:

(**) - Manuel Bártolo. bisavô da autora.


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