|
|

Esboço para o estudo de uma obra
através de um
temperamento
A quem olhar, mesmo de relance, a obra que este
artista realizou nestes últimos anos, avulta desde logo à evidência
um avanço evolutivo verdadeiramente inesperado.
E já não quero referir-me aos progressos da técnica,
ao que poderia chamar-se evolução da forma. Essa, como em todos os
artistas de raça, produziu-se num sentido já previsto, o da máxima
simplificação e sobriedade. Quero sobretudo referir-me ao avanço
evolutivo no domínio concepcional. Aí é que a evolução se fez num
sentido absolutamente inesperado. Eu me explico.
Numa exposição que António Carneiro realizou há
quatro ou cinco anos, o seu temperamento artístico parecia
definitivamente polarizado. Nesse momento, que parecia marcar dum
modo decisivo a sua orientação, o artista poderia definir-se como
sendo um pintor retratista, que de quando em quando pintava
paisagens de uma grande intensidade emocional, mas ainda pelo mesmo
processo que pintava retratos, porque eram paisagens onde a
expressão de estados subjectivos era a nota predominante. Então,
quem comparasse um dos muitos retratos que o artista expunha com uma
das telas chamadas de composição, não deixaria de notar uma
desproporção,
flagrante, enorme. Ao passo que os retratos revelavam
um artista próximo da maturidade, prestes a atingir uma
perfectibilidade inconfundível, que é o cunho de todos os grandes
artistas / 348 / quando estão plenamente possuídos de todas os recursos da sua arte, os seus quadros de composição pareciam dizer
dum modo iniludível que esse seria um género de pintura em que o
artista estava condenado a falhar sempre. Depois, a tornar mais
nítida e acentuada esta desproporção, vinha juntar-se o facto de
certos estudos que o pintor fizera para esses quadros serem obras
notáveis de retratista, ou pedaços magníficos de natureza, coados
sempre, é preciso não esquecê-lo, através do temperamento
pessoalíssimo do artista e por conseguinte impregnadas de uma emoção
intensamente subjectiva.
Os estudos para o «Baptismo» mais do que uma acção
onde o homem é sempre a figura central, eram um pedaço expressivo de
paisagem vaga, onde as figuras flutuavam fundidas na mesma luz
silenciosa e indecisa das causas e pareciam irromper do solo como os
vultos de árvores. A «Raquel», mais do que a evocação dum trecho
bíblico, exprimia a sensação dum trecho melancólico de paisagem: um
dorso de colina banhada pela claridade baça da lua nascente à hora
tranquila do anoitecer. Os estudos para a «Ceia», esses então eram
duma precisão demonstrativa. Essas cabeças de apóstolos, tão
humanamente plebeias, vistas destacadamente, em estudos, tinham uma
tal intensidade / 349 / de expressão, eram desenhadas com uma tal
largueza e segurança, e sobretudo tinham uma tal individualidade, de
tal modo viviam em si mesmas, que a ninguém (ou quase ninguém) era
possível ver nesses fragmentos de vida outra coisa senão retratos,
esplêndidos retratos de tipos rudes, de fé rude, é certo, mas
retratos todavia. Depois esses estudos sobrepujavam de tal maneira a
tela definitiva, que não só era legítimo, mas era forçoso concluir
que António Carneiro era essencialmente um pintor de retratos.

Pois bem: essa desproporção desapareceu; o domínio
concepcional do artista amplificou-se na sua faculdade de traduzir e
amplificou-se até à qualidade máxima, típica do génio criador, que é
o poder de criar figuras sintéticas, atingindo a generalidade de
símbolos humanos e de realizar numa expressão a síntese de uma
infinidade de expressões. E para certificar de um modo absoluto e
claro de quanto o génio criador de António Carneiro, é capaz de
realizar, bastaria apontar essa tela prodigiosa, inolvidável como
uma obsessão, o «Cristo» – onde o artista numa figura isolada
conseguiu exprimir a síntese de um grande drama colectivo.
Antes de mais, é preciso frisá-lo bem, o «Cristo» não
é uma tela religiosa, banhada de fé e espiritualidade cristãs. Tão
pouco é, como à primeira vista poderia supor-se num artista destes
tempos de enfebrecido ateísmo, uma tela anti-religiosa,
depreciativa, condenatória desse conjunto de factos que foi a
irrupção original do Cristianismo. É sobretudo – uma tela humana. Em
qualquer dos dois sentidos, o Cristianismo é um tema de arte
definitivamente esgotado. Já não pode inspirar senão obras de arte
híbridas, deficientes, incompletas. Para ser fecundo, como tema de
arte, é preciso ser encarado / 350 / pelo seu lado exclusivamente
humano. E assim, o Cristo doentiamente bondoso, ávido de sofrer
pelos outros, que se fez matar numa crise de passividade, numa ânsia
exagerada, patológica, de amor ao próximo, o Cristo deus, vestido
com os lendários esplendores do mito solar da redenção – para o
conceber, sentir e realizar, seria preciso que revivescesse a crença
morta das gerações extintas há séculos já. O outro Cristo, tal como
era concebido no pólo oposto da religiosidade mística e cristã, o
reivindicador da plebe, o fanático criminoso da ralé, o apóstolo da
abjecção humana das cóleras nietzschianas, podia ser e foi um tema
da arte de há algumas dezenas de anos. Hoje não.

Hoje o Cristo é apenas um símbolo humano, na
expressão de Emerson – um representative man. Ele foi o
Homem, o Homem que representou a humanidade atravessando uma crise
lenta de transformação, o homem colocado no espaçoso limiar que
separa dois mundos, um mundo que desaba em ruínas e um mundo que se
forma. Simplesmente o Cristo assim concebido, em vez de viver alguns
anos, viveu alguns séculos.
Não será bem, como Carlyle pretendia para o mito
escandinavo de Odin, um herói real, um homem de carne e osso. Uma
humanidade de carne e osso indubitavelmente foi-o. Foi uma ideia
viva e como tal abrange a latitude de um símbolo humano. É esse
homem-ideia que é a figura central de um grande drama, misto de
lenda e de realidade, drama de quase três séculos, que a humanidade
viveu há perto de dois mil anos.
Consequentemente, essa figura resume, condensadamente
em si toda a acção desse drama complexo: ela é o símbolo vivo de uma
das mais belas ondulações / 351 / do pensamento humano. E assim
despojada de todos os acessórios lendários, das alegorias místicas e
depurada de todos os traços defeituosos que a realidade histórica
parece atribuir a certo agitador da Galileia, essa figura adquire um
relevo máximo. Fica mais abstracta, é certo, mas também fica mais
largamente humana, porque abrange uma maior porção de humanidade. É
que deste modo esse Cristo-ideia é simultaneamente o Homem, resumo
de uma humanidade de três séculos.
Eis o fundo concepcional da tela de António Carneiro.
A dentro desse drama estranho, o artista escolheu o episódio nodal,
aquele em que a acção parece concentrar-se e aquele que, sendo de
todos os tempos e de todos os lugares, é por conseguinte o mais
humano. É aquele em que o imperador romano, colocando o galileu,
manietado, em face dos que o acusam, diz: – eis o homem. O
Homem de facto: o Homem que é réu de um crime monstruoso, absurdo, o
– crime do ideal. É claro: o que avulta menos é o caso histórico: o
que avulta essencialmente é o facto humano. Para o ponto de vista
artístico, o que importa menos é saber se há perto de vinte séculos
um galileu sobre-humano era acusado por uma multidão fanática e
enraivecida de andar a semear um ideal novo: o que importa
principalmente é o conflito do Homem, messiânico e incompreendido,
com os homens, porque desse conflito depende o destino da
humanidade. A intensidade emocional desse drama do passado não
deriva senão do quanto nele existe de drama quotidiano. Não se trata
só de um episódio dramático da vida de Jesus: trata-se sobretudo de
um episódio dramático da vida do Homem que ultrapassa a humanidade
do seu tempo, do Homem que no dizer de Nietzsche é Sobre-homem.
Poucas telas conheço onde um assunto esteja realizado
com tanto vigor. O desenho, a expressão, a atitude da figura são de
uma sobriedade magistral, de uma unidade perfeita e sobretudo de uma
pujança emocional obsessiva, inolvidável. O corpo erecto, envolvido
numa luz difusa, ou, como diria Leonardo da Vinci, «iluminado pela
luz universal do céu e pela sombra universal da terra». A cabeça num
gesto de altiva tranquilidade. Os olhos fundos, serenos como
consciências sem medo, desfocados, ou melhor – abrangendo (e
reflectindo-o até) todo um mundo vasto que o condena e o não / 352 /
compreende. Em suma: a expressão e atitude estóicas do homem que se
coloca orgulhosamente acima de si mesmo, à altura do seu Ideal, do
Homem que no espelho da própria consciência se sente e vê –
Sobre-homem.

Eu disse que em António Carneiro se operou uma
evolução inesperada. Não quer isto, contudo, significar que essa
evolução não seja explicável. É-o até bem singelamente, hoje
sobretudo e principalmente para quem, como eu, conhecer / 353 / bem
o artista, o seu temperamento, o seu processo de trabalho e a sua
obra.
De resto, explicar essa evolução é uma coisa que
resulta mais do conhecimento do temperamento do artista do que do
conhecimento da própria obra.

Diz-se que a obra de arte é sempre um pedaço de
natureza através de um temperamento. É exacto. Simplesmente há
temperamentos que reflectem a natureza depois de elaborada e há-os
que a reflectem apenas: num caso a / 354 / obra de arte é expressão
subjectiva da natureza, noutro caso a sua expressão objectiva.
E
António Carneiro um artista que só realiza quanto sente e pensa
e não apenas quanto vê. É um subjectivo, em suma, e para ele a obra
de arte é a expressão de um estado subjectivo. A criação estética,
em António Carneiro, não resulta apenas de um acto único –
reflectir; mas sim de um trabalho duplo; interpretar e exteriorizar.
Em face da natureza, antes de tudo ele sente necessidade de a
interpretar. Interpretar a natureza é descobrir-lhe uma lei
modeladora, Para o artista essa lei chama-se alma (pouco importa o
termo) e interpretar a natureza é buscar, por entre as formas, a
expressão reveladora dessa alma, Uma vez interpretada, uma vez
achada a alma (ou lei) que a modela, começa para o pintor um outro
trabalho de elaboração íntima, de gestação silenciosa, de verdadeira
criação interior, que consiste em converter a expressão estética,
tornando-a evidente e sensível aos que dantes a não viam ou não
sentiam, em suma em traduzir a natureza em obra de arte.
Em face disto, toda a obra de António Carneiro se
explica natural e espontaneamente. Sendo nele a obra de arte o
resultado directo de um estado subjectivo, o valor estético de cada
tela explica-se e pode medir-se até pelo grau de intensidade
emocional criadora e pela qualidade da emoção que o assunto produziu
na alma do artista. Demais, apesar de António Carneiro conhecer
maravilhosamente todos os recursos técnicos da sua arte, na sua obra
nunca a expressão técnica consegue ultrapassar a emoção criadora. /
355 / Ele não sabe à custa de um excessivo poder de realização
encobrir uma emoção apagada. É um artista que apenas realiza como
sente. E assim se explica o facto paradoxal de certos estudos, da
Ceia, e do Baptismo, por exemplo, serem de um valor artístico bem
superior ao da tela definitiva. A “Ceia" abstraindo mesmo de que ela
significa um traço mítico das religiões primitivas, aflorando em
pleno Cristianismo, e encarado à luz da filosofia cristã, é um
assunto gasto e não pode agitar fortemente a sensibilidade de um
artista de hoje. O mesmo não aconteceu com os estudos para esta
tela. Pedaços da vida real, da vida de hoje, o artista tratou-os com
todo o carinho de quem está inteiramente possuído desses temas
fragmentários, esquecido da emoção que devia imprimir à tela
definitiva a sua unidade, sentindo-os em si mesmos, desligados do
conjunto que deviam formar. Ao integrá-los no assunto central da
tela que o artista não podia sentir fortemente, porque representava
uma emoção extinta, transplantou-os para uma outra luz, para uma
outra vida, e toda a harmonia expressiva que eles continham
isoladamente, na luz do seu meio, dentro da sua vida, se perdia,
apagada, abafada, como num ambiente de asfixia. Claramente, esses
estudos são belos pedaços de arte, porque o artista os sentiu,
porque os foi buscar e escolher à vida; a tela definitiva fica muito
aquém destes estudos, porque o artista não podia sentir, ou, quando
muito, sentia fracamente, esse velho assunto de uma religião morta.
No «Baptismo» semelhantemente. Há a acrescentar que
no «Baptismo» a emoção criadora, dominante, era principalmente uma
emoção contemplativa: Uma emoção de paisagem bíblica. Mais do que
uma acção dramática, o pintor evocava um trecho da Palestina, onde
os vultos das figuras, indecisas e esbatidas como vultos de árvores,
se perdiam na luz frouxa e triste do entardecer, à beira do lago
adormecido. Quando o artista quer recortar e perspectivar a acção,
dentro desse ambiente de luz vaga banhando um pedaço de natureza
silenciosa, ele não faz senão afrouxar o que a emoção contemplativa
criou.
Mas mesmo no pintor retratista se observa um fenómeno
idêntico da criação subjectiva: são sempre mais perfeitos os
retratos em que o artista está senhor do assunto. O assunto, num
retrato, é, claramente, a personalidade do retratado. Sendo António
Carneiro um artista que se conhece a si mesmo, que se interpreta,
que se explica, um consciente da própria individualidade,
logicamente conclui-se que o melhor de todos os retratos seria o que
ele pintou de si mesmo. De facto é uma tela notável, da qual Guerra
Junqueiro me dizia ser uma obra de arte que lembrava e valia
qualquer das melhores telas dos grandes mestres espanhóis. Esse
retrato, de um carácter acentuadamente contempla na sua tonalidade
vagamente melancólica, reflecte intensamente a última fase,
sonhadora, idealista, da mocidade do pintor.
Mas rigorosamente documentativos, sob este ponto de
vista, são os dois retratos de António Patrício, que o artista fez
em épocas diferentes, separados pelo intervalo espaçoso de alguns
anos. Esses retratos dão simultaneamente a medida da amplificação
evolutiva do artista e do seu processo / 356 / de trabalho. O
primeiro destes retratos, posto que não seja uma obra medíocre, e já
acuse uma maneira de pintar francamente pessoal, não é todavia de
molde a sustentar uma comparação com alguns retratos que António
Carneiro pintou por essa época, menos ainda com os que executou
depois, como é o de Dona Beatriz Mourão, e até nem mesmo com alguns
que o artista pintara anteriormente, como o de Alfredo Coimbra,
apesar de este retrato se ressentir ainda da influência de alguns
pintores espanhóis, de Ribera sobretudo. Porém, o último retrato de
António Patrício é uma obra perfeita, completa, uma destas obras de
arte que, vistas uma vez, não esquecem mais. Esse retrato é mais do
que o retrato de um homem: é a expressão plástica de um tipo humano.
E é singela a razão da distância que vai de um retrato ao outro: é
que não só o pintor evoluiu, mas também, na época em que pintou o
primeiro desses retratos, ele conhecia deficientemente António
Patrício, ao passo que, ao tempo que desenhou o segundo, já não
conhecia a mesma coisa. E para isso creio ter concorrido
poderosamente o facto de António Patrício, durante o intervalo de
tempo que vai de um retrato ao outro, ter publicado o “Oceano",
livro que, além de ser uma espécie de automonografia psicológica do
poeta, feita em linguagem de arte, é também a expressão subjectiva,
intensamente sentida, de uma grande crise da alma contemporânea. E é
por isso mesmo que esse retrato, como obra de arte, atinge a
latitude de um tipo humano.
De resto, é esta a qualidade predominante de António
Carneiro e aquela que revela acentuadamente o seu génio criador,
mesmo como pintor de retratos: é retratar indivíduos, dando-lhes ao
mesmo tempo, sem lhes apagar o carácter que lhes imprime
individualidade, a máxima generalidade possível de tipos.
Cada homem abrange em si e representa uma porção de
humanidade: cada indivíduo contém em si um tipo.
António Carneiro, nos seus retratos, não exprime
exclusivamente a individualidade do retratado, exprime também a
amplitude representativa. Isto que afirmo podia ainda ser
exemplificado com o retrato do Sr. Francisco Cardoso, – uma obra de
arte poderosa, impressiva, que diríeis desenhada com uma sobriedade
leonardesca. De resto, o «Cristo», que é senão um retrato ideal de
um homem universal, que abrange e representa uma humanidade, o
retrato do Homem?
Como paisagista, é ainda e sempre o mesmo subjectivo:
mais do que pedaços da natureza, o artista pinta sobretudo as
próprias sensações, o que vulgarmente se chama estados de alma.
Fitai de relance uma dessas paisagens: a natureza em si parece
perdida numa bruma longínqua e o que avulta e ressalta vigorosamente
é a sensação do artista, o seu estado / 357 / subjectivo no momento
da criação artística. As paisagens de António Carneiro são notáveis
sobretudo pela luz. Elas não emocionam principalmente pelo desenho,
pela linguagem simples das linhas, emocionam sobretudo pela
linguagem luminosa, E compreende-se que assim seja. A luz é a mais
expressiva linguagem das coisas, O mesmo objecto, iluminado
diversamente, exprime coisas diversas, fala de coisas diversas,
desperta sensações diferentes. Esta afirmação minha tornar-se-á
evidente um dia breve em que o artista expuser uma soberba colecção
de marinhas, pintadas ultimamente, surpreendentes pelos efeitos de
luz.
Se na trajectória evolutiva deste artista as telas e
os desenhos definitivos marcam os pontos essenciais dessa evolução,
os estudos – sobretudo os desenhos – representam nas suas
minudências toda a linha evolutiva do artista.
Eu creio poder dizer, sem receio de que me acusem de
hiperbólico, que em Portugal, se não desenha melhor.
E a demonstrá-lo melhor do que eu – está aí toda a
sua obra, desde os estudos da «Ceia», até aos retratos de António
Patrício e do Sr. Francisco Cardoso, onde António Carneiro atingiu a
plenitude da perfeição.
MANUEL LARANJEIRA
|
|