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Caixas de rapé
COMO o soneto volante impresso a oiro e historiado
por um iluminista de côrte, a folha clandestina e o lorgnon
modelado por Germain, representa a caixa de rapé, no conjunto da sua
plástica, no desenho dos seus medalhões, na vigorosa cinzelagem dos
seus pequeninos fechos, um dos elementos mais típicos da arte
preciosa e voluptuosa que entre pastorinhos da Arcádia parece ter
tido por berço o regaço da Pompadour. Integrada no gesto galante do
século XVIIl como um dos atributos mais vieile roche do
maneirismo das suas curvas, passada e oferecida como fina pedra de
toque a explicar puras origens e nobres categorias, sublinhando
conceitos ou confidências no modo intencional da sua oferta, é a
muda tagarela que promete ou recusa, sorri ou amua, enquanto dedos
finos dão pancadinhas discretas nos bofes de renda, enchendo com
requintado ademan o silêncio da contra-cena. / 264 /
É assim que a caixa de rapé, vivendo e namorando num
meio todo rocaille, se adapta e ajeita vestindo as lindas
puerilidades do século, tomando, no complicado cinzelamento dos seus
metais, enrolamentos de voluta, recantos de gruta amaneirada, e
bordando-se de frases dizendo argúcias de sala e requebros de
sentimento. Nas suas faces paganiza-se com sátiras gargalhando e
ninfas fugindo, por entre renques de choupos ou pela espelhante
mansidão dos lagos; é mitológica, emblemática, às vezes mística, e
no polido dos seus esmaltes desenrolam-se reduções infinitesimais
dos tectos de Le Brun ou as mais moralistas fábulas de Lafontaine.
Cingidas por grinaldas ou festões que rosados
anjinhos seguram entre pórticos, quadras e Cupidos, a aljava e a
cítara, emblemas sentimentais onde se diz um amor letrado que se
declara em conceitos ou se alquebra em teatrais adeuses, adornam
este minúsculo objecto de arte passado de mão em mão, fazendo dele
um eloquente capítulo ilustrativo que completa a íntima cenografia
de uma sociedade.
O historiador de costumes, o erudito, o romancista
encontram nestas deliciosas composições tanto como em galerias e
pergaminhos, o recatado factor que por uma intriga abalou sociedades
e deu formas de governo, a iluminura desses petits faits vrais
por Stendhal coleccionados com tanto zêlo, para fazer a história do
coração humano.
Além de metrificar madrigais e representar as cenas
do Olimpo, a caixa de rapé também era genealógica, e todos conhecem
os retratos do século passado, delfins, cadetes, gran-senhores, e
pálidas faces de altivas ou melancólicas fidalgas, enchendo o
caixilho de oiro com a auréola dos seus colares de renda e a nobre
atitude das suas cabeleiras empoadas. Rosas fenecidas, com tons de
Outono ou de desgraça, quase vincam o lábio ainda vermelho num
tragado chôro de irreprimível saudade.
E sempre sujeita às variantes do / 265 / gosto e à
tirania da moda, cinzelada com veneração e herdada como relíquia, a
caixa de rapé, nos fins do século XVIII, começou a ter uso mais
amplo e emprego mais democrático, passando da sala para as
multidões, e do Café Régence onde o ancien régime joga
caturramente o xadrez, para os botequins onde se vulgarizou a
Enciclopédia e se improvisam endechas às Musas.
Nesta impaciente e tumultuosa confusão de
hierarquias, perde a linha heráldica que a tornava serva duma classe
onde o gesto era de nascença como a função social, e começa a ter
formas menos estéticas e intuitos menos cortesãos: passa então da
casta para o anonimato dos idílios, das paixões e das apoteoses.
Nos primeiros anos do Império, a França, extravasando
pela Europa, começa a entoar em todos os cantos a sua ária de
redenção. E então a caixa de rapé, tendo feito a sátira da antiga
dinastia, tendo sido irreverente para com Luís Capêto, trajando à
moda romana com os vélites do Consulado, e voltando à tradição
realista com a efémera ressurreição bourbónica, – coifa-se à
grega como Madame de Staël, eterniza a efígie do parvenu
côrso, ora com o seco perfil de Arcole, ora como a cesárea face de
Austerlitz, e povoa-se de ciprestes, de urnas funerárias, de
dísticos sepulcrais, como se toda se acolhesse à altiva tristeza
literária / 266 / lançada sobre as almas pela melancolia de
Chateaubriand.
É um dos seus períodos mais interessantes e mais
típicos. Anuncia o Romantismo, e nas suas faces as vinhetas põem
cenas ossiânicas, coisas do Norte, brumas, colunas partidas: é a
grande época da sensibilidade refeita por imagens, do amor concebido
por literatura, vergado a regras e frases, participando a um tempo
do gesto do incroyable e das renúncias do mosteiro.
Imperialista, a caixa de rapé encontra na Europa
invadida a reacção das cóleras autonómicas; e sobre os seus
esmaltes, na mescla das suas tartarugas ou no negro dos seus
azeviches, grandes legendas bramem pela pátria ameaçada, exaltando
como num padrão, salvadores, príncipes, aventureiros.
É um delicioso prazer para o curioso das nostálgicas
antigualhas ver as caixas portuguesas dos princípios do século
passado, onde a influência das cenas clássicas, as evocações romanas
das balbuciantes formas liberais, todo um poetar de odes políticas e
sonetos patrióticos se grava em letras de oiro, entre emblemas de
guerra ou de amor.
Não raro se encontra o perfil do glorioso maneta de
Trafalgar, ou desse nobre Wellington que comandou os nossos
soldados, e as datas memoráveis do Bussaco, do Vimeiro agrupam-se em
vaso ou em cruz, com inflamados dizeres, rodeando capacetes dos
dragões de Chaves. E feita no exílio ou no cárcere, pelo devotado
amor de algum enamorado jacobino preso na Relação do Porto ou nas
casamatas de S. Julião da Barra, rememora Catão, a cicuta de
Sócrates, holocaustos / 267 / patrióticos da antiguidade, e geme em
resignados prantos: Adeus, Márcia, eu vou
morrer!
Além das liberais havia as caixas legitimistas,
adoradas como uma hóstia, com a donairosa face desse galhardo moço
que foi D. Miguel, roçagando pomposamente o manto de arminhos e
segurando com gesto firme o ceptro da realeza.
Os retratos formam uma vasta galeria onde paira o
melancólico perfume de pétalas fenecidas. Miniaturas em marfim,
algumas com a firme carnação de frutos sazonados, outras
debruçando-se languidamente sobre uma saudade ou uma desilusão,
acentuam certas deformações individuais que sublinham temperamentos,
paixões: em todas há vigor cheio de intenção, todas evocam
fisionomias, e apesar de anónimos, esses perdidos rostos sumidos no
passado lembram feições vívidas, e ao vê-los, o espírito
irresistivelmente diz: são retratos. Os olhos humedecem-se de sonho
ou semi-cerram-se de ironia, as bocas parece fazerem confidências de
desventuras, revelarem ainda influências dominadoras…
/ 268 / Por fim, além da caixa idílica, da caixa
patriótica e da caixa genealógica, havia todo um decameron de caixas
facetas onde se pinta a feição popular da sátira, na feira e na
alcova, a guache ou a óleo, espécie de farsa em dois actos, o
segundo dos quais foge, recua para o tampo Interior.
Entram em cena o aboletado e o frade, irmãos gémeos
da aventura licenciosa, às vezes de braço dado como oscilantes
escorços da bebedeira, triunfante aquele em suas funções de galã,
este sempre fréchado pelo riso velhaco das multidões.
O aboletado, nesse incerto período de marchas e de
campanhas, é a fagulha perturbadora que incende com o prestígio das
vestes guerreiras, em sua vistosa policromia, o coração da filha do
estalajadeiro, condotière do amor fácil, seduzindo, bebendo,
fugindo. No primeiro quadro, na tampa, apresenta o papel da ordem,
com piscadelas de olho à moça curiosa que torce o avental, pudibunda
e de olhos baixos, ourada pelo brilho metálico das charlateiras;
dentro, o epílogo da farsa, em que às vezes transparece o bom humor
rabelaisiano de Brauwer ou de Steen. O frade, ou perseguindo
entre bôjos de pipas um rumor de saias que / 269 / se escapulem, ou
esperado pela multidão trocista, surgindo, rubro, de sob uma cama
suspeita, é sempre a péla que rebóia entre gargalhadas e apupos, de
cujo ruído se sente irromper um côro de quadras bocagianas.
Dizem os Goncourt, num dos seus conceitos lapidares
sobre questões de Arte ou de História, que uma época de que não
resta um fragmento de vestido, o espírito não na sente viver. O
estudo de caixas de rapé, das suas decorações, dos seus emblemas,
das suas fisionomias, entra como um valioso elemento numa das
facetas da frase sintética dos romancistas-historiógrafos que
levaram o adôrno, o móvel, o utensílio, à alta significação
documental do pergaminho, do obelisco, da crónica.
Porque certos objectos de emprego vulgar, sobre os
quais distinguiu um pouco da atmosfera moral de uma época, e que
injustamente se classificam na categoria das artes menores, são por
vezes um claro espelho da luxuosa existência das classes cultas que
amaram, intrigaram, governaram, e caracterizam no povo as fases do
seu humorismo, dos seus ingénuos entusiasmos e das suas efémeras
adorações.
JOÃO BARREIRA
—————————————
(a) - Da colecção do Sr. Alfredo Guimarães.
(b) - Da colecção do Sr. Alfredo Keil.
(e) - Do Museu Nacional de Lisboa.
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