Eduardo Cerqueira, Um aveirense ilustre: Marques Gomes, Vol. XIX, pp. 149-155.

JOÃO AUGUSTO MARQUES GOMES

UM AVEIRENSE ILUSTRE QUE VIVEU PARA O PASSADO SERVINDO O FUTURO

FREQUENTADOR curioso e atento dos escritos de temas aveirenses, e por amadorismo me aventurando nesses domínios com relativa assiduidade, ainda que ao acaso dos estímulos ocasionalmente mais prementes, a cada passo topo nas minhas digressões de retrospectivos intentos com o mais diligente e operoso de todos os esmerilhadores das antiguidades de Aveiro − o investigador, historiador e crítico JOÃO AUGUSTO MARQUES GOMES − e dele me socorro com incessante aprazimento e vantajoso resultado. O meu aveirismo colheu repetidos incentivos na lição da sua obra, nutriu-se em larga medida dos seus ensinamentos e, uma por outra vez, logrou germinar, na sombra do roble, em alguns rebentos tenros e tamaninhos.

Ao anotar-lhe o centenário, apenas me deterei com mais extensão a dar balanço aos múltiplos motivos da minha admiração permanente. Não me proponho esboçar uma biografia, nem elaborar uma análise da sua obra − que aliás se impõe efectivar com zelo e carinho. Modesta e singelamente pretendo tão-somente afirmar um propósito de homenagem e um sentimento de gratidão, e avigorar uma chama votiva; desejo exprimir o louvor e o preito ao estudioso infatigável que, por mais de meio século, se dedicou a esquadrinhar documentações dispersas e esquecidas, a registar acontecimentos, e a apreciá-los e dispô-los em orientada escala de valores relativos, a reconstituir os pretéritos eventos e a reavivá-los para nosso esclarecimento e nossa ilustração e para maior afervoramento e consciencialização do nosso bairrismo.  / 150 /

MARQUES GOMES nasceu em Aveiro − a 6 de Fevereiro de 1853(1) − e foi fundamentalmente um arreigado aveirense. A sua notoriedade como cultor dos assuntos históricos resultou mais, decerto, das volumosas e pormenorizadas obras sobre o constitucionalismo, período em que se especializara e se tornara uma escutada autoridade. Dele patenteou um lato, profundo e rigoroso conhecimento, da soma de minúcias construindo o trabalho de conjunto, tanto nas Lutas Caseiras (1894) − que OLIVEIRA MARTINS qualificou como «um trabalho nimiamente sugestivo» e «um bom serviço à história contemporânea» − como no XII volume da História de Portugal, Popular e Ilustrada, de PINHEIRO CHAGAS (Empresa da História de Portugal, 1907), inteiramente devido à sua pena erudita e conceituada. Mas as suas incursões no domínio da história nacional − apesar da sua relevante valia e de constituírem, porventura, a parcela de maior projecção e fôlego da sua actividade de escritor − e os diversos estudos sobre motivos alheios à sua terra, se firmaram mais solidamente a sua nomeada, quase podem considerar-se como uma diversão das suas predilecções mais gratas e absorventes, e colocar-se no âmbito do episódico.

Na verdade, a atenção desvelada, o interesse mais pertinaz, o mais acendrado entusiasmo, a mais profunda afeição e os cuidados e canseiras mais prolongados e intensos, dedicou-os ao berço natal e a reerguer-lhe, em laudas inumeráveis de prosa, o gráfico sinuoso da evolução plurissecular. Não houve, por assim dizer, manuscrito, registo ou publicação em que algum dia não pousassem os seus olhos de esquadrinhador insaciável, nem monumento a que não conhecesse os últimos escaninhos e esconsos, nem peça de arte de que / 151 / menosprezasse a génese e os circunstanciais acidentes ou desestimasse o merecimento estético. Quase nenhum vulto da região deixou de merecer-lhe o encómio devido, nenhum grande acontecimento ficou por assinalar, nenhuma tradição por justificar e descrever. A sua fervorosa aplicação aos estudos aveirenses do passado tocou todos os aspectos, e a revelação escrita de quanto encontrou e apontou forma um caudal imenso, uma inexaurível arca repleta de notícias e ensinamentos.

Viveu na História mais do que viveu na vida. Mas da vida das comunidades só vale o que potencialmente contém história. E quem narra a História, e a estratifica e estrutura, prolonga a vida, multiplica-a nas gerações do porvir. Essa a razão pela qual amiudadas vezes tão dilatadamente se perpetua o nome do que relata as acções como o daquele mesmo que as pratica, e outras tantas só resta conhecimento deste através do primeiro.

Em MARQUES GOMES a historiografia representava uma genuína vocação. Aos vinte anos, na idade em que as suscitações da pujança física primam às preocupações do espírito e as futilidades transitórias se sobrepõem aos motivos de interesse perdurável, em que se está de frente para o que há-de vir e ainda não conta nem se conta o vivido por nós ou por outrem, entrega-se já denodada e pacientemente − como, em termos de franco louvor e surpresa, então acentuou CÂNDIDO DE FIGUEIREDO − à faina de «revolver empoadas crónicas, decifrar os gregotins dos velhos forais, sondar os mistérios da epigrafia, sentir nas mãos o peso e na pituitária o bafio dos in-fólios heráldicos, numismáticos e etnográficos...». Coligindo e ampliando artigos insertos num periódico local, lança à publicidade em 1875 o primeiro dos seus livros − e ainda hoje um dos mais estimados − Memórias de Aveiro. Haverá por ali, sem dúvida, algum joio, e alguma divagação se poderá acoimar de despicienda. Mas daquele trigo se alimentou por largo tempo a curiosidade e o empenho de conhecer de todos os que à cidade, e à vila que a precedeu, nalgum momento dirigiram os seus pensamentos. E, porque de longe sobrelevam os frutos sazonados às manifestações de inexperiente verdor, três quartos de século depois de sair dos prelos esse livro de estreante é ainda como que o breviário de todos os devotos da história aveirense.

O caminho estava aberto e traçado. Com notável regularidade e persistência seguirá o caminho, e escreverá, sem descanso, durante seis longas décadas. Nessa espécie de saprofitismo ressuscitador, que é uma das características dos narradores do passado, exuma e vivifica da catalepsia amarelecidos papéis que jazem, desde incontáveis tempos, em arrecadações invioladas como sepulcros. Sopra-lhes o pó / 152 / e leva-lhes o sopro que os reanima. E, mercê da sua actividade e do seu gosto e jeito de transmitir o que descobre, Aveiro − especialmente Aveiro − torna-se maior: mostra até que profundidades chegam algumas das suas principais raízes e de onde muitas radículas sorveram o húmus. A cidade que, devido às vicissitudes catastróficas da barra, caíra na mais indigente ruína, e começara a reerguer-se, já no decorrer do século XIX, com aspectos de ilusória modernidade, sofria de uma obnubiladora amnésia colectiva. MARQUES GOMES, na dianteira de todos, recondu-la à consciência do que fora, restitui-lhe a memória perdida, reintegra-a na sequência de uma vida que se afigurava com ilógicas soluções de continuidade.

Com − O Distrito de Aveiro − «Notícia geográfica, estatística, heráldica, arqueológica e biográfica da cidade de Aveiro e de todas as vilas e freguesias do seu Distrito» − trouxe nova e valiosa contribuição para esclarecer não só o passado da sua terra, mas então também o de toda a circunscrição administrativa de que ela é a capital. Editada apenas dois anos mais tarde, e não obstante os limites reservados a cada uma das localidades, revela esta obra uma segurança de orientação, um domínio dos assuntos, um critério de selecção e uma maturidade bem mais pronunciados. E desde então, com maior ou menor desenvolvimento, com objectivos de menor ou maior relevância presta sucessivos e prestimosos serviços à terra que lhe foi berço. Vulgariza a biografia de Santa Joana Princesa; publica estudos sobre individualidades das mais salientes da região, como Mendes Leite, José Estêvão, Manuel Firmino, Jerónimo de Morais Sarmento, D. Manuel Correia de Bastos Pina, e os conselheiros António José da Rocha, Castro Matoso e António Ferreira de Araújo e Silva; celebra os «Aveirenses que morreram, sofreram e combateram pela liberdade»; rememora a contribuição de Aveiro para os movimentos liberais de 1820 e 1828. Entre as diversas monografias que dedicou a questões ligadas a Aveiro, não deve esquecer-se, mesmo num artigo de reduzidos limites de espaço e intenção, a obra Subsídios para a história de Aveiro (1899), a meu ver a mais bem fundamentada e desvendadora que o seu filial carinho lhe ditou, a que mais fundo penetra em certas determinantes, conquanto a confine a um restrito número de aspectos.

Noutro local, e igualmente a pretexto do centenário do seu nascimento, escrevi que a homenagem evocativa a prestar-lhe poderia resumir-se, em termos comezinhos mas com inteira propriedade, e no mais lídimo e justo significado, numa expressão que a ética e a sabedoria populares cristalizaram para designar a reciprocidade do sentimento e da obrigação, quando não mesmo do desforço. A frase do povo diz: «amor com amor se paga». Ora ninguém, na nossa terra, / 153 / acrescentava eu nesse ensejo, mais diligente e devotadamente se afadigou a recordar os homens que se distinguiram por seus méritos e virtudes, e os exalçou e lhes deu publicidade, e procurou credenciá-los para a admiração e memória dos contemporâneos e vindouros. Pagar-lhe na mesma moeda será, mesmo antes de se atentar mais detidamente nos outros títulos com que conquistou o nosso apreço, a contra partida a que ganhou indiscutível direito, o que tem a haver pelo que se lhe deve; digamos, o eco das vozes que lançou para a glorificação de outros vultos eminentes da sua terra e que reverte agora, a seu turno, em sua honra e exaltação. Um homem que possuía o não muito comum predicado de venerar e dar lembrança laudatória dos que em sua volta emergiam da banalidade, até por esse único facto, repito, mesmo que não fossem sobejos os demais motivos para lhe rendermos o nosso preito, não pode esquecer-se, sem desdouro nosso. O que nos deixou, em livros e opúsculos, sobre as individualidades citadas, e, nos periódicos locais, acerca de figuras aveirenses das mais representativas, como Fernão de Oliveira, Edmundo de Magalhães Machado, Manuel de Melo, António Emílio de Almeida Azevedo, José Maria Barbosa de Magalhães, Agostinho Pinheiro, Bento de Magalhães, José Eduardo de Almeida Vilhena e tantos outros, forçosamente se nos inculcará como imperativo exemplo de retribuição. Por mim, numa data em que se vencem os juros do reconhecimento de que lhe sou devedor, pontualmente me apresento a satisfazê-los.

A primeira memória que guardo de MARQUES GOMES vivo é um tanto longínqua e imprecisa. Assomava eu às primeiras iniciativas pessoais de menino da escola, só com olhos no presente e no futuro − que era então muito mais uma perspectiva risonha do que uma incógnita de múltiplas soluções, e talvez nenhuma exacta − quando se me deparou, paredes-meias com a minha aula do extinto convento de Jesus, corpulento e grave, esse homem extremamente dedicado às coisas do passado, que vivia na intimidade delas, e delas me parecia quase uma emanação. Respeitava esse homem supersticiosamente, como uma sobrevivência de um enublado tempo que ficara agarrado às imagens e aos altares, e às paredes, e às sepulturas do velho mosteiro, e deles ressumava com um perfume estranho, inquietador e misterioso.

Aliás, o ilustre aveirense, mesmo quando passei a ter alguma coisa para trás de mim, e ainda agora, quando me comprazo a buscar no passado com que preencher as vagas e os vagares do presente, ficou como que um elo entre as épocas de antanho, envoltas sempre num véu encobridor − embora mais ténue para a minha compreensão de cada vez que repito as minhas investidas inquiridoras por esses domínios / 154 / − e a vida real, do dia a dia labutado, da rua e do ar livre. A cada passo − insisto − que vim a tentar na procura do que existiu e sucedeu no berço comum, a sua erudição de investigador quase exaustivo, em relação às possibilidades de que dispunha, me forneceu prontos elementos e indicações elucidativas, e me traçou as rotas ou, pelo menos, por qualquer pegada bem vincada me proporcionou uma orientação no caminho a trilhar.

Com todas as adendas e corrigendas que se julgue necessário pospor à sua obra, com tudo quanto haja de actualizar à luz de novos documentos e critérios, os trabalhos que produziu são ainda o legado opulento e indispensável, de obrigatória consulta e permanente proveito, para todo o estudioso ou mero curioso do passado aveirense. No trato pessoal de convivência, porque eu era demasiadamente moço e alheado dos assuntos em que ocupava as suas faculdades, tive escassa oportunidade de lhe apreciar os dotes e o saber. Mas daquele modo e naquele sentido muito de imediato lhe devo no conhecimento do que Aveiro foi e evolucionou, e no adquirir de uma mais exacta concatenação dos antecedentes que constituíram os fundamentos e as seivas da cidade a que fervidamente me sinto apegado. E quanto digo de mim, como membro da comunidade à qual consagrou os seus laboriosos serviços de investigador e publicista, tenho-o como extensivo, mais próxima ou mais distantemente, a cada um dos que filialmente estimam a sua terra, e, na generalidade, a esta própria, pois todo o benefício lhe coube da solicitude e fecundidade do prestimoso escritor da sua história.

Além das produções escritas, que somam umas quatro dezenas de volumes e opúsculos e muitos centenares de artigos esparsos por órgãos da imprensa periódica não só de Aveiro, mas de diversas localidades do país(2), a sua acção − porque é verdadeiramente actuante o convívio e a exumação das antiguidades, da História e da Arte − estendeu-se a empreendimentos de notável expressão cultural. Entre eles, passando sobre a iniciativa de diversos números comemorativos para os quais reuniu qualificadas colaborações, de várias sessões de feição artística, e da criação do Grémio Aveirense, merecem particular registo as exposições distritais de 1882 e 1895, que alcançaram extensa repercussão. A todas, porém, culminou a organização e instalação do / 155 / Museu Regional − para cuja criação seria injusto esquecer, especialmente, a contribuição do dr. JOAQUIM DE MELO FREITAS − decerto o mais destacado dos seus títulos de servidor da cultura aveirense e também o que lhe mereceu os maiores dissabores. Referindo-se a esse estabelecimento, escreveu algures o insigne cientista Prof. EGAS MONIZ (3) − glória do país e do distrito de Aveiro: «Não me canso de louvar a iniciativa do homem que pôde realizar esta obra, por certo a maior que nos últimos anos foi levada a cabo nesta cidade e é, por muitos títulos, um dos grandes beneméritos desta terra: Marques Gomes».

Vascularmente afeiçoado à investigação histórica e à narração dos acontecimentos pretéritos − mesmo no que era actual via preferentemente, como acima salientei, o que história poderia chegar a ser − importando-lhe mais conhecer de onde vinha a corrente e por onde o rio da História serpeara, do que o rumo que levava e do que dirigi-lo no sentido das práticas utilidades, considerando no dia de hoje mais, porventura, um resultado do que um factor, antes uma meta do que um ponto de passagem ou de partida, construiu, afinal, uma obra para o futuro.

A mais de vinte anos da sua morte, estamos prodigamente usufruindo os benefícios dessa obra e não podemos dispensá-la. Fonte inesgotável onde todos saciam a sede de saber do Aveiro de outras épocas, embora desactualizada e insatisfatória, em diversos capítulos, para as exigências do presente, representa, indiscutivelmente, por sua extensão e merecimentos, um dos serviços mais importantes e perduráveis que um filho de Aveiro tem dispensado à sua terra. Com o sábio neurologista e eminente homem de letras Doutor EGAS MONIZ, porque nessa convicção estou e o tenho como de inteira justiça, concluirei estas despretensiosas linhas sobre MARQUES GOMES, afirmando: «Aveiro colocará o seu nome na galeria dos que mais a ilustraram e melhor a serviram.»

EDUARDO CERQUEIRA

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(1)É do seguinte teor o assento que regista o baptizado de MARQUES GOMES, no livro respectivo da freguesia da Vera Cruz:
    «Aos vinte e quatro de Fevereiro de mil e oito centos e cincoenta e trez, baptizei solemnemente, e puz os santos óleos a João e a Francisco, nascidos aos seis do dito mez e anno, filhos gemeos, e Legitimos do D.or Francisco Thomé Marques Gomes, e de sua segunda mulher D. Anna Candida de Barros e Almeida, moradores nesta minha Freguesia: Netos paternos de Francisco Thomé Marques Gomes, e de sua mulher Joanna da Cruz, da Freguesia de Nossa Senhora da Apresentação, ora unida a esta da Vera-Cruz: e maternos, de João de Barros e Almeida, e de sua mulher D. Cyppriana Benedicta de Almeida Sousa Pinto, da Freguesia de S. Pedro d'Abragão, Comarca Eclesiastica de Penafiel, Bispado do Porto. Foram Padrinhos de João, o D.or Manuel Jose Mendes Leite, e a Ex.ma Viscondeça de S.to Antonio: E de Francisco, o D.or Joaquim Timotheo de Sousa da Silveira, e a Ex.ma D. Rachel Augusta Rebocho Freire de Andrade e Albuquerque: E tocou com Procuração d'ambas as Madrinhas, o D.or José Joaquim da Silva Santiago; de que fiz este Assento. Aveiro. O Vigr.º Manuel Rodrigues Tavares de Araujo Taborda.»

(2)Foi redactor efectivo de "O Distrito de Aveiro" e do "Campeão das Províncias", e deu colaboração, entre outros, a "O Concelho de Gaia", "O Noticioso", "O Tirocínio", "O Arquivo Popular", "Actualidade", "Jornal do Comércio", "Correio da Noite", "Comércio de Portugal", "A Locomotiva", "O Globo", "Correio da Tarde", "O Conimbricense", "Comércio do Porto", "Ilustração Portuguesa" e "Ilustração Moderna". 

(3) − «Divagações sobre arte» − Conferência realizada na Sessão de Arte de 16 de Janeiro de 1916, no Museu Regional de Aveiro. ln Ao Lado da Medicina, Lisboa, 1940, pág. 177.

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