Síntese e despedida

 

Gostariam de saber como foi o meu jantar e o resto da noite de sábado? Claro que sim! Também eu gostaria de continuar a relatar-vos tudo com todos os pormenores, mas não pode ser. Tenho neste momento uma pilha com mais de vinte aerogramas em cima da mesa e o meu pulso começa a dar-me sinal. Além deste incómodo, nada agradável, ou não fosse ele um incómodo, a hora vai adiantada. Se me deixo ficar nas escritas, daqui a pouco é dia... E não estou com vontade de fazer uma directa. Amanhã, isto é, hoje é domingo... Não devo ter nada de importante para fazer. Mesmo assim, acho que é altura de pôr de lado as conversas e resumir os acontecimentos. É certo que os diálogos me estão a sair com uma facilidade espantosa, porque ainda só passou uma semana. Mesmo assim, estou admirado com os meus neurónios! Estão a debitar-me tudo quanto disse e ouvi com uma clareza espectacular! É como se tivesse efectuado um registo magnético de tudo e agora me tivesse limitado a carregar no botão de «play». Não será bem a mesma coisa! Agora, elimino todas as hesitações e atropelos que, de vez em quando, ocorrem no Português, quando falamos. As conversas são filtradas, eliminadas as hesitações e as repetições desnecessárias. Além disto, não posso reproduzir os gestos e as entoações. Mas não deixa de ser uma transcrição do que ouço nos momentos das conversas. E tenho de escrever com uma velocidade incrível, para ter tempo de acompanhar tudo quanto é dito. Mesmo com toda esta facilidade, penso que é altura de parar e ser sintético. Começo a tornar-me maçador com todos estes pormenores. Sei bem que à mãe não lhe falta paciência para ler as minhas palavras. Mas estou a sentir antecipadamente as orelhas a aquecer por causa do pai. Estou já a imaginá-lo, aí em Coimbra, ou em Aveiro, estou mesmo a vê-lo a dizer à mãe que nunca imaginou que tivesse um filho tão miudinho e tão chatinho por causa de todas estas minúcias.

Além destas críticas futuras, que me estão já a aquecer ligeiramente as orelhas, tenho outros factos, tão importantes ou mais que o desportivo, a pedirem-me que acabe e comece, mais tarde, uma nova série de aerogramas. Por isso, para que o relato da ida a Carmona não fique incompleto, tanto mais que deverão estar com curiosidade em saber o que aconteceu à nossa equipa, vou terminar esta correspondência resumindo os factos do fim-de-semana.

Tal como se deduz do último diálogo, fomos jantar, eu e o senhor Sílvio, ao restaurante do aeroporto. Soube-me bem o petisco, mas o estômago não se comportou da mesma maneira que o meu paladar. Se este aplaudiu a comida, que estava bem confeccionada e saborosa, o estômago decidiu-se por um voto de protesto. Pouco depois do jantar, quando nos preparávamos para abandonar a sala de jantar, tive de pedir licença ao meu companheiro para ir à casa de banho. E cheguei lá mesmo à justa! Se me tivesse atrasado uns segundos, em vez da sanita, a comida teria ido toda parar ao chão, o que seria francamente desagradável. Depois deste imprevisto, saímos, passámos pelo hotel e fomos todos juntos para o recinto desportivo.

Não sei se em Carmona há cinema, porque não perguntei. Mas desconfio que não, a avaliar pela quantidade de gente que enchia o recinto desportivo. Valeu-nos termos vindo com a equipa visitante, porque tínhamos uma área reservada ao pessoal de Quimbele.

O jogo foi emocionante e em total acordo com a convicção do furriel. A nossa equipa esteve insuperável, diria mesmo, fulminante. Além das espectaculares defesas do nosso guarda-redes, os nossos remates levavam a força de tigres possantes. Dois tiros certeiros à baliza adversária, durante a segunda parte do jogo, permitiram-nos alcançar uma vitória estrondosa por duas bolas a zero.

Não vou aqui reproduzir os momentos mais entusiasmantes do jogo. Teria de pedir a ajuda a um Artur Agostinho ou a outro dos famosos relatores de futebol a que estamos acostumados aí na metrópole. Que eu tenha dado conta, aqui em Angola não os há e eu também não tenho nem jeito nem paciência para isso. Também não vou aqui reproduzir as conversas entre o pessoal, nem tão pouco as palavras que o furriel me dirigiu, no final do jogo, quando me perguntou quem é que tinha razão, se era eu ou ele, por estar a duvidar do valor dos Tigres de Quimbele, e que o alferes estava a ser um pessimista desnecessário, porque os Tigres de Quimbele vieram mesmo para vencer.

A fim de não reatar os diálogos e manter-me dentro do resumo prometido, devo acrescentar que acompanhei a malta após o jogo. No café onde fomos, as Cucas e os finos sucederam-se, acompanhados com ginguba e pratos de camarão. Ah, é verdade, ia-me esquecendo de um pormenor importante: um dos civis mandou vir uma garrafa de espumante. Enchemos a taça e toda a gente bebeu um golo para celebrar a vitória. Para não destoar, levei também a taça à boca e, contrariando a minha vontade de seguir o exemplo dos outros, limitei-me a molhar os lábios. E o sábado acabou tardiamente, com regresso ao hotel depois da meia-noite.

Saímos de Carmona a meio da manhã de domingo, regressando eu com o mesmo condutor que me levou.

O meu cicerone de ontem, o senhor Sílvio, que chegou cedo ao hotel, integrou a coluna de regresso até ao Negage. Próximo desta cidade, parámos para nos despedir dele. Como bom pai que é, o senhor Sílvio decidiu ir buscar os filhos ao colégio e passar o domingo com eles. Aproveitei o momento da paragem para tirar uma fotografia do Negage visto de longe.

Depois disto, prosseguimos até Sanza Pombo, passando pelo Puri e Alfândega, sem termos sequer parado uns segundos para uma fotografia. Em Sanza Pombo, fomos todos almoçar ao restaurante do Clube de Sanza. Antes de arrancarmos para Quimbele, a esposa do Mário achou que era muito cedo para regressarmos. Além disso, havia futebol e alguns civis estavam interessados no jogo. Aproveitámos para ir ao jardim de Sanza Pombo e passar uns momentos agradáveis de convívio até ao final do jogo.

Num recanto do jardim, tirámos uma fotografia ao pequeno grupo que andou comigo após o almoço. É o único diapositivo, além da piscina, em que eu figuro com os meus companheiros de digressão desportiva. Este diapositivo, tirado no jardim, será facilmente identificado por vós, quando eu receber os «slides» revelados e os mandar para aí. Já agora, que me estou a referir a isto, faço-vos uma breve descrição daquilo que irão poder observar dentro de algum tempo.

No conjunto das talvez trinta e oito imagens, o diapositivo no jardim é fácil de identificar. É o único com um grupo de seis pessoas, entre as quais me conto. Estamos sentados num recanto florido, debaixo de uma cobertura também florida. É um local fresco e aprazível, propício a fotografias para recordação de grupos. Sentados no patamar inferior, encontram-se o furriel, eu e o meu condutor, o Torres, com quem fiz a viagem a Carmona. No patamar superior, estão o Mário e a Isabel. Tenho que dizer que a Isabel foi o único elemento feminino de toda a claque e a portadora da taça conquistada pela equipa. No momento da fotografia, de modo a ficar também registada e visível na imagem, a Isabel colocou-a por cima da cabeça do Torres. De pé, ficou o senhor Mário Alves. Desta vez, não foi utilizado o disparador automático. A fotografia foi tirada por um dos soldados que andou connosco. Tive apenas de regular a distância e a luz. Expliquei-lhe como devia fazer e passei-lhe a máquina. Faço agora votos para que tenha enquadrado bem e a fotografia fique boa. Chegámos a Quimbele ao fim da tarde.

Quanto a despesas neste fim-de-semana invulgar, posso dizer-vos que não foram elevadas. De acordo com os meus registos, paguei 160 escudos pelas duas dormidas. Aproveitei também a ida a Carmona para entrar numa livraria e comprar uns livros. Não gastei muito. Apenas duzentos e cinquenta escudos numa colecção de livros de bolso com as obras de Machado de Assis, o escritor brasileiro que mais prazer me proporcionou quando tive a cadeira de Literatura Brasileira. Na altura, com tantos autores para estudar, tive de me limitar a uma pequena amostragem. Vou agora aproveitar os momentos de ócio em Quimbele para ler toda a obra. Espero não me deixar agarrar demasiado por ele, para que não venha a fazer-vos concorrência, impedindo-me estes momentos de escrita e de presença junto de vós, ainda que em pensamento.

Contabilizando ainda os almoços e os jantares, tenho de confessar que foi uma despesa que não abalou as minhas finanças.

Antes de terminar esta colecção de aerogramas, deveria fazer uma breve referência à vossa correspondência. Mas não! Já vos escrevi mais do que devia e a pilha acabou de aumentar.

Resta-me deixar aqui um grande abraço de saudades para os meus velhotes queridos.

Vosso filho,

 

Ulisses de Almeida Ribeiro.

 

 

 

 

P.S. — Apenas mais uma nota. Ao consultar a agenda, verifiquei que no outro domingo em que regressei de Carmona, o dia 27 de Maio, foi o Dia da Mãe. Embora com um razoável atraso, fica aqui registado um beijo muito especial e demorado para a Mãe.

Pensando melhor, esta alusão ao Dia da Mãe nem deveria ter sido feita! Isto porque todos os dias a Mãe e o Pai estão no meu pensamento.

Já agora, segundo me constou, parece que o capitão passou aos Serviços Auxiliares. Se isto é verdade, estou tramado, porque vou ter de continuar a aguentar a responsabilidade do comando da Companhia. Mas não há de ser nada!

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