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Escândalos na Alemanha
A
Alemanha anda, como diz o vulgo, em maré de azar. Depois dos
escândalos coloniais, em que se revelaram concussões e brutalidades
e que tiveram como resultado a queda do respectivo ministro, a
publicação das memórias póstumas do príncipe de Holenhole veio
lançar a confusão e a desconfiança nos arraiais da política interna
e internacional.
Como se sabe,
Holenhole desempenhou durante a sua vida os mais
elevados cargos: embaixador em Paris, statthalter da
Alsácia-Lorena, chanceler do Império. Tinha por hábito notar todos
incidentes e formular por escrito as suas opiniões sobre as
diferentes e elevadas personagens políticas com quem esteve em
contacto. São estes apontamentos, com bastantes cartas suas, que
constituem o livro das memórias. Além de picantes observações, em
que nem o próprio imperador é poupado, contém ele revelações
palpitantes sobre vários episódios da política imperial, cuja
inconsistência e duplicidade se mostra aos olhos do mundo. O
episódio do brusco licenciamento de Bismarck, por exemplo, em
resultado do plano,
concebido
pelo chanceler de ferro, de auxiliar a Rússia em detrimento da
Áustria, se por um lado mostra o desejo do Kaiser de não trair a sua
aliada, não deve conciliar muito a Rússia com a qual na actualidade
se planeiam aproximações, e põe de sobreaviso os aliados da
Tríplice.
Guilherme II, naturalmente irritado com a publicação das memórias,
dirigiu um áspero telegrama ao filho mais velho de Hohenlohe, o qual
declinou a responsabilidade para seu irmão Alexandre. Este, que
exercia um alto cargo na Alsácia-Lorena, pediu imediatamente a sua
demissão, não sem dar a entender que, livre das peias oficiais, a
sua defesa daria novos alentos à curiosidade universal.
Parece moldado para desviar as atenções deste retumbante incidente o
episódio herói-cómico, sucedido há pouco tempo num dos subúrbios de
Berlim. Um engenhoso ratoneiro vestiu a farda de oficial do
exército, ordenou a soldados de dois destacamentos encontrados na
rua que o acompanhassem, e com esta escolta invadiu a casa da câmara
de Köpenick, onde prendeu o burgomestre e o tesoureiro e se apossou
de todo o dinheiro encontrado nos cofres. Para tudo isto invocou o
nome do seu imperial amo, e bastou a sua palavra ousada e a sua
prestigiosa farda para que soldados e autoridades civis se
submetessem aos seus mandados.
Este caso, embora muito original, é na aparência um simples episódio
de ladroeira; mas é certo que excitou a gargalhada universal à custa
do militarismo alemão, e mereceu honras de artigos de fundo nos
principais jornais do mundo civilizado. «Não há outro país»,
assevera o circunspecto “Times”, «para aquém da fronteira
russa, onde um trama deste pudesse ter as mais longínquas
probabilidades de êxito, por momentâneo que fosse.» A submissão cega
à farda prova com efeito a deplorável educação cívica do alemão.
«Este fetichismo», observa um jornal de Berlim, «não só é
ininteligível paras as sociedades democráticas do ocidente da
Europa, mas até para a Alemanha meridional, onde têm predominado
ideias absolutamente diferentes sobre os direitos civis, desde que
foram importados de França nas várias revoluções do século passado.»
Invoca-se para um assunto destes a pena de Aristófanes ou o estro
bufo de Offenbach.
À hora de entrar na máquina o nosso jornal, está preso o criminoso,
o sapateiro Wilhelm Voigt, cujo aspecto boçal mais espantoso torna o
embuste de que foi herói.
A crise francesa
Como era de prever, a figura culminante de Clémenceau ascendeu ao
posto que lhe era naturalmente indicado. Por motivos de doença,
Sarrien pediu a demissão de presidente do conselho, e foi Clémenceau
o encarregado de formar o novo ministério. Desviados os elementos
moderados que figuravam no último gabinete, o actual apresenta-se
mais homogéneo e portanto mais forte para arcar com as várias
responsabilidades que sobre ele impendem,
a principal das quais é a
execução da lei de separação da Igreja e do Estado. Senhor do poder,
tendo conservado, entre outros, o seu mais dedicado colaborador, Briand, é de supor que Clémenceau resista triunfantemente à dos
elementos / 415 / reaccionários, dirigidos pelas influências
romanas, e por ventura estimulados pela tortuosa diplomacia
germânica, sempre alerta para criar à sua rival de aquém Reno.

Duas feições interessantes do novo gabinete são a criação de um novo
ministério intitulado do Trabalho e Previdência Social, que revela
desde logo as tendências humanitárias e democráticas da situação na
entrada como ministro da guerra, do general Picquart, o principal
militar da reparação feita a Dreyfus. E o primeiro passo importante
é deveras simpático: o presidente Fallières acaba de assinar o
projecto para a abolição da pena de morte. Deve regozijar-se com
isto especialmente o nosso país, que há tantos anos introduziu na
sua legislação criminal este humanitário progresso. A parte radical
das câmaras apoia o ministério; os socialistas conservam-se em
expectativa benévola.
Pela Rússia
O movimento revolucionário tem afrouxado, posto que ainda se
manifeste com frequência em assassínios de autoridades civis e
militares, e em audaciosos roubos à mão armada. O governo aproveita
o recalmão para preparar as eleições da futura Duma. Favorece-o a
desorganização que se pronuncia no partido constitucional
democrático, que formava a enorme maioria da Duma dissolvida. Os
reaccionários opõem ao movimento revolucionário a sua acção
terrorista, que ameaça as classes liberais e particularmente os
judeus. Os estudantes do partido avançado continuam a manifestar-se,
sem embargo de violentas repressões. Enfim, o trono de Nicolau II
continua abalado e o ímpeto moscovita em confusão.
Prova dos receios gerais dos reaccionários foi a oposição feita à
projectada homenagem que alguns liberais ingleses quiseram prestar à
falecida Duma, homenagem que circunspectamente se malogrou para não
prejudicar as relações entre a Inglaterra e a Rússia, as quais
tendiam
a melhorar, depois da crise que deu lugar às guerra do Extremo
Oriente.
Em todo o caso, como se depreende de algumas caricaturas que
extraímos de conceituados jornais do género, a Rússia continua a
despertar as atenções gerais, como o ponto em que sobretudo se
degladiam as duas tendências políticas da humanidade: progresso e
reacção.
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