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Se a mocidade soubesse. . .
I
UMA AVENTURA NA FLORESTA
ESTAVA sentado o nobre viajante num marco miliário,
justamente no lugar onde a estrada, que contornava o monte, deitava
um ramal através da floresta. Aos pés tinha a roda que saltara do
eixo, e mais longe, em lastimosa posição, o resto da carruagem. Um
corpulento baio, sem parecer ressentir-se do mais famoso par de
joelheiras que ainda ornaram um cavalo, estava preso a um recurvado
troço de árvore e ia deitando a boca à relva fresca e a quantas
folhas encontrava ao seu alcance. A situação explicava-se por si só,
e o belo rosto do moço viajante explicava a situação com tanta
eloquência quanto permitia a Natureza, que lhe dera feições onde se
estampava o desdém e a impassibilidade.
Por trás dele surdia a negra escuridão da floresta.
Para a sua frente, a planície polvilhava-se de oiro, com os raios do
sol já perto do ocaso. Entre a estrada e a orla da floresta
murmurava um regato. Um tordo cantava no mais alto ramo de um abeto.
Mas o viajante, no marco da estrada, não via o oiro do vale, não
ouvia o oiro do gorjeio, todo absorvido neste pensamento:
«Em boa estou metido!»
Pregado àquela pedra havia bem uma hora, tinha
mandado para um lado o postilhão, que logo partira a galope, e para
outro, o lacaio a pé; todavia os momentos passaram com lentidão
desesperadora e nenhuma criatura humana veio acudir-lhe, ninguém lhe
apareceu com quem ao menos trocasse uma palavra.
Nos intervalos da sonolência, a que já não podia
resistir, amaldiçoava o pacífico vale com suas veigas e pomares,
julgando-o a terra mais desamparada por Deus entre quantas existiam
no mundo.
De repente animaram-se-lhes os olhos anuviados. Lá em
baixo, na estrada, movia-se o que quer que fosse. Infelizmente era
um homem a pé. Ainda assim, poderia dar-lhe auxílio, ou pelo menos
alguma informação. Mas quando o viu mais próximo, no principio da rampa, a esperança apagou-se no coração do impaciente
fidalgo: não era um vizinho das cercanias, capaz de guiá-lo para a
loja de algum ferreiro, ou para uma estalagem de aldeia, mas apenas
um músico ambulante, provavelmente tão estranho ao lugar como ele
próprio. No polido tampo da rabeca espelhavam-se os raios do sol.
Imerso novamente no enfado, no desespero, viu
eclipsar-se o viandante numa volta que fazia a estrada. Mas que
vinha sempre avançando, conhecia-se por uma estranha melodia, tocada
meio em pizzicato, meio em surdina. A princípio casava-se em
tanta maneira com o murmúrio do regato, com o profundo sussurrar da
floresta e com os gorjeios do tordo, que o viajante mal a distinguiu
como som independente. Mas como partia cada vez de mais perto,
forçoso lhe foi ouvi-la e escutá-la. Era uma canção de vagabundo –
de vagabundo que percorre a pé os caminhos, humilde embora altivo,
sem dinheiro, sem prisões, feliz se tem água fresca para matar a
sede, e uma côdea de pão para matar a fome.
Canção da erva que se balouça e da avezinha a trinar
pousada na sebe, da oscilante folha, da cotovia de voos circulares,
do céu profundo e suave. Oh! Os caminhos estão cheios de coisas
alegres e ternas, de meiguice e de frescura, de fadiga salutar e de
sono delicioso, para quem lhes conhecer os segredos!
– Boas tardes, senhor!
Tinha parado a música. A figura de um homem
excessivamente magro, negra sobre o sol poente, de súbito emergira
da aresta do monte, e saudava com gesto largo. Pareciam tão corteses
as maneiras da figura negra e tão amena a sua voz, que o fidalgo
quase se ergueu para corresponder ao cumprimento, senão quando
enxergou o recurvo perfil do violino... Pf! Era o rabequista
ambulante!
Envergonhado do impulso, sacou da algibeira um florim
e atirou-lho. O músico saltou agilmente para o lado, e a moeda foi
cair no chão, cintilando aos raios do sol. Olhou para o soberbo
dadivoso e sorriu-se mostrando uma fiada de dentes, que igualavam /
42 / em brancura os de um lobo e que brilhavam sobre o negrume da
crestada pele. Tirou novamente da cabeça o chapéu já muito velho,
recuou a nervosa perna cingida por empoeirada meia azul, executando
uma dessas mesuras, que, vinte anos antes, fariam morder de inveja,
em Versalhes, o mais requintado marquês.

– Aceite os meus cumprimentos e saudações, meu
fidalgo! – disse o rabequista, e logo aprumou o corpo e soltou uma
risada. Basta de acariciar a coronha da pistola, que tem no bolso.
Por Calíope lhe juro que não lhe cobiço o dinheiro, mas sim a
doirada mocidade!
– Tem olhar espantado! – pensou o outro.
– Resta saber qual é mais para recear: o encontro com
um salteador ou o encontro com um doido.
– Se é loucura honrar esse dom concedido pelos
deuses, estou louco com toda a certeza! / 43 / – observou o
singular vagabundo, como se lhe tivesse lido o pensamento.
Descaiu para trás o corpo sobre uma perna, dobrou um
pouco a outra, meteu a rabeca entre o mento e o pescoço, à laia de
pássaro que se acomoda no recôncavo do ninho, fez deslizar o arco
pelas cordas, arrancando-lhes um prolongado lamento. «Ó mocidade!»
entoou, no intervalo do suspirar do violino. «Ó primavera! Ó
virgindade do coração, esperança, incógnitos mistérios da vida! Ó
felicidade da força e da comoção!» Depois deixou de cantar e clamou:
Veja, veja o lugar onde está, na orla da floresta, numa terra
estranha, tendo a seus pés o vale banhado pelo sol próximo do ocaso,
e por trás o riacho correndo não se sabe onde, e por cima da cabeça
o pássaro, cantando as aspirações da sua alma. Por Apolo! Ei-lo em
plena mocidade, envolto pela primavera do mundo, no seio de uma
aventura. Os dedos flexíveis correram ao longo das cordas, e com uma
sensação de espanto o viajante sentiu-se, mau grado seu, abalado até
ao íntimo.
– Escuta! – disse ele, tentando mostrar-se
carrancudo. Não estou para gracejar. Apanha esse florim e vai-te
embora, ou então fica e trata de ganhar outro florim dizendo-me onde
estou e a que distância fica a aldeia mais próxima.
– Senhor, – respondeu o outro com urbanidade. – os
viajantes devem auxiliar-se mutuamente, sem olhar a sórdidas
considerações… Ah! Se me tivesse oferecido uma parte da sua
mocidade!... Estamos, se assim lhe apraz, na fronteira que separa o
velho e sólido principado de Schwarzburgo, do recentíssimo e mal
acabado reino da Vestefália, apanágio de Sua Majestade o rei
Jerónimo... um dos remates da Grande Revolução.
– Pf… – exclamou o fidalgo.
Os olhos irrequietos do músico brilharam.
– Aposto que é inglês! – exclamou. Não há dúvida que
só um inglês é capaz de levantar a cabeça com tanta sobranceria. Fiz
uma pergunta escusada.
O viajante olhava-o com olhar altivo. Sem dizer
palavra, o rabequista encarou-o durante momentos, com certo ar de
grave motejo e prosseguiu depois:
– O sentir dos ingleses é uma excelente prescrição
para o orgulho, o desdém e quejandos aromas fidalgos. Só lhe
aconselho, colega viajante, que se não coloque acima da sua bela
mocidade, e que se livre de desprezar os favoráveis ensejos que ela
proporciona:
«Singula de nobis anni
praedantur euntes
(O mancebo).
Eripuere jocos, Venerem, convivia, Iudum...»
E, ao dizer isto, meteu o instrumento debaixo do
braço e fez com o arco um aceno de despedida, como se estivesse para
se ir embora, mas, parecendo acudir-lhe nova ideia, parou e cravou
outra vez os olhos no viajante. Foi quando este notou que no aspecto
do rabequista havia certa dignidade, e em toda a sua pessoa uma
elegância que mal se coadunava com aqueles ares aciganados, com
aqueles trajes miseráveis; que o seu cumprimento tinha sido um
modelo de cortesia; e, acima de tudo, que o artista nem de leve se
mostrara impressionado pelo mais nobre procedimento de um rapaz
nobre.
E, ainda sentado no marco, principiou a sentir-se um
nadinha parvo... e o rubor da ingenuidade tingiu-lhe as faces.
O tocador deu à rabeca um movimento circular, até
encostá-la ao peito, e beliscou-lhe duas cordas, como um homem pode
beliscar as faces da donzela a quem ama.
– Pardi! – murmurou, falando-lhe para dentro
do recurvado ouvido – aquele estandarte carmezim proclama que ainda
há esperança para o bom rapaz. Meu caro senhor – continuou em tom
alegre – cuido que posso ser-lhe útil. Estou às suas ordens.
Ser-me-á lícito perguntar-lhe a quem tenho a honra de estar falando?
– A Estevam See, conde de Waldorf-Kilmansegg. Sou
fidalgo austríaco e vou de viagem para os meus domínios de Carinthia...
O músico só respondeu a estas palavras, pronunciadas
com satisfação mal reprimida, exclamando:
– Austríaco! – E ao mesmo tempo levantava uma das
expressivas sobrancelhas. – É nacionalidade, que hoje pode declarar
com menos perigo, do que a inglesa, quem anda viajando pelos
domínios do grande César. Oh! Tem carradas de razão! Seria o cúmulo
da temeridade confessar, nos lugares onde Monsieur Buonaparte
governa, que lhe corre nas veias uma gota de sangue britânico.
O remoque acertou em cheio no alvo, tanto assim que
novamente se tingiram de vermelho as faces do fidalgo. / 44 /
– Apesar de eu ser austríaco por meu pai – bradou
ele, encolerizado – tenho por parte de minha mãe bastante sangue
inglês nestas veias para odiar o usurpador e desprezar-lhe os
irmãos, por ele guindados ao poderio e às grandezas! Pouco me
importa que eles saibam que penso deste modo!
O rabequista sorriu mais acentuadamente e segredou ao
violino: «se a mocidade se renegar a si mesma, é por engano. Tem
espírito, embora seja unicamente para o desdém... Contudo a
cerimónia ainda não está completa – acrescentou. – Tenho agora que
retribuir o seu cumprimento. Primeiro que tudo, sejamos delicados.
Pois aqui onde me vê, está um indivíduo a quem todos conhecem,
nestes lugares, pelo «Músico Doido», ou mais delicadamente pelo «Rabequista-Hans»,
em alemão «Geiger-Hans». Alguns também me chamam o «Estudante
Vagabundo», e outros as crianças coitadinhas! o «Tio Hans»… A minha
nacionalidade é, como a sua, matéria controversa. Uns dizem que sou
francês, outros que sou alemão, e outros, finalmente, que nasci no
cume dos Alpes: deixo à sua escolha assim como o nome por que me
há-de tratar... Rabequista-Hans, Geiger-Hans, ou, se me quiser
guindar o mais possível, o Cantor da Mocidade!
Neste somenos Estevam See, conde de Kilmansegg, cada
vez se ia enfurecendo mais consigo mesmo, por ter denunciado os seus
sentimentos a um vagabundo.
– Parece-me fora de dúvida – disse ele com suma
arrogância – que às vezes lhe é conveniente ocultar o nome. Pode
ficar descansado, homem de Deus, que não tenho o mínimo desejo de
sabê-lo.
Hans franziu tanto as sobrancelhas, que até a própria
encosta do monte pareceu escurecer, e feriu as cordas do
instrumento, fazendo-as soar como encolerizadas.
– O meu nome, – disse com voz mal perceptível, morreu
com a minha mocidade.
Depois acalmou tão repentinamente, como se tinha
enfurecido.
– Há gente feliz que morre, mas cujo nome continua a
viver; eu ainda vivo... e o meu nome já morreu. Basta-lhe saber
isto. Mas repare! – exclamou, mudando rapidamente de tom, enquanto o
conde Estevam continuava a mirá-lo, sem que o seu temperamento
sereno de austríaco e o seu espírito reflectido de inglês pudessem
harmonizar-se com aquela vivacidade. – Vai escurecendo, o sol já
desapareceu para além do contorno do vale e as sombras da noite
povoam a floresta. Não vê a acenarem-lhe de longe, as luzinhas de um
incógnito abrigo... não pressente um canto de lareira concedido pela
hospitalidade de estranhos? Sabe Deus que gentil hospedeira dará
hoje as boas vindas à sua bela mocidade! Se, porém o seu espírito o
aconselha a ir buscar aventuras por entre o espesso arvoredo,
lembre-se ao menos de que está ali um pobre ente, que, apesar de
silencioso, grita por uma arribana e por um punhado de ração!
Ao dizer isto encaminhou-se, a passos ligeiros, para
o cavalo ferido e soltou do tronco as rédeas.
– Já deviam ter-te banhado esses joelhos
escalavrados! – murmurou, fitando os olhos na cabeça do pacífico
animal. – Aproveitassem o regato, que ali corre tão caridosamente.
Conduziu-o até à agua e daí a instantes voltou e
disse ao viajante, com um sorriso em que denunciava estar-lhe
adivinhando o vexame e a vergonha:
– Ajude-me a pegar nesta roda e vamos a ver,
companheiro, se conseguimos prendê-la ao eixo. Depois, sem nunca
deixar de ampará-la – não se esqueça, faremos o possível para que o
pobre bicho leve tudo isto para lugar seguro.
Meteu mãos à obra e foi ele, afinal, quem consertou a
roda, com uma habilidade de que o outro reputava incapazes aquelas
mãos tisnadas.
Já era escuro quando romperam a marcha, pesadamente:
Estevam See, conde de Waldorf-Kilmansegg, sempre com as mãos na
roda, conforme tinha recomendado o rabequista, que ia agora na
frente, segurando as rédeas e cantarolando, por entre dentes, uma
gavota.
Fugindo à poeira e aos pedregulhos da estrada, tomou
por um largo atalho, que parecia cortar ao meio a floresta e seguir
em declive até ao horizonte. Debaixo dos pés sentiam um elástico
tapete de caruma de pinheiros; de um lado e outro as fileiras
compactas das árvores já com mil braços cingiam a noite, e
falavam-lhes com a voz soturna do oceano; para a frente, no extremo
da nave, lembrando janela de catedral, luzia um trecho de céu entre
amarelo e verde, esmaltado por uma estrela ainda mal acesa.
Então o austríaco avistou, muito para diante, um
quadro de luz alaranjada, e pressentiu / 45 / que era ali o
incógnito abrigo que o estava chamando.
– Mas que vai ser – perguntou, lembrando-se de
repente – do meu postilhão e do meu lacaio?...
Hans voltou-se para trás, rindo sardonicamente.
Deixou escorregar as rédeas para os ombros e pegou no violino.
– O demónio leve – cantou zombeteiramente ao longo da
clareira – os lacaios e os postilhões! O demónio leve a prudência e
a previsão! Gente moça, gozai a mocidade!
*
* *
Deus sabia que gentil hospedeira estaria a esperá-lo
– tinha dito o rabequista ao companheiro.
Apenas bateram, a porta abriu-se à mão de uma
rapariguita de aldeia, cujas tranças loiras e rosto pequeno e
levemente tostado, os dois puderam ver à luz que iluminava o
interior da casa.
Estevam sentiu um vivo desapontamento. O companheiro,
que lhe dera o acaso, não lhe tinha metido na cabeça a loucura de
que, sob aquele tecto solitário, encontraria coisa à altura da
sua elevada fantasia?
– Geiger-Hans! – Gritou a rapariguita com espanto.
– Geiger-Hans! – repetiu de dentro da casa o eco, e
logo apareceu uma campónia velha, bamboleando-se como um ganso e de
mãos estendidas.
– Sê amável para o meu companheiro, ó «mãe da
floresta», enquanto eu vou tratar deste irmão-besta. Assim disse o
tocador ambulante, e levou o cavalo para o pátio, que havia nas
traseiras da casa.
Estevam tinha entrado para a vasta cozinha, alegre,
ao menos, pelo seu prosaico aroma de hortaliças, desde que o romance
tinha emudecido com o rabequista.
Era uma casa ampla, cujas paredes e tecto, forrados
de carvalho, reflectiam a luz do candeeiro de latão e o clarão da
rubra fornalha, em chamazinhas cor de junquilho e brilho cor de
papoula. Uma mesa de carvalho muito escuro corria quase de um
extremo ao outro, e estava coberta, até meio do comprimento, por uma
toalha branca de neve e com bainhas e flores feitas a linha
vermelha.
Um relógio alto, com a frente pintada a cores vivas,
tinha um tic-tac solene. Por cima dos armários, carregados de louça
azul e branca e de panelas de estanho, viam-se pontas de veado e
cabeças de javali de beiços arrepanhados.
Estevam não tomou interesse por estas coisas, mas
ficou satisfeito vendo que estava tudo no maior asseio. A cadeira de
carvalho, onde se assentou, não correspondia, decerto, à sua nobre
pessoa, mas, em todo o caso, valia muito mais do que o marco da
estrada.
Parecia uma boa criatura a «mãe da floresta» e
mostrou ter consciência da hierarquia do seu hóspede. Enquanto à
rapariga, passou completamente despercebida ao viajante, que nem
sequer um olhar lhe concedeu aos sapatinhos e às meias escarlates,
deixadas generosamente a descoberto pela saia curta à moda aldeã.
Foi a ela, contudo, que Hans fez uma rasgada mesura,
quando também entrou na cozinha.
– Menina Sidónia... – disse ele, com o velho chapéu
encostado ao peito, do lado do coração.
A resposta foi um sorriso meio ingénuo, meio
malicioso. E os dentes da pequena brilhavam ainda mais brancos do
que os dele no meio da face tisnada, pelo sol, e onde por sinal,
havia umas covinhas deliciosas, que um rapaz de bom gosto tinha
obrigação de notar. Mas que importância podiam ter as covinhas na
face de uma rapariga de aldeia?
O tocador chegou-se à velha, deitou-lhe os braços em
volta do pescoço, pregou-lhe nas bochechas nédias e sadias dois
beijos recheados, e gritou:
– A ceia! A ceia! Se for boa, toco-lhes uma coisa tão
bonita, que até os seus corações desatarão também a cantar!
A rapariga soltou uma gargalhada e correu para a
fornalha em busca de uma panela.
– Santo nome de Deus! – bradou a velha. Largue isso,
menina Sidónia! Não é coisa para as suas mãos!
– Ora cale-se, faça favor! – acudiu a outra. A minha
ama não me criou para mandriona, pois não é assim?
– Então a velha criou-a?... Julguei que fosse avô
dela, – disse Estevam consigo mesmo, apesar do nenhum interesse que
o assunto lhe inspirava.
– Pois então é servir o vinho. – disse a matrona / 45
/ com risinho folgazão e untuoso.
E enquanto a rapariga ia rodeando a mesa, com as
longas tranças doiradas a balouçarem, tratou o exótico Hans de fazer
entre o hóspede e a hospedeira as devidas apresentações, com as suas
patacoadas do costume.
– Esta dama, meu caro companheiro, é a respeitável
Sr.ª Friedel, mãe do leal couteiro-mór do grande rei Jerónimo. E
este cavalheiro é, veneranda matrona, um nobilíssimo conde
austríaco, a quem um desastre de viagem obrigou a aceitar, por uma
noite, o abrigo destes humildes tectos.
A Sr.ª FriedeI fez uma grande mesura, e Estevam
inclinou de leve a cabeça, mas como percebesse que o rabequista
estava a escarnecê-lo, pôs-se muito vermelho e ficou furioso.
– Um copo em honra da sua chegada? – perguntou
Sidónia, debruçando-se-lhe por cima do ombro.
Aproximou-se tanto que, sem querer, lhe bafejou o
rosto com o hálito fresco e perfumado, e lhe fez aspirar o aroma de
um raminho de violetas, que trazia ao peito. Ao debruçar-se, para
lhe dar o copo de vinho, uma das suas fartas tranças caiu para cima
do ombro do conde, fazendo-o aprumar-se arrogantemente contra o
espaldar da cadeira.
– Diávolo! – exclamou Hans. – Sinto os dedos a
esmorecer pelas cordas! Não tem dúvida que nada perdem com a demora.
Oh! Está a chegar aqui o cheirinho delicioso de um guisado… Alguma
peça de caça, hein?... Já vejo que se dão banquetes nesta casa
perdida nas solidões da floresta.
– Quando meu filho recolhe à noite... ele e os rapazes que o acompanham... vêm sempre com muita vontade de
comer – explicou a Sr.ª Friedel. Depois, voltando-se para Sidónia, pediu:
– Ande meu amorzinho, sente-se ao pé desse senhor e converse com ele, para o entreter.
A rapariga, num ímpeto de mau humor, arrastou, fazendo muita bulha, um cadeira em volta da
que o rabequista ocupava, e sentou-se a certa distância do viajante,
que ficou isolado, como convinha à sua prosápia fidalga.
Hans bebeu à saúde de Sidónia, e, quando ela ia
encher-lhe o copo outra vez, o raminho de flores escapou-se e foi
cair sobre as mãos do músico ambulante.
– Violetas! – gritou ele. E tornou-se como petrificado, com a lividez estampada no rosto.
Empurrou para longe o prato, agarrou as flores,
apertou-as contra os beiços e aspirou-lhe o perfume longamente. As
lágrimas começaram a deslizar-lhe pelas faces, e os suspiros que
irrompiam do peito com violência foram cortados afinal por um
soluço.
Triste e com a cara afogueada, a rapariga foi para
junto da velha, que continuava pausadamente a bater os ovos para a omolette. Nenhuma olhou mais para ele.
Estevam encarou com o músico, mas já tinha desviado
os olhos muito enfadado, quando Hans se levantou, dizendo em voz
quase imperceptível: «Já não posso comer hoje». Foi buscar a rabeca
ao banco onde a tinha deixado, encaminhou-se para a porta e saiu em
direcção à floresta.
– Já o tinha visto assim? – perguntou baixinho Sidónia à
Sr.ª Friedel.
– Uma vez, no jardim, ao pé do canteiro de violetas.
Lembrou-se provavelmente de algum antigo desgosto. Coitado! Quem se
livra deles neste mundo?...
Sidónia voltou para a mesma cadeira, descansou o
rosto nas mãos e pôs-se a olhar para o conde distraidamente. Foi
quando ele notou o engano em que estava: não eram pretos os olhos da
pequena, mas castanhos-castanhos com laivos doirados e verdes, como
as águas de uma corrente que se espraia à sombra do arvoredo.
– De que modo olha para mim! – disse dali a um
instante Sidónia, com mostras irritadas.
O aristocrata mirou-a desdenhoso. «Ele!... Olhar
para uma rapariga do campo!» Foi a Sr.ª Friedel quem afinal rompeu o silêncio:
– Não ouvem?... Aí chega o meu filho!
Vinha, com efeito, de muito longe ainda, o som das trompas de caça. Um cão ladrou perto, no
canil, como para responder, e as buzinas acordaram novamente os
ecos da floresta, mas cada vez de mais perto e com mais força.
– Sim! Sim!... – disse a velha aplicando o ouvido – é o
toque da «Volta ao lar».
*
* *
Fora da casa ia um enorme clamor: eram os cães a
ladrar e a ganir, eram as trompas tocando ao desafio, eram os homens
vozeando / 47 / alegremente. O couteiro-mór passou pela abertura da
porta metade do alentado corpo e fez para sua mãe um aceno com a
cabeça. Pelo que se lhe via do uniforme verde, podia calcular-se que
estava fardado com esplendor: uma exibição enorme de botões
doirados com a coroa real esculpida, de alamares, de emblemas. O
rosto largo e sardento, que todo parecia destinado a reflectir a
alegria, vincava-o a ansiedade: os olhos iam e vinham, com
expressão de contrafeitos, do conde para Sidónia e de Sidónia para o
conde.
Por fim o couteiro entrou e foi segredar à velha o quer que fosse.
– Pelo amor de Deus!... – disse ela, de mãos postas aflitivamente.
– Escute, mãe! – murmurou o rapaz, levando o dedo aos lábios para lhe impor silêncio, e voltando-se para a porta.
O conde tinha acabado de comer o guisado e estava
agora a contas com uma côdea de pão e um copo de vinho. Animado pela
esperança, voltou-se na cadeira, vagarosamente, porque um fidalgo
não deve ser curioso.
Lá fora na escuridão da noite, sobre o fundo
oscilante da folhagem e sob o clarão de dois archotes deparava-se um
grupo deveras pitoresco de cães de caça e caçadores: dois destes
vinham carregados, cada um com seu cabrito montês, cuja linda e inocente cabeça a morte
fazia pender para o chão.
De repente operou-se mutação de cena.
Um homem avançou do meio dos caçadores e entrou na
cozinha, enquanto os demais desapareciam, levando o que tinham
caçado; os cães e os cavalos foram conduzidos para distantes canis e
cavalariças, e a clareira recaiu no seu habitual sossego.
Quando viu o recém-chegado passar junto dele, o
couteiro-mór levou a mão à testa por um movimento espasmódico, e, de
olhos muito abertos, deteve-a rigidamente a meia altura. A mãe fez
uma cortesia respeitosa, e Sidónia ficou a olhar com sincera
curiosidade, abrindo a boca de maneira que todos os que tivessem o
cuidado de observá-la se extasiariam perante o esplendor dos seus
dentes juvenis.
O homem estacou, relanceando a vista para todos os
circunstantes: era um moço de pequena estatura, magro, de rosto
trigueiro e bem talhado, e cabelo cortado rente por trás e dos lados
e descendo, ao meio da testa, em melena ligeiramente anelada. Os
olhos brilhavam-lhe por baixo das sobrancelhas espessas e direitas. O seu traje de caçador, embora
igual no
talhe ao de Friedel, era de pano mais fino e novo em folha. A gola
erguia-se muito aos lados da barba, que no centro descansava em
dobras de delicada cambraia.
Ah! Este sim! É com certeza fidalgo como eu!
−
pensou o conde de Waldorf-Kilmansegg.
Mas as primeiras palavras do homem baixinho destruíram de pronto
a ilusão.
O meu amigo Friedel aqui presente – disse ele para a
velha, num alemão estrangeirado, – assegurou-me que sua mãe me
daria hospitalidade por uma noite, visto eu ser companheiro de seu
filho. Eis a razão por que estou aqui.
Como sorriu, a cara tomou-lhe uma expressão ordinária
e quase atoleimada, que destruiu o efeito causado pela sua aparência
delicada, e fez o conde de novo concentrar toda a atenção no pão, e
no vinho, tendo-lhe provocado primeiro um gesto desdenhoso.
– São bem vindos para mim todos os amigos de meu
filho. – disse a velha, sorrindo contrafeita.
Friedel também se tornou de repente muito vermelho, e ficou a piscar os olhos e a engolir em seco, tão pouco à vontade como um peixe
fora de água.
– Pelo que vejo tenho eu mesmo de me apresentar! –
exclamou o caçador, soltando uma gargalhada e dando uma forte
palmada no ombro de Friedel. – Sou o couteiro Meyer, para servi-la
aqui e onde quer que esteja.
– Ó homenzinhos! – disse Estevam – Vejam lá se fecham
essa porta, que me fica por trás das costas.
– Hein! – bradou Meyer com sobranceria. Quem temos nós
aqui?
– Um hóspede como o Sr. Meyer. – respondeu logo a Sr.ª
Friedel com sequidão, indo apressadamente para a fornalha, enquanto o fidalgo se revirava outra vez na pesada
cadeira, a fim de completar aquela deficientíssima indicação.
– Sou um nobre austríaco, se tem muita vontade de
conhecer-me. – continuou ele a dizer. – E o Sr. Meyer – acrescentou com
mais urbanidade, impressionado pela manifesta explicação de certos
indícios, que o tinham desconcertado – é talvez o inspector destas
florestas e anda passando a sua inspecção. Noto que fala com
autoridade e que a sua pronúncia não é a de um natural do país... mas sim a de um patrício do rei Jerónimo.
Meyer soltou outra gargalhada.
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