José Pereira Tavares, No centenário de Júlio Dinis, Vol. V, pp. 241-246.

N.º 20 − Dezembro, 1939

ARQVIVO

DO DISTRITO DE AVEIRO

Directores e proprietários:

ANTÓNIO GOMES DA ROCHA MADAHIL

FRANCISCO FERREIRA NEVES

JOSÉ PEREIRA TAVARES

Editor:

FRANCISCO FERREIRA NEVES

Administração:

Estrada de Esgueira − AVEIRO


Composto e impresso na Tipografia da Gráfica de Coimbra − Largo da Feira, 38 − COIMBRA


NO CENTENÁRIO DE

JÚLIO DINIS

JÚLIO DINIS E O DISTRITO DE AVEIRO − JÚLIO DINIS E AVEIRO − COMEMORAÇÕES DO CENTENÁRIO

JÚLIO DINIS − talvez o mais lido dos romancistas portugueses e com certeza o único que tem sempre abertas as portas de todos os lares − nasceu no Porto no dia 14 de Novembro de 1839. Nas comemorações do seu primeiro centenário, foi, portanto, àquela cidade que couberam as maiores honras e foi ela que maior luzimento lhes deu.

O Arquivo do Distrito de Aveiro sente-se na obrigação de se associar às manifestações feitas à memória do mais ilustre dos cultores do romance campesino entre nós. Quando para
isso não bastasse a circunstância de o pai do escritor, o Dr. José Joaquim Gomes Coelho, ser natural de Ovar e, portanto, do distrito de Aveiro, poderíamos invocar, para nossa justificação, um motivo de maior peso: grande parte da obra literária do conhecidíssimo romancista foi concebida em Ovar; parte dela ali foi escrita. E não só isso, O Sr. Dr. EGAS MONIZ, no seu valiosíssimo trabalho − Júlio Diniz e a sua obra -, esplêndido repositório de informação acerca do famoso autor de As Pupilas, provou que muitos dos tipos, populares e não populares, que figuram nos romances de JÚLIO DINIS − em especial naqueles cujos entrechos ele faz decorrer na aldeia − foram moldados em indivíduos da região de Ovar; que grande quantidade de termos e expressões populares que o autor pôs na boca das suas personagens são da mesma região e ainda hoje vivem; e que nas descrições da natureza foi ainda a mesma parte do nosso distrito que o inspirou. Quer dizer: os romances campesinos
/ 242 / de JÚLIO DINIS têm por palco um rincão do distrito de Aveiro e por actores indivíduos do povo que ao tempo nele viveu, com costumes e linguagem que em nossos dias se mantêm inalteráveis ou pouco modificados.

Seria curioso extrair das obras deste autor todos os grandes quadros populares que nelas existem e mostrar e provar a sua actual persistência. Por agora, porém, só chamamos a atenção dos leitores do Arquivo para a flagrante verdade dos seguintes: a esfolhada, de As Pupilas,. e a cena da distribuição do correio, a da representação do auto, a do enterro de Ermelinda e a das eleições, de A Morgadinha. Só quem haja nascido e vivido nalguma das aldeias do litoral do nosso distrito as poderá verdadeiramente compreender. A observação do autor é penetrantíssima; a descrição é perfeita. No que concerne à cena da distribuição das cartas, sabemos, da maneira insofismável, que o autor se inspirou na realidade vareira. Antes do aparecimento de A Morgadinha, escrevia ele, em carta, a Custódio Passos: − «Entre as poucas distracções que esta vila (Ovar) oferece aos seus visitantes, nenhuma tanto do meu gosto como a da chegada do correio. − Todos os dias me levanto mais cedo para estar às nove horas na loja em que se distribuem as cartas. Imagina tu uma pequena sala humildemente mobilada, com bancos e mesa de pinho e uma estante ao fundo contendo in-folios de formidável aspecto. Um homem idoso, a quem chamam aqui doutor, mas de cujo grau ainda não tirei informações, como decerto teria já feito um nosso conhecido, toma fleumaticamente a sua pitada, conservando ele só uma imperturbável indiferença no meio da ansiedade de quantos o rodeiam. − Mais de trinta pessoas, homens, mulheres e crianças, sentadas no chão, no limiar da porta e na rua, fitam com impaciência a esquina donde deve surgir o portador das cartas. − Quando este aparece, todos se levantam a um tempo, e apinham-se sobre o mostrador, como se pretendessem abafar o pobre do doutor. − Este, cônscio da importância da sua pessoa, retira-se, de uma maneira grave, ao seu gabinete, sujeita as cartas recebidas a uma tal ou qual classificação e volta para distribui-las. É o caso de repetir aqui pela milionésima vez o Conticuere Omnes perfeitamente aplicável à situação. O homem lê pausadamente o nome da pessoa a quem vem a carta sobrescriptada, estende-se um braço, entrega-se a carta e, ás vezes, é ali mesmo aberta e lida. À medida que o maço se vai esgotando, é para ver as transições por que passa a fisionomia dos que ainda nada receberam desde que principia o receio até que se desvanece de todo a última esperança. − Faz pena vê-los partir tão desconsolados. Escuso dizer-te que eu não sou simples espectador desta cena, mas actor e dos mais possuídos do seu papel.»

Na Morgadinha, o quadro está apenas mais desenvolvido. / 243 /

Não menos curioso seria o estudo dos diferentes tipos. Aí encontraríamos a mesma fidelidade, a mesma meticulosidade de descrição.

Assim, pois, se JÚLIO DINIS é portuense pelo nascimento − com o que a cidade do Porto justamente se pode orgulhar −, o escritor, sem deixar de ser portuense, é também nosso, pela simpatia que lhe mereceu a região vareira e pelo carinho com que legou à posteridade; em páginas que por muito tempo serão lidas e compreendidas, variadíssimos aspectos da vida da sua população.

*

Não deixa de ter interesse o registo do pouco que JÚLIO DINIS deixou escrito a respeito da cidade de Aveiro. Em carta escrita de Ovar em 11 de Maio de 1863, dizia ele:

«Conto por toda a semana que vem partir para Aveiro. Eu tenho evidentemente tendências para estacionar. Estou aqui há quinze dias, conheço que não me tenho divertido demasiado, e vou ficando, e custa-me a resolver a continuar a jornada.»

No dia 14 do mesmo mês, escrevia noutra carta:

«Não sei quando partirei para Aveiro...»

Efectivamente, noutra, datada de 12 de Junho, informava um amigo:

«Parece-me que já não vou a Aveiro. Um parente em casa de quem tencionava hospedar-me, tem de partir para Lisboa. Mandando-me dizer que ficava a casa às minhas ordens; ora isto é motivo para nem sequer entrar na cidade, pois teria de aceitar o convite, o que, na ausência dele me não convém. »

JÚLIO DINIS receava fazer essa visita, em virtude das más informações que a respeito de Aveiro lhe davam. Pertencem a uma carta de 3 de Julho de 1863 estas palavras:

«Em primeiro lugar, desde que principiei a sentir que robustecia em Ovar, fui adiando a minha partida, intimidado pelas descrições tétricas que os facultativos daqui me faziam de Aveiro; em segundo lugar, concorreram cartas de família em que se me pedia que me demorasse até que se pusesse em exploração o caminho de ferro, para me visitarem; em terceiro, a saída de Aveiro de um primo em casa de quem tinha de me hospedar, porque na ausência dele seria eu obrigado a aceitar a hospitalidade da família, que conheço pouco ou nada e, por / 244 / isso, a viver pouco á vontade, condição indispensável para eu viver bem.»

Até que, finalmente, a nossa cidade o veio a receber em seu seio. É do dia 28 de Setembro de 1864 a seguinte carta, dirigida, como outras, a CUSTÓDIO PASSOS:

«'Escrevo-te de Aveiro. São 7 horas da manhã do histórico dia de S, Miguel. Acabo de me levantar. Acordou-me o silvo da locomotiva. Abri de par em par as janelas a um sol desmaiado que me anuncia o inverno. − A primeira coisa que este sol alumiou para mim, foi a folha de papel em que te escrevo; aproveito-a como vês, consagrando-te neste dia os meus primeiros pensamentos e o meu primeiro quarto de hora. − Aveiro causou-me uma impressão agradável ao sair da estação; menos agradável ao internar-me no coração da cidade, horrível vendo chover a cântaros na manhã de ontem, e imensas nuvens cor de chumbo a amontoarem-se sobre a minha cabeça; mas, sobretudo intensamente aprazível, quando, depois de estiar, subi pela margem do rio e atravessei a ponte da Gafanha para visitar uma elegante propriedade rural que o primo, em casa de quem estou hospedado, teve o bom gosto de edificar ali. − Imaginei-me transportado à Holanda, onde, como sabes, nunca fui, mas que suponho deve ser assim uma coisa nos sítios em que for bela. − Proponho-me visitar hoje os túmulos de Santa Joana e o de José Estêvão, duas peregrinações que eu não podia deixar de fazer desde que vim aqui.

A casa em que moro fica fronteira á que pertenceu ao José Estêvão. Há ainda, vestígios das obras que ele projectava fazer-lhe e que, por sua morte, ficaram incompletas. Tudo isto se vendeu, e dizem-me por uma ninharia. − Cheguei a Aveiro um pouco dominado pela apreensão de que talvez viesse ser infeccionado pelos eflúvios pantanosos da terra e cair atacado pelas sezões, circunstância que, não obstante o colorido local que me havia de dar, nem por isso me havia de ser muito agradável. Nada, porém, de novo me tem por enquanto sucedido, e continuo passando bem, e, o que é mais, engordando...»

As suas últimas referências a Aveiro foram expressas em carta do Porto, datada de 27 de Outubro de 1864 e dirigida a EUGÉNIO LUSO:

«Andava com vontade de conversar consigo. Separámo-nos em Aveiro, mas duma maneira que não permitia uma despedida secundum artem. Lembra-se? Você estava metido dentro de uma carruagem, eu sobre a plataforma de uma estação de caminho de ferro onde pela primeira vez havia pousado os pés.» − «...tudo isto e outras muitas coisas se me renovam /  245 / na memória, sem que as possam ofuscar as outras recordações embora recentes, que me ficaram de Aveiro, da sua ria, do seu mexilhão, dos seus ovos moles e sobretudo das suas belas trigueiras. Porque de facto não sei se concorda comigo, em Aveiro há trigueiras como em parte nenhuma.»

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Além da consagração do escritor, feita no dia 7 de Dezembro, em sessão plenária da Academia das Ciências, na qual falaram os Drs. JÚLIO DANTAS e EGAS MONlZ, este último sobre O Teatro Inédito de Júlio Dinis, as principais comemorações do centenário foram as seguintes:

No Porto − Dia 13 de Novembro: Exposição bíblio-iconográfica, na Biblioteca Municipal; Conferência no Palácio de Cristal sobre O valor moral na obra de Júlio Dinis − pelo Dr. JOAQUIM COSTA; Concerto popular no Jardim da Cordoaria; Palestra no Conservatório sobre Vida e obra de Júlio Dinis − pelo professor ALBANO MORGADO. − Dia 14: Romagem ao túmulo do romancista, no cemitério de Agramonte, onde o poeta ANTÓNIO CORREIA DE OLIVEIRA recitou versos seus, alusivos à comemoração; Descerramento duma lápide na casa onde faleceu o escritor; Sessão solene, à noite, na Faculdade de Medicina, em que falaram os professores: FERNANDO MAGANO (A lição do Dr. Semana), LUÍS DE PiNA (A Medicina na obra de Júlio Dinis), HERNANI MONTEIRO (Júlio Dinis e a tradição literária da Escola Médica do Porto) e ALMEIDA GARRETT (Júlio Dinis, médico e professor); Comemorações nos colégios de Mousinho de Albuquerque e João de Deus. − Dia 15: Espectáculo infantil no Teatro de Carlos Alberto, com recitação, vários números musicais e de ginástica e a exibição do fono-filme de As Pupilas do Senhor Reitor; Sessão solene, à tarde, no Grande Colégio Universal, com uma conferência do professor ANTÓNIO MOREIRA. − Dia 18: Sessão artístico-musical, no Clube dos Fenianos, precedida duma conferência do Dr. LUÍS DE PINA acerca de Júlio Dinis, inspector de almas. − Dia 29: Espectáculo público, de amadores, com a peça extraída dos Fidalgos da Casa Mourisca.

Anuncia-se ainda, para o fim do ano corrente, a publicação dum número do Boletim Cultural da Câmara Municipal do Porto, «inteiramente consagrado ao grande romancista», no qual «serão publicados, além das conferências e dos discursos proferidos durante as comemorações, estudos originais firmados por alguns dos nossos homens de letras».

EM LISBOA − Dia 14: Sessão de homenagem à memória de JÚLIO DINIS, na Faculdade de Letras, com palestras dos Drs. ELSA PACHECO e VITORINO NEMÉSIO; Sessões no Liceu de / 246 / Maria Amália e Instituto de Odivelas, e comemoração na Emissora Nacional, se bem que muito modesta.

EM OVAR, a comemoração reduziu-se à homenagem de O Povo de Ovar, que publicou um número especial no dia 16 de Novembro, com colaboração do Dr. EGAS MONIZ; a uma romagem das escolas da vila à casa onde JÚLIO DINIS residiu, junto da qual falou a professora D. MARGARIDA COENTRO DE PINHO; e a uma conferência pronunciada no «Colégio de Júlio Dinis» pelo professor MANUEL JOSÉ PATRÍCIO.

NO LICEU DE AVEIRO, foi comemorado o centenário com uma palestra da aluna do 7.º ano, ONDlNA GOMES LEITE; com prelecções dos professores de Português de todas as turmas e com leituras de trechos de cada uma das obras do escritor. A aula de Português do dia 14, no 6.º ano, foi' exclusivamente dedicada ao ,glorioso romancista.

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Limitamos às palavras que aí ficam a nossa homenagem à memória do grande espírito que se chamou JOAQUIM GUILHERME GOMES COELHO e que assinou as suas obras com o doce pseudónimo de JÚLIO DINIS: à memória do escritor a respeito de quem EÇA DE QUEIRÓS, numa frase que é uma admirável síntese, afirmou, por ocasião do seu falecimento: viveu de leve, escreveu de leve, morreu de leve.

8 de Dezembro de 1939.

JOSÉ PEREIRA TAVARES

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