ARIS, 13-6-06. – Três horas da tarde. Na praça Malesherbes, emergindo como um oásis discreto de verdura e sombra entre as duas longas avenidas dardejadas pelo sol faiscante, aglomera-se numa impaciência mal contida por polícias de luva branca o Tout-Paris-badaud, que não falta a um enterro de sensação ou a uma inauguração de estátua – os dois espectáculos favoritos deste povo para o qual um dos maiores atractivos é contemplar as suas celebridades, todas essas criaturas de excepção que, pelo talento autêntico ou pela voga efémera, conservam ainda, nesta época democrática, o prestígio romanesco e o privilégio raro de uma aristocracia à parte.

Dos automóveis trepidantes e dos landaus de luxo, cujas portinholas batem com estrépito insolente, apeiam-se, mostrando as meias de seda entre o turbilhão de espuma dos dessous de rendas, damas do mundo e semi-mundo, em toilettes claras, maquilhadas e floridas como para uma matinée.

Na grande tribuna descoberta, verde e oiro, que as folhas em cocar das palmeiras e maciços azuis e roxos de hortênsias decoram, o sol aviva as manchas coloridas das umbrelas abertas e dos imensos chapéus da última moda, equilibrados como açafates de rosas e de plumas, sobre os altos chignons em cascata, que dão às elegantes deste verão o ar das marquezinhas fúteis e preciosas das telas de Watteau e de Lancret. Ao seu lado, sentados nos bancos estofados de carmesim, destoam num contraste de mau gosto as manchas pretas das sobrecasacas mal talhadas, – porque em França, na maioria, os homens célebres vestem deploravelmente. Ao fundo das escadas atapetadas, junto da mesa coberta com um pano de veludo já coçado pelo uso de tantas exibições idênticas, quatro guardas municipais, com os seus capacetes de oiro empenachados de vermelho e a excentricidade vistosa do seu uniforme de opereta, perfilam-se na pompa hirta das suas poses marciais.

Em torno do monumento velado ainda por um pano branco, como uma surpresa, o enxame inumerável dos fotógrafos, de máquinas assestadas, espera.

No círculo dos curiosos que se apinham à volta da praça, há impaciências, empurrões, protestos. As damas coqueteiam, com risinhos impertinentes, e como num intervalo do Vaudeville, flirtam para matar o tempo, neste cenário de comédia intelectual e mundana. Repórteres apontam os nomes de todo esse público de assinatura que veio menos para honrar a memória do ironista implacável do Demi-Monde do que para ser visto. Com um grande manto sobre os ombros de estátua, Mademoiselle Bartet faz uma entrada teatral, entre um sussurro de curiosidade.

De repente, um novo murmúrio, um movimento na multidão:

Les voilà, les lmmortels! Les voilà!...

Rebate falso… São apenas quatro ou cinco empregados de banco que a turba confundiu / 302 / com os académicos, pela analogia dos seus chapéus de bicos.

Na verdade, o espectáculo vai-se demorando.

Esses senhores do Instituto de França fazem-se esperar com mais insolência do que os seus colegas da Comédie Française! O sol arde. Sobre as faces transpirantes tremula a palpitação viva dos leques. Da avenida, onde as campainhas estrídulas dos tramways retinem, vem a espaços o eco dos pregões vibrando no ar parado, em que nem a mais leve aragem arrepia a folhagem empoeirada dos castanheiros densos e dos altos plátanos. No passeio, uma velha de touca bretã apregoa limonadas...

Mas ei-los, enfim! Empertigados nas casacas bordadas de verde ácido, como papagaios, os espadins inofensivos batendo-lhes as pernas claudicantes, os Imortais desfilam em bicha, tomam os seus lugares nos fauteils da primeira fila. Na crueza irónica da luz que lhes revela as rugas da pele pergaminhada de velhice, dir-se-ia uma exposição imprevista e cómica das figuras de cera do Museu Grévin! Hirtos, em pose diante das máquinas dos fotógrafos, mas com o ar de nem sequer as verem, como todos esses geniais fantoches têm o ar duro de bonzos, o desdenhoso olimpismo de manipansos das Letras, apesar desse sorriso permanente e imóvel, como o das bailarinas, com que correspondem aos cumprimentos das «preciosas ridículas», que diante deles se curvam em salamaleques servis.

Palmas... Do outro lado da praça, um velhote de fraque rapado e de côco triste puxa o cordel que prende o invólucro do monumento. E, na crua e nítida alvura do mármore esculpido pelo cinzel de René de Saint-Marceaux, destaca enfim, na rutilância de oiro do sol que a nimba, a figura poderosa do Mestre ainda hoje sem par no teatro moderno.

Envolto na ampla blusa de trabalho, sentado num banco de pedra, Dumas filho ergue a cabeça severa numa atitude a um tempo de força tranquila e de contemplação comovida, como se escutasse as vozes dolorosas e inspiradoras das quatro mulheres que gravitam, num grupo simbólico de todas as emoções femininas, em torno do pedestal da estátua. Uma delas, encarnando a maternidade e o abandono, levanta, para o defensor das humilhadas, o filhinho nu. Outra, mensageira florida da primavera, tem nas mãos erguidas um ramo de rosas e na boca desabrochante, como elas, o sorriso luminoso da adolescência. Na atitude melancólica e romântica da renúncia, Maria Duplessis desfolha as suas camélias nos dedos exangues de tísica amorosa. Esvoaçante na clâmide que o gesto de perdão dos braços estendidos abre num movimento de asas angélicas, a última figura parece unir o abandono, a esperança e o sacrifício das suas três irmãs de mármore no mesmo culto de gratidão adorante por aquele que soube amá-las, evocá-las e eternizá-las no teatro e no Romance.

Aos pés do Mestre jaz a máscara de Thalia, da Musa inspiradora das verdades novas a que o seu génio deu voz. E na mão que gravou em páginas imperecíveis os seus pensamentos de moralista, tem o estilete acerado que, mais que uma pena, foi um bisturi de anatomista do coração humano, até às suas fibras mais íntimas. Entre ramos de louro, os títulos da longa obra que imortaliza a sua glória estão gravados na outra face da coluna. E no último dos três degraus em que ela se apoia, esta simples inscrição:

ALEXANDRE DUMAS

SOUVENIR D'UN AMI

E os discursos começam, esses infindáveis discursos que tanto tédio inspiravam ao ironista das Ideias de Madame Aubray, que ao morrer os proibiu sobre o túmulo e pediu que as cerimónias do seu enterro se realizassem num silêncio humilde. Ele mesmo não pronunciou senão dois durante toda a sua vida: o primeiro, à beira da cova da actriz Aimée Desclée, a intérprete admirável das suas criações, que sentiu por Dumas uma paixão romanesca a que ele só correspondeu com uma amizade casta; e o segundo, obrigatório, no acto da sua recepção académica.

Entretanto, na assistência expectante, chius!... tosses abafadas delicadamente nos lenços… todos os surdos rumores do público que se prepara para saborear, com regalo, nobres imagens e adjectivos solenes.

– Mr. Henry Roujon! – Anuncia o mestre-de-cerimónias.

E um cavalheiro de bigode encalamistrado à Napoleão III numa fisionomia burocrática de chefe de repartição atencioso, com seu atestado de bom comportamento no trapo vermelho da Legião de honra que lhe condecora a casaca mal feita, pousa com devoção o chapéu alto sobre o tapete velho da mesa, tira do bolso um rôlo branco e, voltado para sua / 303 / Excelência o sub-secretário de Estado das Belas Artes, que o encara num sorriso protector, começa a ler, com o ar modesto e fácil de quem o não fez, o discurso de Victorien Sardou, a quem a operação dum antraz impossibilitou de o pronunciar, em pessoa.

Num paralelo retórico e cenográfico, segundo os preceitos clássicos do bom Quintiliano, o tremendo melodramaturgo da Tosca, confronta as obras dos dois Dumas, na literatura francesa.

– Dumas pai recusa-se a ver do presente tudo quanto possa entristecê-lo. Não se importa com o futuro. Do passado nada mais conhece além dos seus aspectos legendários, pitorescos e amenos... Dumas filho ignora e desdenha o passado. A sua preocupação constante é o futuro, o que o interessa apenas no presente são as suas tristezas e os seus problemas perturbantes... Um dissuade-nos de pensar. O outro incita-nos e obriga-nos a pensar. O pai é todo invenção e imaginação. / 304 / O filho é todo observação e reflexão. As únicas coisas que considera realmente dignas de interesse são os factos ao seu alcance... Lentamente, com pausas reverentes, numa voz monótona e diligente, o ilustre maçador continua sempre, voltado para Sua Excelência – enquanto ao longo da avenida os tramways deslizam nos rails estridentes.

Na luz fulva do sol que tons terrosos de caveira têm alguns desses Imortais veneráveis; Um, velhíssimo, todo calvo, pequenino, catracego, tem o ar demasiado atento de quem não ouve uma palavra. Recostado no alto espaldar vermelho, lembra uma múmia num sarcófago, venerável relíquia!... De sobrecasaca condecorada (está claro!), seu colete de cetim sarapintado de pintinhas roxas. François Copée agita nos dedos enluvados de amarelo a bengala rica, de castão de prata – e na sua máscara rapada de sacrista janota, os lábios franzidos exprimem o mais evidente e católico desdém por aquele factotum do seu colega Sardou.

Quel raseur! – dizem claramente os olhos esverdeados e felinos de Paul Hervieu, ao seu lado, constrangido na sua casaca nova de membro do Instituto. E que eloquente cena muda na atitude de sacrificadas das preciosas que fingem escutar, como num templo, ao mesmo tempo que espreitam com o canto do olho os fotógrafos que dispõem as máquinas para apanhar o aspecto das tribunas...

– Da fórmula de Dumas – vai dizendo o outro – devemos reter somente o que é justo e louvável, e o que ele resolutamente pôs em prática: a demonstração, na cena de certas verdades desconhecidas, contrárias às opiniões aceites, e que é preciso fazer acolher por um público mais ou menos recalcitrante...

(Positivamente, Jules Claretie está sofrendo uma crise epática, com aquela côr biliosa que lhe esverdeia aflitivamente a cabeça descarnada de santo de igreja de aldeia, pobre mártir! Como ele inveja, neste instante, o antraz providencial de Sardou, que o livra da estopada, com um calor assim!...)

– Os Dumas amaram sempre a luta (prossegue o manga de alpaca, num tom imperturbável de quem lê um ofício.) O avô, o general, lançava-se na refrega e espadagava austríacos como um simples soldado. O filho passou a vida a debater-se, alegremente, de resto, contra as dificuldades com que se comprazia em obstruí-la. E o mesmo espírito batalhador vamos encontrar no gosto do filho pela controvérsia e pela polémica, no seu desdém pelas ideias correntes e no seu parti pris de advogar no palco as causas antecipadamente mais desacreditadas, tomando como clientes habituais a virgem seduzida, a mãe solteira, a mulher galante e a mal-casada... A virgem seduzida, culpada duma fraqueza de que a acusam com crueldade, ao passo que todos consideram com indulgência aquele que a provocou! – A mãe solteira, a quem o sedutor deixa todo o encargo da sua triste maternidade, sem que a lei o obrigue a associar-se-lhe e testemunhe o menor interesse pelo filho, nascido de uma falta de que ele é irresponsável! – A mulher galante, a pecadora arrependida, que ele quer reabilitar pelo verdadeiro amor e pela dedicação maternal! – E finalmente (uff!) a esposa abandonada, traída, e que em seguida esquece os seus deveres, para quem ele reclama a mercê das circunstâncias atenuantes e do perdão evangélico! São estes arrojados pleitos que fizeram dizer com uma intenção de ironia muito injusta, segundo o meu modo de ver... (e igualmente de Mr. Lepine, o prefeito da polícia, que abana a cabeça, aprovativo!)... que cada peça de Dumas é uma tese...

(Na poltrona de honra, ao sol, Sua Excelência o sub-secretário das Belas Artes sua como um herói... O suor corre-lhe em bica pelas bochechas, pelos refegos do cachaço taurino, sem que ele tenha a fraqueza de um gesto para o enxugar. E na cadeira ao lado, o velho jarreta, com a calva de múmia descaída sobre o ombro, ressona, o bem-aventurado!)

– O que a sua linguagem um pouco brusca, a sua amizade um pouco rude, a sua beneficência um pouco ríspida encobriam de verdadeira bondade, só o podem dizer aqueles que viveram na sua intimidade e a quem ele honrou como a mim com a sua amizade...

Sacredieu! É odioso de declamação, de sonoridade esganiçada! Silva Henri Lavedin, entre os dentes contraídos, com o ar furioso de quem tem uma bota de verniz a aperrear-lhe um calo.

– Tordant! – acrescenta o visconde de Vognë, com ódio.

Mas, de repente, há uma esperança. A voz gorgoleja, enfraquece, hesita com gosma... O homem começa a cuspinhar. Fecha a boca. Sempre é o fim?...

Palmas estalam. O público tem a impressão / 305 / momentânea de sair duma secretaria onde cheira a bafio e a rato. Mas, oh deuses imortais! É uma falsa esperança. Manga-de-alpaca parara apenas para tomar fôlego. E ei-lo que de novo, como a água duma goteira sobre um passeio, a voz continua, obsidiante, trágica, imutável, eterna...)

– Quando a estátua do avô, do soldado patriota se erigir sobre esta praça, entre as do filho e do neto, saudaremos neles a conjunção dos dotes mais preciosos da inteligência e do coração: a bravura e a caridade, o ódio de toda a opressão, de toda a injustiça; o bom humor, o bom senso e o espírito ao serviço de todas as boas causas! E nenhum povo poderá oferecer à admiração do mundo / 306 / inteiro uma praça comparável à dos Três Dumas.

Bravo torero! – exclama Victor Marguerite, num sorriso de gavroche.

Alguns não querem crer ainda, mas desta vez sempre é certo. O suplício terminou. E as palmas, a ovação de todos esses joviais tartufos, há momentos tão mordazes, e que agora dizem alto: «Esplêndido! Magnífico!» – numa dessas reacções de entusiasmo que devem sentir aqueles que caíram ao poço, ao entrever de novo a luz.

Se fosse só aquele! Mas faltam ainda oito, mais oito, Pai celeste!

Por trás da mesa vermelha, já outro Demóstenes surge, entre os guardas perfilados, de espada desembainhada. Em nome do Conselho Municipal, o Sr. Tintet, na ausência de M. Chautard (outro feliz!), agradece em nome da cidade de Paris a «preciosa oferta do monumento», numa voz que guincha, estridula, entre o rolar dos trens e das carruagens. O que ele sabe, o que ele diz, o sujeito de lunetas, com a faixa tricolor sobre o ventre conspícuo! Porque nestas solenidades, estes senhores da Burocracia são sempre os mais espicaçados pela abelha de oiro da Retórica, como se quisessem, na sua facúndia, provar aos homens das letras: – «Não são só vocês que têm direito de maçar os outros ouvintes!

– Quando a estátua do general Alexandre Dumas se erigir em face das do filho e do neto (já o terrível orador precedente o disse pouco mais ou menos, mas que importa!) esta praça será sem dúvida a mais original do mundo inteiro e também a mais evocadora. Ela dirá ao transeunte que uma mesma família, durante três gerações sucessivas e por formas diversas, aumentou a irradiação gloriosa da pátria francesa!

Rataplan! plan!...

E logo outro, M. de Salves, prefeito do Sena, tristíssimo, ictérico, o aspecto dum peru nostálgico, lê uma estirada perlenga, enfática e aforística, a que o repórter que a vai notando com ódio chamará inevitavelmente admirável no seu jornal:

– Alexandre Dumas filho projectou a mais viva luz sobre vícios profundos da nossa sociedade. Fez obra útil e grande. O seu objectivo foi sempre nobre e elevado. É um grande antepassado, um verdadeiro gentilhomem de letras. E nós saudamos respeitosamente a sua imagem!...

As noites que aquilo lhe levou a redigir, e as vezes que o digno homem deve ter relido aquele período à pobre da senhora! Mete por fim as tiras no bolso da casaca, religiosamente, e cai nos braços abertos dos admiradores.

E num burburinho simpático das velhas damas que se arrebitam para o ouvir, Bourget, gorducho, mole, poseur, na sua casaca de papagaio do Instituto, chapinhada de medalhas, as pontas do bigode caídas à inglesa sobre o beiço sensual, de monóculo nas pálpebras papudas, sem nada, contudo, do dandy que nos afizemos a conceber através da leitura dos seus romances arquimundanos, começa sem gestos, numa voz branca e ácida de snobe, cheia de tédio impertinente:

– Na Academia Francesa, «nesta calma atmosfera de estudo», Dumas não contava senão admiradores e amigos. Assim, a inauguração da sua estátua é para a nossa Companhia alguma coisa mais do que uma festa oficial, como o dia 30 de Novembro foi alguma coisa mais do que um luto de aparato. Todos aqueles que conviveram intimamente com Dumas hão-de compreendê-lo...

(Há sobretudo uma velha condessa, espartilhada num vestido princesse côr de pombo, tasquinhando bombons com um sorriso de macaca extasiada, e cujo cocar de plumas se agita a cada movimento admirativo da cabeça maquilhada, que está positivamente apaixonada pelo romancista favorito das Mensonges! Diante dele, na primeira, Mr. Lepine, com um dedo huguesco na testa de feto, escuta-o compenetrado, como ao representante oficial das Boas Letras. E nada mais definitivo do que essa homenagem da Ordem pelo defensor da tradição e do Nacionalismo!)

– Há, meus senhores, (continua Bourget) uma frase de poesia singular, daquela poesia que os antigos sabiam encontrar, simples e tão humana, penetrada de ingénua familiaridade e tão impregnada de profunda significação. Atenea, que acaba de absolver Orestes, acusado perante o seu tribunal pelas fúrias vingadoras do parricídio, justifica a sua indulgência: «Eu amo os homens, diz ela, como o jardineiro ama as suas plantas.» Um sentimento muito análogo parecia despertar-se em Dumas quando descobria num recém-chegado uma promessa viva, a germinação sagrada do talento e das obras futuras. Aos seus antecessores não pudera oferecer senão a sua admiração, / 307 / aos seus émulos senão a sua estima: aos seus cadetes tinha o direito de dar alguma coisa mais: um socorro, um apoio, uma direcção, e com que delícia ele desempenhava este privilégio de ilustre antecessor. Submetia-lhe algum debutante uma peça nova? Fazia mais do que lê-la, mais do que conversar acerca dela com o seu autor. Se lhe parecia que a obra valia a pena disso, corrigia-lhe o cenário, retocava-lhe o diálogo, redigia-lhe de novo páginas, cenas, actos...

(A velha relíquia dorme sempre, com a careca de múmia descaída sobre a gola verde da casaca. Na rua, os tramways continuam deslizando, cheios de gente alegre; os automóveis e as vitórias batem já para o Bois. Que bela sombra deve fazer à fresca, sob as folhagens da Avenida das Acácias e à volta do Lago!)

Mas Bourget prossegue, de monóculo:

– A assembleia que hoje se congrega em torno deste monumento atesta a comunidade de todos quantos se assinalam em França em prestar a sua homenagem a este honesto grande homem de letras tanto pelo seu carácter como pelo seu génio. Nesta hora de apoteose, e no momento em que acaba de desvelar-se esta imagem de pedra devida ao cinzel dum artista ilustre, queríamos poder também desvelar nós todos, os seus amigos, para a contemplar e para a mostrar, a imagem moral que de Dumas trazemos no santuário da nossa memória. E sobre o pedestal gravaríamos estas simples palavras, nas quais estão resumidas as virtudes que fizeram dele um confrade excelente e um mestre incomparável e – como direi? – se sintetiza o sentido secreto da sua obra inteira: «Ajudou-nos a todos a valer mais.»

Oh! a salva de palmas das preciosas! A velha de cor de pombo deixa cair o saco dos bombons para o aplaudir, de pé, delirante, devorada de paixão, com as plumas de arara a tremer-lhe sobre o edifício dos cabelos tingidos. E majestoso como a encarnação do Estado, Sua Excelência aperta-lhe as mãos, numa vénia de homenagem oficial.

Bem engravatado, bem brunido, com a sua fisionomia gelada e correcta de antigo diplomata, sem um cabelo desalinhado na obra-prima do penteado de dandy, queixo duro de prognata irrepreensivelmente escanhoado, Paul Hervieu é mais uma vez colhido nas chapas dos fotógrafos de cartões postais. Em nome da Sociedade dos Autores Dramáticos, numa eloquência reflectida e nítida, com a ironia grave do seu talento de psicólogo, / 308 / um pouco superficial mas brilhante, o autor das Tenailles faz a análise rápida do teatro de Dumas, a cuja memória agradece «por ter mantido e fortalecido a altiva tradição, segundo a qual os espectáculos da arte dramática podem reivindicar, sempre que se queira, o serem alguma coisa mais que um passatempo amável ou uma simples distracção para os ociosos.»

Referindo-se à última peça que Dumas, no seu testamento, proibiu que publicassem, tem estas frases de efeito:

– Chegado ao cume da experiência e da fama, empreendeu, enfim, mais uma obra ainda, cuja publicação de ano para ano foi retardando. Porque já então começasse a desinteressá-lo dos resultados deste mundo um legítimo orgulho? Ou devemos nós supor que no coroamento da sua vida [er]radia a mais imponente timidez? O facto é que enquanto ia prosseguindo na sua «Route de Thèbes», Alexandre Dumas foi detido pela esfinge da morte.

Logo a seguir, sem intervalos (cinco horas e meia da tarde, sapristi!) Paul Marguerite, o presidente da Sociedade dos homens de letras, forte, corado, louro, o sorriso inteligente e vivo, orgulhoso da sua força máscula e do seu talento, vaidoso talvez de ser ainda o beau-mâle que as mulheres amam de certo ainda pelo que é e não pelo que foi, como a esses velhos antepassados da Academia, declama de papo, sobre a influência social e moral do autor do Ami des femmes:

– Ele mesmo pôde constatar, não sem justo orgulho, nas notas da Princesse de Bagdad: «O que ninguém pode negar-me é o direito que tenho de dizer a mim mesmo, em face de certos progressos realizados, o que dizem os operários ao passar ao domingo nos bairros novos: J'ai tout de même travaillé à ces maisons-là!»

Em nome da Associação da Crítica, o senhor Camilo Léque, um cavalheiro baixinho, com um ar de mocho triste, a luneta na ponta do bico, meia dúzia de cabelos lambidos sobre um crânio liso de cachorrinho recém-nascido, debita numa voz choramingas e fanhosa, de quem pede para a cera do Santíssimo, uma bem elaborada lenga-lenga, que ninguém escuta.

Jules Claretie, representando a Comédie Française (o que ele deve sofrer realmente do fígado, com aquela côr de desenterrado, por um calor destes!), geme mais do que pronuncia um pequeno discurso em que se revela o seu talento anedótico e impressionista de chroniqueur, e cede enfim, depois das palmas do estilo, o lugar ao «último».

Esse benemérito, que em nome do governo fecha finalmente essa orgia declamatória, diante de cujo desaforo até o grande morto no seu pedestal, parece enjoado, é o sub-secretário Dujardin-Beaumetz, que trombeteia, patético e convicto, com os olhos globulosos de peixe fora das órbitas, as veias do cachaço intumescidas e o ventre resfolegando como um fole de forja, num tom de desafio e de ameaça, como se repelisse algum ultraje pessoal, estas coisas afinal inofensivas:

– Dumas tinha uma concepção muito nobre da vida e da justiça social. A sua rectidão, por vezes inflexível, correspondia a um sentimento particularmente elevado da honra. Nele, o carácter e o espírito igualavam a obra que nos legou.

E o fragor das últimas sílabas do seu discurso são tão tonitruantes, que o pobre antepassado, no seu fauteil, acorda de repente, espavorido.

Mas é o fim, o ansiado epílogo deste melodrama oratório em nove actos. Oh! O alívio, o consolado suspiro de desabafo de todos esses pobres mártires da pose oficial. Todos aqueles senhores do Instituto de França encaram-se com jactância, consideram a sua tarefa enfim cumprida e decidem-se a recolher ao seu museu de antiguidades. Num cacarejar espevitado e estrídulo de araras, as preciosas, por tanto tempo condenadas ao silêncio, retomam os seus automóveis e as suas vitórias, com a vaidade satisfeita pela pequenina comédia intelectual que representaram. Mademoiselle Barthet fez a sua saída tão teatral como a sua entrada.

E na pequena praça Malesherbes, daí a pouco deserta, o ironista severo do Demi-Monde fica enfim solitário, no desdém olímpico do seu isolamento, sobranceiro aos ridículos e às vaidades desta sociedade que ele escalpelizou com mão de mestre.

JUSTINO DE MONTALVÃO

 

 

 

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