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ALMADA
Qui locus Ulyssiponi imminet freto inter fluente Tago, saluber coelo,
fontibus exuberans, Musarum otiis comodissimus.
(PROLOGO ÀS OBRAS de Jaime Falcão.)
ENTRE os quadros que Lisboa, a linda Lisboa,
Lisbon the fair, como lhe chamou um escritor americano, oferece
para regalo dos olhos dos seus habitantes, figura o panorama da
Outra Banda. Na sinuosa linha que além do Tejo corre desde as
indecisas planuras do Montijo, subindo longe ao altivo castelo de
Palmela, e dobrando pelo Barreiro e Seixal vem quebrar-se no Pontal
de Cacilhas, para, depois duma ascensão rápida, se prolongar com
acidentes vários ao largo, até às costas da Trafaria, e alcançar o
isolamento do Bugio; nessa linha, que traça uma das mais belas
paisagens do mundo, o olhar de quem sabe olhar, e de quem sente o
que olha, descansa docemente num dos refegos da encosta, onde se
aninha o casario branco de Almada.
Ou seja, nas tardes claras em que a humidade da
atmosfera serve de lente e aproxima de nós as minuciosidades do
quadro, mostrando-nos nitidamente as fachadas das casitas claras, os
campanários graciosos de Santa Maria e S. Tiago, o castelo, as copas
verdes e ramalhudas das árvores, e mais para a direita do
espectador, em contraste com a risonha vila, o severo e sisudo
convento de S. Paulo; ou seja, nas manhãs de Outono, em que a
paisagem se distancia mais e uma ténue neblina esbate os contornos
dando aos objectos fantásticas formas cheias de indeciso e de
mistério; ou seja, nas noites de plenilúnio, em que, batidas de luar
claro, as casas, a torre e o castelo tomam o ar de um cenário de
balada, e dominam com poesia severa a prata liquida do Tejo; Almada,
a loureira, vizinha de Lisboa, tem sempre um encanto a que só se
escapa o paladar embotado do espectador alfacinha que nasceu a ver a
Outra Banda, e que, distraído, nela não atenta.
E, contudo, quem nos carros eléctricos, percorrendo
cada dia a margem direita do Tejo levado aos seus negócios ou
atraído pelos seus prazeres, olhar pelos intervalos das
monstruosidades que se amontoam ao longo da linha marginal, como
biombo asqueroso, e quem subindo a Santa Catarina, onde discreteavam
os velhotes do Tolentino, ou ao adro das Chagas, onde galanteava
Camões, reparar na margem fronteira, e deixar cair a vista nessa
pequenina vila, tão garrida, sente de certo, além do pitoresco do
espectáculo, aquele fenómeno de evocação, que nasce das coisas que
atravessaram a Historia.
De facto, Almada tem no grande livro dos fastos da
península alguns pequenos capítulos, ou pedaços deles, que lhe dão
foro de fidalguia, e chamam o nosso interesse.
Apelidaram-na os latinos Caetobrix, ou
Caetobica, e os árabes Hosnel-Madan (fortaleza da mina)
ou Almadan (mina de ouro ou prata).
/ 18 / Frei Luís de Sousa, que ainda quando era o
brilhante Manuel de Sousa Coutinho, habitava o seu palácio nesta
vila, dá-lhe como etimologia a frase dos cruzados ingleses que em
1147 ajudaram Afonso Henriques a tomá-la aos mouros, e os quais,
tendo acabado a faina, e querendo dar-lhe o nome da ventura e bom
sucesso, exclamaram na sua língua – all is made. Tudo está
feito e acabado!
Na Monarquia Lusitana se diz também que os
capitães ingleses, que a povoaram, lhe chamarem ao princípio
Vidamel, que vale o mesmo que Povoação de muitos.
Em matéria de etimologia tudo é possível. Mas como os
mouros a habitaram antes da chegada dos ingleses, que depois vieram
povoá-la, é mais provável que a origem do seu nome árabe venha das
minas de ouro da Adiça, que ali havia próximo, e que deram mais
tarde uma coroa a D. Diniz e um ceptro a D. João lII. Dizem outros
que Almada tomou o nome de um árabe que a senhoreava chamado
Almades ou Almadão.
O que é certo é que depois de romana foi árabe, até
que os cavaleiros ingleses, companheiros de Guilherme da Longa
Espada, vindo auxiliar Afonso I na conquista cristã, a tomaram,
saquearam e depois habitaram.
D. Sancho I doou-a aos cavaleiros de S. Tiago, que
ali perto tinham o seu fidalgo castelo em Palmela, e D. Diniz
incorporou-a na coroa.
Teve destinos vários, sendo devastada numa investida
do Miramolim de Marrocos, que depois foi obrigado a recuar,
refugiando-se em Espanha.
Mas o facto culminante da sua história é a heróica
resistência dos habitantes durante o cerco de Lisboa, em 1384.
UM CERCO NO SÉCULO XIV
Corria o mês de Maio, sereno e tépido. D. João I de
Castela, depois de se desfazer de D. Leonor Teles, sogra que se lhe
tornara inútil e até importuna, desde que dela arrancara a regência
do reino, e tendo-a enviado para Tordesilhas, a esmagar entre as
paredes do convento as suas ambições violentas, a abafar na clausura
as paixões ardentes que ainda a minavam, e emurchecer na sombra a
sua beleza sempre provocante, resolveu vir de Santarém, pôr cerco a
Lisboa.
O seu exército numeroso, brilhante e aguerrido,
encaminhou-se para a capital, talando os campos, devastando as
povoações, matando os habitantes.
Chamara além disso todo o poder de Castela em seu
esforço. Ordenou ao marquês de Vilhena, ao arcebispo de Toledo e a
Pêro Gonçalves de Mendonça, que lhe trouxessem pelo menos mil
lanças. Mandara que o seu almirante Fernão Sanchez de Toar, se
juntasse em Castela com o conde de Niebla, com o mestre de
Alcântara, com o prior dos Hospitalários portugueses e com outros,
para que depois de tomadas as praças do Alentejo se reunissem a ele
no cerco de Lisboa.
No dia 26 de Maio começaram a entrar no Tejo as
primeiras galés castelhanas. A 28 o rei de Castela, que estava no
Lumiar, marchou sobre a cidade. Veio por Campolide com a sua hoste,
a cavalo, acompanhado de muitos peões, e besteiros; e chegando a
Monte Olivete, perto de onde hoje é a praça do Príncipe Real, e onde
ainda uma rua conserva aquele nome, aí se demorou um dia, para
daquela altura observar uma grande parte da muralha da cidade.
Corria ela então por onde hoje está S. Roque, em direcção ao Tejo. E
ali perto abria-se a porta de Santa Catarina, junto ao convento da
Trindade, onde os frades, animados de ardor patriótico, muito
contribuíram para a resistência heróica da cidade. Nesse dia, os de
Castela anelaram por aqueles arredores, que então eram campos
desabitados, cortando árvores, arrancando vinhas. Ali se deu a
primeira escaramuça com os portugueses que saíram da cidade.
Na manhã seguinte desceu El-Rei de Castela a encosta,
e mandou assentar o arraial junto do mosteiro das Donas de Santos,
da ordem de S. Tiago, edifício que actualmente é o palácio dos
marqueses de Abrantes e freguesia de Santos-o-Velho.
Era um deslumbramento esse arraial, onde se
estabeleceu o rei, a rainha D. Beatriz, todas as suas damas e um
numeroso exercito composto de mais de trinta mil homens.
Para El-Rei e rainha construiu-se uma casa sobradada,
feita de quatro traves grossas e cercadas de paredes de pedra seca.
Em redor as numerosas tendas dos senhores e fidalgos que com eles
vinham, ostentavam os pendões, as armas e as signas de cada um. O
restante do exercito estendia-se por Alcântara e Campolide, em bem
alinhadas ruas que / 19 / davam ao arraial o aspecto de uma cidade
de prazer.
Havia a rua dos armeiros, a dos mercadores cristãos e
judeus, que vendiam panos, e folias e muitas outras coisas.
Havia a rua dos cambadores, para compra e venda de moedas de
ouro e prata. Parece, porém, que minguavam os sapateiros, porque o
cronista nota que de calçaduro nunca foi o arraial bem
abastado.
A justiça como quem diria hoje a polícia, era tão bem
feita, que cada um podia dormir descansado, ainda mesmo que sobre si
tivesse grossos cabedais. Ali havia físicos, solorgiões e
boticários, e nas coisas de prazer era o arraial abundantemente
provido. De Sevilha vinham não só armas e mantimentos, como
açúcares, conservas, água rosada e outras destiladas, de que os
viçosos homens usavam nos tempos de paz, e até mesmo havia
rua de mulheres mundanarias no arraial, tamanha, como se acostumava
nas grandes cidades.
A guarda desse arraial era vigilante em terra para
que ninguém pudesse sair da cidade sem ser visto.
E no mar, cerca de Almada, jaziam sempre duas galés,
para que a cidade não recebesse mantimentos pelo rio. Além disso
outras naus, desde Cata-que-farás até às portas da Cruz, cercavam
pelo rio a cidade, que pela terra estava apertada num cinto de
ferro.
Resistia valentemente. É digno de ler-se o capítulo
de Fernão Lopes, em que descreve a heroicidade dos habitantes, a
bravura dos soldados, a energia do Mestre de Avis, e o entusiasmo
com que a população quando ouvia repicar os sinos da Sé corria às
muralhas, com espadas, lanças e pedras, que arremessava contra os
castelhanos, cobrindo-os de apupos, brados e risadas de escárnio. Os
frades da Trindade distinguiam-se usando das melhores armas que
podiam haver, e os moços, sem medo, levando pedras fora dos muros
para fazerem a barbacã, cantavam:
«Esta es Lisboa prezada, miralda, y leixada, se
quisieredes carnero, qual dieron aI Andero, si quisieredes carnero,
qual dieron aI arcebispo».
Do outro lado, Almada também estava pelo Mestre de
Avis.
Ora por este tempo aconteceu que Diogo Lopes Pacheco,
velho de oitenta anos, que fugira para Castela depois da tragédia de
Inês de Castro, tendo resolvido vir ajudar o Mestre de Avis, e
sabendo que Lisboa estava cercada, subiu por Cacilhas junto a
Almada, com seus três filhos e trinta homens, que o acompanhavam,
querendo entrar na vila, dizendo que lha dessem, que fossem seus e
que ele lhe faria mercês. Os do conselho da vila recusaram por
julgarem que eles fossem castelhanos. O velho pousou com os seus no
arrabalde da vila.
Ao cabo de três ou quatro dias, tendo o rei de
Castela noticia de sua vinda em auxílio do mestre, mandou de noite,
em galés e bateis, passar muita gente. Formou-se uma pequena coluna
que pela estrada que vem de Coina se dirigiu a Almada. Os da vila,
tendo noticia disto, juntaram-se aos homens de Diogo Lopes e seus
filhos, e com oitenta homens de cavalo, gente de pé e besteiras,
somaram uns quatrocentos e cinquenta.
Os de Castela só de cavalo eram quatrocentos, fora os
muitos besteiros e peões. A manhã era de névoa cerrada. Apesar da
sua superioridade, os castelhanos perderam quarenta homens, e os
portugueses apenas sete.
Os filhos de Diogo Lopes fugiram para / 20 /
Sesimbra. O velho foi preso, assim como Afonso Galo, recebedor da
vila.
Então os castelhanos atacaram Almada, e, como não lhe
pudessem fazer dano, puseram-lhe cerco.
Este cerco foi um horror!
Do lado da terra defendia-se a vila contra os ataques
ordenados pelo rei de Castela.
Do lado do mar não a podiam combater por causa da
grande altura a pique sobre o mar.
Outra espécie de guerra lhe fizeram mais cruel e
eficaz. Tentaram reduzi-la pela fome e pela sede. A uma e outra o
povo de Almada resistiu heroicamente.
Depois que a esquadra de Castela veio sobre Lisboa,
os moradores de Almada acolheram-se ao castelo em dois bateis
bailheiros em que às vezes levavam mantimentos à cidade, e para que
os castelhanos não os tomassem na peleja que se travou, e em que
houve uns 16 feridos, queimaram-nos.
A vila ficou cheia de gente, e provida ainda então de
mantimentos: pão, vinho, carne e outras coisas que calculavam poder
durar seis meses.
A água, porém, começava a escassear. Apenas a havia
numa pequena cisterna, à qual foi posta uma guarda severa, que
distribuía a cada habitante apenas uma canada por dia. E o
calor ia apertando…
E havia dois meses que a vila estava cercada...
Os seus habitantes faziam sortidas arriscadas, à caça
dos castelhanos pelo termo, a Sesimbra e Arrentela. Um dia mataram
mais de trinta em um lameiro.
Estas sortidas eram realizadas pela porta da Barroca,
que chamavam Mejão frio, e defrontava com o mar.
Os castelhanos, por mandado do seu rei, tentaram
então cavar uma mina para fazerem saltar uma alta torre que estava
sobre a porta do castelo.
Isto foi pressentido pelos portugueses, que se
apressaram em aumentar a barbacã ou pequena muralha fora da
alcáçova. Ali foram sair os sitiantes com a boca da cava travando-se
então rija peleja, em que houve muitos feridos, o que contrariou
sobremaneira o rei D. João de Castela, que resolveu ir ele próprio
combater Almada, para onde se dirigiu, com as suas gentes e
capitães.
Mandou então construir no campanário da igreja de S.
Tiago um cadafacens de madeira, donde pudesse ver toda a vila
e assistir ao combate.
Trepou-se a ele, e ordenou que o lugar fosse atacado
«com gente de armas e de pé, e tiros e bestaria, e fundas de
demogrilas e outras artilharias de combate!» Durou esse ataque
desde a hora da terça até depois do meio dia.
A essa hora o rei desceu à igreja para comer. Foi a
sua salvação, porque os da vila, imaginando que ele ainda se achava
sobre o cadafacens de madeira, resolveram atirar-lhe um tiro.
Esse tiro, que, atirado horas antes, teria morto o rei de Castela e
adiantado, decerto, a vitória do Mestre de Avis, que teria libertado
Almada e Lisboa, que teria suprimido Aljubarrota e a continuação da
epopeia do Mestre e do Condestável, que teria decidido a sorte dos
exércitos e da guerra da independência, diminuindo o brilho da
vitória, mas antecipando a fundação da dinastia de Avis e alterando
a sorte de Castela, esse tiro apenas matou dois homens obscuros e
feriu três. O rei já lá não se encontrava. Estava na igreja,
jantando.
Amargou-lhe porém, decerto, a comida. Ainda tentou o
recurso de atirar com uma bombarda do peso de cinco quintais, mas
não tirou resultado do primeiro tiro de pedra, e ao segundo, a
máquina de guerra inutilizou-se.
Subiu a cólera no ânimo do rei, e vendo que os de
Almada se não queriam entregar, e resistiam aos seus ataques, lavrou
ali solene protesto de nunca preitejar com eles, nem com eles
negociar qualquer forma de capitulação.
Haviam de render-se. Haviam de ser vencidos e para
isso lhes deixava Pero Sarmento e João Rodrigues de Castanheda, com
abundância de gente para o extermínio. E, dadas essas ordens, voltou
raivoso ao arraial do lado de cá do Tejo.
O calor ia apertando e o verão, adiantando-se,
queimava a pequena vila de Almada.
Narra então o velho Fernão Lopes, na sua linguagem
rude e expansiva, as angústias daquele transe. E tão intensamente
dramática é a situação que a crueza da sua expressão não chega a ser
indecorosa.
«Onde sabei, diz ele, que dentro na vila eram uns
quarenta cavaleiros afora bestas; de serventia, e quando a agua foi
minguada, / 21 / houveram conselho de não darem de beber às bestas,
e foi tanta a sede delas, que ali onde mi--- os homens, iam as
bestas chuchar, e comiam aquela terra molhada.
Foi tal o horror de verem assim os animais padecer,
que ordenaram lança-los fora para os não verem morrer, e como
receavam que deitando-os para a vila, os castelhanos se
aproveitassem deles, lançavam-nos de cabeça para o mar!
E o calor ia sempre apertando!... E a água da
cisterna a diminuir.
Começaram então a amassar o pão, e a cozer as comidas
com o vinho das adegas. Até o próprio peixe tinham de o cozer nesse
mesmo vinho, sendo obrigados a comer tudo enquanto quente, pois que
depois de esfriar-lhes repugnava.
Nisto a cisterna secou de todo.
Recorreram então, tal era o horror da sede, a uma
água estagnada e verde, que desde as últimas chuvas tinha ficado em
charcos fora dos muros do castelo. Nesses charcos, antes do cerco,
as mulhere3s da vila lavavam as «roupas infundidas e os trapos dos
meninos» e agora, desde que elas não podiam arriscar-se ali, estavam
esses pântanos coalhados de cães e gatos, e outros animais mortos.
Pois era tão grande a sede daquela gente, que para
obter essa água imunda, alguns homens, em cada dia, arriscavam a
vida. Como estava fora dos muros, iam de noite descendo por cordas,
a furtá-la; coziam-na, e depois de fervida a bebiam e amassavam o
pão com ela. Mas os castelhanos em breve deram com isso. E nas
noites cálidas de Julho, os portugueses, para poderem dar de beber
às suas mulheres, e a seus filhos, tinham de sustentar lutas rijas
em que houve muitos feridos de uma parte e outra.
Mas como o calor apertava sempre, os próprios
pântanos secaram.
Recorreram então à água do mar, e tentaram recolher
em tinas água doce, lá em baixo, na ribeira. Cavaram na barroca um
caminho, e por ele desciam às ocultas.
No primeiro dia saiu-lhes bem o estratagema, e
trouxeram água à vontade.
Apercebidos, porém, os castelhanos puseram guardas
àquele caminho, e quando dezassete portugueses iam na segunda noite
recolher a água, foram atacados com dardos e setas por mais de um
cento de inimigos.
Mortos três portugueses, os outros catorze, mal
feridos, conseguiram ainda assim recolher dois odres meios de água.
As tinas, porém foram quebradas pelos castelhanos.
Era o último recurso!
E o calor ia apertando! Julho meiava-se, abrasador.
Morria gente de sede. Algumas mulheres e crianças fugiam de noite
para os campos.
Acenderam-se almenáras, fachos sinistros que davam
sinal a Lisboa da angústia dos habitantes de Almada, que no entanto
heroicamente resistiam, sem quererem render-se.
Bem viam e sentiam os de Lisboa aquele drama
pungente, mas em nada podiam valer a seus irmãos.
Ainda assim, o Mestre de Avis tentou enviar uma
pequena barca com recursos, pólvora e armas. Foi tomada pelos
castelhanos.
Então, um cavaleiro gascão chamado Mossen Mone,
lembrou-se de levar atado com uma corda, o recebedor Afonso Galo,
que fôra preso por ocasião das escaramuças em que Diogo Lopes
Pacheco também tinha sido preso.
Em frente à muralha disse aos de dentro que se
rendessem, que o rei de Castela lhes faria mais mercês, e que se
não, Afonso Galo seria morto ali mesmo, à sua vista.
Os de dentro teimaram em que não se renderiam, e com
um tiro certeiro deram com o gascão morto. O português ficou vivo.
Novo motivo de queixa para o rei D. João de Castela,
que ao relatarem-lhe o facto, jurou que todos haviam de morrer pela
espada.
Julho acabava. O Mestre de Avis, dentro de Lisboa
afligia-se com as tribulações dos bravos de Almada, mas de modo
nenhum podia corresponder-se com eles, e conhecer, realmente a sua
situação.
Apareceu-lhe então um homem natural de Almada, que
viera na frota do Porto e disse que, nadando, levaria o recado do
Mestre aos da vila da Outra Banda. Aceitou o Mestre esse
oferecimento, e por escrito mandou o seu recado para o informarem
das condições em que se achavam.
Atravessou esse homem, de noite, o rio, nadando com
valentia, até à Ribeira do Monte. Dali subiu dissimuladamente pela
barroca ao Mejão Frio, e falando aos do castelo, estes,
conhecendo-o, lhe abriram a porta. Tomado o recado, informaram o
mensageiro da sua situação angustiosa.
E aquele homem, com a simplicidade ingénua / 22 / dos
heróis, ouvida a resposta, de novo voltou a nado para Lisboa,
arriscando nessa noite mil vezes a vida, não só lutando com as
correntes do Tejo, como expondo-se à vingança dos castelhanos, que
se aqui ou na outra margem o pressentissem, tê-lo-iam logo morto.
Ouvido pelo Mestre o relatório dos padecimentos dos
seus fieis dalém, passados três dias, mandou o mesmo homem, de
noite, com recado a Almada, para que, em vista da situação, os seus
habitantes preitejassem com o rei de Castela. E ainda em levar
recados e trazer respostas, o herói, cujo nome ficou ignorado,
passou o Tejo seis vezes, a nado, sempre de noite.
Então, de acordo com o Mestre de Avis, resolveram os
de Almada capitular, e para isso mandaram emissários.
Mas o rei de Castela, que sabia que todos os dias
morria gente à sede, e esperava que assim eles se rendessem,
recusava-se a preitear com eles.
Interveio então a rainha D. Beatriz. Confrangia-se
porventura o seu coração de mulher com a narrativa dos horrores que
ali perto estavam sofrendo mulheres e crianças, e não era talvez
insensível ao seu ânimo de portuguesa, que fôra, a heroicidade com
que portugueses se defendiam tão tenazmente.
Implorou do marido que perdoasse e entrasse em
negociações. Foi afinal concedido que, aos habitantes, se lhes
segurassem «corpos e haveres e cada um ficasse em sua casa».
No dia primeiro de Agosto, o rei D. João e a rainha
D. Beatriz, saindo do seu luxuoso arraial de Santos, embarcaram em
festivas galés, dirigindo-se à Outra Banda, onde lhes foi entregue a
vila e as chaves dela.
Almada defendera-se heroicamente, e capitulava agora
com honra, escrevendo mais um capítulo brilhante na história de
Portugal.
Pouco depois ainda a vemos figurar quando Nuno
Alvares Pereira, descendo de Évora, resolveu vir a Almada, sobre
Pedro Sarmento, capitão castelhano, que com ele não quisera pelejar.
Veio pelo castelo de Palmela, onde se apresentou e de
onde ao dia seguinte, por desfastio, saiu a correr monte, matando um
porco. Conta-se até que resolveu presentear o seu competidor com
este porco.
O caso é que veio por Azeitão, de noite, e por os
guias não serem bem certos e andarem fora dos caminhos, só chegou a
Almada com sol nado. Esperava aí surpreender Pedro Sarmento. Mas
este estava em Lisboa. A sua hoste, porém, ficara ali, e por não
esperar esta investida, quase todos dormiam.
Levantaram-se à pressa, e combateram
desordenadamente. Fugiam quanto mais podiam, e alguns ainda por
vestir, como aquele João Rodrigues de Castanheda, que nem pudera
envergar o gibão. Singular peleja aquela, em que até alguns capitães
se evadiram pelos telhados.
Refere Fernão Lopes que, reunida a sua gente,
ordenara Nuno Álvares que todos se colocassem no monte, sobre o mar,
para serem vistos de Lisboa, de onde efectivamente os lobrigaram com
grande prazer os cercados na cidade, e com enorme furor o rei de
Castela, e Pedro Sarmento, o fronteiro, que também, meio vestido, se
meteu em uma galé, dirigindo-se a Almada. Já ali não encontrou Nuno
Álvares, que muito descansadamente regressara a Palmela, onde à
noite acendeu almenaras para avisar os de Lisboa, que ali se achava.
De cá responderam-lhe com muitas tochas no eirado dos Paços, onde o
Mestre pousava.
Termina o pitoresco Fernão Lopes, dizendo: Nuno
Alvares apagou seus fogos por cobrar o sono que de antes perdera,
onde fique com boas noites; nós tornemos ver esta atribulada Lisboa
em que ponto está!
Durou ainda um mês o cerco que o rei de Castela lhe
pusera havia mais de três.
A peste, que dizimava o brilhante arraial, atacou a
rainha, a quem deram duas tramas. No sábado três de Setembro, o rei
de Castela, roído de raiva, ordenou que o cerco fosse levantado e
que o fogo consumisse o arraial.
Ardeu todo o domingo.
O exército castelhano arrastou-se, combalido, com a
rainha doente, por Santo Antão, Torres Vedras, até Santarém. Lisboa
estava salva!
(continua)
CONDE DE SABUGOSA
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