Alberto Souto, Geologia do distrito de Aveiro. Orla sedimentar meso-cenozóica: I.Triássico, Vol. V, pp. 161-166.

N.º 19 − Setembro, 1939

ARQVIVO

DO DISTRITO DE AVEIRO

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FRANCISCO FERREIRA NEVES

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Editor:

FRANCISCO FERREIRA NEVES

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Estrada de Esgueira − AVEIRO


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GEOLOGIA DO DISTRITO DE AVEIRO

ORLA SEDIMENTAR

MESO-CENOZOICA

I

TRIÁSSICO

O grande pilar ibérico, a Meseta, soclo de formações arcaicas, agnostozoicas e paleozoicas, contendo, além dos terrenos essencialmente cristalinos, muitas rochas que experimentaram profundo metamorfismo, e onde ,os granitos vieram a ter enorme expansão, começou a emergir, talvez, com os movimentos caledónicos, no período devónico.

A Meseta constitui um vasto maciço de forma mais ou menos triangular que se estende ininterruptamente entre as costas da Galiza e o cabo da Nau no Mediterrâneo, e abrange, no nosso país, quase três quartas partes da superfície continental.

Na concepção de SUESS, é um horst produzido pela evolução do velho edifício das Altaides ocidentais.

Para muitos geólogos, os movimentos orogénicos hurónicos, do Pré-câmbrico, e os caledónicos, não se fizeram sentir na Península, mas sim, e apenas, os movimentos hercínicos e post-hercínicos.

HERNANDES PACHECO diz serem pouco prováveis os enrugamentos ante-câmbricos, mas esta sua afirmação, como observa o Sr. Dr. CARRINGTON DA COSTA, tem sido criticada e é contrariada, mesmo, por alguns dos trabalhos posteriores do ilustre geógrafo e geólogo espanhol.

O Sr. professor FLEURY admite os enrugamentos caledónicos. O que é positivo é que na fase hercínica se produziram alterações periféricas. A arquitectura tabular, ainda hoje bem / 162 / patente nas cordilheiras espanholas, formou, assim, um horst de que resultou o Planalto central. Nas depressões laterais depositaram-se os terrenos sedimentares que hoje, com excepção de alguns retalhos no, interior, afloram a nordeste na depressão basca e fossa do Ebro, a sul na orla meso-cenozoica do Algarve . e na depressão andaluza, e a oeste na orla meso-cenozoica ocidental portuguesa.

Na orla sedimentar ocidental, há terrenos secundários, terciários, quaternários e olocénicos ou modernos. Os terrenos secundários estendem-se ao longo da costa numa faixa muito estreita desde a foz do Lima até Espinho. A partir desta praia, alargam-se até ao cabo de Sines, seguindo uma fronteira geral que forma com o Oceano um ângulo agudo cujo lado do oriente vai por Estarreja, Angeja, Águeda, Anadia, Mealhada e Coimbra, em direitura a Tomar. Ao sul há uma interrupção: a das bacias terciárias do Tejo e Sado. Formações reputadas pliocénicas são frequentes nos pequenos planaltos litorais das bacias do Lis, Mondego e Vouga, mas o Mesozóico é sempre o seu subsolo, e o Quaternário preenche os vales e as depressões, pertencendo ao Moderno a acumulação de areias da costa, as vazas e os nateiros dos campos, dos esteiros e dos estuários a noroeste, isto é, nos limites da Ria de Aveiro e suas dependências.

A parte da orla sedimentar post-paleozoica ocidental que interessa ao distrito de Aveiro não encerra, pois, somente Mesozóico. Parece ter havido uma transgressão terciária, denunciada pelos depósitos superficiais arenosos e pedregosos que formam o solo dos planaltos referidos e que na carta de 1899 vêm indicados como pliocénicos com a notação P e cor amarela. Aceitemo-los como tal, apesar das grandes dúvidas que nos podem oferecer. Eles não são, evidentemente, secundários.

Trataremos hoje do Triássico, entrando assim no estudo dos depósitos regionais da Era Mesozóica.

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A sedimentação secundária ou mesozóica começou nos tempos triássicos, tardiamente, apresentando aspectos diferentes das do resto da Europa, em mares de pequena profundidade, talvez lagos semelhantes aos schots africanos e sempre em discordância com o ante-Câmbrico. Devemos recordar que a Era Secundária corresponde no seu conjunto a um período de calma orogénica, tendo, durante ela, a superfície do globo gozado de uma grande tranquilidade.

As erupções são raras; pelo contrário a extensão e possança das camadas argilosas e calcárias demonstram uma deposição lenta e serena de sedimentos no seio de águas de ínfimo / 163 / movimento. O lugar proeminente das criptogâmicas vasculares da Era Primária, é ocupado agora pelas cicádeas e gimnospérmicas. Aparecem as angiospérmicas, as dicotiledóneas, e as primeiras representantes das monocotiledóneas. É a diferenciação das estações, que se revela no desenvolvimento da flora e sua evolução, tendendo para os tipos terciários. Os vertebrados da família dos répteis atingem o seu auge, com os grande sáurios terrestres e marinhos e os répteis alados, mas surgem os primeiros mamíferos e as primeiras aves, estas ainda com caracteres reptilianos, e os peixes teleósteos.

Nos invertebrados dominam os cefalópodes e, entre estes, os amonitídeos que se apresentam sob um extremo polimorfismo. No Triássico persistem, contudo, algumas formas vegetais e animais do Paleozóico. Os grés vermelhos, os depósitos de sal gema e de anhidrite, os recifes coralinos e os calcários dolomíticos, indicam um clima seco e quente durante o período de cujo sistema nos ocupamos.

Entre nós, litologicamente, o Triássico é representado pelos grés rubros, típicos, com camadas amarelas, esverdeadas e acinzentadas, mas predominância de matizes vinosos, sanguíneos e purpúreos, que se assemelham aos do Pérmico. São os materiais irisados ou bariolados dos franceses, de tons quentes e cores vivas, acentuadamente avermelhadas por toda a parte. Como o Triássico português não corresponde exactamente às divisões estratigráficas do estrangeiro, CHOFFAT aplicou-lhes a designação de grés de Silves.

Na região de Aveiro esses arenitos são conhecidos por «pedra vermelha» ou «pedra de Eirol» e encontram-se em Frossos, Loure, S. João de Loure, Alquerubim, Eirol, Requeixo, Travassô a Águeda, Vouga-Marnel, Macinhata, ao longo do baixo Cértima, em Avelãs de Caminho, ao longo do Vale de Anadia, Monsarros, Vacariça e oeste do Buçaco.

A sua possança foi calculada pelo Sr. Dr. CARRINGTON DA COSTA e por mim, junto ao Cértima, no paralelo de Águeda, em cerca de 1.000 metros, mais do que CHOFFAT lhes atribuiu no conjunto do complexo infraliássico.

Parece que, pelo alinhamento dos afloramentos, a sedimentação foi condicionada por um fosso no sentido do meridiano, embora desviando-se, ao norte de Anadia, para NO, e penetrando no interior pelos vales do Águeda e do Vouga.

É possível que o desvio da orientação meridiana dos depósitos seja devida à influência do anterior enrugamento hercínico ou dos seus movimentos póstumos no sentido persistente NO-SE, sentido do afundamento lateral, pela banda oeste do horst primitivo, sendo provável que o Vouga tenha destruído e arrastado os restos triássicos não só a N de Eirol e S. João de Loure, mas também a N e NO de Angeja, pois na estrada de Estarreja vêem-se vestígios triássicos, como igualmente se vêem alguns / 164 / vestígios, com a coloração característica, no Vale do Vouga, a montante de Serém e Macinhata.

Como o planalto de Angeja e Albergaria-a-Velha não apresenta os arenitos vermelhos a norte e leste da primeira povoação, pois na estrada de Estarreja, que margina os campos do Vouga, apenas se notam os vestígios já mencionados, e como os xistos algônquicos afloram sem a cobertura dos grés, que tomam notável papel litológico e agrológico a sul de Frossos, e sempre à margem do Vouga que os cortou até Macinhata, e como os xistos naquela zona norte do referido planalto estão imediatamente cobertos por areias que se ligam ao Terciário, e ainda porque esta formação arenácea, de afinidades pliocénicas, cobre imediatamente os grés vermelhos a sul e oeste do segmento do Vouga que vai de Macinhata a Eirol, é lícito concluir que no Antracolítico, ou no post-Pérmico, o abatimento do oeste da Meseta produziu um vale estreito com ramificações ou alargamento na direcção dos actuais vales inferiores do Vouga, Águeda e Cértima.

A depressão produzida preencheu-se durante longuíssimo tempo com as formações triássicas, como, num curioso caso de recorrência, mais tarde sucedeu com o Quaternário.

Passado o período do Triássico, como este se depositou e encostou ao rebordo ocidental da Meseta, veio o Cretácico depositar-se e encostar-se ao Triássico, mas tão serenamente que se 'não encontra afloramento algum de conglomerado de base, ao contrário do que sucede com o Triássico que apresenta, em Frossos e nas proximidades do MarneI, grosseiríssimos conglomerados de materiais volumosos atingindo as dimensões de cabeça humana, entre os quais são bem patentes os calhaus xistosos arrancados ao bordo do maciço oriental.

Onde os arenitos vermelhos se tornam finos e compactos, passando a grés duros, micáceos por vezes, susceptíveis de utilização em alvenaria, cantaria e enrocamento fluvial e marítimo, é sempre no pendor ocidental e na parte superior e média do afloramento, considerando-se essa parte superior e média, não na aparência e localização actuais, mas sob o aspecto tectónico, levando em conta a deslocação sofrida. Por tal, as boas pedreiras são as subjacentes a Eirol, na margem ocidental do segmento inferior do Vouga, as subjacentes a Travassô e as da margem esquerda do Águeda, na estrada para Recardães. São frequentes as camadas argilosas e argilo-siliciosas. As camadas e zonas compactas, não friáveis, são exploradas como material de construção, dão mós de afiar ferramentas, capas de aquedutos, etc.

Os paredões da barra, a defesa dos esteiros e muros das marinhas, os alicerces e paredes de muitas construções importantes como a torre do Farol, o edifício do Governo Civil, da igreja inacabada da Vera-Cruz, e o dos Correios, empregaram os grés vermelhos que, debaixo de água ou sob revestimento / 165 / sólido de argamassa, se comportam bem e oferecem uma grande resistência ao esmagamento.

Já o grés das camadas argilosas e arenáceas é totalmente desaconselhável por esboroadiço e inconsistente, e mesmo o das camadas duras e homogéneas, quando exposto ao ar, sem guarnição de argamassa ou sem cobertura de água, sofre uma esfoliação muito perigosa e cospe os revestimentos parciais.

Numa região falha de rochas utilizáveis na construção civil, onde o adobe de areia e cal é o material corrente das edificações, o grés vermelho do Triássico proporciona um valioso recurso que tem sido inteligentemente aproveitado e em larga escala.

O interesse paisagístico, não só dos afloramentos mas das aplicações industriais e espontâneas dos grés e arenitos, não pode deixar de nos merecer atenção e referência.

No andar médio, a sudeste de Anadia, no Freixial, entre Moita e Monsarros, encontra-se o manganez, explorado em diversas minas, e o cobre, perto do Buçaco, aparecendo também gesso nas proximidades do Liássico.

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Como se vê, o Triássico tem no distrito de Aveiro uma grande importância geológica, litológica e tectónica, e alguma importância mineralógica e industrial.

Foi-lhe já atribuída, até, a mineralização das águas da Curia, visto que o sistema é, no estrangeiro, eminentemente salífero, tanto mais que se notam as analogias com o Keupper dos geólogos alemães.

Quer-me parecer, entretanto, não dever perder-se de vista que as nascentes termais da Curia brotam numa zona de possível contacto do Triássico com o Jurássico, mas em cujas profundidades são prováveis fenómenos de pressão, compressão e até metamorfismo, provenientes do jogo de elementos tectónicos diversos que ali se encontram, ainda não totalmente mortos ou equilibrados.

É ali o sopé das anticlinais de Anadia e Tocha-Mogofores e dali partem alguns arrancos do horst de Cantanhede.

Não pensemos em velhas explicações vulcânicas, mas podemos pensar já na instabilidade das articulações teclares reflexas da isostasia e do permanente diastrofismo das orlas continentais.

Em qualquer caso, é de admitir que as águas da Curia denunciem uma actividade tectónica que no exterior se revela pelo desencontro bem manifesto das inclinações das camadas triássicas e jurássicas das proximidades.

O Triássico do distrito de Aveiro, de Angeja ao Buçaco, é totalmente destituído de fósseis.

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Não quero encerrar este artigo sem me referir à opinião do Sr. ERNESTO FLEURY sobre a tectónica do nosso primeiro termo transgressivo da Era Mesozóica. O sábio professor considera a transgressão triássica como determinada por movimentos atlânticos devidos ao afundamento da cadeia hercínica, enquanto que o recuo dos mares moscovianos tinha sido causado pela formação das respectivas dobras.

A marcha da transgressão triássica, diz o mesmo professor, foi certamente irregular. A orla ocidental é um largo fosso que só se pôde produzir por uma série de deslocações mais ou menos paralelas às que delimitaram o horst, mas tais deslocações não foram sincrónicas, o que pode explicar a ausência do Triássico inferior e médio a leste.

O Sr. FLEURY entende, ainda, que a nitidez de certas grandes fracturas ou enrugamentos do Triássico com o Paleozóico marinho, não é argumento em favor da idade recente das deslocações marginais conhecidas, porque essas fracturas foram refrescadas pela desnudação continental, ou mesmo pela abrasão marinha, e foram rejuvenescidas por diversas vezes sob a influência de fenómenos da mesma ordem que se continuam no Atlântico.

No distrito de Aveiro constata-se o seguinte:

As camadas do Triássico superior depositaram-se em discordância sobre o Algônquico e o Paleozóico (Pérmico de Águeda e Silúrico e Pérmico do Buçaco) e sofreram uma deslocação no sentido de Oeste, com todo o rebordo da Meseta e com as próprias camadas do, cretácico que na mesopotâmia de entre o Vouga e as Rias de Ílhavo e Vagos, imediatamente lhe sucedem. CHOFFAT notara o facto de uma maneira geral para todo o sistema.

A interpretação tectónica desta disposição particular excede, evidentemente, pela sua complexidade, o âmbito de um golpe de vista meramente regional e de intuitos sintéticos e descritivos.

Devemos advertir, ainda, e para terminar, que na carta geológica de 1899 a cor roxa e a rubrica T designam não só a parte superior do Triássico, mas o Infraliássico que corresponde em Portugal ao Rheciano europeu. No distrito de Aveiro esta observação só tem importância para a zona de Anadia − Buçaco onde o Pérmico, o Triássico e o Liássico se encontram em contacto. Veremos a razão deste critério do ilustre CHOFFAT, quando, em próximo artigo, estudarmos o Jurássico da região.

ALBERTO SOUTO

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