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– Oh! que finíssima perspicácia a do fidalgo! – disse alegremente.
– Amigo Friedel, fecha lá a porta! Pois é verdade – prosseguiu, dirigindo-se novamente ao conde.
– Como não posso
manter o incógnito, confesso que ando passando uma inspeção por conta de Sua Majestade o
rei Jerónimo Bonaparte. Ah! Ah! Ah!
– Ah! Ah! Ah! – repetiu Sidónia, rindo sem motivo,
como faria uma criança.
– Hein! Quem mais temos nós aqui? – disse o inspector,
mudando de tom. E dos olhos despediu um lampejo singular, enquanto
examinava demoradamente a rapariguita, desde a loura cabeça até aos
pés, e em sentido contrário.
– Eh! Eh! – resmoneou o Sr. inspector, afagando ao de
leve aquele rostozinho escarlate, que tinha tomado entre as mãos, a
fim de voltá-lo para a luz.
– Nós aqui não seguimos as modas dos franceses – notou
rabugentamente a Sr.ª Friedel, o que provocou da parte do filho um
gesto de enérgica advertência.
Estevam, a quem isto não passou despercebido, ficou
profundamente enojado por ver o rapaz ter tamanho medo de um
superior de insignificante categoria.
Como o vinho era forte, não admirava que já fosse
subindo à cabeça do jovem fidalgo. Tanto assim acontecia, que o
conde começou a sentir-se extravagantemente provocador, e a desejar que voltasse o rabequista mais a sua música. Ouvisse melodia que se casasse bem com
aquela bebida cor de âmbar, e tinha a certeza de que a sua mocidade
a que o vagabundo se referira tanto, experimentaria prazer especial
em armar contenda com o tal Meyer, cujos olhos tomavam uma expressão
altamente desagradável quando se fitavam na rapariguinha de aldeia;
com aquele francês que encolhia os ombros tão irritantemente, e
sorria de maneira tão avilanada.
Mas se o inspector tinha os olhos para as caras
bonitas, também tinha ouvidos para os ladrões de caça. O som distante de alguns tiros dados na floresta, fizeram-no estremecer e
ficar à escuta. Vendo Friedel, de feições contraídas, correr para a
espingarda, que deixara a um canto da sala, Meyer sorriu e
fez-lhe sinal para que se contivesse. Foi entreabrir a porta e pôs-se a escutar. Depois, com a fisionomia a alargar-se ainda mais num sorriso, fechou a porta e voltou para a mesa.
– Certamente já tem formado plano de agarrar os
pobres diabos. – pensou o conde.
Mas embora julgasse lógica a explicação, sentia
adejar em volta de si uma espécie de mistério, como se a aventura
anunciada pela música do rabequista estivesse a ponto de realizar-se.
Aumentou muito mais esta impressão, com o silêncio
que sucedeu aos tiros. O francês parecia dominado por irresistível
desassossego. Percorria a sala de um extremo ao outro, comparava a
hora indicada pelo relógio, que tirava da algibeira a cada instante,
com a que lia no relógio da parede; ia à janela e tamborilava com
os dedos na vidraça.
Estava sobressaltado certamente por qualquer motivo,
mas Estevam debalde fatigava, com conjecturas o seu espírito pouco
imaginoso. Pois o motivo estava bem próximo.
Sentiram-se vozes e passos fora de casa, e alguém bateu à porta com força.
– Será possível que Deus Nosso Senhor ainda nos mande
hoje mais hóspedes! – bradou a Sr.ª Friedel.
Era exactamente o que Deus Nosso Senhor lhes mandava,
se porventura se podia lançar para tão alto semelhante
responsabilidade. Mais duas pessoas entraram na estalagem, sem
esperar que as anunciassem.
Por Santo Huberto! – disse Estevam consigo mesmo,
vendo que uma delas também vestia o uniforme de couteiro – Sua
Majestade Westfaliana tem mais couteiros do que folhas há nesse arvoredo! E
que formosura! – acrescentou, ao dar com a vista na mulher, que pendia
do braço daquele visitante. Como se tratava de uma senhora,
levantou-se.
O inspector e o couteiro recém-chegado trocaram uma rápida olhadela. E então o segundo, dando
estalos com o chicote que trazia na mão, começou a vociferar um
alemão execrável, a que misturava, de vez em quando, pragas francesas. Era evidente que o rei Jerónimo
gostava de ser servido pelos seus compatriotas.
– Parbleu! – disse o homem do chicote. Não foi pequena
fortuna encontrarmos um abrigo decente. Cheguei a supor que ia
passar, juntamente com esta senhora, a noite debaixo das árvores da
floresta!
Ela no entanto, a despeito da viva cor das / 49 / faces e do brilho dos olhos, mostrava-se tão fraca e
abatida, que a Sr.ª Friedel e sua filha de leite a ampararam e
fizeram sentar numa cadeira.
Estevam ia para lhe oferecer um copo de vinho, mas o
inspector Meyer antecipou-se-lhe arrogantemente.
– Que indigno atentado, sucedido, de mais a mais, numa estrada de Sua Majestade! A carruagem desta senhora assaltada por bandidos!
– disse o alentado couteiro, que tinha
acabado de entrar.
– E que desgosto para Sua Majestade! – Observou
gravemente o inspector, sentando-se ao pé da recém-chegada e
descalçando-lhe parte da luva, para lhe tomar o delicado pulso.
– A escolta ainda fez fogo... Com todos os diabos! –
disse o do chicote.
– Estupendo! – comentou o inspector.
Um copo de vinho, minha senhora?...
– Mas depois... mil raios os partam!... desataram a
fugir cobardemente, abandonando-a sem defesa.
– Que vergonha! – comentou de novo o inspector, largando aquela linda mão, para receber
da outra o copo despejado.
– Se eu não tivesse ouvido os tiros e acudido tão
depressa, nem quero imaginar o que teria acontecido!
– Estou a tremer só de a contemplar! – disse Meyer.
– Meu valoroso libertador! – murmurou a dama, com voz meiga.
De repente escondeu o rosto nas mãos e teve uma tremura ao longo de todo o corpo.
Meyer olhou para a Sr.ª Friedel, com ar de profunda compaixão, e explicou:
– É um ataque histérico. Não admira...
A velha foi desembaraçando um pouco a viajante da beIa capa cor de vinho que a envolvia,
enquanto Sidónia lhe tirava o chapéu de veludo enfeitado de grandes
plumas brancas, e punha a descoberto o cabelo escuro e anelado
daquela cabeça encantadora.
– Muito bem, Schmidt, eu... Ah! Sim! – Disse o inspector
Meyer. – O seu procedimento há-de ser levado ao conhecimento de Sua Majestade, para que tenha a devida recompensa.
– Muito obrigado, meu senhor... ahI... muito obrigado,
Meyer, – redarguiu o alentado couteiro Schmidt, com estranho sorriso de malícia.
– Ai! Ai! Ai! – gritou a dama. E deixou a cabeça
descair para trás e os braços para os lados. Ao mesmo tempo
derramava lágrimas copiosas, que lhe aljofraram as faces. Talvez
fosse ataque nervoso, mas Estevam pensou que nunca em dias de sua vida assistira a mais
completo espectáculo de comoções.
Tendo enxugado os olhos, a bonita mulher levantou-se
mais leve do que uma avezinha, e emergindo das amplas dobras da
capa, patenteou um vestido justo, azul pálido, apertado,
informemente ao seio, por um cinto de ametistas engastadas em oiro.
O conde ficou extasiado perante aquelas formas de um roliço encantador, perante aquela boca
entreaberta num sorriso, perante aqueles olhos escuros, inocentes
e profundos. Uma revelação!...
– E, além de tudo, fidalga! – disse consigo mesmo. – Que delicadeza de aspecto! Que elegância!
– Um nobre
austríaco sabe muito bem o valor das jóias. – Quantos anéis nas suas
mãos finíssimas! Que lindas pérolas nas suas rosadas orelhas!
– Ah! Dio mio!... Sempre tenho uma fomel...
Era italiana. Que estranho concurso de nacionalidades
naquele cantinho de terra alemã!
A fixidez do olhar do moço conde atraiu a atenção
da bonita mulher. Encarou-o com surpresa e interesse, e acabou por
lhe sorrir. Parecia convidá-lo para que lhe falasse.
Pois não era ele o único homem fino que ali estava,
o único, portanto, com quem uma senhora podia conversar?... Avançou
dois passos, com o coração a pulsar desordenadamente.
Os três couteiros, em grupo, observavam-no e falavam
baixinho uns com os outros, mas sem que Estevam o notasse, de
absorvido que estava pelos olhares de simpatia, que lhe dardejava a
beldade. Como lhe visse cair das mãos o lenço, levantou-o
prontamente e restituiu-lho, aproveitando o ensejo para lhe dar um
ligeiro aperto de mão.
Ó Geiger-Hans, Cantor da Mocidade, tinhas adivinhado,
porventura, este instante de arrebatamento?...
– Mil graças! – murmurou ela / 50 /
As graças... Estavam todas reunidas naquela mulher!
– Dá licença que eu mesmo me apresente? – balbuciou o austríaco.
Mas o inspector, tomando-lhe o passo, atalhou com voz estridente:
– Deve por força estar muito cansado!
Estevam estremeceu de raiva, mas viu de um lado o couteiro Schmidt, e do outro o couteiro Friedel, que lhe disse ao ouvido, em tom submisso, mas de terminante
advertência:
– Vou mostrar ao amável cavalheiro o caminho do seu
quarto.
– E eu vou ajudá-lo a chegar até à porta, tonerre de
Dieu! – exclamou o outro, apertando o braço do conde debaixo do seu,
como num torno de ferro.
Estevam libertou-se por um esforço violento. Para
alguma coisa, porém, deve servir a um homem o correr-lhe nas veias o
prudente sangue britânico. Humilhante como era a posição em que estava, um momento de reflexão
convenceu-o de que a resistência só poderia aumentar-lhe o ridículo,
debaixo, de mais a mais, da luz que espargiam aqueles olhos.
– Indique-me o caminho – disse para FriedeI.
Tendo
feito à dama um cumprimento, seguiu a escolta com toda a dignidade
que pôde assumir, e saiu pela porta que dava para a floresta.
Refervia-lhe tanta raiva dentro do peito, comia-lhe
tanto a palma da mão, com a gana de assentá-la nas gordas bochechas do insolente
Schmidt, que só depois de estar sob o tecto de um casebre
escassamente alumiado e entre medas de palha, é que percebeu que
julgavam um palheiro como suficiente abrigo nocturno para o conde de
Waldorf-Klimansegg.
– Uma noite muito feliz! – disse-lhe Friedel e retirou-se.
*
* *
– Outra vez juntos!
Relanceando a vista em volta de si, Estevam descobriu o vulto do amalucado rabequista.
– Juntos na palha. – E dão semelhante cama a um
fidalgo!... Misérables!...Estes couteiros de má morte não têm
a mais leve ideia do que sejam as hierarquias sociais! Mas eu, cá
por mim, antes quero esta palha muito limpinha, amarela, e
cheirando a sol no meio da escuridão, do que um empanturrado colchão
de penas, nem sempre cheirando a cravos nem a rosas.
– Geiger-I-lans! – ouviu-se gritarem com força
através
do ar frio da noite.
O tocador de rabeca voltou-se num pulo, e correu até
ao meio do pátio, que o luar iluminava. O perfil da casa
recortava-se sobre o pálido céu. Cantigas de bebedores e gargalhadas
boçais vinham de longe, dos casebres em que os companheiros de
Friedel se alojavam juntamente com a matilha.
De um balcão de madeira, a cavaleiro do tecto, saía
uma réstia de luz amarelada. Sidónia debruçou-se no peitoril,
escudando com a mão a vela, contra a aragem da floresta.
– Está aí, Geiger-I-lans?
– Estou, sim, meu amor...
– Ainda bem! Escute! Escute! Debruçou-se um pouco mais. As tranças pendiam para baixo,
avermelhadas pela luz da vela e prateadas pelo luar. A voz
entrecortava-se-lhe, com tremuras de raiva:
– Não sabe?.. Ele quis... beijar-me!...
– Ele quem?...
– O homenzarrão do chicote. Agarrou-me pela cintura.
Como não tinha mais nada à mão, bati-lhe com as tranças e
acertei-lhe mesmo nos olhos...
– Nos olhos!... Bravo! Bravo! – gritou o rabequista,
dando palmas.
– Zuniram como um azorrague. Foi uma verdadeira chicotada.
– disse a rapariguinha, chorando e rindo ao mesmo tempo. – Parece-me que
o ceguei. Posso ir lá abaixo ter consigo, ó Hans?..
. Preciso de conversar... ouvir música...
– Aqui não está melhor...
Ainda não tinha acabado de dizer isto, quando viu Estevam sair da sombra e
aproximar-se-lhe. – Era horrível pensar que a dama de olhos pretos
estava em companhia daqueles brutamontes.
Sidónia recuou um pouco e deu um grito.
– Não tenha medo, menina. É o meu companheiro. Mas ouça!
O que deve fazer por causa dos
outros, é ir para dentro e fechar bem a porta do seu quarto.
Deite-se e durma descansada, que eu fico de sentinela.
– E toca para eu ouvir? – perguntou indo já a retirar-se e voltando-se para trás.
– Toco, sim, minha filha, uma música com que vai
adormecer agradavelmente, mas que a outros... fará dançar. / 51 /
Sidónia desapareceu. Hans voltou-se para Estevam.
Ria, mas os olhos faiscavam-lhe, como os de certos animais bravios,
na meia obscuridade.
– Ouviu? – perguntou ele. – A rapariguita bateu no bruto,
ao passo que o senhor... Oh! o senhor deixou que os labregos de
dois couteiros o levassem pela porta fora! Estevam Lee, conde de
Waldorf-Klimansegg, é um inocente cordeirinho... – Que diaacho lhe
corre nas veias: sangue ou água com açúcar?...
Um rapaz na flor.. na força da vida, consentiu que
o boçal do Schmidt lhe pusesse as mãos!... Pelo sangue de meus pais!
Se o mariola tivesse tocado em mim que já sou velho, ficava logo
marcado pelo meu chicote! Perdão! Perdão! O colosso tem bons músculos e... Acho-lhe toda a razão,
Sr. conde! Acima de tudo
sejamos prudentes!... Só digo que mente essa máscara que tem no rosto, a pele lisa, o cabelo sem uma branca sequer. É moço na cara,
mas não é moço no coração. Esse está como uma avelã pêca...
reduzido a uma pitada de moinha... Pois eu... e tenho o corpo gasto
e alquebrado... ainda conservo muito mais desse dom divino, chamado
mocidade!...
– Cale-se! – bradou Estevam a tremer, ferido até o
íntimo de seu orgulho. – Não me entendeu. Estava diante de uma
senhora...
– Senhora! Oh! Oh! Oh! – Interrompeu o outro, soltando uma risada.
Durante a veemente objurgatória, o músico tinha ido sempre avançando, de maneira que o conde, à força de recuar
inconscientemente, ficou afinal encostado ao muro da casa. Por
uma janela, que não estava fechada, chegou até aos dois homens um
som, que parecia mais de suspiro que de palavras:
– Ah! Dio!
– Veio à deixa! – casquinou o artista ao ouvido do conde e sumiu-se na escuridão.
A janela era de um quarto do andar térreo.
A bonita mulher debruçou-se para fora, com os
cotovelos no peitoril. Pela face deslizou-lhe um raio oblíquo de
luar. – Como era possível haver formosura assim?...
– Minha senhora! – disse-lhe Estevam. E aquele coração,
que julgavam reduzido a moinha, pulsou de um modo que até então lhe
era desconhecido.
– Cale-se! – acudiu ela baixinho, pondo um dedo sobre os lábios.
– Ah! É o senhor!...
Estevam deu um passo para diante e ficou banhado pelo mesmo raio de luar. O que não pôde
notar, foi que também estava parecendo muito bem, e sob um aspecto
altamente romântico.
Perto dali, no seio das trevas, o arco do rabequista
correu pelas cordas. Tão ligeiro o som, que menos substancial, mais
ténue parecia do que o próprio luar; ciciava ao ouvido tão
suavemente, como se fora coisa que ele não sentisse. A mão do conde
encontrou os dedos macios e quentes da bonita mulher... a fragância
que exalavam aqueles cabelos anelados inebriou-o. Ela fitou os seus
olhos nos dele, e os olhos animaram-se-lhe, incendiaram-se.
Diz-me, artista, que feitiço tem a tua música? Que
meiguice estranha insinua, que misteriosa audácia aconselha? Os
lábios descerrados daquela mulher deixavam entrever os dentes a
brilharem, e veio aquele rapaz, que nunca beijara uma boca pedindo
amor... Como estão já tão perto!...
Rangeu uma porta no quarto. Ela esquivou-se às mãos
tímidas. O débil trama de melodia quebrou-se como filandras que
flutuam no ar.
Estevam julgou ouvir o riso sufocado do rabequista... Sentiu-se uma exclamação abafada... Deveras também ela estaria
a rir? E viu – viu, sim! – o inspector surdir por trás da sedutora
mulher, agarrá-la pelos ombros, puxá-la para dentro com violência,
e as portas bateram fortemente, fechando-se-lhe na cara! Ao mesmo
tempo o chão... como que o sentiu tremer debaixo dos pés. Tudo à sua
vista pareceu que tomava a cor do sangue. Era ali o quarto dela, e
até ali o maldito homem a tinha seguido!... Realmente não tinha
mocidade, não lhe corria sangue nas veias?... Pois havia de tolerar
isto... Girou sobre os calcanhares, precipitando-se às cegas para a porta da entrada, e deu de cabeça contra o amplo
tronco do Schmidt.
Explodiu uma praga em francês, e ouviu-se, em mau
alemão perguntarem «Vai cego este diabo?» Novamente, do seio da
escuridão, o rabequista soltou uma gargalhada... Ou foi a sua
música?.. Ou os diabos que de emboscada mofam e incitam?... Ao
certo nunca ele soube o que sucedeu, até que um estampido, como
de um tiro de pistola, estalou no meio da noite... Reconheceu que
afinal encontrava ao alcance da mão aquela cara larga e insolente. O
som da bofetada esclareceu a / 52 / confusão que tinha no cérebro,
do mesmo modo que uma lufada de vento varre o nevoeiro. Schmidt
mugiu como um touro furioso, mas Estevam aparou a pancada do chicote com a
agilidade que lhe tinham ensinado em Londres. Enlaçaram-se um ao
outro com fúria, mas tendo sido ele o provocador e degenerando
por fim o conflito 'uma luta de vida ou de morte.

E Hans moveu o arco sobre as cordas qual verdadeiro possesso. Era um canto ferocíssimo de
combate, que surgia agora cada vez mais penetrante, mais enérgico,
mais rápido, erguendo-se no céu tranquilo. Pelo ar subiam / 53 / as pragas do couteiro Schmidt, porém Estevam lutava
em silêncio, como fidalgo que era. Enquanto viveu sustentou sempre
que ia levando a melhor contra o alarve até que, prendendo o
calcanhar numa raiz, tombou desamparado para o chão, caindo-lhe o
outro por cima. Sentiu durante minutos a agonia da sufocação...
por diante dos olhos o Iampejo de uma lâmina de aço, a que o luar
deu um tom azul doirado... o estampido de dois tiros... um grito
de mulher. E então o conde de Waldorf-Klimansegg deixou de ter
consciência do que se passava, e o espírito fugiu-lhe velozmente, ao
compasso de uma música extraordinariamente vivaz,
*
* *
Descerrou Estevam as pesadas pálpebras e divisou uma
claridade azulada insinuando-se por entre molhos de palha muito
amarela, e deu vista do grande quadrado de alvacento nevoeiro e de
oscilantes folhas, que a porta do palheiro, escancarada para a luz
matutina, punha a descoberto. Voltou a cabeça para o outro lado e
sentiu-a sobre almofada de linho exalando perfumes, e teve uma
impressão de ligeira dor a contrariar aquela sensação deleitosa.
Bailava-lhe no cérebro uma música alegre, vulgar,
absurda. De súbito descortinou a figura de um homem, que, sentado no
chão e de pernas cruzadas, punha uma corda na rabeca.
A memória voltou-lhe imediatamente.
– Foi por causa da música! – disse ele. – Oh se foi!
Hans despediu-lhe um olhar de mofa, por baixo das franzinas sobrancelhas e
retorquiu:
– Afinal de contas não apanhou o beijo.
– Pois sim, mas ele apanhou uma tremenda bofetada!
Espicaçado por esta recordação, levantou-se e
conheceu que, além de umas ligeiras tonturas e um certo
entorpecimento, não tinha outro incómodo.
– Pouco faltou para que a faca do patife lhe entrasse
na pele. – disse o artista secamente. – Era como acabava de ficar sabendo
o que se deve à mocidade. No entanto sempre tem aptidões. Sim,
algumas aptidões. – Esticou mais a corda, arrancou-lhe um som agudo,
e fez um aceno com a cabeça.
Um galo cantou no pátio da herdade da floresta. Um
tordo também cantava, no meio do destemperado chilrear dos pássaros.
A brisa perfumada vinha, através ela rama dos pinheiros,
refrescar a cabeça e o pescoço do conde, que levou a mão ao cós da
camisa meio desabotoada, e encarou com o rabequista, cuja cabeça
continuava a balouçar.
– A queda atordoou-o. – disse este. – tanto mais tendo-lhe
caído em cima aquele grande animal. O que lhe valeu, foi eu a tempo
segurar a mão dele. O homem pequenino veio logo de corrida até cá
fora e berrou: «Não quero sangue, d'Albignac!» Tem esta qualidade
boa.., compadece-se pela vida alheia.
– O homem pequenino... d'Albignac. – repetiu com espanto
o austríaco.
– Mediu-lhe admiravelmente a largura das bochechas:
refiro-me ao d'Albignac. – disse o músico. – Nós dois juntos podemos
fazer
grandes coisas... Não percebe que Schlidt era o d'Albignac, chouan
renegado, hoje monteiro-mór do rei da Westfália e condescendente...
intermediário para certas conquistas de Sua Majestade?...
– Sua Majestade... o rei Jerónimo?
– Deveras supôs
que Meyer e Schmidt fossem nomes verdadeiros de franceses? \'alha-o Deus!
Um tal incógnito não podia enganar... um gato,
A madrugada vinha rompendo a pouco e pouco, mas a luz
no cérebro de Estevam fez-se de repente e vivíssima,
– Então – tartamudeou ele – aquela Senhora?...
– A ilustre dama é, meu pobre amigo, um simples
dançarina genovesa, que o imperador Napoleão, sensato e grande
homem, mandou remover, por dois emissários, para longe destes
reinos, onde a sua presença não contribuía para a dignidade do rei,
nem tão pouco para a da rainha. O grande Napoleão é muitíssimo
niquento no que respeita à dignidade de Suas Majestades Westfalianas. O nosso pequenino soberano jurou,
contudo, aos seus deuses, que ainda havia de ter uma última
entrevista e...
– Deus meu! – murmurou Estevam e passou a mão pela
boca, julgando-a maculada pela sombra do beijo, que tanto desejara.
– Então o Meyer é?...
– O nosso manozinho Jerónimo, está visto! E enquanto
o arco bailava subtil nas cordas, / 54 / o rabequista cantou, com voz suave e amortecida,
a estúpida modinha:
Nous
allons
chercher
un royaume
Pour
not' p'tit frère Jérôme...
– Assim cantavam os soldados antes de Iena. – explicou
ele, – Sapristi! Ê moda agradável e patusca! A noite passada os
nossos amigos, apenas a ouviram, desataram a fugir.

E, como Estevam se mostrasse cada vez mais espantado, Hans prosseguiu com voz zombeteira:
– Quem anda por caminho torto, foge ainda que não o
persigam. Não há ninguém para meter medo ao pequeno Rei como o
grande Imperador. Mesmo no seio da vitória, o irmão gigante não tira a vista de cima do mano pigmeu. E meteu-se na cachimónia deste
último, que
sou eu o olho mais vivo de Napoleão. Basta-me, como vê, tocar aquela
música, para que sua Majestade da Westfalia e a sociedade selecta que o acompanha...
Pfft! – Hans fez um gesto largo e produziu com os beiços
um som imitativo do ruflar das asas.
– Foram-se, evaporaram-se como um bando de pardais que
sentiram bulha.
– Todos? – perguntou Estevam. E ficou sucumbido,
apesar de ela ser uma simples dançarina de Génova, e mulher de
costumes fáceis.
– Sim, também a bailarina se foi, antes do romper da
madrugada. E Sidónia também... Ah! Ah! Com que então para o sr.
conde as saias curtas fazem a aldeã, e as jóias de preço a fidalga?... Ah! Ah! Ainda o estou a ver fugindo
enojado ao contacto das tranças da encantadora criança!... Pois
foi ela que, alta noite, lhe trouxe uma almofada, e que aí mesmo
chorou desconsoladamente, por julgá-lo morto... Para que sossegasse,
tive de obrigá-la a pôr-lhe a mão sobre o peito, e só quando lhe ouviu o coração bater com força... Aquela é que é fidalga... Raça mais nobre, creia, nunca o meu amigo encontrará nas suas
viagens.
E, além disso, é a herdeira mais rica destes lugares. Oh! A
respeito dela não se dizem mentiras. De vez em quando vem visitar / 55 / a ama que a criou. Capricho, veneta que lhe dá...
Mas o Sr. conde não pensou em olhar-lhe para a cara, nem lhe viu o
pezinho... Se era uma aldeã, pardi!... Pois saiba que o Jerónimo...
– Jerónimo! – repetiu Estevam, e, sem saber porquê,
sentiu um ímpeto de raiva como nunca tinha tido.
– O Jerónimo fez-lhe umas festinhas na cara – disse o músico
– e por isso eu e o FriedeI, à
cautela, a expedimos para o seu castelo... Foi enquanto o Sr. conde
estava a dormir. Mas ouça cá e deixe-me esses ares de
tristeza, – continuou, mudando de tom. Não acha instrutivo saber-se
como o rei da Westfália passa o tempo, quando todos os homens do seu
reino andam batalhando pela causa do império.... requeimados pelo
sol da Espanha ou regelados pelas neves da Rússia? E confesse, em
todo o caso, que passou uma noite, de que há de lembrar-se até ao
fim da sua mocidade tão comedida e tão regrada. Bom! Bom! Ande
comigo, que lhe quero mostrar uma coisa, que decerto ainda não gozou... Juro que não!... O nascer do sol na floresta!
O pátio estava silencioso e deserto. Sem a mínima
dúvida, todos se tinham ido como um sonho.
– Olhe! – disse o músico. – Já admirou azul tão límpido?
Veja todas estas árvores envoltas em mistério, e a prata do orvalho
luzindo em cada rebento; ouça-o tombando de folha para folha. É
todos os dias uma nova criação! Oh! Eu tocava-lhe o canto da aurora,
se ele não lhe estivesse já ressoando ao ouvido! Escute! Que meigas
carícias, que segredos, que murmúrios! Não ouve os pássaros?...
Ouve, sim I É ainda o tordo de ontem à tarde, pousado na copa do
abeto. E agora canta baixinho espreitando o horizonte. Gorjeará
estridulamente quando o sol despontar. Sente o zumbido das abelhas?... E o
áspero sussurrar do
riacho através dos penedos?... Oh minha alma, que sinfonia! O
respirar da floresta, não o sente, fresco e vivaz?... E o sabor
do musgo encharcado no rócio da manhã e pisado pelos nossos pés?...
E o cheiro dos renovos das faias, do incenso dos pinheiros?... Repare!... Como arde a floresta com o fogo verde, que lhe percorre as
entranhas!... Perto de nós o arvoredo é escuro e sem cor. Mas que
chama lá por dentro, a crescer, a expandir-se, oiro vivo, viva
esmeralda! Veja agora, veja! Estão escarlates os troncos daqueles
abetos! O sol já nasceu!
Calou-se o artista. – Recordando-se daquele
espectáculo, Estevam admirava-se mais tarde de que ele tivesse dito
uma só palavra, ou que, ao menos, houvesse dado a compreender os
seus pensamentos. Viu a estranha criatura suspender o lento divagar,
e, descobrindo-se, acenar-lhe com o velho chapéu.
– Adeus! – disse-lhe Hans. – A tia Friedel lhe dará de
almoçar, e o filho já foi tratar da sua carruagem. Adeus, nobre
conde! Não se esqueça de que está na mocidade!
– Quando o torno a ver? – gritou Estevam, com o
coração acabrunhado. – E acrescentou hesitante: – Companheiro?...
O outro, que ia avançando na floresta, a passos
ligeiros e extravagantes, parou pensativo.
– Quem sabe? – respondeu, virando-se para trás. – Se
souber a maneira de procurar... mas. .. quem sabe?...
Embrenhou-se numa clareira, onde o sol abria para
diante dele um caminho doirado, e incendiava de chamas as verdes
árvores, que de um lado e outro se elevavam exuberantes de seiva.
(Continua)
AGNES E EGERTON CASTLE
(Versão do
inglês por MAXIMILIANO DE AZEVEDO)
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