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A evolução política do Brasil
Desejando dar aos seus leitores um aperçu bastante exacto do
estado político e social, económico e artístico, da florescente
República de além do Atlântico, povoada pela raça portuguesa e
penhor de revivescência para a língua de Camões, a empresa dos “Serões”
envidou todos os esforços para que os mais notáveis publicistas
brasileiros lhe fornecessem autorizados elementos de estudo e
francas opiniões sobre a sua bela pátria.
Correspondeu já ao nosso apelo o eminente orador político Dr. Lauro
Sodré, um dos estadistas de maior relevo nos Estados Unidos do
Brasil. O seu nome, respeitado por todos, amigos e adversários,
representa uma esperança brilhante de futuro, que virá coroar um
passado glorioso. Ainda há menos de um ano, numa festa realizada no
Teatro Lírico do Rio de Janeiro, lhe foi solenemente oferecida uma
espada de honra, como manifestação de apreço e de reconhecimento
pelos serviços prestados pelo ilustre cidadão à pátria e à
liberdade.
É esta glória do Brasil moderno que honra os “Serões” com a
sua pena de ouro, dando uma ideia nítida e completa da evolução
política do seu país, e inaugurando assim esplendidamente a série de
artigos que acima prometemos.
Não podemos furtar-nos a um caloroso agradecimento por esta prova de
distinção concedida à nossa revista, e que é mais uma demonstração
do carinhoso acolhimento que ela tem merecido na grande República
nossa irmã.
TAMANHA é a complexidade dos fenómenos sociais, de tal modo aparecem
aos nossos olhos os factos de ordem política, que entre cientistas
há quem tenha por impossível pôr ordem nesse grande caos, estendendo
até esse superior degrau da escala do saber o princípio fundamental
de ordem e sucessão, que ata e relaciona todos os fenómenos
naturais, subordinando-os a leis fixas e invariáveis.
Para os que assim pensam nenhum valor têm os trabalhos dos que,
seguindo as largas / 271 / e fecundas veredas abertas pelo eminente
filósofo francês, a quem pôde conhecido e bem reputado homem de
letras apelidar – le roi de la pensée du XIXe siècle –,
figuram operários prestadios da obra genial, que Augusto Comte
arquitectou quando criou a Sociologia Positiva.
Diante desse feito científico, que por o seu nome fora de par entre
os maiores espíritos do século que findou, curvaram-se em preitos de
sincera homenagem críticos de valor, que andaram a derrocar a sua
obra filosófica, política e religiosa.
Era um Stuart-MiII, nome que em todos os tempos fará o orgulho da
Inglaterra, saindo a público para proclamar que todos os que tiverem
repugnância em admitir a crença de vir a ser a filosofia da história
uma ciência devem suspender os seus juízos até que tenham lido a
obra magistral do incomparável mestre.
Isso não tira aos fenómenos sociais a sua natureza especial, que
neles torna, mais do que em qualquer outro campo de exploração
mental, difícil e muita vez impossível a precisão, que é por toda
parte a característica essencial da ciência.
Essa foi a grande e a maravilhosa conquista do século passado. O
saber positivo ficou definitivamente integralizado, completado o
ciclo das ciências, o que só tornou possível a constituição de uma
filosofia, que é filha das ciências, destinada a subir até onde elas
subirem, a exercer a mesma influência, que elas exercerem, para
redizer a palavra de um dos notáveis discípulos e sabedores das
novas doutrinas.
Os que, rebeldes à lição dos que sabem, presumem que nas suas mãos
está o encaminhar e dirigir, ao saber das suas vontades arbitrárias,
os acontecimentos políticos e sociais, são as mais das vezes vítimas
inconscientes dessa crença falaz e dessa ignorância das leis que
regulam a evolução natural, na ordem sociológica, como no domínio da
biologia e da cosmologia.
A maior parte dos erros, que a história regista, e que marcam
tristemente os anais da humanidade, são o resultado dessa ilusão dos
que governam, na crença ingénua de que, onde não domina o dedo da
providência, que Bossuet ensinou a ver dirigindo os impérios, do
nascedouro ao túmulo, prepondera o livre arbítrio do homem, a
vontade absoluta do indivíduo, consagração dogmática de uma
metafísica tão estéril como absurda.
E em boa dose essa ilusão, em que vivem os homens que figuram na
política, resulta da sua errada preparação científica, que faz com
que em sociologia decidam os que não sabem aritmética.
O Brasil, nem porque entre nós tais desacertos e desconchavos andam
às escâncaras, figura o recanto do mundo em o qual tais coisas
pareçam singulares ou excepcionais. Do assombroso evolver da ciência
exactamente resultou, no discurso das últimas décadas do derradeiro
século, que há no mundo policiado um nível geral na ordem
intelectual e moral, a que todos os povos facilmente e
simultaneamente atingem, graças aos meios fáceis de comércio e
comunicação, e às feições novas das relações de toda ordem
estabelecidas entre as nações do ocidente e do oriente, do antigo e
do novo continente, do norte e do sul da América. Hoje não há
porções do globo, em que vivam gentes cultas, cujo estado mental e
social fique graus e graus abaixo do mais alto nível a que tenham
subido os povos mais adiantados.
A ciência, multiplicando os factores de progresso e criando essa
enormidade de recursos, que valeram o extraordinário desenvolvimento
material, intelectual e moral do homem, tornou esse desnivelamento
impossível.
Como as correntes da atmosfera, que passam em derredor da terra
toda, como a circulação dos mares, que por toda parte envolvem os
continentes, como os movimentos sísmicos, que vão de partícula em
partícula, de bloco em bloco, de montanha em montanha, por toda a
superfície do globo, denunciados nos marégrafos e nos instrumentos
de precisão nos observatórios do meteorologista ou do astrónomo, as
ideias novas, as descobertas da ciência correm de terra a terra, de
homem a homem, de cérebro a cérebro, e iluminam por toda a parte os
espíritos e guiam no mundo todo as consciências abertas à luz.
E é erro a presunção com que em países da Europa são estudadas e
discutidas as coisas de outras regiões da terra, como se nelas não
tivesse ainda chegado a luz da aurora, que se fez dia nos mais
adiantados países do ocidente.
Por isso é que não darão para espantar os nossos erros e as nossas
faltas, os nossos desacertos e desvios das boas regras da política e
das normas e sãos preceitos da moral / 272 / científica. O maior mal
que nos aflige é um efeito de uma causa, que em todas as nações gera
danos e malefícios.
Derrocado o velho edifício das crenças teológicas e abaladas as
instituições políticas, que com elas faziam o sólido e belo
monumento da idade média, a humanidade ficou entregue à acção
desencontrada de forças divergentes e opostas, de onde se originou a
anarquia intelectual, de que resultam, como naturais corolários, as
desordens políticas, morais e sociais, que afligem e infelicitam
todos os povos na hora presente.
O que nós aqui em boa dose vivemos a padecer não é um mal só da
nossa terra, nem é um mal só da nossa idade.
Sem que tenham no seio causas como as que entre nós estão tão
desastrosos / 273 / efeitos mórbidos, muitas nações do velho mundo
vivem trabalhadas por tremendas crises económicas, políticas e
sociais, formulados por toda parte e não resolvidos graves e
temerosos problemas.
Basta ver como, chegados ao século XX, quando parecia que a
Humanidade ia entrar em nova fase de civilização e de progresso,
aproximando-se cada vez mais e sempre desse ideal de fraternidade
destinado a ligar todos os povos numa só e grande família, feita a
federação da Europa, e proclamado o código da justiça internacional,
que poria remate às guerras com que as nações agora deslindam os
seus dissídios, por uma espécie de regressão ou evolução en
arrière, a que parecem sujeitos os organismos sociais como os
individuais, sucede essa volta aos institutos primitivos, o
predomínio desse espírito guerreiro, essa fome e sede de conquistas,
o princípio retrógrado do imperialismo, que é a regência
absoluta da força, proclamado em lugar da acção pacífica e
progressiva do direito e da justiça.
Dir-se-ia que é agora entre as nações um duelo universal. Têm elas
antes de tudo essa preocupação dominante de armar-se, pondo em face
dos exércitos estrangeiros e das esquadras de outros povos os seus
grandes exércitos e as suas poderosíssimas marinhas de guerra.
Infelizes os Estados pequenos ou pobres, que não podem chegar a tal
situação de força material. Paira sobre eles a mais tremenda ameaça.
E debalde invocariam os grandes princípios solenemente consagrados
em retumbantes mensagens ou acordos e tratados internacionais,
criando tribunais de arbitramento. A mão de ferro dos poderosos
cairia pesada a esmagá-las se ingénuas e descuidadas confiassem na
força do direito, recurso inútil contra o direito da força. É de
vê-las impondo-se pelo possante canhão, pelo fuzil moderno, e por
todos os múltiplos e terríveis engenhos, que as artes da guerra
foram haurir nos férteis mananciais das descobertas científicas, que
põem na mão do homem aperfeiçoados e centuplicados os instrumentos
de destruição e de morticínio, ao mesmo tempo que cuidadosamente
ensinam os meios de prolongar a vida humana, vencendo pelos recursos
da higiene pública e privada, dia a dia crescentes, e pelos novos e
aperfeiçoados métodos e processos da arte de curar os mil e um
empeços, que a natureza a cada hora levanta contra o ser
fragilíssimo, que é o rei da criação, o deus mortal, o primeiro dos
primatas, o descendente do homo alalus.
Dir-se-ia que nós estamos a atravessar uma dessas fases históricas
em que a humanidade enfrenta e resolve um dos grandes problemas,
cuja solução assinala a passagem de um período político-social para
um novo período, em que novos princípios e ideias novas alumiam como
faróis radiantes e providenciais as regiões indefinidas por onde
imos a jornadear, joguetes de todos os caprichos da natureza cega e
inconsciente, que nos envolve de todos os lados, e contra cujas
forças ilimitadas e adversas nós não contamos senão com o auxílio da
nossa razão impotente as mais das vezes, débil e sempre relativa,
servida por órgãos, que são instrumentos físicos imperfeitos.
Dir-se-ia que a nossa é uma dessas épocas, em que o espírito da
revelação permanente e racional, que apregoa verdades novas e que
erradica antigos erros, parece trabalhar mais profundamente as
sociedades humanas, sacudindo-as e atormentando-as como quem das
velhas nações faz que nasçam novos povos para relembrar a palavra
eloquente dessa mulher de génio, que antepôs ao livro admirável de
Charles Darwin um prefácio, que vale por um pórtico digno de tão
majestoso monumento de saber científico e filosófico.
Pois até nós bateu a grande vaga do mar, que alastra e convulsiona o
continente mais antigo. Como através dos ares, como por dentro do
âmago das terras, como pelo interior das massas densas de águas
passam as ondas eléctricas, as correntes morais e intelectuais, as
ideias, os pensamentos, os erros, as paixões nobres e generosas, as
ruins e as baixas paixões vão através da matéria, que constitui o
meio social, contínuo e uniforme, como um grande ser, ligado no
tempo às gerações já caídas e mortas, ligado no espaço como um só
organismo, onde o homem individual figura a célula de um extenso e
multiforme tecido.
A essas causas gerais e mundiais de turbação e desordem moral
acrescem as que são peculiares nossas, oriundas do nosso passado,
dos nossos antecedentes e da nossa história, dos sucessos
particulares, que no nosso seio se realizaram, a influir no nosso
movimento relativo, efeito de causas especiais e independentes da
acção e dos sucessos gerados pelas / 274 / orças, que dão em
resultado a marcha geral da humanidade lida como um só todo.
A revolução, que entre nós operou a transformação política do país,
derrocando o trono e pondo em vigência as instituições republicanas
proclamadas aos 15 de Novembro de 1889, foi um facto natural e
previsto, ocorrido à sazão própria, determinado por longos e
poderosos e fatais antecedentes históricos.
Um dos escritores do moderno Portugal, que tanto valia pelo seu
saber como pela forma literária em que os seus pensamentos eram
traduzidos, o Sr. Latino Coelho, precisou com rigor científico a
radical e espontânea antipatia, que sempre fez entre nós a monarquia
figurar como uma excepção no sistema político propriamente americano
onde era quase uma anomalia, como um tipo orgânico em certa maneira
dissonante da flora política do Novo Mundo.
Não lograra entre nós o império criar fundas raízes. Por isso é que
a observadores estranhos desajudados do fio condutor da história,
sem o conhecimento verdadeiro do nosso passado e da nossa vida, a
revolução que derribou o império pareceu um como milagre!
A verdade é que o império no Brasil nasceu, medrou, viveu e sumiu-se
no meio de lutas e revoluções, de motins intestinos e de guerras
estrangeiras, e que só descansou de bater-se contra as energias
viris do povo brasileiro em 1848 para atirar a nação a essa guerra
insensata e cruel contra o Paraguai. E mal íamos restaurando as
forças gastas nessa luta de tantos anos, feriu-se a campanha
abolicionista rematada gloriosamente pela áurea lei de 13 de Maio de
1888, imposta ao imperador pela força da opinião triunfante escudada
nas baionetas do exército partidário decidido da grande causa
liberal e abriu-se com o manifesto de 1870 essa guerra de francos
atiradores contra a realeza, que só findou com a vitória de 15 de
Novembro.
E porque assim foi, e porque a república representa a realização de
legítimas e seculares aspirações democráticas, que em germe se
encontram no espírito de gerações, que de muito precederam a que
logrou a ventura de converter em facto a ideia professada por tantos
brasileiros, e que semeou de mártires o terreno da nossa história,
rematado erro seria agora tentar esse recuo irracional, essa volta
ao passado, de que nós saímos como quem passa naturalmente de um
regime político para outro, que representa um degrau superior.
Se é certo que podemos considerar como ilusória a crença, que
atribui à forma republicana uma sorte de virtude misteriosa, segundo
a qual bastaria só a proclamação dessa forma de governo para
realizar a felicidade do mundo, não é menos certo, em oposição a
esses conceitos de um dos melhores espíritos da França
contemporânea, que a república é de toda evidência o tipo ideal e
perfeito pelo qual tende a modelar-se toda organização política
verdadeiramente liberal e popular. Essa a lição de Edward Freeman,
que eu sigo e repito na defesa da minha fé política, imutável e
firme através de todas as lutas em que tenho entrado contra os erros
e abusos dos que tão mal compreendem o regime político, que foi
organizado pela Constituição de 24 de Fevereiro, fiado a mãos de
falsos e incompetentes executores.
E eu tenho sobejamente esclarecido o espírito para ver com
imparcialidade muitas das causas de que promanam em boa parte,
necessários e inevitáveis erros e males nossos.
Ainda que o movimento, que operou a substituição do velho regime
pelo regime novo, foi de feitio a parecer antes uma evolução do que
uma revolução, não há como negar que nós padecemos mutações
múltiplas, adoptando normas de acção totalmente opostas às que entre
nós eram seguidas. Despidas as roupagens realengas, a democracia
deu-nos moldes tão diferentes dos obsoletos do império, que, mesmo
os doutrinários e evangelizadores da fé republicana triunfante,
sentiram-se muita vez desajeitados e esconsos, como quem mal poderia
ficar a prumo em terrenos estranhos e impérvios. E que dizer
daqueles que tinham sido adversários dos princípios republicanos,
até à derradeira hora ao serviço da coroa, e que por cálculo
egoístico e pelos caprichos da fortuna, que tanta vez acode em ajuda
dos audazes, assumiram nas novas instituições função de mando,
feitos executores de planos a cuja concepção e traça tinham sido de
todo estranhos quando não contrários?
Muito é o que valem os homens na ordem social. Neles as ideias e os
princípios se objectivam e incarnam. Para não ficar estéril é
necessário que todo concurso se resuma numa individualidade. O
organismo social é um sistema de forças. As leis fundamentais / 275
/ da mecânica põem de manifesto que só uma força exterior pode
modificá-lo.
Sem um órgão individual não pode haver unção.
A palavra é do autor do Espírito das leis, o notável livro que marca
os meados do século XVIII como uma era nova do pensamento humano, de
onde a filosofia entrou a seguir outros roteiros: nos primórdios são
os chefes das repúblicas que fazem a instituição; só mais tarde é
que as instituições formam os chefes das repúblicas.
Temos vivido desajudados desses factores.
Desaparecida do cenário da vida pública a figura excepcional de
Benjamin Constant, dir-se-ia que fados adversos, conspirando a nossa
ruína, privaram-nos de contar nos primeiros tempos com o concurso de
individualidades modeladas pelos Washingtons, pelos Cromwels, pelos
Dantons, pelos Thiers.
E era porventura maior entre nós o passo a dar no terreno da
evolução política e social. O país mal vinha saindo da fase aguda da
tremenda crise que o abalou, repondo o problema do trabalho
nacional, após a lei incomparável da abolição da escravatura,
problema que a monarquia não enfrentou.
Saímos do regime da mais ferrenha centralização administrativa, que
fazia das províncias corpos sem vida, organismos atrofiados, e
graças à acção da lei natural da equivalência, formulada por Newton,
e que rege os fenómenos de natureza cosmológica como os de ordem
moral, biológicos e sociais, fomos ter à mais completa e absoluta
descentralização; transformadas as províncias em uns Estados quase
soberanos, feita a federação à moda americana, o que era entre nós
um salto brusco, de que resultaram muitos erros e os maiores danos.
Mal andaram muitos na compreensão desse regime novo, pior andam
ainda os que desacertam na prática dele, contribuindo para que os
Estados brasileiros figurem, em face uns dos outros, como entidades
estranhas, quebrados os laços de harmonia e fraternidade, que de nos
fariam um grande todo forte e poderoso. Desmanchou-se a unidade
nacional, e a figura da Pátria, diluída em 21 pequenas pátrias
desenhadas, porque está quebrado o vínculo do direito e da justiça,
esmaece e mingua, como se agora aqui para nós surgisse a fase, que
viveram os Estados Unidos da América, cujas tradições históricas não
eram as nossas, quando, consoante a palavra célebre de Patrick Henri,
– todos os patriotas cessaram de pensar e sentir como americanos
para tornar-se, mais exclusivamente do que nunca, Carolinianos,
Virginianos, Nova iorkeses.
Não passámos só da monarquia para a República, da centralização à
outrance para a mais ampla federação, deixámos o regime
parlamentar e adoptámos as formas presidenciais americanas, ainda
não compreendidas nem praticadas. O império era a ficção da
irresponsabilidade da coroa, com a responsabilidade real e efectiva
dos ministros. A República é o sistema da responsabilidade
«consagrada na carta fundamental de Fevereiro, porque o chefe do
Estado governa e administra, feita na realidade uma mera ficção.
E para completar a série das mudanças mais radicais que nós sofremos
nessa transição de 1889, prolongada por toda a fase progressiva e
orgânica da ditadura inicial, recordemos a separação do Estado da
Igreja, que de modo cabal e perfeito marcou limites claros entre o
domínio espiritual e temporal, emancipando as consciências, e
proclamando, ao menos em letras de leis expressas, todas as
liberdades decorrentes dessa medida, que é ainda uma aspiração dos
espíritos liberais em muitas nações cultas do velho e do novo mundo,
e que só agora, após trinta e cinco anos de vida republicana,
aparece decretada em França.
A essas principais, acedem como secundárias muitas outras causas
determinantes dos embaraços e dificuldades que a república tem tido
que vencer, prolongando-se o período revolucionário, ainda não
fechado o ciclo das resistências e das crises políticas nesta longa
fase de ajustamento da consciência nacional aos novos moldes, alguns
dos quais ao parecer lhe são de todo exóticos e repugnantes.
O tempo corrigirá as demasias e asperezas, modificando as actuais
instituições no que elas têm de errado. Para lograr esse
desiderato, de muito valerá a acção dos homens políticos
empenhados nessa tarefa de emendar e refazer a obra encetada.
Essa aspiração de reformas é hoje uma bandeira nacional, o programa
de acção de um grande e forte partido. Nem isso é a fantasia de
espíritos irrequietos, levados pela monomania de reformar. As
criações humanas não são eternas. A lei universal é o perpetuum
mobile. A vida é em todo o mundo orgânico / 276 / e
super-orgânico um movimento que não cessa, de tal modo que um dos
celebérrimos criadores da ciência moderna, pôde defini-la – uma
morte constante.
Somos um país novo, um povo cuja idade é relativamente curta. De par
com as grandezas do nosso solo sem igual, tão extenso que dele não
temos ainda bem a consciência geográfica para lembrar a expressão de
Boutmi, com as riquezas naturais do subsolo, das nossas matas, das
nossas correntes fluviais, tais e tantas que o notável escritor
inglês viu nessa exuberância de bens materiais a causa determinante
do nosso tardo progredir, como se «amid this pomp and splendour
of Nature no place is left for man»; de par com essa abundância
de vida, em que se desata aqui a natureza, e que põe o Brasil
above all the countries of the earth, na frase de Tomas Buckle,
o homem conta energias de carácter, que lhe asseguram no futuro a
certeza da vitória nas lutas, em que ao presente está metido em bem
das garantias das suas liberdades e dos seus direitos.
Para que os nossos progressos materiais sejam completos e dêem o
único resultado que devem dar, concorrendo para aumentar a soma de
felicidade e bem-estar do homem de todas as classes sociais, é
indispensável que eles assentem sobre a larga base sólida e
indestrutível do nosso progresso moral, que será o fruto do
alargamento e generalização do ensino público levado a todos, e
compreendido como deve ser, ensino moderno e integral, em que as
luzes das ciências físicas e naturais formem os alicerces em que se
esteiem as ciências morais, todas guiadas pelas matemáticas, que dão
os métodos gerais e formam a verdadeira lógica científica.
Disso a República cuidou na sua primeira hora.
Nesse tempo foi como se os encantadores arrebois de um dilúculo
aparecessem como sedutores prenúncios de um intenso dia de clara e
viva luz. Foi no país todo como um mágico sursum corda.
Vivíamos como quem sentia vir soando a hora de uma mirífica
palingenesia social e política. A República surgia como uma alvorada
doirada e rósea após a longa noite trevosa do império. Assim é que
nós a saudávamos, os que nesse tempo íamos entrando na vida pública,
geração nova, cujas almas ardentes viam o regime nascente através de
um prisma sedutor, que, pondo à mostra as cores irisadas do
espectro, não deixa ver os raios caloríficos e químicos obscuros.
O ensino público recebeu das mãos de Benjamin Constant, o mestre
querido e sábio de nós todos, o impulso vigoroso da sua orientação
científico-filosófica, completa e sã.
Das suas mãos saiu remodelado em todas as suas fases a instrução
popular, a superior a secundária, a elementar.
Novos códigos foram decretados para as nossas escolas superiores em
toda a República, civis e militares, de belas artes e de ciências ou
letras. E em todos esses códigos ficou o traço de luz dessa alta
mentalidade cujos largos descortinos entreviam um novo Brasil
renascido das ruínas do antigo Brasil, refeita a nossa errada
educação, levantado o nosso nível moral, corrigidos os obsoletos
hábitos, esquecidas as práticas deletérias do regime caduco,
vencidas em suma todas as resistências do meio bio-social.
O tempo desfez em grande parte essas ilusões de uma outra idade. A
imagem, que seduzia e encantava os idealistas de uma república feita
só de virtudes, de direito e de justiça, deparou-se-lhes
metamorfoseada nessa realidade em que tantas vezes os vícios, as
iniquidades, as violências, os arbítrios, os abusos e os crimes
geram desalentos, desfazem esperanças, desarreigam a fé de muitos e
levam tantos erradamente a pôr os olhos no passado já remoto como
quem vê nele idades mais felizes, dias de vida mais bem vivida, como
quem acredita que nos organismos sociais dominasse o princípio da
evolução reversível como regra.
A república é a forma definitiva da nossa organização política. O
nosso dever agora é emendar erros, corrigir senões e apagar nódoas
onde tudo isso está, dentro dos limites traçados pela lei nova.
Nesse rumo é grande a fé que eu tenho nas gerações que vão agora
surgindo, já nadas e a medrar sob o influxo dos novos princípios,
que eles saberão praticar melhor do que aqueles que trouxeram os
maus vezos e os defeitos contraídos no serviço de instituições
políticas de todo ponto diferentes, e que exigem normas de conduta
diversas e opostas.
A nossa índole e a força da tradição serão factores que servirão de
auxiliar a nossa evolução moral. Somos um povo essencial e
profundamente democrático. E tal é a força dessa tendência que a
monarquia viveu em / 277 / nossa pátria desacompanhada de luxos e
espaventos, quase rasteira e humilde, sem ouropeis e sem grandezas,
sob a influência do meio, rebelde e avesso a usos aristocráticos e
em cujo seio impossível foi que vingassem, divorciadas da massa
popular e a ela totalmente alheias, classes de fidalgos feitos ao
sabor de el-rei.
Antes que a lei positiva viesse decretá-lo por modo expresso,
apagando o privilégio dinasta, a opinião soberana vivia em revolta
contra a tentativa de implantar em terras da América o regime de
castas, pondo entre brasileiros distinções deprimentes, quais as que
não são baseadas sobre a superioridade das virtudes, do saber e do
carácter.
Dos monarcas pode-se dizer como a distinta e conhecida escritora
disse dos deuses, que nós lhes devemos justiça, mas somente justiça
e nada mais, sendo que a imparcialidade com que os julgarmos será a
melhor garantia da que formos capazes de usar nos nossos juízos
acerca dos demais homens.
Pois o último representante da realeza no Brasil era no seu viver e
no seu trato uma encarnação desses princípios, bondoso e simples.
Daí é que resulta fácil a obra de radicação das instituições
republicanas. E somos uma democracia genuína, onde figuram iguais e
irmãos, gentes de todas as cores, homens de todas as raças,
indivíduos de todas as condições e origens, em cujo seio debalde
tentariam os cegos imitadores da plutocracia americana fazer
decretar a inferioridade política e moral do negro, que foi um
factor do nosso desenvolvimento e que deu às letras, às ciências e à
política, desde os mais remotos períodos da nossa história, tão
dignos e notáveis representantes.
O Brasil é hoje uma resultante de um conjunto de factores de um
sistema de forças cuja acção lenta e contínua operou a integração
geográfica do solo e fez a síntese da consciência nacional.
Somos um povo, em quem o amor da família produz tipos de beleza
moral incomparáveis, e que faz do culto da mulher a grande religião
positiva e fecunda, de onde promana a força de resistência moral
que, desdados os laços que nos enodavam os espíritos aos dogmas da
teologia e da religião católica, fez do casamento essa espécie de
sacramento cívico, graças ao que a sua indissolubilidade persiste
duradoura contra as teorias jurídicas, tidas como criações modernas
da civilização chegadas às suas culminâncias.
Somos uma nação onde o sentimento do amor da Pátria é capaz de
operar milagres.
E de tal terra e de tal gente ninguém dirá que um dia os aguarda o
destino que é o quinhão reservado aos povos políticos e moralmente
incapazes.
As grandes reservas de forças materiais e as incalculáveis energias
morais que são o nosso património dão a cada um de nós a consciência
do que seremos e do que havemos de valer no concerto dos povos
policiados.
Há-de operar-se naturalmente assim a evolução material, política e
moral que nos virá assegurar o papel, que tem por força de caber-nos
no continente americano e em todo o mundo ocidentalizado.
À República está destinada essa missão providencial.
Façamos que nas nossas relações externas prepondere uma política
francamente nacional que nos deixe fortes diante das nações mais
fortes.
Saibam os brasileiros cumprir os deveres que o patriotismo a todos
impõe, encarando os problemas, que estão desafiando as actividades
de todos, na ordem política como na ordem económica e social, olhos
postos na sentença do grande filósofo inglês: prudens questio
quasi dimidium scientiae, aplicável em todos os domínios do
saber.
E bom será que dos nossos espíritos saia de vez esse falso
preconceito que entibia, amolenta e enerva, pregoando a nossa
incapacidade moral e traduzida na sentença vexatória e cruel que nos
daria como incapazes de acomodar-nos aos princípios republicanos, só
dignos dos povos que se fizeram maiores, no dizer do poeta, como, só
por vício congénito, entre todos figurássemos como um povo
excepcional e único, nascido para a escravidão e refractário ao
influxo benéfico das virtudes cívicas, que dão à gente a faculdade
de gerir os seus próprios destinos fora da tutelagem humilhante de
déspotas ou falsos semi-deuses.
É esse mesmo pregão desonroso, que autoriza a hipótese absurda de
reservar-nos o futuro, o destino de sermos o pasto em que venham
saciar um dia a sua fome e sede de conquistas as grandes nações do
mundo, / 278 / retalhado o nosso solo como cibalho sem vida entre
possantes e vorazes aves de rapina.
Desventurada geração a nossa, se esse desenho da liquidação da
Pátria e do aniquilamento da nossa nacionalidade não desse rebate a
todas as consciências para chamá-las a postos na luta pela defesa da
vida e da honra.
Que outros sejam os ideais e as perspectivas sedutoras de futuro,
que sorriam às gerações que agora vão surgindo, e que de nossas mãos
terão que receber, como legado do patriotismo e do brio, a Pátria
engrandecida e forte para fazê-la feliz. E hão-de ser mais ditosos
do que nós, se a ordem moral, baseada sobre o direito e a justiça,
pelo reinado da liberdade em todos os domínios da actividade, servir
de solidados alicerces, em que repousa estável a ordem material que
se há-de desdobrar num fecundo e indefinido progresso.
É necessário ensinar aos moços que muito embora tenhamos de seguir a
lição dos povos mais avançados, recebendo os raios da luz, que os
esclareceu e guiou a eles, não temos de que sentir-nos humildes e
vexados.
O nosso passado e o nosso presente dão para que, em face de todas as
nações, possamos sentir-nos orgulhecidos porque somos americanos, e
ainda mais orgulhosos e felizes porque somos brasileiros.
5 de março de 1906
LAVRO SODRÉ
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