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Boletim n.º 20-21 - Ano XI - 1993

Moliceiros

Alberto Souto

 

Entre os barcos mais curiosos e expressivos de todos os tempos e de todo o mundo, um há que pode afoitamente apontar-se e distinguir-se é o moliceiro que vive entre nós nas águas salgadas e salobras da Ria de Aveiro, junto ao mar e ao delta do Vouga.

Dos barcos da Ria ele é o mais pitoresco. E os barcos da Ria têm todos formas elegantes, características inconfundíveis. Essas formas ou são reminiscências e adaptações do talhe bizarro de naves que no alvorecer da nossa história por aqui passaram ou uma criação hábil e feliz de construtores artistas que viveram e se sucederam nas margens deste estuário.

As fisionomias dos barcos da Ria de Aveiro, apesar de diversas, como diversos são os fins a que se destinam e os trabalhos em que se empregam, têm um ar flagrante de família. Mas em todos eles as linhas são harmónicas, proporcionais e delicadas. Um artista que fosse chamado para embelezar a obra do construtor, não delinearia melhor, nada teria a corrigir, porque nestes barcos não há que modificar, há apenas que copiar bem, sem alterar em coisa alguma o seu perfil airoso, gracioso e cheio de carácter.

Estilizar um moliceiro?! É um atentado contra a beleza original da forma, que é já de si uma estilização admirável, e contra o bom gosto inato, perante o qual o estilizador há-de sempre soçobrar!...

Tenho visto no Tejo, no Douro, no Sado e no Mondego, nas margens da Galiza e nos abrigos do Cantábrico, no Adour, no Sena, no Reno, nos canais da França e da Bélgica, nos lagos suíços, embarcações de tráfego fluvial que são um misto de formas, anódinos híbridos, vadios de mil profissões, mestiços de cem raças diferentes e inclassificáveis.

Na Ria de Aveiro, não. Cada profissão tem o seu tipo e os tipos são inconfundíveis: o saleiro, o moliceiro, a bateira mercantel, a bateira marnoteira e pescadeira, a caçadeira, não baralham as suas funções nem anarquizam a sua utilidade, nem abastardam ou mestiçam a sua estirpe.

Mas, entre todos, o moliceiro marca o lugar proeminente no pitoresco e na beleza das formas e tornou-se como que o grande motivo heráldico do brasonário livre dos povos ribeirinhos.

Veloz como nenhum outro, não há quem à popa lhe passe avante ou quem o vença a bolinar, subindo contra o vento em bordos inverosímeis.

A sua borda parece andar debaixo de água; os seus tripulantes puxando à vara, empurrando com o peito virado à ré, curvados, arqueados, quase deitados, andando da proa à tosta, parecem caminhar sobre um destroço de naufrágio poisado nas águas.
Quando o vento ajuda, o fundo dá e o moliço abunda, mastro arriba, vela no topo, caça-se a escota, amura calcada, ancinhos a arrastar... e eles aí andam aos cardumes como os peixes, aos bandos que nadassem de dorso ao sabor do vento.

À proa e á ré, de um lado e de outro, os painéis com espantosas cercaduras polícromas de motivos geométricos, flores e ramalhetes pintados em cores berrantes, ingénuos de concepção e por vezes ingenuamente maliciosos. (...)»

Alberto Souto
 

"Litoral", 13-11-1954

 

 

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