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Que falas serão estas? Quem me fala?
Que vozes é que eu sinto a esvoaçar,
Como aroma de um lírio que se exala,
Como fumos que subam ao luar?
Encho-me todo de ternura e espanto;
Meu coração se aperta em funda mágoa...
Quem fala assim? E ao meu estranho encanto
Respondem só meus olhos rasos de água:
E
entendo enfim! a longa voz chorada
De água que fala dentro destes muros
(Voz de milagre, Santa emparedada,
Lendas de tempos místicos e escuros...)
E
encosto o ouvido ao musgo brando e frio,
Muro falante, ausculto-o ansiosamente:
E
em todo o verde cárcere sombrio,
Correm vozes da triste água corrente:
Aqui, soluça, e chora, e se enrouquece,
Ali, e doce, e trémula, e profunda;
Além, tão comovida que parece
A
voz de alguma rola moribunda.
Depois, e ver, e ver como se solta
Numa sinistra e funda imprecação:
Parece que desvaria e se revolta
Seu lúcido e sereno coração!
Ó
Água, ó filha humílima dos montes,
Cheia de dor cristã, e tão feliz!
És presa, – e corres, liberal, nas fontes;
Canta teu choro; e em lágrimas sorris...
ANTÓNIO CORREIA DE OLIVEIRA
Inverno de 1903, Penha-Verde (Sintra).
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