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AS NEGOCIAÇÕES DE PAZ
ENTREVISTADO por um jornalista
francês, o chefe da missão diplomática russa, que foi a Washington
para negociar a paz com o Japão, o Sr. de Whitte, afirmou que a
Rússia não estaria disposta a fazer a paz por todo o preço, e que se
o Japão fosse muito exigente ela empregaria os vastos recursos de
que ainda dispõe para continuar a guerra.
Ao mesmo tempo, anunciou-se o projecto
de uma aliança russo-japonesa, cujo tratado se firmaria
imediatamente ao restabelecimento da paz.
Conquanto seja notória a boa-vontade
dos negociadores russos e japoneses que o Presidente RooseveIt
convidou a conferenciarem em Portsmouth, é possível que tais
negociações não cheguem a bom termo. Neste caso, prosseguirá a
guerra, mas sem vigor. Os japoneses irão consolidando a sua ocupação
em todo o território conquistado, e as potências ver-se-ão
obrigadas, por seu próprio interesse, que é o interesse do seu
comércio, a reconhecer a legalidade das autoridades de facto, que
serão as autoridades japonesas.
UMA ENTREVISTA DE IMPERADORES
O imperador da Rússia, que desde o
assassínio do Grão Duque Sérgio não tornara a aparecer em público,
ameaçado de morte pelos revolucionários, ousou arrostar com essa
ameaça, saindo do palácio e embarcando no iate Estrela Polar,
para ir ter uma conferência com o Imperador da Alemanha, que também
embarcara, para o mesmo fim, no Hohenzollern.
O Estrela Polar, conduzindo
Nicolau Il e o Grão Duque Miguel, ancorou em Bjorko, aparecendo
pouco depois o Hohenzollern. Foi o Imperador Guilherme que
deixou o seu navio para ir ao encontro do Czar, trazendo-o depois em
sua companhia para o mesmo navio. Ali cearam, e conferenciaram por
largo tempo. Na noite seguinte o Estrela Polar voltava a
Peterhof, onde Nicolau Il desembarcou, parecendo muito contente»,
segundo diz um correspondente do “Matin”, que conseguiu
assistir ao desembarque.
Nos círculos políticos assumiu a
notícia desta entrevista uma grande importância, sobretudo por ser
da iniciativa do Imperador Guilherme, que foi também o primeiro a
assinalar o «perigo amarelo».

Parece que o encontro dos dois
soberanos foi precedido de uma série de cartas em que se discutiu a
questão da paz. Presume-se que Guilherme Il, em vista da precária
situação da Rússia, no Extremo Oriente, terá tido justificados
receios pelas suas / 180 / possessões asiáticas, e oferecido apoio
ao Czar para as negociações da paz, formando-se em compensação do
acordo a aliança da Alemanha, Rússia e França, para estabelecer uma
base de acção comum no Extremo Oriente. Esta inteligência, à
semelhança da aliança germano-ítalo-austríaca, isolaria
completamente a Inglaterra, aumentando grandemente o poder da
Alemanha.
A imprensa de todo o mundo consagrou
colunas e colunas à entrevista dos Imperadores, com abundantes e
variadas hipóteses; mas, por enquanto, ninguém pôde descobrir-lhe o
profundo desígnio.
SITUAÇÃO INTERNA DA RÚSSIA
APESAR de toda a resistência de um
governo autocrata e de uma burocracia reaccionária, os zemstvos
reuniram-se em Moscovo, tomando resoluções radicalmente
revolucionárias. Está o mundo assistindo a um colossal movimento do
enorme Império, ao lado do qual a Revolução Francesa diminui de
importância intrínseca, embora fosse maior pelo seu poder expansivo.
As doutrinas democráticas propagam-se espantosamente pela Rússia
inteira, levando o povo à consciência dos seus direitos, há séculos
recalcados pela autocracia. É um drama grandioso e empolgante, que
terá decerto por desenlace a libertação da Rússia.
A caricatura, que extraímos de um
jornal americano, mostra admiravelmente a influência que teve o
Japão para se chegar a este admirável resultado. É a ilustração
daquele grito, que se atribui à populaça revolucionada: "Viva Togo,
libertador da Rússia!"
Uma das peripécias violentas da
colossal tragédia dera-se já há tempos em Odessa, quando a guarnição
do couraçado Kniaz Potemkin se insurreccionou e ameaçou a
cidade de um bombardeamento. Os incidentes deste caso são por demais
conhecidos. À semelhança do navio-fantasma da lenda, o couraçado
andou uns poucos de dias pelos portos do Mar Negro, até que os
insurrectos se viram forçados a entregá-lo nas mãos do governo
romaico.
Quantos mais episódios trágicos nos
reserva o futuro, nesta luta tremenda entre uma burocracia opressiva
e corrupta e as legítimas aspirações de um povo inteiro, cansado de
sofrer!
ATENTADOS NA TURQUIA E NA GRÉCIA
NO fim de uma festa soberana
na Mesquita
de Constantinopla, quando o Sultão vinha descer o primeiro degrau da
grande escadaria, foi-lhe atirada uma bomba de dinamite, que fez
explosão a 30 metros de distância dele. Foram mortas e ficaram
gravemente feridas muitas pessoas, e destruídos muitos cavalos e
alguns carros.
As janelas da torre do Relógio e as do
pavilhão reservado para os membros do corpo diplomático foram também
atingidas por estilhaços da bomba. / 181 /

Ao estampido, que foi enorme,
seguiu-se um violento pânico, parecendo ser o Sultão a única pessoa
que conservou o sangue frio. Continuou a descer a escada muito
serenamente, subiu para o carro que o esperava, e ele mesmo tomou as
rédeas dos cavalos, dirigindo-se para Ildiz-Kiosque, em meio dos
aplausos do seu séquito.
Menos feliz do que o sultão foi o
primeiro ministro da vizinha Grécia, Delyanis. Ferido por um jogador
de ofício, que lhe atribuiu, pelas suas proibições, a ruína e a
miséria, o velho estadista sucumbiu pouco depois. O seu funeral, em
que se fizeram representar todas as classes sociais da nação
helénica, a começar pelo próprio rei, foi uma manifestação imponente
e mais um frisante protesto contra a brutal solução, dada pelos
descontentes aos perpétuos conflitos levantados entre governantes e
governados.
UMA VISITA PRINCIPESCA
FOI Lisboa honrada com a visita do
príncipe de Battenberg, a qual vem ainda mais cimentar os
vínculos que prendem o nosso país à sua antiga e poderosa aliada
Grã-Bretanha. Estes motivos eram mais do que suficientes para que a
recepção feita ao príncipe, por parte da família real e da alta
sociedade lisbonense, fosse carinhosa e cativante, embora fosse
naturalmente destituída daquele público entusiasmo que assinalou as
visitas de Eduardo III e de sua graciosa Rainha (segundo a
cavalheiresca frase inglesa).
CONTA DE GUERRA IMPOSTA PELO JAPÃO
EIS a conta que um artigo de uma
revista inglesa supõe que será apresentada pelo Japão à Rússia, para
justificar a indemnização da guerra:
Dinheiro levantado por empréstimo ou
outra forma – 116.500:000 Libras
Compensação para inválidos, viúvas e
órfãos – 30.000:000 Libras
Compensação à população civil por
danos sofridos por causa da mobilização, perdas e lucros cessantes,
etc. – 15.000:000 Libras
Avarias de material de guerra,
liquidação da guerra e várias despesas – 20.000.000 Libras
Total – 181.500.000 Libras
Esta quantia – que representa para
nós, ao par, a linda soma de 816:750 contos de réis – é a que o /
182 / articulista espera será reclamada pelo Japão, caso a guerra
termine sem demora. Mas o Japão tem todo o direito de exigir
muitíssimo mais do que as suas despesas de guerra. A guerra
franco-alemã custou à Alemanha 64 milhões de libras, e a França teve
que lhe pagar 200 milhões. Além disso, cada dia de guerra a mais
acrescenta à conta futura do Japão cerca de meio milhão de libras.
SITUAÇÃO POLÍTICA DO MUNDO
É sugestiva e engraçadamente comentada
a situação geral do mundo pelo friso proposto por um caricaturista
para o Palácio da Paz em Haia. Vê-se por ali a maneira afável e
altruísta por que as potências se tratam umas às outras.
Um outro caricaturista inspira-se
especialmente na situação da Inglaterra, miss esgalgada e
loura que prefere abrigar de uma grande bátega de água o seu novo
sweet heart francês, deixando ignominiosamente encharcar-se o
seu mais antigo conversado japónico.
Graças à importuna intervenção do
valentão germânico, é possível que o caricaturista do
Simplicíssimus se iludisse. Quem se molha mais, afinal de
contas, é possível que seja a França.
É mordaz a forma por que o jornal
alemão “Kladeradatsch” alude ao desastre diplomático do rival
francês. Apesar da queda de Delcassé, apesar da aparente
cordialidade de relações que se seguiu ao estourar da bomba
diplomática do Kaiser, é indubitável que um perigo ainda subsiste no
Ocidente – o perigo de Marrocos, que é possível não seja conjurado
pela futura conferência.
Tão excitados estão os ânimos por essa
Europa, que o mais simples passo fora dos atalhos batidos basta para
os alvoroçar. Tal está sucedendo com a anunciada visita da esquadra
britânica do Canal ao Báltico, na qual os Chauvinistas
germânicos pretendem ver uma ameaça. Esse alvoroço é sintoma grave.
A águia negra afia as garras, enquanto o leopardo rosna da sua toca
insular. Permita Deus que as duas feras se aquietem.
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