ACTUALIDADES

Na Rússia

APEADO da presidência do conselho de ministros Goremykine, que, como toda a gente previra, nada conseguiu fazer, o czar substituiu-o por Stolypine e desde logo se ergueu em toda a Rússia um coro de imprecações contra o trono, a breve trecho apoiado pela voz uníssona da imprensa mundial. Esse murmúrio universal de protesto tinha toda a razão de ser porquanto Stolypine é, nem mais nem menos, um Goremykine... mais reaccionário ainda. Assim, conquanto se apresentasse como liberal, começou logo por suprimir tudo quanto havia sido concedido pelo manifesto de 30 de Outubro: a liberdade de imprensa, a liberdade de reunião e a inviolabilidade individual; por último, violou os ukazes constitutivos da Duma, fazendo promulgar pelo imperador os créditos que o parlamento se recusara a votar, quer dizer, em pouco menos de dois meses, arrebatou aos cidadãos russos as poucas garantias concedidas pelo czar, num momento de pânico. Entretanto, continuava a afirmar com ostentação que fazia / 254 / governo liberal. «É um liberalismo que condena a liberdade a trabalhos forçados», dizia ultimamente o Temps, apreciando a marcha da política de Stolypime.

Em presença disto, não admira que os terroristas se lançassem de novo numa feroz campanha de extermínio que, dia a dia, assume proporções mais trágicas e ameaça transformar a Rússia num montão de ruínas. Já dela mesma foi vítima o próprio primeiro-ministro, que, ainda há bem pouco tempo, viu ir pelos ares, à força de dinamite, a sua casa de campo e nos escombros dela ficaram sepultadas 22 pessoas, contando-se entre os feridos os seus próprios filhos.

A autocracia procura, é claro, defender-se do novo arranco revolucionário e, assim, das 87 províncias em que se divide o império moscovita, 82 estão já sujeitas à lei marcial. Mas estamos em crer que, a despeito de todos os seus esforços nada conseguirá. Chegadas as coisas ao ponto em que se encontram, o dilema está posto para ela: ou submete-se, ou morre!

 

A Igreja e a França

VOTADA pelo parlamento a lei de separação da Igreja do Estado, toda a França aguardou, com um natural interesse, as resoluções que, em presença do novo estado de coisas, tomaria a Cúria romana. O parto foi laborioso – e só ao fim de longas hesitações, consultas e balões de ensaio, o papa deliberou dizer da sua justiça. Como? Prégando a resistência. Pio X pôs-se à frente daqueles que entendem dever explorar para fins políticos a lei de separação e que, sem se importarem com os interesses religiosos, só cuidam em excitar fanatismo contra a República.

Tudo indicava ao pontífice o dever e a necessidade de ser prudente e de procurar tirar do novo regime as vantagens que logicamente dele podia obter – porquanto a única probabilidade da salvação para a Igreja em França estava na aceitação leal e sincera da lei. Em vez disso, porém, o papa, na sua encíclica aos católicos franceses, preconiza a guerra religiosa, prega a hostilidade sistemática ao governo republicano, não consentindo que se constituam as associações cultuais, às quais deviam ser devolvidos os bens da Igreja. Não se lembrou que dessa maneira, coloca o clero / 255 / francês fora da lei, e que o governo dispõe de meios práticos para o reduzir rapidamente à impotência, como seja, por exemplo, a supressão das pensões.

Procedendo assim, o papa contou evidentemente com o generoso concurso dos fiéis, mas nisso consiste o seu principal erro, pois que, à hora presente, o sentimento religioso em França já não é de molde a conduzir a grandes sacrifícios.

Foi, enfim, uma falta grande, que compromete irremediavelmente o futuro da Igreja em França. Nela, decerto, não teria caído o espírito lúcido de Leão X…

 

Eduardo VII e Guilherme II

 A entrevista, realizada a 15 de Agosto, em Friedrichskoff, do rei de Inglaterra e do imperador da Alemanha, tem feito correr muita tinta por esse mundo de Cristo. Diversos jornais estrangeiros pretenderam ver nela o termo das hostilidades abertas há longo tempo entre os dois países e o início de uma nova era de bom entendimento, porquanto, explicavam, foi a primeira vez, depois de dois anos, que Eduardo VII consentiu em encontrar-se com seu sobrinho, não o tendo sequer feito o ano passado quando atravessou o território germânico para ir fazer a sua habitual cura de águas em Marienbad. Mas a imprensa inglesa acudiu logo para, sorrateiramente, afirmar que a entrevista dos dois soberanos não tivera o menor alcance político.

Ao mesmo tempo, os jornais franceses anunciaram, com uma tal ou qual ostentação, que, no seu regresso à Grã-Bretanha, o rei Eduardo deter-se-ia em Paris. A imprensa alemã, que até aí conservara sobre o caso uma atitude dúbia, não teve então remédio senão confirmar abertamente as declarações da sua confrade de além-Mancha. A oficiosa “Gazeta de Voss”, por exemplo, chegou a exprimir-se assim: «A entrevista resumiu-se nisto: troca de cumprimentos e de apertos de mão».

Foi essa, em última analise, a versão aceite por todos. Ela era, de facto, a mais racional, porquanto, a despeito de todos os protestos oficiosos em contrário, a Alemanha e a Inglaterra não se podem ver. Sem dúvida, a entrevista terá servido para atenuar, até certo ponto. o efeito produzido pelas mútuas agressões – mas nada mais. Nem o povo alemão está identificado com os actos do kaiser, nem Eduardo VII, que molda rigorosamente os seus pelas indicações que em todos os actos da sua vida lhe dá o povo inglês, iria fazer uma coisa que a este profundamente repugnaria.

 

A Constituição do Transval

A Inglaterra cumpriu a sua palavra. Comprometera-se ela, ao sair vitoriosa da guerra sul-africana, a dar, num futuro o mais possível próximo, uma constituição ao Transval. Durante a estada no poder do partido conservador que tomara esse compromisso, não foi ele satisfeito, mas logo que assumiu a direcção dos negócios públicos o partido liberal, o chefe do governo Sir Henri Campbel Banerman, anunciou que se propunha saldar essa dívida quanto antes.

Acaba de fazê-lo. A câmara dos comuns aprovou, ultimamente, em primeira leitura, e por 316 votos contra 83, o projecto que nesse sentido lhe fora apresentado pelo Sr.. Winston Churchill. Estabelece ele a igualdade absoluta entre boers e ingleses, que, por isso, gozarão dos mesmos privilégios e dos mesmos direitos.

É instituído um Parlamento, com duas câmaras: a primeira compreenderá 70 deputados, retribuídos, (34 pelo Rand, 6 por Pretória e 20 pelo resto do Transval) eleitos por todos os cidadãos maiores de 21 anos, e que tenham mais de seis meses de residência no Transval. A câmara alta compor-se-á de 15 membros que, para a primeira sessão legislativa, serão nomeados pela coroa, mas depois serão eleitos, como os deputados. As línguas oficiais no parlamento serão o inglês e o holandês.

O projecto estabelece que o recrutamento da mão-de-obra chinesa cesse a partir do dia 13 de Novembro, sendo abrogada a lei que o facultou.

 

O naufrágio do «Sírio»

UM grande sinistro marítimo, dos maiores que a história náutica regista, tornou tristemente célebre o dia 5 de Agosto último. Procedente de Barcelona e de Nápoles, seguia pelo Mediterrâneo, em direcção à República / 256 / argentina, o paquete italiano Sírio, quando, ao passar em frente de Cartagena, foi, por erro do comandante, de encontro ao baixio das Formigas, afundando-se imediatamente.

O Sírio transportava 800 pessoas, a maior parte das quais emigrantes. E, apesar dos extraordinários esforços dos tripulantes dos navios que acorreram em seu auxílio, não houve meio de evitar que 300 deles fossem tragados pelo mar.

Valparaíso destruída

ALEM da catástrofe do Sírio, uma outra, incomparavelmente maior, veio assinalar o mês de Agosto este ano. Referimo-nos ao pavoroso terramoto que no dia 16 destruiu quase completamente a bela cidade chilena de Valparaíso, ocasionando a morte de 2.100 dos seus habitantes. Os pormenores dessa horrível catástrofe, publicados nos jornais, são de natureza a comoverem ainda os menos impressionáveis. Mas só o facto em si, laconicamente apontado, basta para fazer estremecer de horror toda a humanidade e despertar em todos os corações o mais puro e legítimo sentimento de piedade e simpatia por esse nobre e valoroso povo chileno que, com o seu esforço e a sua inteligência, tem sabido conquistar na história da civilização um lugar invejável.

 

As eleições em Portugal

ENCONTRANDO-SE no poder o jovem partido regenerador-liberal, cujo chefe e chefe do governo, Sr. João Franco, atacara, na oposição, com a máxima violência, a lei eleitoral vigente, feita por um ministério progressista, supôs toda a gente, a princípio, que ele não se serviria desse diploma para regular a eleição do parlamento com que devia passar a governar.

Todavia, o Sr. João Franco declarou desde logo que não podia prescindir do concurso dessa lei, porque não queria iniciar a vida nova da política portuguesa com uma ditadura. E foi assim que as eleições se efectuaram no dia 19 de Agosto, seguindo-se à risca a letra da lei progressista.

Entretanto, o presidente do Conselho de Ministros, talvez para honrar o seu programa de governo, mas decerto também para atenuar o péssimo efeito produzido na opinião pública por aquela determinação, que fora recebida como um primeiro acto de vassalagem aos antigos processos governativos, afirmou solenemente que, dentro dos limites, aliás estreitíssimos, marcados na lei, seriam respeitados no acto eleitoral os direitos de todos os partidos.

E foram – até certo ponto. Com efeito, o eleitorado da capital, que há alguns anos vinha dando a maioria dos seus votos a candidatos republicanos, viu, pela primeira vez, que, dentro dos tais limites, a sua vontade era respeitada. E assim, saíram eleitos por Lisboa quatro deputados daquela cor política.

A entrada desses quatro homens no parlamento português, acalmando, por um lado, a irritação que vinha lavrando no partido republicano, não vem pôr em perigo imediato a existência das instituições. Ao contrário, inteligentes e patriotas como todos eles são – e os seus próprios adversários o reconhecem – poderão colaborar com elas, em certa medida, na obra da regeneração de Portugal.

 

 

 

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