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Que motivações o levaram a escolher a
carreira docente e, em particular, a disciplina
de História?
A escolha de uma profissão não é um assunto linear. A nossa história
de vida
faz-nos tomar decisões que muitas vezes não estavam previstas.
Veja-se o meu
caso. A minha primeira decisão com consequências previsíveis na
minha profissão
foi tomada no verão de 1974. Tinha acabado o Curso Geral dos Liceus
e havia que
decidir a área de estudos nos Cursos Complementares. O plano de
estudos destes cursos era constituído por seis disciplinas, três comuns a todos os
cursos,
Português, Filosofia e Introdução à Política, que tinha acabado de
substituir a
Organização Política e Administrativa da Nação, duas disciplinas
nucleares, no meu
caso Físico-Química e Matemática, e ainda uma disciplina de opção,
no meu caso a
Geografia. Tudo apontava que viesse a ser engenheiro e a docência
era algo que
nunca me tinha passado pela cabeça. Acontece que fui admitido ao
exame de
Matemática, porque
não atingi os 14 valores que me tinham permitido dispensar do exame.
Este exame,
feito em 1976, valia cem por cento e como não tirei positiva,
reprovei à disciplina.
Fiquei assim com o Curso Complementar incompleto, o que ainda assim
me
permitia inscrever no Serviço Cívico tentar fazer a Matemática no
ano seguinte.
Acontece que a Revolução tinha chegado ao fim e a fome de viver era
enorme. Eu e
alguns amigos resolvemos emigrar. Tinha familiares na Venezuela e
decidi fazer-me
à vida. Interrompi os meus estudos durante algum tempo, mas
regressei a Portugal
em 1978, ainda a tempo de concluir o Curso Complementar e fazer os
exames do
Ano Propedêutico, como autodidata. Substitui a Matemática pela
disciplina de
História e ingressei na Faculdade de Letras da
Universidade de Coimbra no final do ano de 1978, onde me licenciei
em História.
Durante a frequência do Curso de História comecei a admitir ser
professor, porque
era a possibilidade mais real para quem estava a tirar a
licenciatura em História. Em
conclusão, fui professor por acaso, não por uma vocação que
estivesse escrita nas
estrelas.
Como avalia o lugar da História na escola atual, tendo em conta, por
exemplo, o
avanço da Inteligência Artificial?
A carga letiva de História tem sido sacrificada, particularmente no
Ensino Básico, ao
longo das diversas revisões curriculares dos últimos quarenta anos.
Quando eu
comecei a lecionar, em 1982, naquilo que é hoje o 3.0 Ciclo do
Ensino Básico, todos
os anos tinham a mesma carga horária: 150 minutos, 450 minutos,
portanto, na
totalidade. Hoje, no nosso Agrupamento, a carga letiva do 3.º Ciclo
é de 360
minutos. São 90 minutos a menos, para programas em tudo similares.
Mas não é só
essa perda relativa de importância, por via da diminuição da carga
letiva. É, acima
de tudo, a desvalorização que a sociedade faz de tudo o que é
histórico que me
preocupa. Sem referenciais do passado, tudo se relativiza. Nestes
tempos
complexos por que estamos a passar, ter referenciais do passado é
fundamental. Ou
será que não estão à vista de todos as semelhanças entre o nosso
tempo e os anos
20 e 30 do século passado? Convém não esquecer como é que a coisa
acabou.
Quanto ao papel que a Inteligência Artificial (IA) possa
eventualmente ter na Escola
atual, não me parece que seja algo que devamos ter como obviamente
positivo. A IA
pode ser de grande utilidade para os docentes e os alunos se
utilizada de forma / 6 /
comedida. Substituir professores por tutores de IA não deve ser o
caminho. Já
agora, e porque virá a talho de foice, mesmo antes da IA fazer o seu
caminho,
enveredámos por caminhos que são verdadeiros atalhos. Os suecos,
pioneiros nos
livros digitais, estão a regressar ao
papel e lápis. As experiências com manuais digitais devem ser
ponderadas e
mesmo as reutilizações dos manuais escolares devem ser questionadas.
O manual
deve ser para
os alunos escreverem, sublinharem, apontarem, anotarem, e não para
entregar
imaculado para que outros o possam utilizar.
Foram imensas as mudanças que o Ensino foi sofrendo ao longo destes
30 anos.
Quais destaca como positivas e como negativas?
A mais positiva das mudanças dos últimos 30 anos foi o alargamento
da
escolaridade obrigatória, ao tornar universal, com décadas (?) de
atraso, primeiro o
ensino
básico e mais tarde o secundário. Em 1982, a escolaridade
obrigatória em Portugal
não passava de seis anos. Em França, já desde o final do século XIX
(1882) era
obrigatório que os franceses tivessem 6 anos de aprendizagem. E
desde 1959 que
a escolaridade obrigatória chegava aos 16 anos. E em Portugal?
Chegámos ao 25
de Abril com mais de 30 por cento de analfabetos. Só no final dos
anos 60 a
escolaridade obrigatória passara para seis anos, mas obrigatória só
no papel,
porque muitos portugueses não a cumpriam. Veiga Simão tinha um
projeto de
passar a escolaridade obrigatória para oito anos, projeto que ficou
na gaveta com a
Revolução. Só no início dos anos 90 é que se efetivou a passagem do
ensino
obrigatório para 9 anos e será já deste século o alargamento da
escolaridade
obrigatória ao ensino secundário. Este é,
pois, um dos maiores feitos da democracia, a par da Serviço Nacional
de Saúde.
Infelizmente com este alargamento da escolaridade obrigatória,
assistiu-se à
degradação das condições socioeconómicas da classe docente e do seu
estatuto
social. Hoje ser professor não tem a relevância que já teve e a
atratividade da função
docente é hoje muito limitada.
Qual foi o maior desafio que enfrentou
na Escola ao longo da sua carreira enquanto professor?
É difícil escolher, numa carreira de 43
anos, aquele que terá sido o maior desafio. Houve momentos
marcantes. Houve situações desafiantes, nas aulas, ou em atividades
não letivas nas diversas escolas por onde passei. Mas talvez o maior
desafio tenha sido a gestão de problemas relacionados com a Direção
de Turma. Entre eles uma ocasião se destaca. Um dia em plena aula,
uma aluna faz-me um pedido compreensível. Tendo ela dado uma falta
injustificada, que não era costume, pede-me para não comunicar tal
facto à sua mãe, que nesse dia viria à escola. Sem me dizer por que
tinha faltado, mas estando com ar comprometido, atirei de chofre
"Não me digas que estás grávida?': Respondeu que sim, tendo eu, a
partir desse momento, que gerir essa informação. Tudo acabou em bem,
a criança nasceu, a jovem continuou a estudar, os colegas e os
professores ajudaram durante o período em que esteve ausente, acabou
o 12.0 ano e continuou estudos no Ensino Superior. Enfim, tudo
correu pelo melhor.
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