A «véspera» da festa de S.
Brás constava, como nos anos anteriores, de arraial com fogo, entremez e
descantes populares. Nesse ano, todo o trabalho do entremez estava a
cargo do Jacinto Alfaiate, entendidíssimo em representações e tido pelos
conterrâneos como muito superior ao Gaspar da Vessada, seu émulo de
sempre.
Ao cair da tarde, ia grande azáfama no pequeno largo onde se erguia a
minúscula capela do santo. Por toda a parte, paus com bandeiras, ligados
uns aos outros por cordas cobertas de buxo, donde pendiam balões de
papel de seda, já prontos para serem acesos. À entrada do largo
levantava-se um arco, um enorme arco das suas oito a dez braças de
altura, enfeitado a papel de várias cores
−
verdadeiro arco de triunfo, por sob o qual desfilaria no dia seguinte a
procissão. A um dos lados da capela, tinha sido armado o coreto para a
música e do outro lado via-se, já pronto, o palco para o entremez, com a
sua cortina de chita vermelha, que subia e descia na perfeição.
Jacinto andava arreliado. Dava ordens, zangava-se, barafustava, de lenço
tabaqueiro em punho, sempre pronto para enxugar o suor, que por vezes
lhe corria em abundância. Quando soube que o sr. Comendador Esteves
tinha a filha doente, o homem sentiu que toda a sua glória de actor e
ensaiador e dirigente era ofuscada, pois já não poderia ser apreciado
pelas pessoas gradas do sítio, que todos os anos costumavam assistir das
janelas do Esteves àquelas representações. Aquilo, quanto a ele, não
eram senão manigâncias do rival, do parvo do Gaspar da Vessada, primo da
Zefa do ti' Bártolo, muito dada a bruxarias! E o pobre homem quase se
arrependia de ter tomado naquele ano o encargo
−
o tremendo encargo!
−
de montar o entremez, de mais a mais tão complicado como era o «Alardo
na Aldeia», cujo original ele fora de propósito comprar ao Porto, a
uma livraria da Praça de D. Pedro IV! E o trabalho que tudo aquilo
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lhe dera? E as arrelias? O melhor actor, rapaz de pilhéria, que seria um
artista se não fosse um simples moço de lavoira, logo fora adoecer
naquela ocasião! Ele destinara-lhe o principal papel
−
o de Parvo
−;
mas afinal tinha-se visto obrigado a confiá-lo a um alma do diabo dum
estúpido, incapaz de o decorar em condições!
Aqui e ali, indiferentes aos cuidados do Alfaiate, viam-se grupos de
campónios, embasbacados para as ornamentações, de enxada ao ombro,
embrulhados em grossos casacos, e de carapuças enterradas quase até o
pescoço. O que sobretudo lhes prendia a atenção era o arco, por ser
maior e mais garrido do que o dos anos anteriores. Às vezes cochichavam;
mas, em geral, limitavam-se a considerá-lo em silêncio, nesse
eloquentíssimo aplauso de imprimir à cabeça repetidos movimentos
afirmativos.
Passavam mulheres com carregos de erva, outras tangendo vagarosamente os
seus rebanhos de duas ou três ovelhas... Rapazes pinchavam no recinto,
uns atrás dos outros, agatanhando-se; outros, mais crescidos, já estavam
empoleirados junto da sineta da capela, para tocarem o «repique», logo
que na igreja, lá ao longe, soassem trindades. Sobre uma parede próxima,
de pé, estava um mordomo, e numa eira, não muito distante, o encarregado
dos morteiros preparava a mecha para lançar o fogo ao longo rastilho de
pólvora, destinado a provocar três séries de infernais explosões de
caliça e pedras.
Jacinto continuava alheio a tudo quanto se não prendesse directamente
com o entremez: preocupava-o agora o atraso em que via os preparativos
para a nova e porventura decisiva prova dos seus talentos. Dos
figurantes, três ainda não tinham aparecido com os objectos que se
haviam encarregado de preparar e que se tornavam indispensáveis.
−
Raio do diabo!
−
exclamou ele para um ajudante, tirando o chapéu e batendo com ele na
coxa da perna direita
−
Estes almas de cântaro querem-me meter a alma no inferno! O meu regalo
era ir-me embora, e eles que se arranjassem! Raios os partam nunca!
Mas neste conflito surgiu dum dos caminhos o Tareso,
sobraçando um espadagão e trazendo um embrulho de papel, e atrás dele,
muito pachorrenta e enjoada, a Belmira da Laje com um açafate coberto
por uma toalha, donde emergiam umas cinco cabeças de galináceos.
−
Ora cá 'stemos, ti'Jacinto!
−
disse o Tareso.
−
E já não é sem tempo, com todos os diabos!
−respondeu
o «director». E, voltando-se para a actriz:
−
E você também, Belmira, podia muito bem ter vindo há mais tempo! Vamos,
vamos, que não há pano p'ra mangas nem tempo para coçar a pulguinha!
−
concluiu ele, enfiando pela estreita
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abertura dos baixos do palco, destinada a dar passagem ao pessoal de
cena.
A mulher, em vez de o seguir, tirou da cabeça o açafate e disse:
−
Ó ti'Jacinto, olhe que eu não entro no entremez!
O pobre empresário ficou como fulminado com estas palavras. Deteve-se,
abrindo muito os olhos, e nessa postura trágico-cómica ouviu o resto:
−
Estive a ver se encarreirava a minha «parte» e não sou capaz! Não entro
e não entro! Aqui tem as galinhas. Arranje-se como puder! Jacinto
engolia em seco e estorcegava as mãos, muito nervoso. Quando Belmira
terminou, explodiu ele desta forma:
−
Ó seu grande diabo! Pois você deixa aproximar-se a hora, a bem dizer, do
espectáculo, para me vir com uma dessas?! Não entra, o quê!? Não entra?!
Tem de entrar, ou vai tudo com um conto de raios! São coisas que se
façam? Se não pode entrar, quem é que há de entrar, seu grande diabo?
Quando a questão ia a produzir escândalo, foi o fim do mundo:
estralejaram foguetes, a sineta da capela entrou a repicar furiosamente
e estrondearam os morteiros, vomitando a sua carga de pólvora e caliça,
−
tudo num conjunto infernal, ainda agravado pelos gritos esganiçados do
rapazio e pelo ladrar dos cães, nos pátios. Jacinto, gesticulando e
berrando, desapareceu por debaixo do palco, seguido por Tareso e por
Belmira, com grande arrelia dos circunstantes, que assim ficavam
privados de conhecer o resultado daquela altercação.
Passadas duas horas, o pequeno largo estava quase literalmente cheio de
pessoas. Dos lados do palco havia dois lampiões de petróleo, já acesos.
Nas proximidades dele, todos os balões da iluminação estavam prontos.
Havia grande ansiedade por que o espectáculo começasse. Uma voz soltou
um frase de impaciência, coroada por uma gargalhada da turba,
irreverente e selvagem:
−
Vá, rapazes! «Farriapo» arriba! «Farriapo» arriba! Suba o «farriapo»!
Eh, gentes!
Jacinto, para evitar que o seu público mais se impacientasse, deitou a
cabeça de fora do «pano de boca» e disse, jovial:
−
Vai já, meus anjinhos! É p'ra já! Vai num rufo!
E, dirigindo-se a um dos mais amigos:
−
Eh, ti' Miguel! Olhe que isto está obra prima, hein!
−
Estou a ver, homem!
−
respondeu o outro
−
Você é homem de mil diabos! Sim, senhor!
Mas a multidão exasperava-se. Choviam de todos os lados comentários:
−
Eh, rapaziada! Vamos, que a gente daqui a pouco queremos ir p'ra o
quente. Eh, rapazes!
/ 32 /
−
Suba o «farriapo»! «Farriapo» arriba!
Jacinto, então, por detrás da cortina, exclama, em voz de Júpiter
Tonante:
−
Vai principiar o espectáculo!
Tudo se calou. Ouviu-se o apito, e o pano subiu.
A cena queria representar uma sala. As portas da direita, únicas que se
viam, eram outras tantas colchas de chita, dependuradas. No meio do
palco, uma cadeira e uma mesa, e sobre uma mesinha, a um lado, um
crucifixo.
Em cena estava Jacinto, empertigado, com um antigo boné de militar na
cabeça. Quase à frente, à direita, em pé, meio encoberto por uma das
colchas, via-se um rapaz, amarelo de cidra, com a peça na mão, a servir
de «ponto».
A populaça não se continha. Os mais baixos procuravam aproximar-se,
furavam pelo meio das pessoas, estendiam as cabeças e punham-se em bicos
de pés.
−
Eh, eh, eh! Ó Jacinto! Eh, eh, eh!
−
Schiu, schiu, schiu! Calem-se p'ra aí, com um raio de diabos!
E, feito silêncio, o director da «companhia», empertigado no seu fato de
capitão-mor, exageradamente ferrabrás, iniciou a representação do Alardo
na Aldeia:
−
«Ora o vilão do sargento já me vai tardando! De muita paciência
necessita um homem p'ra aturar estes rústicos! Devo mandar parte a todos
os oficiais, cabos e mais patrulhas, a fim de que esta tarde, como dia
competente, se achem no campo p'ra o exercício que manda o meu
regulamento. Dizem que honra e proveito não cabem num saco; e, na
verdade, só a bengala dum capitão-mor sabe desmentir o adágio e obrar
aquilo que todos têm por prodígio. Nesta bengala descubro as
propriedades da varinha de condão: se o calor do estio mirra os campos e
as searas, esta milagrosa vara vai derramar copiosa chuva nos frutos e
traz-me p'ra casa aquilo que mais necessita quem os manda. No tempo da
matança, traz-nos os belos lombos, os bem recheados paios, linguiças,
salpicões, as compridas orelheiras, as carnudas costelas, o bem feito
sarrabulho, capões, perus, galinhas, belas cestas de frangos com seus
ovos, etc., etc. E no fim das vindimas, vem a deliciosa pinga, que tanto
consola as goelas dum cristão. Enfim, de corações de pulgas faz corações
de Alexandres! Mas batem à porta... Quem está aí?»
Então, vestido de sargento, a cara cheia de vermelhão e a rir-se
alarvemente, surge de detrás duma colcha um brutamontes dum labrego, que
fica em posição de «sentido» e diz:
−
«Um criado do senhor capitão!»
Jacinto, imperturbável e sem perder a austeridade da figura que
encarnava, prossegue, muito senhor de si:
−
«Entre! Ora benvindo seja, su sargento!»
E o sargento, sem pestanejar:
/
33 /
[Vol.
I
− N.º 1 − 1935]
−
«Aqui estou às ordens!»
−
«Vá já já dar parte a todos os oficiais e mais patrulhas da nossa
companhia»
−
continua o capitão-mor
−,
«a fim de que se achem esta tarde no Campo do Outeiral, p'ra nele se
fazer exercício. Percebe?»
−
O sargento lança de novo, à laia de estribilho,
−
«Aqui estou às ordens!»
−,
que é sublinhado por uma gargalhada da assistência; mas continua:
−
«Mas diga-me, meu capitão! Também lhe hei de dizer que vossenhoria tem
ordem p'ra fazer soldados?»
−
«Nada! É bem asno! Isso não lhe compete! Vá pela aldeia de baixo,
direito a casa do Tentilhão; de lá vá sem demora a casa do Labercas;
depois a casa do João do Tôpo, do Marmelo, do Tadeu, do Calvário e do
João Soldado. Volte logo pela aldeia de riba e vá num ápice a casa do
Magrelas, do Gato, do Boneco, do Cortiço, do Barrouco, do Grelhas, do
Tareco e do sobrinho do padre Quintão. Percebe?»
−
«Aqui estou às ordens!»
A esta frase, já esperada pelo público, um dos mais insofridos quebrou o
«protocolo», exclamando:
−
Ele não sabe dizer outra coisa!
Novas gargalhadas. Mas o capitão-mor não era homem que se atrapalhasse,
e acudiu à «deixa», entregando um papel ao sargento:
−
«Aqui tem o rol dos alistados. E caminhe sem demora e não tome por lá a
gateira, como é sua habituação. Percebe?»
−
«Aqui estou às ordens!»
−
responde o sargento. Depois, dá meia volta, e é sob as vaias da populaça
que ele desaparece por detrás da colcha.
−
Eh, Jaquim!
−
diz um lavrador
−
Vai beber um cortilho. Eh, eh!
−
Tendes que andar, rapaz! Eh, eh!
Mas a assistência está interessada:
−
Schiu, schiu!
Jacinto, radiante, toma de novo a palavra, entoando este monólogo:
−
«Se se conhecesse bem que cousa é ser capitão de ordenanças, qualquer
homem opulento o desejava ser. Puxa um homem pela sua jurisdição e, inda
que estes vilãos não possuam cousa alguma, dão muito. A intimação do
sargento há-de-lhes causar susto, e com ela a minha dispensa se encherá
de tudo o que é preciso!»
−
Ah, bom maroto!
−
disse uma voz.
−
Que bom marmeleiro!
−
responde outro.
Então, domingueiramente vestido, com roupas antigas, entra Tareso, tipo
de parvo. Pára e diz, estendendo a mão para Jacinto:
−
«Paisinho, a sua bênção!»
/
34 /
Um popular, não podendo conter a sua veia cáustica, exclama, debaixo
duma chuva de gargalhadas:
−
Eh, ti 'Jacinto! O Tareso, assim, parece mesmo, salvo seja, o valete de
paus! Eh, Tareso, onde foste tu arranjar essas véstias, homem?
A paciência do director do grupo não dava para mais: Jacinto saiu do
personagem que estava encarnando e disse em voz natural, avançando para
o «proscénio»:
−
Mau, mau! Então vocês não quereis ouvir o resto?!
−
Schiu, schiu!
−
ouviu-se de vários pontos.
E a representação ia continuar.
Mas, nesta altura, eis que chega o Regedor, acompanhado por dois cabos
de ordens, ambos de espingarda a tiracolo. O povoléu foi-se
desinteressando do que se passava no palco. De vários pontos
perguntava-se:
−
Que é? Que foi?
−
Jesus, Senhor!
−
exclamavam mulheres, todas assustadas.
− Dêem
licença, dêem licença!
−
dizia a autoridade, abrindo passagem pelo meio da multidão.
E, muito senhor do papel que ia desempenhar no novo espectáculo, seguia,
seguia sempre por entre o povo, sem dar quaisquer satisfações.
Chegados que foram em frente da morada do Comendador Esteves, os dois
cabos pararam e logo se puseram a afastar das imediações da porta de
entrada as pessoas que ali estavam, ao mesmo tempo que o «Senhor
Regedor» avançava e ia aplicar três fortes pancadas na porta.
A representação tinha sido totalmente interrompida. Jacinto, com a sua
fatiota de capitão-mor, olhava aparvalhado aqueles misteriosos
preparativos. O Tareso tinha-se encarrapitado no barrote que segurava a
parte superior do palco, para melhor poder observar. Todos os actores e
actrizes haviam afluído ao palco, tais quais se encontravam, alguns
quase em trajes menores, e estendiam as cabeças, uns por detrás dos
outros, numa invencível curiosidade. O povo, esse, todo ele se voltara
para a vivenda do capitalista, como se o entremez tivesse daquele lado o
seu complemento.
Uns momentos de silêncio. O Regedor tornou a bater. Uma criada, então,
entreabriu a porta, com cara de caso, respondeu em voz baixa ao digno
Regedor e retirou-se, encostando discretamente a porta. Daí a instantes,
esta abriu-se, e o «Senhor Regedor» entrou, depois de cochichar com um
dos cabos.
O povo estava impaciente: atropelando-se, rodeou os pobres dos cabos,
numa ânsia desesperada. Todos perguntavam, todos queriam saber. Não foi
preciso muito: logo correu que as autoridades, à ordem do Sr.
Administrador, andavam à procura do criado do Comendador, que era
refractário.
Pouco se demorou o Regedor na sua espinhosa diligência.
/ 35 /
Chegando junto dos cabos, trocou com eles algumas palavras em voz baixa
e com eles ia a retirar-se, sob os olhares cheios de curiosidade do
povo, quando alguém disse:
−
O criado do Sr. Comendador é pegar-lhe agora com um trapo quente! Onde
vai Pedro!...
−
Então que é que você sabe?
−
inquiriu a autoridade.
Há que tempos que ele não se vê cá no lugar! Há que tempos!...
O Regedor retirou-se então com a sua gente. A representação do entremez,
porém, não podia concluir-se. Dali para diante ninguém prestaria
atenção: o que agora interessava àquela massa de gente era a inesperada
diligência do Regedor. No entanto, ouviu-se, dentre o público, uma voz
clamar:
−
Atenção, ó gentes! Nós sempre queríamos ver o resto!
Ó ti Jacinto, vamos lá ver o fundo à panela!
Nova girândola de foguetes subiu ao ar. Conversava-se animadamente.
Afinavam-se violas. Um cantador arriscou a primeira cantiga.
Então Jacinto, que regressava de «bastidores», avançou e informou em tom
oratório:
−
Meus senhores! O entremez não pode continuar! Desapareceram alguns dos
figurantes! Ninguém sabe deles! Raios me partam, se eu me tornar a meter
noutra!
Estalaram gargalhadas. Uma voz disse, em tom sarcástico:
−
Estão verdes, ti'Jacinto! Estão verdes!
Era o Gaspar da Vessada, que via o seu rival completamente aniquilado e
o queria esmagar pelo ridículo.
−
Ora não seja asno!
−
respondeu Jacinto de má catadura.
−
Quem é asno? Quem é asno?
−
disse em desafio o outro, crescendo para o palco.
−
É você! Pois quem diabo há de ser?
−
retorquiu o capitão-mor da peça
−
Se quer alguma coisa, é p'ra já!
Os ânimos exaltaram-se nos dois campos inimigos. Levantaram-se, acto
contínuo, ameaçadores, grossos paus de marmeleiro; e, se não fora a
imediata intervenção de algumas pessoas cordatas, ninguém poderia evitar
a deflagração da tradicional pancadaria.
Logo que a tempestade serenou, os cantadores e cantadeiras, formando
dois grupos nos extremos do arraial, entraram em acção, acompanhados
pelas respectivas «orquestras» de violas, harmónios, ferrinhos e bombo.
De vez em quando, os foguetes de «três respostas» riscavam o céu e
estrepitavam, com grande gáudio dos garotos, que corriam atrás das
canas, atropelando-se uns aos outros, e com não pequena exasperação dos
que à volta dos cantadores se estavam deliciando com aqueles duelos de
quadras, algumas das quais bastante apimentadas.
E por detrás da cortina de chita do palco, sem um amigo que o
consolasse, triste e acabrunhado, o Jacinto Alfaiate despia
/ 36 /
o seu fato de capitão-mor, sentindo desabar estrondosamente a sua fama
de actor e ensaiador, em benefício do Gaspar da Vessada, que àquela hora
estava gozando a sua derrota, provocada pelo casual, mas estúpido
aparecimento do Regedor e dos seus dois cabos. De nada contribuía para o
sossego do seu espírito o considerar as atenuantes do desastre. Para
ele, aquele desfecho do «Alardo na Aldeia» era a sua exautoração de
artista−completa,
irremediável, definitiva!
JOSÉ PEREIRA TAVARES
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