O João Mandrião

VIVIA em certa aldeia uma viúva mais um filho, já crescido.

Eram muito pobres, e ela passava os dias e as noites a fiar, mas o rapaz não trabalhava, e só queria estar deitado ao sol, de papo para o ar, quando fazia bom tempo, ou acocorado ao canto do borralho, quando fazia muito frio. Por isso toda a gente lhe chamava o João Mandrião. A viúva já estava cansada de ralhar com o filho, até que numa segunda-feira lhe disse que ou ele tratava de procurar vida, ou ela o punha de vez pela porta fora.

O rapaz disse que sim, contanto que naquele dia ainda pudesse descansar.

E na terça-feira levantou-se mais cedo – não eram ainda onze horas – e depois de almoçar foi oferecer-se a um vizinho, que era carroceiro. O vizinho ia fazer um frete e levou-o consigo, para ajudá-lo a descarregar as carroças. Por fim deu-lhe um vintém pelo trabalho. O João nunca tinha tido de seu tanto dinheiro e voltou para casa muito alegre, atirando com a moeda ao ar, até que, passando uma ponte, pespegou sem querer com o vintém para dentro da água. Disse a mãe ao filho, quando o viu muito desgostoso:

– Quem te mandou ser pateta? Devias ter guardado o vintém na algibeira. Respondeu o João:

– É o que faço para a outra vez.

Na quarta-feira o rapaz conchavou-se com um lavrador, que andava a tirar pipas da adega. À tarde recebeu em paga um cântaro de vinho, e despejou-o para dentro da maior algibeira que tinha no casaco, e foi sempre a entorná-lo desde ali até à casa.

– Tu és os meus pecados. – gritou-lhe a mãe. Porque não puseste o cântaro à cabeça?

Respondeu o João:

– É o que faço para a outra vez.

Na quinta-feira foi trabalhar para uma casa, onde estavam fazendo queijos, e à tarde só lhe deram de jornal um queijinho, que por sinal ainda estava muito mole. Quando foi para casa, pô-lo à cabeça, e como fazia calor o queijo derreteu-se todo e escorreu-lhe pela cara e cabelo. A mãe disse-lhe muito zangada:

– Estás cada vez mais asno. Na mão é que o devias trazer. / 174 /

Respondeu o João:

– É o que faço para a outra vez.

Na sexta-feira foi ajudar uma velha, que se estava mudando. O mais que ela tinha eram gatos e disse-lhe afinal.

– Olha, filho, só te posso dar a minha Maltesa. Outra coisa não tenho.

E o rapaz aceitou e foi para casa com a gata segura nas mãos, até que um cão saltou para eles a ladrar, e fez a gata assanhar-se e fugir.

– Valha-te Nossa Senhora! – disse a viúva. A bichana fazia tão bom arranjo, por causa dos ratos! Devias tê-la trazido atrás de ti, amarrada com uma corda.

Respondeu o João:

– É o que faço para a outra vez.

No sábado foi ajudar a matar um porco e o dono deu lhe em paga, sabendo da pobreza em que ele vivia mais a mãe, uma cabeça de porco. E vai o João amarrou-a muito bem com uma corda e levou-a de rojo por cima da lama e da sujidade, batendo com ela tanta vez nas pedras do caminho que se perdeu a carne quase toda. A mãe disse mais zangada que nunca:

– Assim entregaste o jantar de amanhã! Devias trazê-la às costas, grande parvo!

Respondeu o João:

– É o que faço para a outra vez.

Na segunda-feira seguinte foi ajudar um burriqueiro e esteve lá até ao sábado e por isso o homem lhe deu um burro. Custou-lhe muito a pô-lo às costas, mas por fim lá se arranjou, tendo primeiro o cuidado de tirar o chapéu e o casaco e de os pôr no burro, para não se estragarem debaixo da carga. Quando ia andando muito ajoujado, passou à porta do um ricaço que tinha uma filha surda-muda. Ora os doutores diziam que para ela ouvir e falar outra vez, bastava que desse uma grande gargalhada, coisa que ainda ninguém tinha podido conseguir. A menina estava à janela quando viu o burro de pernas muito espetadas, escarranchado como gente nas costas do rapaz, e desatou a rir, a rir, e logo ali mesmo ficou falando e ouvindo. O pai parecia doido de alegria e, para cumprir urna promessa que tinha feito, casou a filha com o rapaz.

Aqui têm como o João Mandrião enriqueceu e se fez pessoa importante. A mãe foi para casa dele e chegou até muito velha, sem nunca dizer aos netos que o pai se tinha chamado João Mandrião.

 

 

 

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