Como o velho e conhecido prolóquio que se refere à terra dos cegos é uma ilusão dos que vêem; como não podem entender-se uns com os outros os entes a quem diversas fontes de observação dão critério absolutamente diferente; eis o que mostra neste admirável conto o escritor mais fantasista da literatura contemporânea, o inglês H. G. Wells. Os romances e os contos deste prestigioso romancista são avidamente lidos hoje em todas as partes do mundo. A sua vasta cultura científica, a sua imaginação torrencial, o vigor das suas descrições, a energia vivaz do seu estilo, colocam-no num nível muito acima do seu antecessor no mesmo género, o francês Júlio Verne, e dão às suas obras um interesse dramático que subjuga os espíritos mais cultos e as almas mais simples.

Quem não o conheça ainda, pode avaliar a grandeza do seu mérito por este extraordinário conto que Os Serões oferecem aos seus leitores.

 

mais de trezentas milhas do Chimborazo, a cem milhas das neves do Cotopaxi, nos mais desolados desertos dos Andes do Equador, é onde fica esse misterioso vale, isolado de todo o convívio humano, a Terra das Cegos. Há muitos e muitos anos que esse vale era tão patente ao mundo que aos seus deleitosos prados se podia chegar através de medonhos desfiladeiros e sobre nevosas gargantas. E com efeito lá tinham ido parar entes humanos, uma família de mestiços do Peru, foragidos à cobiça e tirania de um governador espanhol. Veio depois a pavorosa erupção do Mindobamba, quando caiu sobre Quito uma noite de dezassete dias, e a água esteve a ferver em Yaguachi e todos os peixes vieram a flutuar mortos até Guayaquil. Por toda a parte, nas vertentes do Pacífico, houve desaterros súbitos e rápidos degelos, e

cheias repentinas, e uma aba inteira da velha serra de Arauca desabou com um estridor de trovoada e isolou para sempre a Terra dos Cegos de toda a exploração humana. Mas um desses primitivos colonos ficou por acaso aquém dos desfiladeiros, no momento em que tamanho abalo sofreu o mundo, e viu-se forçado a dizer adeus à mulher e aos filhos, a todos os amigos e bens que lá no alto deixara, e a recomeçar a vida na terra baixa. Assim fez, mas o mau fado e a cegueira malograram-lhe os esforços. Morreu nas minas por castigo, mas a história por ele contada gerou uma lenda que até hoje em dia voga por toda a cordilheira dos Andes.

Contou ele os motivos por que se arriscara a sair daquela fortaleza natural, para onde fora levado em criança, amarrado a um lama, entre um montão de carga. O vale, segundo ele afirmou, continha tudo quanto poderia desejar o coração do homem – água doce, pastos, um clima ameno, encostas de terra escura e fértil com moitas e moitas dum arbusto que dava um fruto excelente, e a um dos lados grandes pinhais em declive que aguentavam as avalanches. Lá muito acima, por três bandas, divisavam-se enormes rochedos esverdeados, cobertos de penhas de neve. Mas não chegava ali a torrente das geleiras, a qual corria por vertentes distantes, e só uma que outra vez desabavam para o lado do vale massas colossais de gelo.

No vale não chovia nem caía neve, mas as fontes copiosas produziam belas e viçosas pastagens, que a irrigação espalhava por todo o âmbito da vale. Os colonos davam-se ali perfeitamente, e o mesmo sucedia ao gado, que rapidamente se multiplicava. Só uma coisa porém turvava a felicidade daquela gente.

Mas essa era bastante para a turvar deveras. Caíra sobre eles uma moléstia estranha, /158 / a qual cegara todas as crianças ali nascidas, e ainda um grande número dos outros. Era para procurar qualquer amuleto ou remédio contra essa horrível praga da cegueira, que ele tinha voltado pelo desfiladeiro abaixo, à custa de grandes fadigas e perigos.

Por aqueles tempos, num caso como este, os homens não pensavam em germes nem infecções, mas só em pecados, e assim parecia-lhe a ele que o motivo da triste epidemia devia estar na negligência dos imigrantes, privados do ministério sacerdotal, em erguer um santuário apenas entraram no vale. O que ele queria era que ali se erigisse esse santuário, embora modesto, mas belo e eficaz. Do que ele precisava era de relíquias e análogos objectos abençoados pelo céu, medalhas místicas com orações. Trazia no alforge uma barra de prata nativa que já deitara em despesa. Toda a população do vale tinha contribuído com quanto dinheiro e enfeites possuía, visto de pouco lhe servirem ali tais tesouros, afirmava ele, só com o fim de angariar um patrocínio contra o mal que os afligia.

Está-se-me figurando na mente esse jovem montanhês de olhos baços, tisnado do sol, macilento, ansioso, arrepanhando febrilmente as abas do chapelão, de todo em todo alheio aos hábitos do mundo, a contar a sua história a um padre astuto e atento, antes da grande convulsão. Imagino-o depois regressando com remédios pios e infalíveis contra a tremenda praga, e a infinita angústia com que ele devia ter visto os gigantescos destroços que tapavam o desfiladeiro. Mas perdeu-se para mim o resto da sua história de infortúnios, apenas sei da sua desgraçada morte passados bastantes anos. Pobre extraviado dessa região misteriosa e remota! A torrente que outrora cavara o desfiladeiro rebenta agora da entrada de uma caverna penhascosa, e ainda hoje corre de boca em boca a lenda, desenvolvida da sua obscura e desalinhada história, de uma raça de cegos existentes algures, «lá p'r’àquelas bandas».

E pelo meio da exígua população desse hoje isolado e esquecido vale, a enfermidade foi lavrando, lavrando sempre. Os velhos foram-se tornando peticegos e trôpegos, a visão dos novos foi-se embaciando, e as crianças deles nascidas nunca chegaram a ter vista. Mas a vida corria plácida naquela planura orlada de neves, perdida para o mundo inteiro, desprovida de sarças e abrolhos, sem insectos daninhos, sem quadrúpedes a não ser as crias mansas das lamas que eles tinham arrastado consigo através do leito meio enxuto dos rios, pelos desfiladeiros e gargantas que haviam transposto. Os videntes tinham chegado a míopes e a peticegos tão gradualmente que mal tinham dado pela perda. Foram guiando para um lado e outro os novos privados de vista, até que conheceram maravilhosamente o vale inteiro; e quando a vista se extinguiu por fim nessa raça, ela foi vivendo conformada. Tinham até chegado a adaptar-se à percepção cega do fogo, que cuidadosamente faziam em lareiras de pedra. A / 159 / princípio, não passavam de um simples rancho iletrado, apenas ao de leve tingido da civilização espanhola, mas com uma tal ou qual tradição das artes do antigo Peru e da sua perdida filosofia. Foram-se sucedendo as gerações. Muita coisa foi esquecendo, muita outra se foi inventando. A tradição do vasto mundo de onde eles provinham assumiu pouco a pouco um colorido místico e indefinido.

Em tudo, à excepção da vista, eram eles fortes e dextros, e o destino enviou-lhes um e após outro espírito original e levantado, capaz de os ensinar e persuadir. Passaram esses dois, deixando o seu rasto, e a pequena comunidade cresceu em número e em entendimento, e defrontou-se com os problemas sociais e económicos que se lhe depararam, e logrou resolvê-los. As gerações foram-se sucedendo, sucedendo sempre. Tempo chegou em que uma nasceu com quinze gerações atrás de si, desde esse antepassado que do vale saíra com uma barra de prata no intento de conciliar o auxílio divino, e que nunca mais voltara. Foi por essa época que o acaso atirou para o meio da comunidade um homem vindo do mundo exterior. E é esta a história desse homem.

*

Era um montanhês dos arredores de Quito, que andara pelo mar e tinha visto mundo, homem arrojado e esperto, dado à leitura de livros. Fora contratado por um rancho de ingleses que tinham vindo do Equador para trepar à serra, a fim de substituir um dos seus três guias suíços que havia adoecido. Trepou por um, por outro monte, até que tentou a ascensão do Parascotopetl, o mais alto píncaro dos Andes, no qual se perdeu para o mundo externo. A história desse acidente já uma dúzia de vezes se escreveu. A melhor narrativa é a de Pointer. Conta-nos ele como o pequeno rancho conseguiu à custa de esforços, por uma ladeira áspera e quase vertical, erguer-se até à borda do último e maior precipício. Aí, no meio da neve, construíram eles um abrigo para a noite em cima de uma espécie de prateleira fragosa. E está descrito com verdadeira intensidade dramática o facto de eles darem então pela falta de Nuñez. Gritaram, mas não houve resposta; tornaram a gritar, assobiaram e o resto da noite passaram-no em claro.

Ao romper da manhã, é que eles perceberam os vestígios do desastre. Compreendia-se que lhe tivesse sido impossível soltar um grito. Tinha resvalado para leste, para a encosta desconhecida da serra; lá muito abaixo tinha batido de encontro a um alcantil de neve, e fora daí precipitado de envolta com uma enorme avalanche. O rasto ia direito à orla de um despenhadeiro, além do qual tudo estava encoberto. Lá muito abaixo, enfumaçadas pela distaância, lobrigaram árvores surdindo num vale estreito e cerrado – a desconhecida Terra dos Cegos. Eles porém é que não sabiam que era ali essa desconhecida Terra dos Cegos, nem podiam discriminá-la de qualquer outro listrão delgado de planura. Desalentados pela catástrofe, deram naquela tarde de mão à sua empresa, e Pointer foi chamado para serviço de campanha antes de tentar novo ataque. Até hoje o Parascotopetl ergue um píncaro ínvio e invicto e o abrigo de Pointer esmigalha-se solitário no meio dos nevões.

Mas o homem despenhado escapou à morte.

Do alcantil onde batera foi caindo no meio de uma nuvem de neve até chegar, a mil pés de distância, a outro alcantil mais áspero ainda que o primeiro. Para baixo deste, foi arrastado num turbilhão, atordoado, insensível, mas com os ossos inteiros, resvalando por outros alcantis mais suaves, até rolar e ficar sepultado entre o montão macio dos nevões que o haviam acompanhado e que o salvavam. Voltou a si com a ideia vaga de que estava doente de cama; depois é que a sua inteligência de montanhês lhe deu a consciência da sua situação. Tratou de se desenvencilhar da massa de neve que o envolvia, até que, depois de umas duas pausas de repouso, conseguiu ver as estrelas. Permaneceu algum tempo de borco, a cismar onde tinha ido parar e no que lhe haveria acontecido. Apalpou-se todo e percebeu que se lhe tinham ido embora vários botões e que tinha o casaco voltado para cima da cabeça. Sumira-se-lhe a navalha que tinha no bolso, e desaparecera-lhe o chapéu, apesar de estar atado por baixo do queixo. Lembrou-se de que tinha andado à cata de pedras soltas para construir o seu lanço de parede para o abrigo. Tinha também perdido a machadinha do gelo.

Foi então que percebeu que devia ter caído; ergueu os olhos para avaçiar, exagerado pela claridade lívida da lua nascente o tremendo adejo que ele havia soltado. Jazeu algum / 160 / tempo pasmado para esses enormes e alvos penhascos que muito acima dele torrejavam tomando a cada instante relevo sobre a maré refluente da treva. Impressionou-o durante momentos a sua beleza fantasmagórica e misteriosa, e por último acometeu-o um frouxo de gargalhadas soluçantes...

Passado um grande intervalo, o homem compreendeu que estava perto da orla inferior das neves. Abaixo dele, no fundo do que o luar deixava perceber como encosta praticável, lobrigou ele a gleba escura juncada de pedras. Tratou de se pôr em pé, embora lhe doessem todas as juntas e todos os membros, foi abrindo a custo o caminho por entre os montículos de neve que o cercavam, até que se achou em cima da terra. Aí se deixou cair à beira de um rochedo, bebeu uma boa golada do frasco que tinha na algibeira do forro, e pegou imediatamente no sono…

Despertaram-no gorjeios de passarada, no arvoredo que se divisava lá muito em baixo.

Sentou-se e percebeu que estava sobre uma pequena eminência, ao sopé de um enorme despenhadeiro, que tinha apenas um ligeiro

declive na quebrada, por onde ele tinha resvalado, mais o seu fardo de neve. Em frente dele erguia-se para o céu outra muralha de rocha. O desfiladeiro entre estes precipícios corria na direcção leste-oeste e estava banhado pela luz da manhã, a qual para as bandas de oeste iluminava os destroças do monte desabado que cerravam o desfiladeiro. Abaixo dele, parecia haver um despenhadeiro igualmente escarpado, mas por detrás da neve que enchia a quebrada achou ele uma espécie de fenda de onde escorria água, e ao longo da qual um homem desesperado poderia aventurar-se a descer. Foi-lhe isso mais fácil do que a princípio lhe parecera, e chegou afinal a outro montículo desolado, e daí, engatinhando com pouca dificuldade, a uma ladeira com árvores. Tratou de se orientar. Voltou-se para o lado superior do desfiladeiro, por lhe parecer que ele abria sobre prados viçosos, por meio dos quais ele agora avistava distintamente um grupo de casebres de pedra, de configuração fora do vulgar. Por vezes, para se adiantar, era obrigado a trepar ao longo da muralha. Passado um tempo, o sol oriental deixou de enfiar pelo desfiladeiro fora, desvaneceu-se a trinar da passarada, o ar arrefeceu, e ele viu-se mergulhado na sombra. / 161 /

Mas por isso mesmo mais avultava a luz do vale e distante com o seu casario. O homem chegou finalmente ao talude, e notou entre as rochas – como observador que era – um feto desconhecido que parecia alongar para fora das fendas gadanhos de um verde intenso. Apanhou umas folhas, roeu-lhes os talos, e souberam-lhe menos mal.

Por volta do meio-dia é que ele se achou por fim fora da garganta do desfiladeiro, em pleno descampado batido de sol. Estava esfalfado e entorpecido; sentou-se à sombra de um rochedo, encheu o seu frasco com água de uma fonte, regalou-se a bebê-la, e para ali ficou algum tempo a descansar, antes de se dirigir às casas.

Tinham um aspecto estranho, as casas, e todo o vale, quanto mais o observava, mais extraordinário e exótico se lhe deparava.

A maior parte dele estava coberto de verdura, salpicada de um grande número de bonitas flores, irrigado com meticuloso cuidado, e com indícios claros de uma colheita sistemática e gradual. Rodeava todo o vale uma muralha altíssima, e uma espécie de canal anular, de onde provinha a água que ia regar as plantas. Nas encostas mais altas, viam-se manadas de lamas a apascentar-se na ervagem escassa. Aqui e além, junto ao muro de limite, erguiam-se uns telheiros, que aparentemente serviam de apriscos ou estrebarias para os lamas. Os canaletes de irrigação convergiam todos para um canal grande, que atravessava o centro do vale, margeado de um muro à altura do peito.

Tudo oferecia uma singular aparência, por extremo realçada pelo grande número de carreiros calcetados de pedras brancas e pretas, todos eles com uma espécie de passeios estreitos, os quais se cruzavam ordenadamente em todas as direcções. As casas da aldeia central em nada se pareciam com a aglomeração casual e a trouxe-mouxe, nos lugarejos serranos que o homem conhecia. Enfileiravam-se sem intervalo nas duas beiras de uma rua central, de um asseio pasmoso. Num que outro ponto, abria-se nas fronteiras uma porta, mas nem uma janela sequer se rasgava nas paredes. Eram todas pintalgadas em retalhos muito irregulares, cobertas como eram de uma espécie de reboco, umas vezes pardo, outras acastanhado, outras ainda cor de ardósia ou de amarelo torrado. E foi a vista desse extraordinário reboco que trouxe de repente ao pensamento do explorador a ideia da cegueira.

– «O homenzinho que fez isto…» pensou ele, «por força que era cego como uma toupeira.»

Desceu uma ladeira, e achou-se perto do muro e do canal que corria em derredor do vale, próximo do sítio em que esse canal despejava por uma cascata estreita o seu excesso de água. Pôde então avistar uma porção de homens e de mulheres, reclinados em montes de feno, como se estivessem dormindo a sesta, e mais perto da aldeia umas poucas de crianças também deitadas, e mais ao seu alcance três homens, carregados de baldes, caminhando por um atalho que do muro da circunvalação se dirigia para as casas. Estes três homens trajavam roupas tecidas de pelo de lama, botas e cintos de couro, carapuços de pano com cobertura de nuca e de orelhas. Iam todos em fila, muito devagar, bocejando a cada passo, como se tivessem passado toda a noite a pé. O seu aspecto tinha tanto de tranquilizador e de respeitável que, passado um momento de hesitação, Nuñez ergueu-se no beiral da rocha, o mais à vista que possível fosse, e soltou um grito possante que retumbou por toda a redondeza do vale.

Os três homens estacaram, e mexeram as cabeças como se estivessem a olhar em torno de si. Voltaram a cara para um lado, e para outro, enquanto Nuñez gesticulava abertamente. Mas eles pareciam não lhe ver o vulto nem os gestos, e dali a pouco encaminharam-se para os montes que ficavam ao longe, à direita, gritando como para responder. Nuñez tornou a berrar, uma e mais vezes, e, vendo a ineficácia dos accionados, de novo lhe dominou o pensamento a ideia da cegueira.

– «Estes marotos por força que são cegos…» – resmungou ele.

Quando afinal, depois de muito berrar e vociferar, Nuñez galgou uma pontezinha que atravessava a corrente, transpôs um postigo da muralha, e se aproximou dos homens, então é que ele se certificou de que eram cegos. Adquiriu a convicção de que era ali a Terra dos Cegos, de que falava a lenda. E ao mesmo tempo teve a percepção de uma extraordinária e invejável aventura. Os três estavam agora enfileirados, sem olhar para ele, mas com os ouvidos voltados para o seu lado, a ver se os passos estranhos lhes davam a ideia da pessoa. Acotovelavam-se como homens um pouco assustados, e ele já lhes podia ver as / 162 / pálpebras cerradas e cavadas, como se as órbitas dentro houvessem encolhido de todo.

Tinham no rosto uma vaga expressão de pavor.

– «Um homem!» – disse um deles, num espanhol que a custo se reconhecia. «É um homem – um homem ou um espírito – que vem dalém do lado das rochas.»

Mas Nuñez adiantava-se com os passos confiantes de um rapaz que enceta o caminho da vida. Tinham-lhe acudido à mente todas as antigas histórias do vale perdido e da Terra dos Cegos, e corria-lhe pelo cérebro, como um estribilho, aquele velho provérbio:

«Na Terra dos Cegos quem tem um olho é rei.»

E saudou-os então com toda a cortesia. Falou-lhes, e foi-os examinando.

– «De onde vem ele, mano Pedro?" – perguntou um deles.

– «De além das rochas».

– «De lá do alto das montanhas venho eu. – redarguiu Nuñez – «da terra que além delas fica – de uma terra em que os homens vêem. Lá para ao pé de Bogatá, onde há povo às rebatinhas, onde se podem ver casas e mais casas.»

– «Ver?» – murmurou Pedro. «Ver?»

– «Donde ele vem,» – disse o segundo cego – «é dalém detrás das rochas.»

Reparou Nuñez que os casacos deles tinham os quartos de fazendas diversamente coloridas.

Surpreenderam-no por um movimento simultâneo para o seu lado, cada um deles com a mão estendida. Furtou-se ao avanço desses dedos abertos.

– «Aproxima-te.» – disse a terceiro cego, seguindo-lhe o movimento e agarrando-o com firmeza.

Seguraram Nuñez e apalparam-no todo, sem dizer palavra no entanto.

– «Cautela!» – exclamou ele, ao sentir um dedo a enterrar-se-lhe por um dos olhos.

Percebeu que eles lhe estranhavam imenso aquele órgão, com as suas pálpebras movediças.

Continuaram às apalpadelas.

– «Que criatura tão extraordinária, Correia!» – disse aquele que respondera ao nome de Pedro. – «Apalpa-lhe o cabelo, como é áspero! Tal qual o pelo de um lama.»

– «Áspero como os rochedos que o criaram,» – disse Correia, pesquisando com a mão macia e levemente húmida o mento de Nuñez, que tinha a barba por fazer. «Talvez fique mais fino depois de crescer.»

Nuñez debateu-se um pouco, para fugir ao exame; mas eles seguraram-no com mais força.

– «Cautela!» – repetiu ele.

– «Ele fala.» – disse o terceiro cego – «Com certeza que é homem.»

– «Hum!» – resmungou Pedro, tacteando-lhe a aspereza do casaco. / 163 /

– «Vieste então a este mundo?» – perguntou Pedro.

– «De lá do mundo é que eu venho. Por montes e por geleiras; lá muito em cima, a meio caminho do sol. Desse mundo muito grande, que fica lá longe, a doze dias do mar.»

Eles quase pareciam não lhe prestar atenção.

– «Contavam-nos nossos pais que os homens podiam ser engendrados pelas forças da natureza.» – disse Correia. «Saem do calor das coisas, e mais da humidade, e mais da podridão.»

– «Levemo-lo à presença dos velhos.» – disse Pedro.

– «Mas primeiro grita para prevenir.» – disse Correia – «não se assustem as crianças. O ensejo é magnífico.»

Com efeito gritaram. Pedro tomou a mão de Nuñez, a fim de o conduzir até às casas.

Ele desviou a mão.

– «Eu posso ver o caminho.» – disse ele.

– «Ver?» – estranhou Correia.

– «Ver, sim,» – afirmou Nuñez, voltando-se para ele, e tropeçando no balde de Pedro.

– «Tem ainda os sentidos imperfeitos.» – disse o terceiro cego. – «Anda aos tropeções, e diz palavras sem significação. Levem-no pela mão.»

– «Como quiserem.» – disse Nuñez, deixando-se guiar por eles, a rir.

Parecia que eles nada entendiam do que era vista.

Deixá-lo! A seu tempo ele lho explicaria.

Ouviu gritos, e viu um magote de gente que se aglomerava a meio caminho da aldeia.

Achou que lhe excitava os nervos, muito mais do que previra, aquele primeiro encontro com a população da Terra dos Cegos. À medida que se acercava, parecia-lhe a povoação mais extensa, mais esquisitos os variegados rebocos. Cercou-o uma multidão de crianças, de mulheres, de homens, tacteando-o, apalpando-o com as mãos macias e muito sensíveis, cheirando-o, escutando atentos todas as palavras que ele pronunciava. Reparou com prazer que algumas das mulheres tinham um rosto meigo, embora os olhos estivessem cerrados e cavos. Algumas raparigas e crianças mantinham-se a distancia respeitosa, como se ele lhes metesse medo, e com efeito a voz de Nuñez parecia áspera e rude, comparada com o mavioso das suas falas. Havia apertão em redor dele. Os seus três guias não o largavam com ar de quem tomava conta de propriedade sua, e diziam repetidas vezes:

– «Um selvagem que veio das rochas.»

– «De Bogotá.» – dizia ele. «Bogotá. Lá para a cumeada da serra.»

– «Um selvagem que se serve de termos selvagens.» – disse Pedro. «Não ouviram o que ele disse? Bogotá? Tem ainda o entendimento por formar. Mal começa a ter uso de linguagem.»

Beliscou-lhe a mão um rapazito.

– «Bogotá!» – disse este em ar de troça.

– «Sim, sim! Uma cidade, ao pé da qual nada vale esta aldeia. Eu de onde venho é do grande mundo onde há homens que têm olhos e vêem.»

– «Bogotá é o nome dele.» – disseram os cegos.

E Correia acrescentou:

– «Ele tropeçou duas vezes enquanto viemos de caminho.»

– «Levem-no lá para dentro aos velhos.»

E de repente atiraram com ele por uma porta dentro, para um aposento escuro como breu, no extremo do qual bruxuleava apenas uma fogueirita. A multidão agrupou-se atrás dele, interceptando de todo a claridade do dia, e antes que pudesse firmar-se nas pernas, Nuñez estiraçava-se de borco em cima dos pés de um homem sentado. Ao cair, alongou o braço e bateu na cara de outra pessoa. Ouviu um grito de raiva, e durante um momento estrebuchou entre uma porção de mãos que o agadanhavam. Era uma luta desigual. Compenetrou-se da situação e aquietou-se.

– «Caí ao chão.» – disse ele. «Eu não vejo bóia, no meio desta maldita escuridão!»

Houve uma pausa, como se pessoas que o cercavam tentassem perscrutar o significado das suas palavras. Ergueu-se então a voz de Correia:

– «Este homem ainda tem muito pouco entendimento. Tropeça a cada passo e mistura na sua linguagem umas palavras que não querem dizer nada.»

Outros acrescentaram várias considerações a seu respeito, que ele mal ouviu ou percebeu.

– «Dão-me licença que me levante?» – perguntou ele, num intervalo de silêncio. «Prometo conservar-me em sossego.»

Depois de se consultarem, deram-lhe a permissão pedida. / 164 /

A voz de um velho começou a interrogá-lo. Nuñez tentou então explicar o que era o mundo de que ele caíra, e o firmamento e os montes e a vista e maravilhas semelhantes, a esses anciãos que na terra dos cegos o interrogavam do meio das trevas. E eles nem acreditavam nem compreendiam coisa alguma do que ele lhes dizia, caso para ele absolutamente inesperado. Nem sequer ao menos entendiam muitas das suas palavras.»

Durante catorze gerações aquela gente permanecera na cegueira, isolada de todos os videntes. Os nomes de todas as coisas que à vista diziam respeito tinham-se apagado ou mudado de sentido. A história do mundo exterior desvanecera-se também e transformara-se num conto de crianças. Aquela gente deixara de ter a mínima ligação com as coisas que existiam além das encostas penhascosas que dominavam a sua muralha de circunvalação. Tinham surgido entre eles cegos de génio, os quais haviam coligido e perscrutado os farrapos de crenças e tradições que dos velhos tempos de visão restavam ainda, e tinham rejeitado todas essas coisas como fantasias inúteis, substituindo-as por novas e mais positivas noções. Com os olhos tinha-se-lhes enfezado muito a imaginação. E outras ideias novas lhe tinham sugerido o tacto e o ouvido, cuja sensibilidade se exacerbara.

Pouco a pouco foi-se Nuñez compenetrando de que não se realizava de improviso a sua esperança de assombro e de veneração pela sua origem e pelas suas faculdades. E depois de se ter malogrado a sua mesquinha tentativa de explicar aos cegos o que era vista, como a versão confusa de um ente recém-criado descrevendo as maravilhas das suas incoerentes sensações, ele resignou-se, embora um pouco envergonhado, a prestar ouvidos à instrução que eles ministravam.

Então o decano dos cegos explicou-lhe a vida e a filosofia e a religião, de como o mundo (referia-se ao seu vale) não passava a começo de um buraco vazio nas rochas, e de como tinham primeiro surgido coisas inanimadas sem o sentido do tacto, e lamas e algumas outras criaturas que pouco sentido possuíam, e mais tarde homens, e por fim anjos, que se ouviam cantar em notas requebradas e suaves, mas que ninguém podia tocar, coisa em que muito parafusou Nuñez até lhe ocorrer que eles aludiam aos pássaros.

Em seguida, prosseguiu, explicando a Nuñez de como o tempo se dividia em tempo quente e frio, que eram para os cegos os equivalentes do dia e da noite, e de como cumpria dormir durante as horas quentes e trabalhar durante as horas frias, de forma que naquela ocasião, se não fora o seu inesperado advento, toda a povoação dos cegos estaria a dormir. Acrescentou que Nuñez devia ter sido especialmente criado para aprender a compenetrar-se da sabedoria que eles haviam adquirido, que a sua deficiência mental e o embotado dos seus sentidos não lhe deviam fazer / 165 / perder o ânimo, que estudasse com afinco e fizesse o possível para aprender. A isto, por toda a gente que estava à porta correu um murmúrio de aplauso. Disse depois que a noite – porque os cegos chamam noite ao dia – já ia adiantada, e que era conveniente que todos se recolhessem para dormir. Perguntou a Nuñez se ele sabia que coisa era dormir; Nuñez respondeu que sim, mas que antes de dormir precisava comer. Trouxeram-lhe então alimentos, leite de lama numa tigela, e pão escuro e ordinário, e deixaram-no sozinho para comer à vontade e depois passar pelo sono até que voltassem ao trabalho. Mas Nuñez não pôde pregar olho.

De vez em quando desatava a rir, ora de pura galhofa, ora de indignação.

– «Uma inteligência em via de formação!» – monologava ele. «Com os sentidos ainda embotados! Mas sabem eles que estiveram a insultar o rei e o senhor que Deus lhes mandou... O que eu vejo é que tenho de os trazer à razão. Deixa-me pensar. Deixa-me pensar».

E a pensar estava ainda quando o sol se pôs.

Nuñez tinha olhos para todas as coisas belas. Parecia-lhe que a claridade que se espalhava sobre as geleiras e os campos de neve, em derredor do vale, era a coisa mais bela que em sua vida tinha visto. Dessa inacessível glória foram-se-lhe os olhos para a aldeia e para os campos irrigados, e de repente alagou-lhe a alma um estado de comoção. Do fundo do coração, agradeceu a Deus o ter-lhe concedido o poder da vista.

De fora da aldeia, sentiu uma voz que o chamava.

– «Eh! Bogotá! Chega-te aqui!»

Ergueu-se a sorrir. Ia mostrar àquela gente, uma vez por todas, quanto valia a vista para um homem. Haviam de andar à procura dele sem o encontrar.

– «Trata de te mexer, Bogotá!» – disse a voz.

Riu-se para dentro e deu dois passos furtivos para fora do carreiro.

– «Não pises a relva, Bogotá. Isso é proibido.»

Aos ouvidos de Nuñez mal chegava o rumor dos seus próprios passos. Estacou, pasmado.

O homem que falava veio para ele a correr, pelo carreiro sarapintado de preto e branco.

Nuñez voltou para o carreiro.

– «Estou aqui.» – disse ele.

– «Porque é que não vieste logo que eu chamei?» – perguntou o cego. «Será preciso que te guiem como se foras uma criança? Não ouves o carreiro quando andas?»

Nuñez desatou a rir.

– «Até o posso ver.» – disse ele.

– «Ver!» – replicou o cego, depois de uma pausa. «Isso não é palavra que se entenda. Deixa-te de tolices, e segue o som dos meus passos.»

Nuñez seguiu-o, um pouco despeitado.

– «O meu tempo virá!» – disse ele.

– «Sim, hás de aprender.» – redarguiu o homem – «Haá muito que aprender neste mundo.»

– «Nunca por aqui ouviram dizer que na Terra dos Cegos quem tem um olho é rei?»

– «Que vem a ser isso de cegos?» – perguntou o cego com indiferença, por cima do ombro.

Decorreram quatro dias, e o quinto ainda encontrou o rei dos Cegos no seu incógnito, à laia de um forasteiro ignorante e inútil no meio dos seus súbditos.

Foi percebendo que era muito mais difícil aclamar-se do que ele supunha a princípio, e entrementes, enquanto meditava no seu golpe de estado, ia-se conformando com as sugestões que lhe davam, e aprendendo os costumes e hábitos da Terra dos Cegos. Achou muito maçador isto de trabalhar de noite, e resolveu que seria essa a primeira alteração a fazer.

(Conclui no próximo número)

Versão de H. LOPES DE MENDONÇA

H. G. WELLS

 

 

 

157-165