Laudelino de Miranda Melo, Velhos costumes dos povos da região de Vouga, Vol. IX, pp. 113-118.

VELHOS COSTUMES DOS

POVOS DA REGIÃO DE VOUGA

ALÉM de algumas velhas usanças já publicadas no meu livro Travassô e Alquerubim, outras aqui registo, que dizem respeito a esta região:

TIRAR O FOLAR

− Já se ouve a campainha?

− Ainda não, mas já se ouvem os foguetes.

E, assim, com campainha e foguetes, que o rapazio alegremente ia tocando à frente do Sr. Prior, percorria o pároco da freguesia toda a aldeia, entrando em todas as casas, das mais modestas às mais abastadas.

Os foguetes iam além, como guarda avançada; mais perto do padre a campainha. Com mais foguetes ou menos foguetes este tradicional costume ainda hoje se mantém.

Juncam-se, com flores e ervas cheirosas, as portas das residências, como indicação ao Sr. Prior por onde deve entrar. É um dia de festa. Toda a gente da casa está vestida à moda dos domingos. É uma alegria, porque se vai receber o Senhor.

A comitiva chegou, enfim, à porta de um paroquiano. À frente entra o homem que leva a cruz de Cristo; a seguir o Sr. Prior; depois outros membros da comitiva, o que recebe as bulas atrasadas, etc.

O homem que leva a cruz e que veste, como os outros, opa vermelha, dá o Senhor a beijar às pessoas da casa, que ajoelham.

Fora fica o rapazio, aglomerado, à espera das amêndoas; e com o rapazio um carro, transformado em gaiola, com muitas e gordas galinhas, e há rapazes com chapéus cheios de ovos. É o folar com que os paroquianos presenteiam o Sr. Prior. / 114 /

Em casas mais ricas e de pessoas categorizadas da terra, era e ainda é costume, entre algumas, pôr-se boa moeda de prata em cima de vistosa laranja, na sala de visitas, onde há mesa apropriada e onde o Sr. Prior, por especial deferência, se senta com a comitiva durante uns minutos para meter à boca uma amêndoa, um biscoito, ou refrescar a garganta com um cálice do Porto ou licor, que senhoras da casa a todos servem em bandejas de bom metal.

Estas casas, em cima de uma mesa, a um dos cantos da sala, costumam ter uma pequena almofada de seda bordada, e é sobre esta almofada que o homem da cruz coloca o Senhor enquanto o pároco distingue a família com dois dedos de cerimoniosa conversa sobre o calor que faz ou o tempo que corre mal para a nascença do vinho...

Enquanto isto, os garotos, na rua, andam aos trambolhões, uns por cima dos outros, por causa das amêndoas que lhes atiram.

Dia de Páscoa na aldeia, por esta região, é um simpático e lindo dia!

Anda no ar uma alegoria de festa, jantar melhorado com galinha ou leitão, aletria e arroz-doce, às vezes leite creme, com canela, e roupas domingueiras....


A PROCISSÃO VAI PASSAR

Lá vem, lá vem a procissão!

E os que ainda não juncaram as frentes das suas casas, a correr o fazem, que tudo já ali está em cestos de vime, à espera: São junquilhos, raminhos de alecrim, madre-silva, erva cidreira, folhas e flores de japoneira, glicínias, pétalas de rosas... Ai que bom cheirinho, ai que bom!...

E agora todos, todos depressa, para as janelas das salas, depressa, que já ali vem...

− Ò sr.ª Rosa, venha mesmo assim, olhe que já ali vem, alma do Senhor!...

− As salas, nesses dias, são lavadinhas, e tira-se o pó das cadeiras. A um lado da sala uma mesa com retratos, velhos e novos, desde os avós desbotados aos netos tirados à-la-minuta. E também estão os primos e as primas, e o tio Joaquim, que andam longe, em terras do Brasil, da África ou da América do Norte. Pelo meio, aqui e ali, umas conchinhas do mar, dois búzios arrebitados, um retrato de Gago Coutinho e de Sacadura Cabral cortado de uma revista, uma caneca das Caldas (de asa quebrada) com o busto do rei D. Manuel lI, e uma litografia do Coração de Jesus, benzida, com um grande coração em chamas. / 115 /

Numa outra mesa, em outro lado da sala, um oratório ou simplesmente, um Cristo pregado na cruz, e, aos lados, dois vasinhos de louça vidrada ou solitários com flores, pousados sobre paninhos rendados. Tudo muito enternecedor...

À frente do cortejo vem grande pendão, com guias e borlas onde seguram homens, muito compenetrados, que vestem opas vermelhas e calçam luvas brancas de algodão. Depois outros, e mais outros pendões e bandeiras com imagens pintadas, e bordadas, e letreiros: São João Baptista, Coração de Jesus, Santo António, Senhora da Soledade, Santa Rita.

Também vêm andores: A Virgem Nossa Senhora, São Francisco, São Sebastião, e o Senhor dos Passos, com pesadíssima cruz de madeira. E muitos, muitos anjinhos, com túnicas azuis, brancas, amarelo-ouro, rosa, os cabelos penteadinhos, e asas nas costas.

Toda a gente ajoelha à passagem do pálio, e homens de opas vermelhas e também de luvas brancas de algodão seguram às varas. Sob o pálio vão três padres paramentados, e o do centro leva a Custódia, que tem Iampejos de um brilho místico.

Segue-se a umbela, aos ombros de pessoa categorizada... que já deu mil escudos para o douramento do altar-mor e tem na terra casa nova de sobrado, com jardim e portão de ferro, e peixinhos vermelhos num lago minúsculo.

Depois da umbela e do cavalheiro dos peixinhos, a música, de farda nova. A seguir, aglomerado, o povo − homens, mulheres de xaile e lenço, e senhoras... muita gente!

E passou a procissão. Os anjinhos, muito lindos; a garotada a correr atrás das canas dos foguetes, que dão uma nota alegre; e na rua juncada onde os namorados, contentes, esperançosos e floridos, ficam a passear horas a fio as suas ilusões, rescende e perdura um cheirinho bom de erva cidreira e madre-silvas pisadas − cheirinho a festa, aromatizando as almas e romantizando os corações.


O HOMEM DO BOI, E AS VACAS

A MULHER DO PORCO, E AS PORCAS

O VINHO, E A ECONOMIA DO LAVRADOR

Por toda esta região, salvo raras excepções, os lavradores têm, para os trabalhos agrícolas, vacas e não bois. Uma junta, duas juntas de vacas, conforme a casa do lavrador e o muito ou pouco pasto que têm para lhes dar. / 116 /

Mas, via de regra há, em cada localidade ou na localidade próxima, um homem que tem um boi, não castrado, para cobertura das vacas desses lavradores que pagam ao homem do boi a sua avença anual em milho, mais ou menos milho conforme o número de vacas a cobrir pelo boi reprodutor.

Assim, pela longa prática, quando o lavrador percebe que uma das vacas do seu curral quer ir ao boi, porque anda montadeira, logo lá a conduz, que aquilo rende um bezerro, e um bezerro rende na feira, hoje em dia, quatrocentos ou quinhentos escudos, e há um ano passado, em princípio de 1942, quando o gado atingiu alto preço, um bezerro, a desmamar, vendia-se por oitocentos e mil escudos. As bezerras dão sempre menos dinheiro, cinquenta, cem escudos de diferença.

Depois de ter vindo do boi, o lavrador fica à espera o tempo preciso, com certos cuidados com a vaca, que anda no seu estado...

Quando, finalmente, chega a boa horinha da vaca, o lavrador, bom enfermeiro, está atento...

O bezerrinho nasceu e lá está no curral, encolhido, ao lado da mamã vaca, que o lambe enternecidamente. Mais tarde já anda pelo curral e pelo pátio, aos pulos. E, três meses crescidos, a desmamar, lá vai o coitadito à feira, preso por um cabresto ao pescoço da mãe vaca.

É vendido, em geral para ser abatido em talhos de venda de carne ao público. O lavrador mete as notas ao bolso, e a mãe vaca volta para o curral a berrar desesperadamente de angústia por aquele filho que não voltou com ela, e, a berrar, quase a não comer, assim fica o pobre animal, a curtir a sua dor, por noites e dias...

Com as porcas do nosso lavrador as coisas já se passam um pouco diferentes. Não são as porcas que vão ao porco, mas sim o porco que vem até elas, ali, à mornidão dos seus. currais.

E pela mesma razão que há um homem que tem um boi para reprodução da espécie, também nestas localidades há uma mulher que tem um porco, não castrado, para o mesmo fim, e, como ao homem do boi, também é costume muitos lavradores estarem avençados com a mulher do porco. Contudo, alguns há que pagam as visitas a dinheiro, na mesma ocasião, regulando cada visita 7$50, nestes tempos de guerra.

E assim como o lavrador costuma assistir às vacas e suas crias, a mulher do lavrador é que assiste a todos os actos que se passam com as porcas desde a visita do porco reprodutor até à venda dos leitões. Estes, que ainda há seis meses atrás (princípio de 1943) se vendiam a 250$00 e 300$00, / 117 / a desmamar, vendem-se agora entre 40$00 e 70$00, cada leitão.

Nesta mesma altura, meados de 1943, o vinho nesta região vale o almude de 20 litros, entre 25$00 e 35$00, conforme a qualidade.

Ora, os bezerros, os leitões, e o vinho, são as únicas receitas que socorrem a economia do lavrador desta região de Vouga, via de regra remediado ou pequeno lavrador.

Com aquelas minguadas receitas é que ele atende ao pagamento das contribuições prediais, às doenças da mulher e dos filhos, ao vestir e calçar, ao pagamento das avenças ao homem do boi, à mulher do porco, ao alveitar, e bulas ao Sr. Prior, com quem também anda avençado, pró môr das missas, da desobriga e da sua rica alminha que ele (apesar de certa maldade de ignorante), muito quer que vá para o Céu, para perto de Nosso Senhor e para o regaço da Virgem Maria.


PADRINHOS E AFILHADOS

É velho hábito, nestas terras, darem os padrinhos, pela Páscoa, folares aos afilhados. Estes folares compõem-se de massa de farinha de trigo preparada com gemas de ovos e manteiga, mais ou menos doce e saborosa. Depois, numa panela, cozem ovos inteiros com cascas de cebola, para que os ovos tomem uma cor avermelhada. A seguir colocam os ovos, por cima, na massa dos folares, e prendem-nos com tiras da mesma massa, depois de haverem dado aos folares a forma desejada: redondos uns, outros com bicos, etc.

Quando tudo está prontinho, folares ao forno, que, de antemão aquecido para esse fim, ali aguarda, vermelho em brasa, de bocarra aberta....

Mas o mais interessante é o costume que perdura em algumas destas terras, de nunca deixarem os padrinhos de dar o folar aos afilhados enquanto estes não casarem, mesmo que os ditos afilhados já sejam madurinhos. E só quando casam deixam de receber o folar de seus padrinhos.


OS REIS MAGOS

.Noite de 5 de Janeiro, chuvisquenta e fria. Véspera do dia de Reis. Ainda, sobre as mesas das casas aldeãs, há cestos da ceia que foi regada com vinho novo. Há gente à roda das lareiras, de lume farto, e por entre agulhas (caruma) estalam as cascas resinentas das achas dos pinheiros...

E, ao longe, lá para o princípio da povoação, mas sempre a aproximar-se, ouvem-se os acordes de alguns instrumentos. / 118 / Depois os sons aproximam-se mais e mais. Já se distinguem perfeitamente uma flauta, um violino, e as vozes dos rapazes a cantarem os Reis Magos às portarias dos moradores do lugar para que lhes dêem chouriças ou outras coisas. E cantam com estes versos, feitos por eles, música apropriada:

Oh de casa nobre gente
Escutai e ouvireis
As novas que vos trazemos
Estão chegados os santos Reis


Santos Reis, santos c'roados
Vinde ver quem vos c'roou
Foi o anjo da Glória
Que a este mundo chegou


Os três Reis do Oriente
Partiram com mil cuidados
À procura do Messias
Por uma estrela guiados


São José, Santa Maria
Partiram para Belém
A adorar o Deus Menino
Nos braços da Virgem-Mãe.


Oh Patrão que está lá dentro
Venha cá não tenha preguiça
Deite os olhos pró fumeiro
Venha-nos dar uma chouriça


Depois, colhida a oferta, retiram-se a cantar na mesma, toada:

Muito temos a agradecer
O favor que nos fizestes
De retirar do fumeiro
A oferta que nos destes

É natural que a cultura do leitor encontre falta de métrica e anomalias nestas quadras, mas são pelos rapazes assim feitas e cantadas. Copiei-as de um original, textualmente, onde não havia pontuação.

Julho de 1943.

LAUDELINO DE MIRANDA MELO

Página anterior

Índice

Página seguinte