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ARIS, 13-6-06. – Três horas da tarde. Na praça Malesherbes, emergindo como um oásis discreto de verdura e sombra
entre as duas longas avenidas dardejadas pelo sol faiscante,
aglomera-se numa impaciência mal contida por polícias de luva branca
o Tout-Paris-badaud, que não falta a um enterro de sensação
ou a uma inauguração de estátua – os dois espectáculos favoritos
deste povo para o qual um dos maiores atractivos é contemplar as
suas celebridades, todas essas criaturas de excepção que, pelo
talento autêntico ou pela voga efémera, conservam ainda, nesta época
democrática, o prestígio romanesco e o privilégio raro de uma
aristocracia à parte.
Dos automóveis trepidantes e dos landaus de luxo,
cujas portinholas batem com estrépito insolente, apeiam-se,
mostrando as meias de seda entre o turbilhão de espuma dos
dessous de rendas, damas do mundo e semi-mundo, em toilettes
claras, maquilhadas e floridas como para uma matinée.
Na grande tribuna descoberta, verde e oiro, que as
folhas em cocar das palmeiras e maciços azuis e roxos de hortênsias
decoram, o sol aviva as manchas coloridas das umbrelas
abertas e dos imensos chapéus da última moda, equilibrados como
açafates de rosas e de plumas, sobre os altos chignons em
cascata, que dão às elegantes deste verão o ar das marquezinhas
fúteis e preciosas das telas de Watteau e de Lancret. Ao seu lado,
sentados nos bancos estofados de carmesim, destoam num contraste de
mau gosto as manchas pretas das sobrecasacas mal talhadas, – porque
em França, na maioria, os homens célebres vestem deploravelmente. Ao
fundo das escadas atapetadas, junto da mesa coberta com um pano de
veludo já coçado pelo uso de tantas exibições idênticas, quatro
guardas municipais, com os seus capacetes de oiro empenachados de
vermelho e a excentricidade vistosa do seu uniforme de opereta,
perfilam-se na pompa hirta das suas poses marciais.
Em torno do monumento velado ainda por um pano
branco, como uma surpresa, o enxame inumerável dos fotógrafos, de
máquinas assestadas, espera.
No círculo dos curiosos que se apinham à volta da
praça, há impaciências, empurrões, protestos. As damas coqueteiam,
com risinhos impertinentes, e como num intervalo do Vaudeville,
flirtam para matar o tempo, neste cenário de comédia
intelectual e mundana. Repórteres apontam os nomes de todo esse
público de assinatura que veio menos para honrar a memória do
ironista implacável do Demi-Monde do que para ser visto. Com
um grande manto sobre os ombros de estátua, Mademoiselle Bartet faz
uma entrada teatral, entre um sussurro de curiosidade.
De repente, um novo murmúrio, um movimento na
multidão:
– Les voilà, les lmmortels!
Les voilà!...
Rebate falso… São apenas quatro ou cinco empregados
de banco que a turba confundiu / 302 / com os académicos, pela
analogia dos seus chapéus de bicos.
Na verdade, o espectáculo vai-se demorando.
Esses senhores do Instituto de França fazem-se
esperar com mais insolência do que os seus colegas da Comédie
Française! O sol arde. Sobre as faces transpirantes tremula a
palpitação viva dos leques. Da avenida, onde as campainhas
estrídulas dos tramways retinem, vem a espaços o eco dos
pregões vibrando no ar parado, em que nem a mais leve aragem arrepia
a folhagem empoeirada dos castanheiros densos e dos altos plátanos.
No passeio, uma velha de touca bretã apregoa limonadas...
Mas ei-los, enfim! Empertigados nas casacas bordadas
de verde ácido, como papagaios, os espadins inofensivos batendo-lhes
as pernas claudicantes, os Imortais desfilam em bicha, tomam os seus
lugares nos fauteils da primeira fila. Na crueza irónica da
luz que lhes revela as rugas da pele pergaminhada de velhice,
dir-se-ia uma exposição imprevista e cómica das figuras de cera do
Museu Grévin! Hirtos, em pose diante das máquinas dos fotógrafos,
mas com o ar de nem sequer as verem, como todos esses geniais
fantoches têm o ar duro de bonzos, o desdenhoso olimpismo de
manipansos das Letras, apesar desse sorriso permanente e imóvel,
como o das bailarinas, com que correspondem aos cumprimentos das
«preciosas ridículas», que diante deles se curvam em salamaleques
servis.
Palmas... Do outro lado da praça, um velhote de
fraque rapado e de côco triste puxa o cordel que prende o invólucro
do monumento. E, na crua e nítida alvura do mármore esculpido pelo
cinzel de René de Saint-Marceaux, destaca enfim, na rutilância de
oiro do sol que a nimba, a figura poderosa do Mestre ainda hoje sem
par no teatro moderno.
Envolto na ampla blusa de trabalho, sentado num banco
de pedra, Dumas filho ergue a cabeça severa numa atitude a um tempo
de força tranquila e de contemplação comovida, como se escutasse as
vozes dolorosas e inspiradoras das quatro mulheres que gravitam, num
grupo simbólico de todas as emoções femininas, em torno do pedestal
da estátua. Uma delas, encarnando a maternidade e o abandono,
levanta, para o defensor das humilhadas, o filhinho nu. Outra,
mensageira florida da primavera, tem nas mãos erguidas um ramo de
rosas e na boca desabrochante, como elas, o sorriso luminoso da
adolescência. Na atitude melancólica e romântica da renúncia, Maria
Duplessis desfolha as suas camélias nos dedos exangues de tísica
amorosa. Esvoaçante na clâmide que o gesto de perdão dos braços
estendidos abre num movimento de asas angélicas, a última figura
parece unir o abandono, a esperança e o sacrifício das suas três
irmãs de mármore no mesmo culto de gratidão adorante por aquele que
soube amá-las, evocá-las e eternizá-las no teatro e no Romance.
Aos pés do Mestre jaz a máscara de Thalia, da Musa
inspiradora das verdades novas a que o seu génio deu voz. E na mão
que gravou em páginas imperecíveis os seus pensamentos de moralista,
tem o estilete acerado que, mais que uma pena, foi um bisturi de
anatomista do coração humano, até às suas fibras mais íntimas. Entre
ramos de louro, os títulos da longa obra que imortaliza a sua glória
estão gravados na outra face da coluna. E no último dos três degraus
em que ela se apoia, esta simples inscrição:
ALEXANDRE DUMAS
SOUVENIR D'UN AMI
E os discursos começam, esses infindáveis discursos
que tanto tédio inspiravam ao ironista das Ideias de Madame
Aubray, que ao morrer os proibiu sobre o túmulo e pediu que as
cerimónias do seu enterro se realizassem num silêncio humilde. Ele
mesmo não pronunciou senão dois durante toda a sua vida: o primeiro,
à beira da cova da actriz Aimée Desclée, a intérprete admirável das
suas criações, que sentiu por Dumas uma paixão romanesca a que ele
só correspondeu com uma amizade casta; e o segundo, obrigatório, no
acto da sua recepção académica.
Entretanto, na assistência expectante, chius!...
tosses abafadas delicadamente nos lenços… todos os surdos rumores do
público que se prepara para saborear, com regalo, nobres imagens e
adjectivos solenes.
– Mr. Henry Roujon! – Anuncia o mestre-de-cerimónias.
E um cavalheiro de bigode encalamistrado à Napoleão
III numa fisionomia burocrática de chefe de repartição atencioso,
com seu atestado de bom comportamento no trapo vermelho da Legião de
honra que lhe condecora a casaca mal feita, pousa com devoção o
chapéu alto sobre o tapete velho da mesa, tira do bolso um rôlo
branco e, voltado para sua / 303 / Excelência o sub-secretário de
Estado das Belas Artes, que o encara num sorriso protector, começa a
ler, com o ar modesto e fácil de quem o não fez, o discurso de
Victorien Sardou, a quem a operação dum antraz impossibilitou de o
pronunciar, em pessoa.

Num paralelo retórico e cenográfico, segundo os
preceitos clássicos do bom Quintiliano, o tremendo melodramaturgo da
Tosca, confronta as obras dos dois Dumas, na literatura
francesa.
– Dumas pai recusa-se a ver do presente tudo quanto
possa entristecê-lo. Não se importa com o futuro. Do passado nada
mais conhece além dos seus aspectos legendários, pitorescos e
amenos... Dumas filho ignora e desdenha o passado. A sua preocupação
constante é o futuro, o que o interessa apenas no presente são as
suas tristezas e os seus problemas perturbantes... Um dissuade-nos
de pensar. O outro incita-nos e obriga-nos a pensar. O pai é todo
invenção e imaginação. / 304 / O filho é todo observação e reflexão.
As únicas coisas que considera realmente dignas de interesse são os
factos ao seu alcance... Lentamente, com pausas reverentes, numa voz
monótona e diligente, o ilustre maçador continua sempre, voltado
para Sua Excelência – enquanto ao longo da avenida os tramways
deslizam nos rails estridentes.
Na luz fulva do sol que tons terrosos de caveira têm
alguns desses Imortais veneráveis; Um, velhíssimo, todo calvo,
pequenino, catracego, tem o ar demasiado atento de quem não ouve uma
palavra. Recostado no alto espaldar vermelho, lembra uma múmia num
sarcófago, venerável relíquia!... De sobrecasaca condecorada (está
claro!), seu colete de cetim sarapintado de pintinhas roxas.
François Copée agita nos dedos enluvados de amarelo a bengala rica,
de castão de prata – e na sua máscara rapada de sacrista janota, os
lábios franzidos exprimem o mais evidente e católico desdém por
aquele factotum do seu colega Sardou.
– Quel raseur! – dizem claramente os olhos
esverdeados e felinos de Paul Hervieu, ao seu lado, constrangido na
sua casaca nova de membro do Instituto. E que eloquente cena muda na
atitude de sacrificadas das preciosas que fingem escutar, como num
templo, ao mesmo tempo que espreitam com o canto do olho os
fotógrafos que dispõem as máquinas para apanhar o aspecto das
tribunas...
– Da fórmula de Dumas – vai dizendo o outro – devemos
reter somente o que é justo e louvável, e o que ele resolutamente
pôs em prática: a demonstração, na cena de certas verdades
desconhecidas, contrárias às opiniões aceites, e que é preciso fazer
acolher por um público mais ou menos recalcitrante...
(Positivamente, Jules Claretie está sofrendo uma
crise epática, com aquela côr biliosa que lhe esverdeia
aflitivamente a cabeça descarnada de santo de igreja de aldeia,
pobre mártir! Como ele inveja, neste instante, o antraz providencial
de Sardou, que o livra da estopada, com um calor assim!...)
– Os Dumas amaram sempre a luta (prossegue o manga de
alpaca, num tom imperturbável de quem lê um ofício.) O avô, o
general, lançava-se na refrega e espadagava austríacos como um
simples soldado. O filho passou a vida a debater-se, alegremente, de
resto, contra as dificuldades com que se comprazia em obstruí-la. E
o mesmo espírito batalhador vamos encontrar no gosto do filho pela
controvérsia e pela polémica, no seu desdém pelas ideias correntes e
no seu parti pris de advogar no palco as causas
antecipadamente mais desacreditadas, tomando como clientes habituais
a virgem seduzida, a mãe solteira, a mulher galante e a mal-casada...
A virgem seduzida, culpada duma fraqueza de que a acusam com
crueldade, ao passo que todos consideram com indulgência aquele que
a provocou! – A mãe solteira, a quem o sedutor deixa todo o encargo
da sua triste maternidade, sem que a lei o obrigue a associar-se-lhe
e testemunhe o menor interesse pelo filho, nascido de uma falta de
que ele é irresponsável! – A mulher galante, a pecadora arrependida,
que ele quer reabilitar pelo verdadeiro amor e pela dedicação
maternal! – E finalmente (uff!) a esposa abandonada, traída,
e que em seguida esquece os seus deveres, para quem ele reclama a
mercê das circunstâncias atenuantes e do perdão evangélico! São
estes arrojados pleitos que fizeram dizer com uma intenção de ironia
muito injusta, segundo o meu modo de ver... (e igualmente de Mr.
Lepine, o prefeito da polícia, que abana a cabeça, aprovativo!)...
que cada peça de Dumas é uma tese...
(Na poltrona de honra, ao sol, Sua Excelência o
sub-secretário das Belas Artes sua como um herói... O suor corre-lhe
em bica pelas bochechas, pelos refegos do cachaço taurino, sem que
ele tenha a fraqueza de um gesto para o enxugar. E na cadeira ao
lado, o velho jarreta, com a calva de múmia descaída sobre o ombro,
ressona, o bem-aventurado!)
– O que a sua linguagem um pouco brusca, a sua
amizade um pouco rude, a sua beneficência um pouco ríspida encobriam
de verdadeira bondade, só o podem dizer aqueles que viveram na sua
intimidade e a quem ele honrou como a mim com a sua amizade...
– Sacredieu! É odioso de declamação, de
sonoridade esganiçada! Silva Henri Lavedin, entre os dentes
contraídos, com o ar furioso de quem tem uma bota de verniz a
aperrear-lhe um calo.
– Tordant! – acrescenta o visconde de Vognë, com
ódio.
Mas, de repente, há uma esperança. A voz gorgoleja,
enfraquece, hesita com gosma... O homem começa a cuspinhar. Fecha a
boca. Sempre é o fim?...
Palmas estalam. O público tem a impressão / 305 /
momentânea de sair duma secretaria onde cheira a bafio e a rato.
Mas, oh deuses imortais! É uma falsa esperança. Manga-de-alpaca
parara apenas para tomar fôlego. E ei-lo que de novo, como a água
duma goteira sobre um passeio, a voz continua, obsidiante, trágica,
imutável, eterna...)

– Quando a estátua do avô, do soldado patriota se
erigir sobre esta praça, entre as do filho e do neto, saudaremos
neles a conjunção dos dotes mais preciosos da inteligência e do
coração: a bravura e a caridade, o ódio de toda a opressão, de toda
a injustiça; o bom humor, o bom senso e o espírito ao serviço de
todas as boas causas! E nenhum povo poderá oferecer à admiração do
mundo / 306 / inteiro uma praça comparável à dos Três Dumas.
– Bravo torero! – exclama Victor Marguerite,
num sorriso de gavroche.
Alguns não querem crer ainda, mas desta vez sempre é
certo. O suplício terminou. E as palmas, a ovação de todos esses
joviais tartufos, há momentos tão mordazes, e que agora dizem alto:
«Esplêndido! Magnífico!» – numa dessas reacções de entusiasmo que
devem sentir aqueles que caíram ao poço, ao entrever de novo a luz.
Se fosse só aquele! Mas faltam ainda oito, mais oito,
Pai celeste!
Por trás da mesa vermelha, já outro Demóstenes surge,
entre os guardas perfilados, de espada desembainhada. Em nome do
Conselho Municipal, o Sr. Tintet, na ausência de M. Chautard (outro
feliz!), agradece em nome da cidade de Paris a «preciosa oferta do
monumento», numa voz que guincha, estridula, entre o rolar dos trens
e das carruagens. O que ele sabe, o que ele diz, o sujeito de
lunetas, com a faixa tricolor sobre o ventre conspícuo! Porque
nestas solenidades, estes senhores da Burocracia são sempre os mais
espicaçados pela abelha de oiro da Retórica, como se quisessem, na
sua facúndia, provar aos homens das letras: – «Não são só vocês que
têm direito de maçar os outros ouvintes!
– Quando a estátua do general Alexandre Dumas se
erigir em face das do filho e do neto (já o terrível orador
precedente o disse pouco mais ou menos, mas que importa!) esta praça
será sem dúvida a mais original do mundo inteiro e também a mais
evocadora. Ela dirá ao transeunte que uma mesma família, durante
três gerações sucessivas e por formas diversas, aumentou a
irradiação gloriosa da pátria francesa!
– Rataplan! plan!...
E logo outro, M. de Salves, prefeito do Sena,
tristíssimo, ictérico, o aspecto dum peru nostálgico, lê uma
estirada perlenga, enfática e aforística, a que o repórter que a vai
notando com ódio chamará inevitavelmente admirável no seu jornal:
– Alexandre Dumas filho projectou a mais viva luz
sobre vícios profundos da nossa sociedade. Fez obra útil e grande. O
seu objectivo foi sempre nobre e elevado. É um grande antepassado,
um verdadeiro gentilhomem de letras. E nós saudamos
respeitosamente a sua imagem!...
As noites que aquilo lhe levou a redigir, e as vezes
que o digno homem deve ter relido aquele período à pobre da senhora!
Mete por fim as tiras no bolso da casaca, religiosamente, e cai nos
braços abertos dos admiradores.
E num burburinho simpático das velhas damas que se
arrebitam para o ouvir, Bourget, gorducho, mole, poseur, na
sua casaca de papagaio do Instituto, chapinhada de medalhas, as
pontas do bigode caídas à inglesa sobre o beiço sensual, de monóculo
nas pálpebras papudas, sem nada, contudo, do dandy que nos
afizemos a conceber através da leitura dos seus romances
arquimundanos, começa sem gestos, numa voz branca e ácida de snobe,
cheia de tédio impertinente:
– Na Academia Francesa, «nesta calma atmosfera de
estudo», Dumas não contava senão admiradores e amigos. Assim, a
inauguração da sua estátua é para a nossa Companhia alguma coisa
mais do que uma festa oficial, como o dia 30 de Novembro foi alguma
coisa mais do que um luto de aparato. Todos aqueles que conviveram
intimamente com Dumas hão-de compreendê-lo...
(Há sobretudo uma velha condessa, espartilhada num
vestido princesse côr de pombo, tasquinhando bombons com um
sorriso de macaca extasiada, e cujo cocar de plumas se agita a cada
movimento admirativo da cabeça maquilhada, que está positivamente
apaixonada pelo romancista favorito das Mensonges! Diante
dele, na primeira, Mr. Lepine, com um dedo huguesco na testa de
feto, escuta-o compenetrado, como ao representante oficial das Boas
Letras. E nada mais definitivo do que essa homenagem da Ordem pelo
defensor da tradição e do Nacionalismo!)
– Há, meus senhores, (continua Bourget) uma frase de
poesia singular, daquela poesia que os antigos sabiam encontrar,
simples e tão humana, penetrada de ingénua familiaridade e tão
impregnada de profunda significação. Atenea, que acaba de absolver
Orestes, acusado perante o seu tribunal pelas fúrias vingadoras do
parricídio, justifica a sua indulgência: «Eu amo os homens, diz ela,
como o jardineiro ama as suas plantas.» Um sentimento muito análogo
parecia despertar-se em Dumas quando descobria num recém-chegado uma
promessa viva, a germinação sagrada do talento e das obras futuras.
Aos seus antecessores não pudera oferecer senão a sua admiração, /
307 / aos seus émulos senão a sua estima: aos seus cadetes tinha o
direito de dar alguma coisa mais: um socorro, um apoio, uma
direcção, e com que delícia ele desempenhava este privilégio de
ilustre antecessor. Submetia-lhe algum debutante uma peça nova?
Fazia mais do que lê-la, mais do que conversar acerca dela com o seu
autor. Se lhe parecia que a obra valia a pena disso, corrigia-lhe o
cenário, retocava-lhe o diálogo, redigia-lhe de novo páginas, cenas,
actos...
(A velha relíquia dorme sempre, com a careca de múmia
descaída sobre a gola verde da casaca. Na rua, os tramways
continuam deslizando, cheios de gente alegre; os automóveis e as
vitórias batem já para o Bois. Que bela sombra deve fazer à
fresca, sob as folhagens da Avenida das Acácias e à volta do Lago!)
Mas Bourget prossegue, de monóculo:
– A assembleia que hoje se congrega em torno deste
monumento atesta a comunidade de todos quantos se assinalam em
França em prestar a sua homenagem a este honesto grande homem de
letras tanto pelo seu carácter como pelo seu génio. Nesta hora de
apoteose, e no momento em que acaba de desvelar-se esta imagem de
pedra devida ao cinzel dum artista ilustre, queríamos poder também
desvelar nós todos, os seus amigos, para a contemplar e para a
mostrar, a imagem moral que de Dumas trazemos no santuário da nossa
memória.
E sobre o pedestal gravaríamos estas simples palavras, nas
quais estão resumidas as virtudes que fizeram dele um confrade
excelente e um mestre incomparável e – como direi? – se sintetiza o
sentido secreto da sua obra inteira: «Ajudou-nos a todos a valer mais.»
Oh! a salva de palmas das preciosas! A velha
de cor de pombo deixa cair o saco dos bombons para o aplaudir, de
pé, delirante, devorada de paixão, com as plumas de arara a
tremer-lhe sobre o edifício dos cabelos tingidos. E majestoso como a
encarnação do Estado, Sua Excelência aperta-lhe as mãos, numa vénia
de homenagem oficial.
Bem engravatado, bem brunido, com a sua fisionomia
gelada e correcta de antigo diplomata, sem um cabelo desalinhado na
obra-prima do penteado de dandy, queixo duro de prognata
irrepreensivelmente escanhoado, Paul Hervieu é mais uma vez colhido
nas chapas dos fotógrafos de cartões postais. Em nome da Sociedade
dos Autores Dramáticos, numa eloquência reflectida e nítida, com a
ironia grave do seu talento de psicólogo, / 308 / um pouco
superficial mas brilhante, o autor das Tenailles faz a
análise rápida do teatro de Dumas, a cuja memória agradece «por ter
mantido e fortalecido a altiva tradição, segundo a qual os
espectáculos da arte dramática podem reivindicar, sempre que se
queira, o serem alguma coisa mais que um passatempo amável ou uma
simples distracção para os ociosos.»
Referindo-se à última peça que Dumas, no seu
testamento, proibiu que publicassem, tem estas frases de efeito:
– Chegado ao cume da experiência e da fama,
empreendeu, enfim, mais uma obra ainda, cuja publicação de ano para
ano foi retardando. Porque já então começasse a desinteressá-lo dos
resultados deste mundo um legítimo orgulho? Ou devemos nós supor que
no coroamento da sua vida [er]radia a mais imponente timidez? O
facto é que enquanto ia prosseguindo na sua «Route de Thèbes»,
Alexandre Dumas foi detido pela esfinge da morte.
Logo a seguir, sem intervalos (cinco horas e meia da
tarde, sapristi!) Paul Marguerite, o presidente da Sociedade
dos homens de letras, forte, corado, louro, o sorriso inteligente e
vivo, orgulhoso da sua força máscula e do seu talento, vaidoso
talvez de ser ainda o beau-mâle que as mulheres amam de certo
ainda pelo que é e não pelo que foi, como a esses velhos
antepassados da Academia, declama de papo, sobre a influência social
e moral do autor do Ami des femmes:
– Ele mesmo pôde constatar, não sem justo orgulho,
nas notas da Princesse de Bagdad: «O que ninguém pode
negar-me é o direito que tenho de dizer a mim mesmo, em face de
certos progressos realizados, o que dizem os operários ao passar ao
domingo nos bairros novos: J'ai tout de même travaillé à ces
maisons-là!»
Em nome da Associação da Crítica, o senhor Camilo
Léque, um cavalheiro baixinho, com um ar de mocho triste, a luneta
na ponta do bico, meia dúzia de cabelos lambidos sobre um crânio
liso de cachorrinho recém-nascido, debita numa voz choramingas e
fanhosa, de quem pede para a cera do Santíssimo, uma bem elaborada
lenga-lenga, que ninguém escuta.
Jules Claretie, representando a Comédie Française (o
que ele deve sofrer realmente do fígado, com aquela côr de
desenterrado, por um calor destes!), geme mais do que pronuncia um
pequeno discurso em que se revela o seu talento anedótico e
impressionista de chroniqueur, e cede enfim, depois das
palmas do estilo, o lugar ao «último».
Esse benemérito, que em nome do governo fecha
finalmente essa orgia declamatória, diante de cujo desaforo até o
grande morto no seu pedestal, parece enjoado, é o sub-secretário
Dujardin-Beaumetz, que trombeteia, patético e convicto, com os olhos
globulosos de peixe fora das órbitas, as veias do cachaço
intumescidas e o ventre resfolegando como um fole de forja, num tom
de desafio e de ameaça, como se repelisse algum ultraje pessoal,
estas coisas afinal inofensivas:
– Dumas tinha uma concepção muito nobre da vida e da
justiça social. A sua rectidão, por vezes inflexível, correspondia a
um sentimento particularmente elevado da honra. Nele, o carácter e o
espírito igualavam a obra que nos legou.
E o fragor das últimas sílabas do seu discurso são
tão tonitruantes, que o pobre antepassado, no seu fauteil,
acorda de repente, espavorido.
Mas é o fim, o ansiado epílogo deste melodrama
oratório em nove actos. Oh! O alívio, o consolado suspiro de
desabafo de todos esses pobres mártires da pose oficial. Todos
aqueles senhores do Instituto de França encaram-se com jactância,
consideram a sua tarefa enfim cumprida e decidem-se a recolher ao
seu museu de antiguidades. Num cacarejar espevitado e estrídulo de
araras, as preciosas, por tanto tempo condenadas ao silêncio,
retomam os seus automóveis e as suas vitórias, com a vaidade
satisfeita pela pequenina comédia intelectual que representaram.
Mademoiselle Barthet fez a sua saída tão teatral como a sua entrada.
E na pequena praça Malesherbes, daí a pouco
deserta, o ironista severo do Demi-Monde fica enfim
solitário, no desdém olímpico do seu isolamento, sobranceiro aos
ridículos e às vaidades desta sociedade que ele escalpelizou com mão
de mestre.
JUSTINO DE MONTALVÃO
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