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Qual foi o momento mais marcante ou
difícil que viveu nos cargos de direção que foi assumindo?
Gerir uma escola em requalificação,
conseguindo manter um mínimo de qualidade durante as obras e, ao
mesmo tempo, preparar um edifício para o futuro, foi sem dúvida a
situação mais desafiante que vivi enquanto diretor. Havia a
segurança, havia que tomar decisões sobre as obras, havia que andar
de olho nos trabalhos que eram feitos, nem sempre bem, como ainda
hoje se pode constatar,
pelos problemas que a Escola Secundária José Estêvão continua a ter.
O grande problema da requalificação da José Estêvão foi o tempo
limitado que houve para o planeamento e execução da obra, três anos
entre o lançamento da obra e a conclusão dos trabalhos. Vale a pena
citar a própria Parque Escolar E.P.E, em relação aos seus objetivos:
«A passagem de um modelo de ensino exclusivamente centrado no
professor, isto é, num modelo expositivo, baseado na transmissão de
conhecimentos (aprendizagem passiva), para um modelo de ensino
baseado em práticas pedagógicas de natureza colaborativa e
exploratória (aprendizagem ativa), suportadas em exercícios de
investigação, recolha de informação e experimentação
laboratorial/simulação; produção de artefactos e realização de
relatórios e discussão/comunicação. Tais práticas requerem uma maior
permanência de alunos e de docentes na escola e a presença de
espaços adequados.» Era esta a escola sonhada em 2009.
O que gostaria de ter tido a
oportunidade de fazer na / pela Escola e não conseguiu?
Quem, como eu, caiu, sem qualquer tipo
de preparação, à frente de uma Escola de referência como era a
Escola Secundária José Estêvão, ainda para mais sucedendo no cargo
ao um nome maior de dedicação à causa pública como foi Arsélio
Martins (primeiro Professor do Ano em Portugal), tenho de reconhecer
que houve tanta coisa por fazer que enumerar seria fastidioso. Na
falta de preparação para a gestão, sobrou dedicação e empenho. Mas
se houvesse algo a destacar que ficou por fazer, sem que se possa
dizer que a responsabilidade fosse minha, eu diria que foram os
erros cometidos na execução das obras de reabilitação. É imperdoável
que chova nos corredores, que as campainhas não funcionem ou que
haja humidade em certas paredes. Tantos milhões depois, havia que
entregar uma escola imaculada ao futuro. Infelizmente não foi
possível, e agora é difícil corrigir esses erros.

Que desafios atuais da educação
considera mais preocupantes e/ou urgentes?
O maior desafio que atualmente a
educação enfrenta tem a ver com a falta de professores. É penoso
ouvir as notícias de alunos sem aulas, depois de décadas de não
haver colocação para os professores que se iam formando. Parece não
ter havido quem calculasse as necessidades de professores para o
futuro, e não se / 8 / foram formando professores em número
suficiente. Agora há que não perder tempo e ministério e
instituições de ensino superior devem fazer os possíveis para a
situação não se agravar. Por um lado, as instituições de ensino
superior têm de abrir as vagas suficientes para suprir as
necessidades. Por outro lado, é necessário tornar mais atrativa a
profissão, para que as novas gerações se sintam atraídas para o
magistério docente. Eu disse magistério e não profissão, pois é
disso que se trata. Talvez as negociações sobre a Revisão do
Estatuto da Carreira Docente, em curso, sejam a oportunidade para
que tal aconteça.
O nosso agrupamento recebe anualmente
professores estagiários de várias áreas, nomeadamente de História.
Que palavras gostaria de dirigir a quem agora chega ao ensino?
Que se sintam atraídos para a causa da
educação. Que não desistam ao primeiro embate com a realidade. Que
continuem a obra que gerações ajudaram a criar. Que acreditem em si,
nos nossos alunos, em todos os nós, para que a educação em Portugal
ajude o país a sair da cepa torta. Porque esse é o nosso desígnio.
Porque o país merece o desenvolvimento que ainda não teve.
Numa passagem do livro "Memorial de
Aires", de Machado de Assis, diz-se que "nada há pior que (...)
gente aposentada; o tempo cresce e sobra e, se a pessoa pega em
escrever, não há papel que baste".

Já tem projetos para esta nova fase?
Escrever poderá ser um deles?
Nós estamos aposentados, não somos
aposentados. Ainda não senti o tempo sobrar, mas esta entrevista,
sendo o primeiro ato de escrita enquanto aposentado, parece dar
razão ao Machado de Assis: não houve papel que bastasse. Para já não
há projetos a não ser o cumprimento de um dos objetivos da minha
vida: viver cada
momento como se fosse único. Depois, o futuro o dirá.
Qual é a memória mais bonita que leva da Escola? E do AEJE?
Talvez aquela que acabou por ser a minha
última aula. Quando admiti a possibilidade de ser aquela a aula
derradeira, vi gente
feliz com lágrimas. Isso bastou-me e também me humedeceram os olhos.
Não tive
oportunidade de lhes passar a canção com que muitas vezes acabava o
ano letivo:
Vera Lynn, a voz que deu esperança aos soldados na Segunda Guerra,
no tema «We'll Meet Again». Aqui fica, para eles, e para todos vós. E já
agora, que estamos
em maré de canções, aqui fica outra que também remonta à Segunda
Guerra
Mundial e que é muito mais do que o hino do Liverpool: «You'lI Never
Walk Alone».
Alda Oliveira, Maria Sofia Fernandes e Sandra Ramos
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