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Boletim n.º 11 - Ano VI - 1988

Identidade

Amadeu de Sousa

 

1


Mumadona
é senhora e dona
do veleiro
desfraldado,
que impelido
pela nortada
de milénios,
arribou um dia
a este chão salgado.

Em refulgências,
ardia a luz
nas superfícies líquidas,
espelhos de verdes semeados
por mágicos divinos.
Veleiro de aventura
na pia do baptismo,
com cabos de ternura,
âncora de Aveirismo.

 

2

Artesãos de antanho,
corpos esculpidos
em bronze
ao sol da lida,
mourejam
em dádiva
hercúlea e secular
na terra lagunar,
por prometida.

São irmãos
de Gebel Tarique

Irmãos
daqueles que mais tarde
sossobraram
às mãos de Afonso,
em Ourique.

Qual jardim,
pagela a pagela,
floresce a salina
do festim
da botadela.

 

3

Armam-se
acampamentos de virgens,
num polvilhar de cristais
pelas distâncias.

Os cones apontados
à abóbada mesclada
de azul e ouro,
alvinitentes,
são meninos de coro
em orações de silêncio.

Em deslumbramento,
ao som da melopeia marítima,
ligeiro,
o veleiro
fundeia
com as suas gentes.

As velas e os mastros
adormecidos
ao vaivém
das marés geradas
no ventre oceânico,
criam raízes
nos fundos transparentes.

Sepultam-se as âncoras
em túmulos de Iodo.
E para a eternidade
no seu todo,
são matrizes.

4

Girândolas de aves
sobem aos ares
em algazarra domingueira
fendendo espaços.


«Os caixilhos das janelas
do céu» de Almada
estilhaçam-se
ao ziguezaguear dos voos
reflectidos,
como lampadário
escancarando as portas
da perenidade
de Alavário.

 


5

Arriado o velame,
os vertedouros
escoam o tempo,
que se dilui
por canais e esteiros
desenhados
por artistas marinheiros


Com o tempo,
escoam-se as estações,
as luas,
as marés,
as nortadas,
os poentes,
e as botadelas
consteladas.


Então,
mutação em mutação,
o tempo,
presa fácil
da rede que o envolve
e tece,
renasce em estações,
em luas e marés,
nortadas e poentes,
em outras botadelas,
e amanhece.


6

A Porta do Sol
das muralhas
abre-se ao astro-rei.
Desenham-se sombras
de torreões e ameias
nos leitos de lajedo.
A suavidade da manhã
penetra em cada casa,
e, de porta em porta,
desvenda-se o segredo.


Joana,
eleita do Senhor,
Infanta de Portugal,
rainha de virtudes,
acaba de transpor
o portal do mosteiro
da pequena Lisboa
a que chamou a Aveiro.

 

7

O burgo predestinado
expande-se em grandeza.
Transbordam de azáfama
as carreiras de São Roque.
Emergem das cavernas
Frotas de veleiros.
Um mar de mar
inunda a vista
Um mundo por descobrir
e a ânsia da conquista
bóiam nos corações
aventureiros.

 


Sonha-se para além
das vagas atlânticas
nas lonjuras africanas,
em cada confim,
por mais esconso.

 


É assim,
que ufanas,
alcançam
as terras de Benim,
as naus
de João Afonso.

 


E as velas e mais velas
que partem,
em nova expedição,
são como botadelas
doutro verão.

 


Algures na costa,
levanta-se um padrão.
Drapejam quinas
na praça conquistada.
E em defesa,
triunfante,
empunha a espada
a heroína Antónia
em Mazagão.

 



 

8

Repetem-se estações,
luas e marés,
nortadas e poentes,
e exultam
botadelas de emoções
no peito doutras gentes


Mas a vileza torpe
se agiganta,
e a espumar ódio,
vómitos de assassínio
na garganta,
clama a ignóbil morte.

 

O grito

de Gravito

e de seus pares,
não se extingue
nos esgares
do patíbulo feroz
da Praça Nova.
Repercute-se
em botadela de alvorada.
E na voz
de José Estêvão
e Mendes Leite
se renova,
pela Liberdade
À Pátria amada.

Amadeu de Sousa


Aveiro, Janeiro de 1988


 

 

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