Uma piada ao alferes e o serviço do dia

Alto Zaza, 24 de Novembro de 1972

 

Já hoje fui a Quimbele e estou de novo a escrever-lhes. Apesar de não ter dormido nada, estou bem disposto e activo. Apenas, durante a ida, logo pela manhã, a seguir ao pequeno-almoço, se me fecharam os olhos na parte da picada onde o terreno é plano e há umas boas rectas.

 

—O meu alferes parece que andou à noite aos gambozinos — disse-me o condutor na brincadeira, quando reparou que eu, de vez em quando, fazia vénias.

 

— É da picada. Com esta recta, sem solavancos, com o Sol a fazer-me festas na cara e o roncar monótono do motor, acabamos por ser embalados. Se fosse entretido do teu lado, agarrado aí à rodela, podes ter a certeza que isto não me acontecia.

 

Mas não é o momento oportuno de começar a recordar a viagem desta manhã. Temos de retomar a ponta da meada, que ficou pendurada no final dos outros aerogramas. A propósito, quero dizer-vos que entreguei hoje mesmo, no serviço postal da companhia, o maço de aerogramas que vos escrevi durante a noite. O cabo espantou-se com o tamanho do maço que vão receber:

 

— O meu alferes parece uma máquina de escrever. Sozinho escreve mais aerogramas que toda a companhia junta!

 

Achei piada à observação do moço e não pude deixar de lhe dar razão, apesar do exagero da afirmação. De facto, não deve haver ninguém na companhia, nem mesmo em todo o batalhão, que escreva tantos aerogramas de uma só vez. Mas ponto final na evocação destes factos.

 

O fio da meada está a balançar à espera que eu o retome. Vamos a isso. Como já não me lembro bem onde fiquei, vou reler as cópias a químico dos aerogramas que vos mandei. Espero que não me dê o sono e que as ideias corram céleres, para pegar nos tópicos enumerados e pôr a escrita nos carris cronológicos. Assim que o conseguir, passarei a ter menos trabalho na reconstituição dos acontecimentos e passaremos a ter uma certa isocronia entre o meu relato e a vivência dos acontecimentos.

Em que parte do relato é que íamos? Ora vejamos... Cá está! Dizia eu — e passo a citar — que «estava indeciso sobre quem escolher dos três para me ajudarem» e que «acabei por tirar à sorte», tendo-me calhado na rifa um açoriano, o Manuel Faria Donato.

Foi durante o pequeno-almoço, na companhia dos furriéis, que transmiti as minhas ordens, após um breve preâmbulo introdutório:

— Estamos sozinhos em zona desconhecida e entregues a nós próprios. A nossa segurança e regresso à Metrópole depende inteiramente de nós e da divina providência. Mas como esta última só funciona se formos nós a fazermos por isso, após uma longa reflexão nocturna, entendi que a primeira e maior prioridade é zelar pela nossa segurança. Na papelada que nos deixaram, só encontro lixo e nada que nos possa ajudar. Assim, decidi que hoje, dia 17 de Novembro de 1972, sem falta, teremos de proceder à elaboração do plano do defesa do aquartelamento. Tenho 46 homens à minha responsabilidade, contando comigo, e não quero ter problemas de consciência se, por algum azar imprevisto, tivermos baixas. Assim, o Ramalho vai ficar, como sargento de dia, responsável por todas as ocorrências, apenas me chamando se houver alguma mensagem urgente. Será auxiliado em tudo pelo Teodoro. O Rodrigues e o Donato vão ajudar-me a elaborar o plano de defesa. E, por agora, a ordem é tomarmos o pequeno-almoço, que a seguir teremos muito que fazer.

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