O Padre Himalaia

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O SEU INVENTO

O QUE FOI A EXPOSIÇÃO DE S. LUÍS

OS americanos do Norte, organizando a Exposição Universal de S. Luís, quiseram realizar um grandioso certame em que, pela exposição comparativa das máquinas, aparelhos, processos e métodos de operar, pela exibição de objectos análogos de diferentes épocas, de modelos demonstrativos do aumento da força produtiva das variadas industriais e das variações do gosto, pela relação de todos os pormenores respeitantes a todas as amostras e espécimes dos produtos que fossem objecto de comercio,' indicação de procedência, de quantidade produzida, de importação, exportação e preços; pela estatística e quadros gráficos dos grandes movimentos de transporte; pela comparação das superfícies destinadas à cultura, das quantidades de produção agrícola anual, dos preços e dos valores dos terrenos, das populações, etc.; pelos ensaios práticos; pelas conferências de ciência aplicada; pelos concursos internacionais destinados à escolha dos melhores instrumentos de trabalho; pelas provas dos produtos alimentícios; e, finalmente, pelo agrupamento de todas as belas-artes – fosse possível verificar o estado actual, exacto e límpido, da civilização e da economia social dos povos, e se procurasse favorecer-lhes o desenvolvimento.

A América, que muito bem conhecia já os grandes factos da actividade dos estados e nacionalidades da Europa, mas somente da sua actividade isolada, entendeu que esses factos só aproveitariam num verdadeiro sentido, quando relacionados com a vida de conjunto da formidável civilização ocidental. Os americanos, adoptando o critério dum nosso eminente pensador, consideraram cada estado ou nacionalidade europeia como um membro cooperador desse todo solidário, factor principalíssimo dos altos destinos da humanidade, e quiseram orgulhar-se também com o afirmar-lhes, sobre o seu próprio solo, a sua fecunda aspiração na evolução civilizadora.

Quis-se pois que a exposição de S. Luís tivesse, a par dos seus múltiplos fins económicos e comerciais, um carácter eminentemente pratico de lição de coisas.

No Palácio das Maquinas, por exemplo, tudo se movia, se emaranhava e rodopiava numa agitação incessante. Os mais poderosos motores do mundo, as mais inconcebíveis rodas de aço, os mais despropositados cilindros, os eixos mais formidáveis, os êmbolos mais violentos, tudo isso produzia, a um mesmo tempo, e num mesmo recinto, as mais exageradas somas de força, unicamente com o fim de bem patentear aos olhos do visitante da Exposição a realidade das mais monstruosas funções mecânicas, que a ousadia do homem tem conseguido organizar e dirigir.

No Palácio das Manufacturas e no Palácio das Artes Liberais, assistia-se à produção completa de uma infinidade de artigos que são objecto de comércio universal e de uso comum, e que todavia a maior parte da gente que por ali passava desconhecia nas minúcias curiosas da matéria-prima, do preparo, e da manipulação. A cada passo se via uma fábrica em miniatura, uma of1cma, um recanto de ateliê, onde dois, três, quatro operários realizavam em cada dia as oito horas de trabalho da sua especialidade.

No Palácio dos Transportes, onde a história / 24 / desta indústria era a mais completa, cada carro de cavalos tinha seus cavalos atrelados, e cada boleia tinha seu bolieiro; as locomotivas não andavam mas fingiam que andavam, vendo-se todos os movimentos dos eixos e das rodas; a Pulmann, que é a grande companhia americana dos vagons-Ieitos e dos vagons-restaurantes, expunha alguns dos seus opulentos comboios de luxo, completos, de numerosas carruagens, exactamente como se os tivesse mandado formar sobre qualquer das mil e uma linhas férreas que atravessam a América para excursões de milionários; as grandes empresas de navegação tinham feito reproduzir pedaços dos seus mais belos e cómodos paquetes, de modo a dar ao visitante da Exposição uma ideia exacta dos seus diversos sistemas de cabines, da magnificência das suas salas de jantar das suas salas de fumo,  e das suas salas de banho.

No Palácio das Minas e da Metalurgia, era possível observar em muito interessantes resumos toda a vida de luta, de arrojo e ânsia que é a dos obscuros perscrutadores da terra, no que ela tem de mais misterioso e recôndito. Havia galerias e labirintos subterrâneos tão fielmente reproduzidos, que não era sem um certo sentimento de terror, difícil de vencer em muitos casos risonhos, que os mais curiosos lá entravam.

No Palácio da Educação, havia modelos de escolas, de ginásios, de institutos, onde só faltava a multidão dos alunos, supondo-se que estivessem as férias. Tudo o mais lá estava nos seus lugares e nas suas justas proporções, ocupando os seus devidos espaços, mostrando tudo como tudo' se passa no mundo e na vida escolares.

As somas de dinheiro despendidas com a Exposição de S. Luís ultrapassaram todos os orçamentos, que já haviam sido talhados à larga. A superfície dos terrenos ocupados pelas construções excedia a de todas as exposições anteriores. A de Chicago em 1893 era de 253 hectares; a de Paris em 1900 era de 135; a de Búfalo em 1901 era de 120; a de Filadélfia era de 95; a de Omaha era de 60. Pois a de São Luís era de 496 hectares !

Alem dos quinze grandes palácios destinados à instalação dos diversos grupos classificados, cada Estado da União construiu o seu pavilhão especial; e cada uma das mais ricas nações estrangeiras levantou também o seu Palácio. Ao todo, compreendia a Exposição 500 edifícios. Somadas as dimensões de todos estes palácios e pavilhões, obtinha-se uma totalidade duas vezes equivalente ao que havia na Exposição de Chicago, três vezes equivalente ao que havia na última Exposição de Paris, dez vezes equivalente ao que havia na Exposição de Búfalo.
 

O APARELHO SOLAR-PYRHELIÓFORO

Pois foi no meio de tanta grandeza e tanta maravilha, que o invento de um português pôde atrair todas as atenções dos visitantes da Exposição. Esse invento era um aparelho solar denominado Pyrhelioforo («Pyr») – fogo; «Helios» – sol; «Foros» – eu trago) pela primeira vez exposto ao público entre os muitos triunfos da ciência moderna, aglomerados no imenso recinto da chamada Feira do Mundo. O inventor era o Padre Himalaia.

O Pyrhelióforo consiste em um reflector de forma geométrica nova, montado sobre um equatorial também de sistema inteiramente novo. A grandeza do reflector é representada por 80 metros quadrados de, superfície reflectora, e 6: 117 elementos reflectores. O calor enviado por todos estes elementos concentra-se no interior de uma fornalha, onde a temperatura pode atingir elevadíssimo grau; qual será o máximo grau não o disse ainda o Padre Himalaia, persistindo em não o declarar antes de experiencias definitivas. Tudo depende do ajustamento dos reflectores elementares; mas não seria surpresa para ele que a temperatura se aproximasse, ou mesmo excedesse, a do Forno Eléctrico, que é de 3.500 graus centígrados, segundo a escala do professor Viole.

O Pyrheliofóro poderá fundir todos os metais existentes, e talvez a maior parte ou mesmo todas as rochas conhecidas, compreendendo o granito, a magnésia pura, que é o corpo mais difícil de derreter; e depois deste a cal, o boro, a alumina, a sílica ou quartzo, seixo branco que se encontra nas praias e em certos terrenos de Portugal.

É um helióstato notável pela sua magnitude, simplicidade e originalidade de todos os seus órgãos.

O reflector tem a forma de um sector truncado de um parabolóide de revolução, As suas dimensões são estas: desenvolvimento da curva na base do sector 10m,75; desenvolvimento da curva ao nível da truncação, 5m,25; distância medida do reflector ao foco, 10 m; / 26 / diâmetro do foco, 0,15; superfície reflectora, 80m2; número de elementos reflectores, 6.117; grandeza de cada elemento, 123 n/m X 98 n/m.

Os elementos reflectores são de cristal puro prateado na parte posterior com três camadas, e cobertos com uma pintura protectora. Cada elemento é fixado por três parafusos, especiais, armados com molas em espiral, que permitem obter um rigoroso ajustamento.

Acha-se o reflector montado sobre um novo sistema de equatorial colocado na linha norte-sul verdadeira, sendo a máquina orientada de forma a acompanhar o sol desde manhã até à noite, O órgão destinado a efectuar esta orientação é um aparelho de relojoaria de grande força e precisão, também estudado e construído pelo Padre Himalaia, O forno é um cilindro de aço revestido de matérias refractárias, devendo encontrar-se o foco no eixo deste cilindro, e nunca tocar nas paredes para não as fundir. Os produtos fundidos são descarregados por uma porta lateral.

A máquina exposta em S. Luís foi a quarta que o inventor construiu. A primeira experimentara-a ele em Paris, nos princípios do ano de 1900; a segunda nos Pirenéus, no verão do mesmo ano; a terceira em Lisboa, em 1902. Por meio de sucessivas modificações introduzidas nos diversos instrumentos, o Padre Himalaia tem realizado consideráveis progressos num caminho não estudado ainda, e propõe-se prossegui-lo até atingir os seus fins.

 

OS FINS DO PYRHELIÓFORO

– «Trabalhando na terra quando tinha meus doze anos – palavras do Padre Himalaia ouvidas por quem escreve estas linhas – impressionava-me o ver meu pai sair de casa sempre que sobrevinham fortes trovoadas, e ir captar os enxurros que vinham da montanha, para com eles regar os campos quando estava chovendo. Parecia-me aquilo uma espécie de mania, e disse-lho uma vez. Meu pai respondeu-me que, por experiência, tinha sempre visto que as águas de trovoada engordam a terra, e que mais tarde se conhece nos campos o lugar até onde elas chegaram, pela cor e desenvolvimento das culturas. Não esqueci a lição, mas ainda fiquei na reserva.

Um ano depois de ter ido para os estudos em Arcos de Vale-de-Vez, assisti, a uma conversa entre dois homens da Serra do Suajo, dizendo um deles: «Este ano havemos de ter muito feno na serra, porque o ano foi de muitas trovoadas», Meti-me na conversa e pedi toda a sorte de explicações. Os pobres homens nada mais me souberam dizer, e eu fiquei na persuasão de que a ciência poderia talvez explicar o fenómeno, se ele era verdadeiro.

Estudando depois ciências físico-químicas no Seminário de Braga, vim a reconhecer que as chuvas das trovoadas tinham azotatos, e azotitos de amoníaco.

A química ficava satisfeita com isto, mas eu não. Como seria que se formavam esses azotatos de amoníaco?

Inquestionavelmente, tais produtos derivavam das descargas eléctricas através do ar saturado de humidade.

E não poderia a indústria humana reproduzir este fenómeno por uma maneira contínua e universal? Podia, se dispusesse de energias eléctricas comparáveis com as do raio das nuvens.

 

FAC-SIMILE DA ASSINATURA DO PADRE HIMALAYA

Mas como obter tais energias? Transformando em electricidade a força cinética dos ventos e das vagas, ou a energia formidável das marés, das quedas de água e da radiação solar.

Como português, sem todavia esquecer o resto da humanidade, intentei antes de tudo trabalhar para o meu pais, que tão vivamente

Amo. E como o meio ambiente do nosso belo Portugal é o sol, comecei pela radiação solar. Estudando de perto o fenómeno da produção dos azotatos de amoníaco em presença das descargas eléctricas, reconheci que o raio das nuvens actuava como meio de elevar suficientemente a temperatura do oxigénio e do azoto, e de lhes fornecer instantaneamente a quantidade de calor latente de que eles precisam para se combinar e formar os vapores nitrosos.

Experiencias especiais me mostraram que o raio actua como calor e não como electricidade no fenómeno da oxidação do azoto. Foi então que me ocorreu a seguinte ideia: seria possível concentrar suficientemente os raios solares até obter um foco que tivesse uma intensidade comparável à do raio? / 27 /

Para responder a esta questão, todos os meus pobres conhecimentos eram insuficientes. Tornava-se necessária a experiencia. Mas o sol não é fácil de domar. A primeira coisa a fazer seria estudá-lo, para lhe conhecer as qualidades e os meios de o conduzir.

Estudar o sol é, implicitamente, lançar-se a gente no estudo do Universo; e nisto gastei o melhor da minha vida. Pouco a pouco fui conhecendo a geografia, a física, e a química solares, e fui descobrindo os meios práticos de utilizar para o meu fim a calor radiante do sol. Nesse campo, a ciência nada tinha progredido.

Tive eu próprio de abrir o caminho por onde havia de passar, tive de fazê-lo só Deus sabe com que dificuldades!

Conseguiria eu resolver o enorme problema da extracção do azoto da atmosfera para fertilizar as terras?

Os dois aparelhos de experiencia que tive em França, e um que fui montar a Lisboa, não me tinham permitido dizer se sim, ou não. Este que V. aqui vê (estávamos no terreno da Exposição, em frente do Pyrhelióforo), e que é o mais perfeito de todos, acaba de me provar que, realmente, o problema é solúvel. A quantidade dos vapores nitrosos que já obtive mostra-me que o caminho está aberto.

Sob o ponto de vista acientífico, este aparelho está apto para provar verdades importantes e imprevistas. Assim vejo agora que a origem do calor do sol é muito diversa do que se pensava em Meudou, e do que se pensa em geral. Posso já dizer que o calor do sol não provém da queda de aerólitos sobre a massa solar, nem da contracção da chamada nebulosa solar, nem da oxidação da matéria de que se compõe o sol, nem de qualquer manifestação radioactiva.

O calor do sol é produzido por gigantescas descargas eléctricas, que se produzem na atmosfera solar ao nível da fotosfera.

Mais do que isto, fornece-me este aparelho elementos para determinar a origem da energia que produz essas formidáveis descargas eléctricas. E esta é, por assim dizer, a chave dos mais passionantes arcanos do Universo.

Um livro em que trabalho, e que em breve será publicado, conterá as teorias que o estudo e a frequência dos observatórios me inspiraram, desenvolvidas e baseadas em factos; de observação real sobre estes dois formosos mensageiros no Infinito: a luz e o calor do sol».

O aspecto do sol visto do foco do aparelho, à noite, quando uma estrela se encontra no eixo do parabolóide, é deslumbrante. Vê-se a mesma estrela projectada no infinito, a distâncias simétricas, e repetida 6.000 vezes. Quando é a lua que passa ao meridiano, o fenómeno é ainda mais grandioso, pois se vêem 6.000 imagens da lua no firmamento. E o aparelho mostra que a luz da lua, concentrada 6.000 vezes, contém um certo grau de calor, e especialmente raios actínicos.

Em resumo, os fins acientíficos do Pyrhelióforo, são: determinar a natureza e a origem do calor e da luz do sol; estudar as propriedades da matéria sob a influência das temperaturas extremamente elevadas; completar a escala das altas temperaturas, parada no grau da ebulição do carbono e da magnésia no forno eléctrico.

Os jornais americanos, tendo recolhido a opinião de muitos homens de ciência de diferentes países que visitaram a Exposição de São Luís, estabeleceram o facto de ter sido o Pyrhelióforo a mais imprevista novidade que apareceu no formidável certame de 1905, todos dizendo estar o Padre Himalaia na pista de grandes descobrimentos acientíficos e industriais, que podem modificar profundamente as nossas ideias sobre a matéria e a força, e sobre a origem, funcionamento e destino do universo. E que se as suas previsões se realizam, se ele chega a captar as forças primitivas da Natureza, como prometem as observações realizadas pelo Pyrhelióforo, a orientação industrial do mundo virá a ser inteiramente mudada, e os países até agora atrasados por falta de combustível poderão vir a ser ainda consideráveis centros. industriais.

ALFREDO MESQUITA

 

 

 

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