Henrique J. C. de Oliveira, Relatório do Inquérito Linguístico realizado na Gafanha do Carmo, Aveiro, 1967.

ALGUMAS REFLEXÕES SUSCITADAS POR ESTE INQUÉRITO

Em 1966-67, frequentávamos o terceiro ano do curso de Filologia Românica da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Éramos um dos muitos alunos da cadeira de Linguística Portuguesa, ministrada pelo Professor Doutor Paiva Boléo. Para quem não saiba, o Professor Paiva Boléo foi um dos continuadores do trabalho de Leite de Vasconcelos. Tal como este primeiro grande mestre da Linguística em Portugal, percorreu todo o nosso País de um extremo ao outro, contactando com os seus habitantes e, junto deles, efectuar o levantamento dos dialectos e falares de Portugal Continental, realizando, com os meios da época, centenas de inquéritos linguísticos. Como professor da cadeira de Linguística Portuguesa, alguns dos aspectos especialmente focados no segundo ano em que tínhamos esta disciplina, durante todo o primeiro período, foi a situação linguística de Portugal, o estudo aprofundado dos conceitos de dialecto e falar e a preparação para o trabalho de campo, na realização de inquéritos. O trabalho que teríamos de fazer durante o período de férias do Natal seria o de escolher uma localidade ainda não estudada da região onde vivíamos, de seleccionar um informador que fosse um bom representante da fala local e conhecedor das muitas actividades aí realizadas e, com a sua ajuda, realizar, durante cerca de uma semana, o inquérito pretendido, tendo como apoio o modelo de inquérito linguístico organizado em anos anteriores pelo nosso professor.

Tal como se refere no prefácio do trabalho que agora recuperámos, o meu inquérito, por razões que então não referi e que agora, volvidos quase 50 anos, já não constam do meu arquivo neuronal, o trabalho só pode ser feito durante as férias da Páscoa. E, segundo se deduz da leitura do prefácio, o período de férias foi insuficiente para a obtenção de todos os elementos necessários, obrigando-me a passar parte das férias grandes junto da população da Gafanha do Carmo e, sobretudo, do simpático casal, que me acolheu como se fosse um dos filhos mais novos e teve toda a paciência do Mundo para me ajudar na concretização do trabalho. Digo, e bem, um dos filhos mais novos, porque como tal me trataram. E só muito mais tarde, já colocado como professor em Aveiro, vim a conhecer, na década de 1980, vim a conhecer o filho deste casal da Gafanha, que era um dos sócios do Café Palácio, onde eu passei muitas manhãs e tardes na correcção não só dos teste dos meus alunos, mas sobretudo das provas tipográficas, num período de tempo em que era o responsável pela estruturação e revisão de provas da primeira série de boletins de uma associação de defesa do património aveirense, recentemente criada e que fui obrigado a abandonar, alguns anos depois, quando me faltou o maior auxiliar que tinha neste trabalho minucioso e saturante. Naquela altura ainda ninguém sabia o que eram computadores. Todo o trabalho tinha de ser feito com papel e caneta na caça de gralhas tipográficas e, pior do que isto, na decifração e alinhamento dos textos de alguns colaboradores, que nos apresentavam os artigos em extensos linguados, muitas vezes num Português quase indecifrável e com as ideias nem sempre expostas de forma coerente e alinhada, que tínhamos de reorganizar e bater pacientemente na máquina de escrever, antes de mandarmos o material para a tipografia.

Em suma, outros tempos que são já passados e, talvez, nem sejam para aqui chamados, porque é de um inquérito realizado vinte anos antes que agora, tal como o azeite, voltou à tona da água e saiu do esquecimento a que esteve votado durante meio século da nossa vida.

Para a recuperação do «Relatório do Inquérito Linguístico realizado na Gafanha do Carmo», fomos obrigados a recorrer ao exemplar original, uma vez que o duplicado em nosso poder está incompleto. Porquê a necessidade de recorrer ao original entregue ao professor para a nossa avaliação?

Na época em que o inquérito foi feito, não existiam as facilidades de duplicação de documentos que hoje conhecemos. Praticamente ninguém sabia o que era uma fotocopiadora. A primeira máquina com esta função de que tivemos conhecimento e algumas vezes utilizámos foi uma fotocopiadora da marca Xerox, adquirida pela Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra. Era, segundo pensamos, o único exemplar existente em toda a cidade de Coimbra. Era uma máquina que reproduzia os documentos a preto e branco com uma qualidade excepcional. Tinha uma característica que hoje não se encontra nas máquinas actuais, apesar de mais sofisticadas e a cores. Esta Xerox, que nos permitia obter o que designávamos na época por xerocópias, imprimia com traços que sobressaíam da folha de papel, de tal modo que, passando com as pontas dos dedos por cima das imagens ou dos textos, poderíamos sentir o relevo da impressão. E, seguramente, um invisual, adestrado na leitura digital, conseguiria detectar e decifrar o que estava registado na folha impressa. Algumas vezes fizemos esta experiência. Fechámos os olhos e passámos os dedos sobre a mancha gráfica, procurando decifrar pelo tacto o que os olhos facilmente podiam observar e ler. O único problema para nós, enquanto estudantes, é que as xerocópias eram caras e só recorríamos a elas em caso de grande necessidade.

Quando queríamos ficar com um duplicado dos trabalhos dactilografados, tínhamos de recorrer ao papel químico. De tudo quanto fosse texto ficávamos com uma cópia de reduzido custo. Todavia, para as ilustrações e desenhos, esta facilidade já não existia.

Relativamente ao material fotográfico, a duplicação era para nós fácil e acessível, uma vez que revelávamos os rolos e fazíamos as ampliações das fotografias no laboratório que tínhamos no sótão da casa onde vivíamos, em Aveiro, na Rua Castro Matoso. Ainda hoje lá continua à espera de novos trabalhos, apesar de já não entrarmos naquele sótão há umas boas dezenas de anos. Para os desenhos feitos à mão a partir dos esboços obtidos a lápis, no local dos inquéritos, e mais tarde redesenhados a tinta-da-china com uma caneta de aparo fino, próprio para desenho, a duplicação já não era nem rápida nem fácil. E a passagem veloz do tempo e a urgência da entrega do original acabou por fazer com que os espaços destinados às gravuras tivessem ficado até hoje vazios no duplicado a químico.

Para agora podermos completar o nosso exemplar, a solução foi regressar à Faculdade de Letras e procurar o original. Graças à ajuda das funcionárias da Biblioteca das Letras, a quem deixamos aqui expresso o nosso agradecimento, localizámos o inquérito ao lado de umas boas dezenas de outros, que constituem actualmente um valioso espólio linguístico, no segundo piso, numa sala ao lado da dedicada ao nosso professor de Linguístico e, mais tarde, orientador da tese de licenciatura, o Professor Doutor Manuel de Paiva Boléo. A duplicação do material em falta foi relativamente simples, com o apoio das simpáticas funcionárias da secção de fotocópias e com a ajuda do scanner manual, que tivemos o cuidado de levar na carteira. Ficámos, deste modo, com dois duplicados: um exemplar fotocopiado e todas as imagens digitalizadas no cartão de memória do nosso sistema portátil de digitalização.

 

Que diferenças existem entre a versão original e a que programámos e disponibilizamos para todos os interessados na páginas do espaço «Aveiro e Cultura»?

À excepção dos capítulos de índole linguística, que suprimimos na íntegra na versão digital, esta versão actual reproduz todos os conteúdos do original dactilografado. A única diferença é que, para facilidade de reprodução e consulta, efectuámos a numeração de todas as imagens, sejam elas de índole fotográfica, sejam desenhos ou esboços. No original, as fotografias não apresentam numeração, que apenas foi atribuída aos esboços e desenhos. Para podermos saber os nomes dos diferentes constituintes dos objectos representados no original, será necessária a leitura integral do texto. Na versão digital, isto não é necessário. Basta-nos clicar nas imagens para as ampliarmos e termos acesso às legendas explicativas. E, voltando a clicar-se sobre elas, regressamos à página anterior.

A leitura das diferentes rubricas processa-se como em qualquer publicação impressa. Ou fazemos uma leitura seguida, clicando nos botões para a página seguinte ou a anterior, colocados no final de cada página, ou, clicando no botão «Índice», vamos directamente para ele e seleccionamos aquilo que pretendemos ver.

Relativamente ao Português, reproduzimos todo o material tal como se encontra no original. Tratando-se de um inquérito linguístico, no qual se procurou reproduzir as características linguísticas da fala dos informadores, a grafia das palavras está de acordo com o que foi dito por eles, ou seja, procurando registar a maneira de falar, mas sem recurso a transcrições fonéticas, o que dificultaria a leitura dos conteúdos por todos nós, muito especialmente por quem nunca estudou o Código Fonético Internacional. Este código fonético não é de fácil leitura para quem nunca o estudou e, pior do que isto, é extremamente difícil (para não dizer impossível) de registar utilizando-se uma vulgar máquina de escrever. Por isso, quando as vogais eram pronunciadas de forma aberta, utilizámos no original o acento grave ou um sinal de abertura ou de fechamento de vogal colocados manualmente debaixo dos respectivos grafemas, sempre que a pronúncia fugia à pronúncia normal. Na versão digital, abdicámos disto, até porque, mesmo com o recurso a um computador, continua a ser extremamente difícil de escrever. Isso obrigar-nos-ia a ter de arranjar um código de escrita específico, o que, ainda assim, seria incompatível com os teclados que utilizamos actualmente nos computadores. Esta variação em relação à grafia tradicional, que mantivemos, pode ser facilmente notada na parte relativa, por exemplo, ao devocionário fornecido pela ti Rosa de Jesus Bexina ou na reprodução quase integral de algumas conversas entre inquiridor e informador.

Para não nos alongarmos demasiado, resta-nos desejar que este trabalho de reconversão possa ajudar as gerações actuais a conhecer um pouco do nosso passado regional. E, no momento actual, a Gafanha do Carmo, que então conhecemos, não é mais do que uma insignificante parcela do vasto espaço populacional constituído pelas diferentes Gafanhas do distrito de Aveiro.

 

Aveiro, 6 de Março de 2017

Henrique J. C. de Oliveira

 

 

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