Ao ritmo da música

— Isto que vou contar não é novidade para ninguém. Todos estamos fartos de saber. Mas nem por isso o resto da manhã, depois do burburinho causado pelas amêndoas, deixou de ter os seus aspectos pitorescos.

Depois de distribuídas as amêndoas pela miudagem da sanzala, parte da população regressou às actividades domésticas. Eu próprio, para voltar à rotina, peguei na mesa e numa cadeira e coloquei-as num lugar à sombra, próximo da tenda. Peguei depois na papelada, nos rascunhos dos recenseamentos e em folhas novas e dispus todo o material em cima da mesa. Para amenizar o frete que é ter de passar a limpo os elementos recolhidos, e como a vontade de trabalhar não era muita, chamei o Joaquim. Pedi-lhe que me trouxesse o rádio e o colocasse em cima da mesa. Tive a sorte de apanhar uma emissora que estava a dar boa música. Era uma música agradável, com bastante ritmo. Chegava com uma potência e nitidez espantosas, sem aqueles silvos estridentes e habituais que caracterizam as ondas curtas. Não muito afastado do local, a uns cinco ou dez metros de mim, permaneciam vários miúdos a quem tinha distribuído as amêndoas. Por experiência, pensei que assim que começasse as minhas escritas os miúdos se afastariam. Foi isto o que sempre fizeram. Afastaram-se sempre e nunca interferiram no meu trabalho. Mas, naquela manhã, o comportamento estava um pouco diferente. Mantiveram-se mais próximos. Mas como das outras vezes nunca interferiram nem me perturbaram, não lhes dei qualquer importância. Procurei, porque era isso que importava, concentrar-me no trabalho, tanto mais que a manhã ia avançada e já não tinha muito tempo antes do almoço.

A música continuava agradável, convidativa, não sei bem se ao trabalho, se à sua audição exclusiva. Procurei resistir-lhe e comecei a fazer deslizar a esferográfica sobre as folhas brancas. De repente, interrompi a escrita. A esferográfica ficou bruscamente suspensa no ar, a olhar para os miúdos que se tinham aproximado um pouco mais do local onde estava. Com a esferográfica suspensa a olhar para os miúdos, olhei também para eles. E, instintivamente, aumentei o volume do rádio, que o momento assim o exigia.

— O que é que aconteceu, Ulisses?

— Vocês nem imaginam o espectáculo que se oferecia aos meus olhos! Merecia uma equipa de filmagem para o registo da cena. A minha pena, naquele instante, foi não ter uma câmara de filmar de oito milímetros. Para cúmulo, nem uma máquina fotográfica. A minha continua avariada. Nem o furriel Rodrigues ali ao pé, para me emprestar a «Instamatic» dele!

— Desembucha, Ulisses. O que é que estás a rever na tua imaginação? Pela tua cara, pelos teus olhos brilhantes, até parece que estás a ver uma coisa do outro mundo!

— Ó malta, não era do outro mundo, era deste! Vocês nem imaginam a cena que tinha na minha frente. Um verdadeiro espanto! À minha volta, como se tivessem sido atingidos por uma descarga de energia, os miúdos rebolavam-se de um lado para o outro, Rebolar não será bem o termo. Saracoteavam-se, isso sim! Saracoteavam-se todos. Bem certinhos. Todos no mesmo ritmo. Alguns, uns fedelhitos com três ou quatro anos e uns palmitos de altura, não ficavam atrás dos mais velhos. Todos, sem excepção, saracoteavam-se em conjunto. Todos rigorosamente certos. Todos acompanhando perfeita e vivamente o ritmo da música. Tenho até a impressão que se ali estivessem mulheres grávidas, também elas não deixariam de se contorcer duplamente, com os filhotes a agitarem-se nas barrigas para não fugirem ao ritmo bem marcado que saía do altifalante do rádio. Um verdadeiro espectáculo. Só visto!

Escusado será dizer que não fiz mais nada durante o resto da manhã. Foi um baile imprevisto, que me agradou plenamente e aos meus homens. Aos poucos, começaram a juntar-se para apreciarem esta cena de dança nativa, que só acabou quando soou a hora do rancho.

Por falar em rancho, estou aqui há cerca de duas horas a escrever-vos e começo a sentir uma sede, e também uma fome, como se estivesse num deserto. Mas como não estou em tal sítio, mas sim na messe de oficiais, no meu quarto, a solução para o problema é fácil. Faço um breve intervalo. Vou à sala de jantar. Temos no frigorífico muitas bebidas. Uma «setupe» gelada com uísque deverá ser o bastante para me regar interiormente e apagar o fogo que sinto. Pão também não falta. Dia sim, dia não, temos fornadas de pão bem confeccionado, graças ao nosso pessoal. Conservo ainda parte do queijo que me mandaram, se por ventura os meus camaradas ainda o não atacaram. Logo, que mais pode desejar um simples alferes miliciano desterrado em terras africanas? E não me alongo mais. Pausa na escrita. Até já!

 

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