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Boletim n.º 8 - Ano IV - 1986


SINAIS  FLUTUANTES

UM ESTUDO DE ETNOLOGIA NAVAL NA RIA DE AVEIRO

Por Daniel Tércio Ramos Guimarães

INTRODUÇÃO

Há 45 Kms de duna a separar o mar da chamada Ria de Aveiro. Essa areia, que as correntes depositam ao longo da costa, tem-se mostrado suficiente, apesar da sua precariedade, para preservar uma laguna com vida própria.

Aí persistem ainda velhos barcos de fundo chato: as bateiras, os moliceiros de bico levantado e os pesados mercantéis. Os que flutuam nos canais do norte, que partem das praias da Murtosa, de Pardilhó e do Torrão do Lameiro e que viajam até Aveiro ou até Ílhavo, nos cascos ostentam quase sempre sinais que com maior ou menor exuberância prendem a luz em cores de festa. E hoje, se o moi iço já não chega tão longe, se os botirões escasseiam e as estradas substituem a Ria, permanecem ainda esses sinais, semelhantes a fagulhas radiosas e breves, sobre os costados dos barcos.

Este trabalho incidirá somente sobre a face cultural ou etnográfica da laguna e, dentro desta, apenas sobre as embarcações tradicionais que nela navegam. Melhor: este trabalho pretende constituir uma visão mais aproximada de um dos aspectos das embarcações tradicionais: a sua imagística.

Porquê sinais flutuantes?

Em primeiro lugar, pela definição mesma do objecto de estudo: a imagística dos barcos, isto é, as imagens abstractas ou figurativas, decorativas e mágicas, emblemáticas, etc., que flutuam nas águas da Ria gravadas nos costados dessas embarcações.

Em segundo lugar porque, conforme procurarei demonstrar, essas imagens têm qualquer coisa de efémero, como uma herança da brevidade da laguna. Os signos, as legendas, os painéis pintados tornam-se então documentos dessa brevidade. Sinais dos tempos, por isso mutáveis, dinâmicos, em transformação, porventura em risco.

A palavra flutuante tem um duplo sentido: sugere, por um lado, que há algo a transformar-se, a acompanhar o ondular da mudança; por outro, indica que algo emerge à tona, algo que vem do fundo, da obscuridade.

Assim e finalmente sinais flutuantes, porque a imagística dos barcos é, para além das alterações verificáveis, um conjunto de sinais onde porventura se revelam «velhos» traços de cultura.

Nestas três interpretações do título se consubstancia o conteúdo deste trabalho: primeiro, trata-se de uma recolha, onde o registo fotográfico e gráfico assume especial importância. Em segundo lugar, trata-se de uma análise das transformações, que ora desvirtuam as próprias imagens, ora revelam os eventos sociais e históricos numa perspectiva diacrónica. Por último, trata-se de uma (re)descoberta dos sinais pintados nas embarcações enquanto integrados em sistemas simbólicos.

 

 

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