Biblioteca / Centro de Recursos Educativos da Escola Secundária José Estêvão - Aveiro.
 

Recursos Audiovisuais


    

Porquê utilizá-los?

De há longa data que os meios audiovisuais constituem não apenas uma técnica aplicada ao ensino, mas também uma forma de documentação, ampliação e divulgação de conhecimentos. Embora nem sempre devidamente considerados e aproveitados pelos professores, que frequentemente os vêem erradamente como uma dificuldade ou como um potencial substituto no desempenho da sua profissão, esquecendo que a componente humana jamais poderá ser substituída nas relações de ensino-aprendizagem, a verdade é que a sua utilização tem sido feita por diversos professores, a diversos níveis, desde tempos remotos.

Recordamo-nos, por exemplo, dos nossos tempos nos bancos da escola primária. Já por essa altura, nos começos dos anos cinquenta, afastado o espectro da guerra e adquirida uma certa estabilidade social e económica, o professor primário, homem novo e aberto às inovações tecnológicas da época, despertava a curiosidade e atenção dos alunos, miúdos então no começo da vida, mostrando-lhes aspectos da realidade que, de outra maneira, se tornaria difícil de apresentar. E a atenção e o entusiasmo deles, pequenos seres em botão, a abrir para a vida, era profundamente marcada pelas imagens mostradas e pelos sons das próprias vozes, quando o professor lhes corrigia a leitura, quebrando-lhes a teimosia e mostrando-lhes a leitura feita, e que agora ouviam  através da gravação, em desacordo com o que efectivamente se encontrava no livro. Quanto entusiasmo e interesse em todos nós, que nos fazia aderir a tudo quanto o professor apresentava!

Os meios audiovisuais apresentavam-se, inicialmente, um tanto rudimentares e de utilização bastante restrita: só alguns os utilizavam.  Outros, manifestavam-lhe uma certa repulsa e viam-nos com desconfiança e receio. Viam-nos apenas como máquinas de imagens ou de sons e como uma forma pouco proveitosa de passar o tempo.

A partir dos anos quarenta, verificou-se um enorme progresso tecnológico. A Segunda Grande Guerra, apesar dos aspectos negativos, levou o Homem a progredir consideravelmente do ponto de vista da Ciência e da Técnica. Ainda que postas inicialmente ao serviço da morte, as novas invenções sempre acabaram por revelar o seu aspecto positivo ao serviço da vida.

Durante a guerra, os meios de comunicação, a rádio e o cinema, tomaram um elevado incremento. Além de funcionarem como um meio de propaganda e de manipulação de massas, impressionavam vincadamente as diferentes gerações de então. Permitiam-lhes com grande facilidade e rapidez assimilar os acontecimentos, permitiam-lhes estar ao corrente de tudo, impondo-se gradual e sucessivamente à sociedade e facultando-lhe uma nova dimensão do mundo.

Mas a origem dos meios audiovisuais, no sentido pleno do termo, encontra-se em épocas remotas da História do Homem. Podemos dizer, sem perigo de errar, que eles terão nascido quase em simultâneo com o próprio Homem, a partir do momento em que ele procurou estabelecer entre si a comunicação. Para não termos de recuar até à idade das cavernas - lembremo-nos apenas da pintura rupestre -, bastará pensarmos no que se passava na Europa, na Idade Média, onde a maioria das populações era iletrada. Por esta altura, um pouco à semelhança do que actualmente começa cada vez mais a suceder, a imagem substituía a palavra escrita. Só assim se compreenderá a importância que a imagem adquiriu nesta época, surgindo em grande profusão nas fachadas das igrejas, nos painéis religiosos, em maravilhosas iluminuras nos livros de horas e nos códices medievais. Nestes últimos, surgem os primeiros modelos da moderna banda desenhada. Recordem-se as maravilhosas iluminuras das Cantigas de Santa Maria, de Afonso X, extraordinárias páginas de narrativas em banda desenhada, no sentido moderno da expressão, acompanhando os textos escritos e permitindo também uma leitura pela imagem a quem não sabia ler.

Figura 1: Aspecto de uma iluminura da Idade Média, ilustração da cantiga CIII, estampa 114, das Cantigas de Santa Maria de Afonso X. Clique na imagem para ver a página completa.

E qual a função desempenhada pelos imponentes painéis de azulejos das igrejas medievais e de épocas posteriores? Qual a função dos diferentes retábulos, dos portais majestosos das grandes igrejas, com sequências em baixo e alto-relevo de cenas da Bíblia? Como explicar toda a vasta série de esboços e esquemas, incluindo quadros anatómicos, de Leonardo da Vinci e de outros pintores célebres, bem como de diversas pinturas representando cenas, algumas carregadas de violento realismo, das guerras civis travadas nos modernos estados?

Mas é a partir do século XX que as técnicas audiovisuais começam a pouco e pouco a impor-se ao Homem, a par de uma melhor comunicação,  transmissão  e  divulgação de conhecimentos, tornando-se elementos indispensáveis à vida. Permitem-lhe alargar os horizontes, permitem-lhe captar uma realidade mais ampla e completa do mundo, com todos os seus aspectos positivos e negativos, muitas vezes em contraste com os poucos elementos que poderia observar no seu restrito meio social.

A nível das crianças e dos adolescentes, os meios audiovisuais exercem sempre um certo fascínio, fascínio este variável em função do meio sócio-cultural em que estão inseridos, mas que não deixa nunca de existir, mesmo com a proliferação actual dos vídeos e dos jogos informáticos e com a elevada carga horária dos programas televisivos dos nossos dias. Mesmo com estes aspectos, quiçá negativos, os meios audiovisuais continuam a exercer um certo fascínio. Impressionam-lhes a inteligência e a sensibilidade, podendo, em alguns casos, libertá-los do mundo restrito em que vivem e fornecendo-lhes uma imagem mais verídica, mais concreta e inteligível do mundo que os rodeia.

É certo que, hoje em dia, poder-se-á negar a validade dos meios audiovisuais. Poderá facilmente argumentar-se que os jovens dos finais do século XX vivem rodeados e encharcados de imagens e de sons, a ponto de estes não apresentarem já o impacto que teriam há dez ou vinte anos atrás, antes da proliferação das cassetes de áudio e de vídeo, antes da divulgação dos jogos informáticos e da explosão dos actuais meios mediáticos: rádio e televisão. Talvez por estas mesmas razões, hoje mais do que nunca, os meios audiovisuais poderão ser facilmente utilizados e com proveito pelos professores dos vários níveis no processo de ensino-aprendizagem, utilizando o meio adequado no momento certo, para quebrar a apatia resultante do excesso.

            Poder-se-á também argumentar que os meios audiovisuais e tecnológicos poderão ser uma fonte de desmotivação e de passividade, levando os alunos ao desinteresse total e à perturbação do desenrolar da aula. De uma maneira geral, apesar de todos os aspectos negativos que se lhes possa apontar, temos verificado que os alunos se interessam de modo muito especial por aquelas aulas em que o professor recorre aos meios audiovisuais, quer se trate da simples introdução na aula de um meio audiovisual relativamente simples - como é o caso do gravador de cassetes ou da projecção de acetatos -, quer de meios tecnológicos mais avançados e sofisticados - caso, por exemplo, da utilização do computador em situação de aula - para motivação, exploração ou documentação de conteúdos programáticos.

É claro que poderá vir a surgir o perigo da passividade, desinteresse e reacção negativa por parte dos alunos. Esta situação é até mesmo muito provável de vir a acontecer, se o professor cair na rotina e na monotonia, usando e abusando sistematicamente da mesma técnica e dos mesmos meios audiovisuais. Vejamos uma situação concreta. Suponhamos que um professor de Português, a nível de um curso mais avançado, antes da abordagem de textos líricos, utiliza sempre a mesma estratégia. Antes da análise ideológica e estilística de cada texto, faz sempre ouvir a sua gravação. Ainda que a declamação seja perfeita, ao fim de certo tempo, o procedimento acabará por se tornar rotineiro e monótono, criando o desinteresse nos alunos. O texto terá muito mais impacto se for ouvido declamar correctamente, ao vivo, pelo próprio professor ou por um aluno que o tenha previamente preparado e que possua sensibilidade e jeito para declamar. E o que se passa com a audição de um poema, poderá ocorrer noutras situações e a níveis diferentes de ensino. Toda a repetição, seja ela recorrendo aos meios mais sofisticados, quer não, acabará sempre por redundar em saturação e fracasso. Por isso, competirá sempre ao professor a escolha criteriosa da altura em que os meios audiovisuais deverão ser introduzidos na aula, bem como a selecção dos mais adequados, tendo em conta os objectivos, os níveis e os interesses da turma. Por muito simples ou muito sofisticados que sejam os meios utilizados, a sua maior ou menor adequação estará sempre dependente dos critérios, das estratégias adoptadas pelos professores, e dos objectivos que se pretendem alcançar.

Do ponto de vista psicológico, os meios audiovisuais e tecnológicos baseiam-se sempre em dois factores de primordial importância para a aquisição de conhecimentos: o sentido visual e o sentido auditivo. Ninguém terá qualquer dúvida de que estes dois sentidos se sobrepõem de maneira relevante aos restantes, constituindo as duas principais vias de acesso à observação e apreensão da realidade.

Consequentemente, os meios audiovisuais fornecem ao aluno uma representação mais vivida e concreta da realidade, com um maior cunho de veracidade, propiciando o estímulo sensorial tendente à criação de centros de interesse para uma ou mais lições. Podem funcionar como uma forte motivação para o estudo, permitindo aulas com muito mais interesse e prendendo a atenção de todos os alunos, mesmo os mais distraídos e com maiores dificuldades de compreensão. Em certas áreas disciplinares, poderão mesmo constituir a melhor maneira de mostrar os factos e os fenómenos, já que uma imagem adequada poderá dizer muito mais que mil palavras. E alguns meios actualmente existentes poderão mesmo funcionar como complemento e reforço das aquisições das aulas. Neste aspecto, os mais avançados, como é o caso dos meios informáticos, poderão funcionar como reforço e complemento do trabalho da aula, permitindo ao aluno, por si só e de acordo com o seu próprio ritmo de aprendizagem, o reemprego e treino de determinados conhecimentos e competências. O único entrave a este aspecto está no reduzido software didáctico actualmente existente e na pouca eficácia de muitos dos poucos programas criados para  o ensino assistido por computador, agravado pelas deficientes estruturas do actual ensino neste domínio.
   In: Henrique J. C. de Oliveira, Meios audiovisuais e tecnológicos aplicados ao ensino, Aveiro, 1992, pp. 7-12. (edição limitada do autor).  

 

 

 

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