Testemunhos

Após muitos anos dedicados à educação e à coordenação da Escola Básica n.º 2 de S. Bernardo, Eugénia Simões prepara-se para iniciar uma nova etapa da sua vida: a aposentação. Esta entrevista pretende revisitar o seu percurso profissional, as memórias mais marcantes e a visão que construiu sobre a escola, os alunos e a comunidade educativa ao longo dos anos.

1. Quando olha para trás, o que sente ao recordar o início da sua carreira na educação? O que a motivou a escolher a profissão docente? Imaginava, nessa altura, que viria a assumir funções de coordenação?

Encarei o início da minha carreira com muitas expetativas, tendo em conta uma enorme motivação para o exercício da profissão de docente, que sempre desejei. Foram anos de grande aprendizagem, entusiasmo e também alguns desafios naturais de quem inicia um percurso profissional tão exigente.

A escolha da profissão docente surgiu precisamente da vocação que sempre senti para ensinar, ajudar e acompanhar os mais jovens no seu desenvolvimento. Acreditei e continuo a acreditar no poder transformador da educação e no papel fundamental da escola na formação das pessoas e da sociedade.

As várias funções e cargos que exerci ao longo da minha carreira foram surgindo naturalmente, fruto da experiência adquirida ao longo dos anos, do trabalho em equipa e da vontade de contribuir de uma forma mais ampla para o funcionamento da escola e para o apoio aos colegas e alunos.

2. Ao longo destes anos na Escola Básica n.º 2 de S. Bernardo, quais foram os momentos mais marcantes da sua carreira? Há algum episódio ou projeto que guarde com especial carinho? Recorda algum desafio particularmente difícil de ultrapassar?

Os momentos mais marcantes foram, sem dúvida, aqueles em que vi os alunos crescerem não só academicamente, mas também como pessoas. Guardo com muito carinho os projetos realizados em conjunto com a comunidade escolar, especialmente atividades culturais e solidárias que uniram professores, alunos e famílias. Também foi muito gratificante acompanhar antigos alunos e perceber o impacto positivo que a escola teve nas suas vidas.

Um dos maiores desafios foi lidar com períodos de mudança significativas, nomeadamente ao nível das exigências educativas e tecnológicas. A vivência do período da pandemia é disso um exemplo paradigmático. No entanto, esses desafios favoreceram o desenvolvimento de capacidades de adaptação, autonomia e resiliência.

Os desafios com que me fui confrontando assumiram uma componente muito relevante no contexto do meu desenvolvimento profissional integral. Penso que fui sempre capaz de me adaptar a essas novas e crescentes exigências, apesar da sua grande diversidade e complexidade.

A esse desenvolvimento não é alheio o facto de 25 anos da minha carreira terem sido passados na mesma escola, EB 2 de S. Bernardo, sendo que há 11 anos que exerço o cargo de Coordenadora da mesma.

3. Como descreveria a evolução da escola e da comunidade educativa desde que começou funções? Que mudanças considera mais significativas? Como viu transformar-se a relação entre escola, famílias e alunos?

A escola evoluiu bastante, tanto ao nível dos recursos materiais e pedagógicos, como das metodologias de ensino. Houve uma maior abertura à inovação, à inclusão e à participação ativa dos alunos. Uma das mudanças mais significativas foi precisamente a transformação da relação entre escola, famílias e alunos.

Atualmente existe uma maior proximidade e participação das famílias na vida escolar, o que é muito importante para o sucesso educativo dos alunos.

Ao mesmo tempo, os desafios também se tornaram diferentes. Os alunos vivem hoje numa realidade mais exigente e acelerada, o que obriga a escola a adaptar-se constantemente. Ainda assim, acredito que a essência da educação continua a ser a mesma: ensinar com dedicação, formar cidadãos responsáveis e criar relações humanas positivas dentro da comunidade escolar.

4. Ser coordenadora de estabelecimento implica muitas responsabilidades. O que foi mais exigente nesse cargo? E o que lhe deu maior satisfação? Como procurou criar um ambiente positivo entre docentes, assistentes operacionais e alunos?

Naturalmente que o exercício do cargo de coordenação comportou uma elevada exigência, em especial quanto à organização e gestão da escola, o que constituiu, desde o início, um fator de particular motivação.

Sempre vi no exercício desse cargo um espaço fundamental para uma sempre desejável harmonização ao nível de toda a comunidade educativa. Foi especialmente gratificante o reconhecimento do trabalho realizado, desde logo, pela Direção do Agrupamento, da qual senti sempre um enorme apoio, mas também pelos nossos alunos, colegas,
pais/Encarregados de Educação funcionários e os restantes membros da comunidade.

Claro que houve momentos mais difíceis, mas foi sempre possível conseguir conciliar as diferentes necessidades e expectativas de toda a comunidade, procurando sempre manter um ambiente equilibrado e harmonioso.

No fim, o que sempre me deu maior satisfação foi sentir que contribuí para criar um ambiente de respeito, cooperação e entreajuda dentro da escola. Sempre procurei valorizar o trabalho de todos e promover relações humanas positivas.

5. A escola é feita de pessoas. Que importância tiveram as relações humanas no seu percurso profissional? Que mensagem gostaria de deixar aos colegas com quem trabalhou? Há alguém que tenha sido particularmente inspirador no seu percurso?

As relações humanas foram fundamentais em todo o meu percurso. Trabalhar em equipa, partilhar experiências e construir laços de confiança tornou a minha vida profissional muito mais rica e significativa. Aprendi muito com colegas, alunos e famílias.

Gostaria de deixar uma mensagem de agradecimento a todos aqueles com quem trabalhei. Cada pessoa contribuiu, de alguma forma, para o meu crescimento pessoal e profissional e houve colegas que foram verdadeiras inspirações, pelo exemplo de dedicação, humanidade e profissionalismo que sempre demonstraram.

Claro que não posso deixar de formular um especial agradecimento à confiança e permanente apoio que sempre senti, da Dra. Glória e do Dr. Fernando que foram os Diretores com quem trabalhei ao longo de muitos anos da minha carreira e aos quais sempre estarei muito grata.

6. Os alunos mudaram muito ao longo das últimas décadas? Que diferenças encontra entre os alunos de antigamente e os de hoje? O que acredita que continua igual, apesar das mudanças?

Sim, os alunos mudaram bastante, sobretudo devido às transformações sociais e tecnológicas. Hoje têm acesso a muito mais informação e são mais rápidos na comunicação, mas também enfrentam novos desafios, como a distração digital e maior pressão emocional. Apesar dessas mudanças, continuam a precisar do mesmo: atenção, compreensão, motivação e exemplos positivos.

7. Como vive este momento de despedida da vida profissional?A aposentação é encarada com nostalgia, alívio, entusiasmo… ou um pouco de tudo? O que pensa que mais vai sentir falta no quotidiano escolar?

Vivo este momento com um misto de sentimentos: nostalgia pelos muitos anos dedicados à escola, gratidão pelas experiências vividas, mas também serenidade e entusiasmo por uma nova etapa da vida. A aposentação representa o encerramento de um ciclo muito importante, marcado por aprendizagens, desafios e muitas conquistas humanas e profissionais.

O que mais vou sentir falta será, sem dúvida, o convívio diário com os alunos, colegas e toda a dinâmica da escola. A energia dos jovens, as conversas, os projetos partilhados e o sentimento de fazer parte de uma comunidade educativa deixam marcas muito especiais.

8. Que projetos ou sonhos pretende agora concretizar nesta nova etapa da vida? Há hobbies, viagens ou atividades que gostaria de desenvolver? Pretende manter alguma ligação ao meio educativo?

Pretendo dedicar mais tempo à família, viajar, ler e desenvolver alguns hobbies que, ao longo dos anos, foram ficando em segundo plano devido às exigências profissionais. Também gostaria de aproveitar este tempo mais para mim, aprender coisas novas e viver com mais tranquilidade.

9. Que conselho gostaria de deixar às novas gerações de professores e coordenadores? O que considera essencial para exercer esta profissão com dedicação e humanidade?

Diria às novas gerações que nunca percam a paixão por educar e a dimensão humana da profissão. Ser professor é muito mais do que transmitir conhecimentos: é acompanhar, ouvir, orientar e inspirar. Considero essencial exercer esta profissão com dedicação, empatia, paciência e respeito pelos alunos. É importante acreditar no potencial de cada jovem e compreender que, muitas vezes, um gesto de apoio ou uma palavra de incentivo pode fazer toda a diferença na vida de um aluno.

10. Para terminar: se tivesse de resumir a sua experiência na escola numa palavra ou numa frase, qual escolheria?

Uma vida dedicada à educação! Missão cumprida!


A comunidade educativa agradece o empenho, a dedicação e o contributo de Eugénia Simões ao longo de tantos anos de serviço. O seu percurso permanecerá ligado à história da Escola Básica n.º 2 de S. Bernardo e à memória de muitos alunos, colegas e famílias.
 

 

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