João Gonçalves Gaspar, Um bispo português retratado na Capela Sistina, In: "Correio do Vouga", 25 de Julho de 2007, p. 8.

Um bispo português retratado na Capela Sistina

O Bispo português representado na Capela Sistina, auxiliando o "Príncipe Perfeito", veio a Aveiro tentar que Joana deixasse o convento.

   


Roma – Capela Sistina – D. Garcia de Meneses, no «Sermão da Montanha» (Pormenor da pintura de Cosimo Rosselli – fins do sé. XV.)

 
  Museu de Aveiro – D. Garcia de Meneses e o Príncipe D. João com a Princesa Santa Joana no Mosteiro de Jesus (séc. XVII).      

A Princesa D. Joana, que em 1472 veio para Aveiro, ficando a viver no Mosteiro de Jesus, em 25 de Janeiro de 1475, com a tomada do hábito dominicano, iniciou o noviciado com o fim de se preparar para a profissão religiosa na Ordem dos Pregadores. Ao ser conhecido o facto, logo se avolumaram os protestos contra a sua resolução. O próprio Príncipe D. João, seu irmão, que mantinha como um dos seus projectos políticos um possível casamento da irmã com algum príncipe estrangeiro, deslocou-se às terras do Vouga, com alguns fidalgos, entre os quais o bispo de Évora, D. Garcia de Meneses. Também este, cortesão e diplomara, se mostrava severo quanto ao procedimento da Princesa e dispôs-se a apoiar D. João.

Chegado a Aveiro, o "Príncipe Perfeito" entrou pela clausura conventual e, com ele, o referido bispo. A prioresa, madre Brites Leitão, como lhe competia, ouviu D. João que lhe afirmou ter agido temerariamente ao investir o hábito a sua irmã e ao aceitá-la como noviça; el-rei, seu pai, e ele não consentiam que ela levasse adiante coisa tão errada. Com humildade, a prioresa respondeu que ela e todas as irmãs consideravam a Princesa como sua senhora e assim lhe obedeciam e a serviam. Por isso, apenas haviam cumprido o desejo de D. Joana.

D. João não se contentou com a resposta da superiora da Comunidade. Pediu então que o levassem aos aposentos da irmã; esta veio ao seu encontro e saudou-o com muita alegria. Em tom magoado mas calmo, o irmão foi-lhe dizendo que o seu procedimento tinha causado grande desgosto a el-rei, a ele e a todo o Reino, e expôs-lhe as razões para interromper a vida claustral. A Princesa, ouvindo tudo com muita atenção, não acedeu ao pedido. Afirmou-lhe, respeitosa mas categoricamente, que fossem todos muito certos de que o que tinha começado, com a graça e a ajuda de Deus, por nenhuma coisa o havia de deixar; se estava em Aveiro e no Mosteiro de Jesus, era com a autorização de Suas Altezas... e ambos presumiam para que fim.

Perante a persistência de D. Joana, o Príncipe chamou em seu reforço o aludido bispo, que se tinha conservado a distância, e contou-lhe o resultado da conversa; porque conhecia bem a sua eloquência, solicitou-lhe que entrasse no debate para patrocinar o seu ponto de vista. O "Príncipe Perfeito", animado pelo prelado a teimar, voltou junto da irmã e tomou-a pela mão; saindo da estância, foram os dois para as varandas superiores do claustro, acompanhados pela prioresa e por outras quatro religiosas, além de D. Garcia de Meneses. Porque era preciso que ela desistisse da sua teimosia, D. João e o bispo irritaram-se e começaram a falar ao mesmo tempo, repetindo os mesmos argumentos e insistindo que despisse o hábito.

A Princesa, tudo ouvindo e sofrendo com inalterável serenidade, respondeu-lhes, em palavras magoadas mas serenas, as quais significaram uma humilhação dolorosa para os dois. Ao rememorar este episódio em 1661, Frei Luís de Sousa, "filho do Convento de Benfica", com o seu estilo próprio, escreveu que ela aproveitou a oportunidade para advertir respeitosa mas categoricamente o bispo de Évora de um modo que ele não esperava, mostrando-lhe a sem-razão dos seus argumentos. D. Joana não se limitou a refutar as razões do prelado, mas increpou-o, tomando uma atitude de certo modo repreensiva da maneira de proceder de um homem da Igreja. O bispo de Évora não teve argumentos para contradizer a jovem Princesa.

De facto, D. Garcia de Meneses não se notabilizou tanto no serviço eclesiástico como em empresas bélicas e em conspirações políticas, nas quais se envolveu. Em 1475-1476, acompanhou D. Afonso V na inglória invasão de Castela e na desastrosa batalha de Tora. Três anos depois, chefiou uma nova incursão em Castela; atacado perto de Mérida, foi vencido, ferido e preso. Em Agosto de 1481, comandou uma frota de vinte e três navios e de dois mil homens que, por ordem do nosso Monarca, foi em auxílio dos italianos contra os turcos invasores; a armada atracou em Roma, perto da basílica de S. Paulo, onde o Pontífice recebeu e abençoou a tripulação. O bispo de Évora pronunciou, na ocasião, um tão douto e elegante discurso, em latim, dissertando sobre a repreensível inércia dos príncipes católicos e a escandalosa vida que levavam alguns prelados; as suas palavras foram aplaudidas de tal forma que um dos presentes, o humanista Pompónio Letto, terá perguntado: — "Santo Padre, quem é este estrangeiro que fala tão bem?" Porém, o prelado e os nossos compatriotas não chegaram a intervir, por os turcos se terem rendido.

Em 1484, já há dois anos regressado a Portugal, o bispo eborense envolveu-se na conspiração do duque de Viseu contra D. João II. Logo após a morte violenta do duque pelo Soberano, foi detido e levado para o castelo de Palmela, onde o meteram numa cisterna sem água; aí acabou por falecer, dizem que empeçonhado. Com muito desgosto, a Princesa teve de suspender o noviciado por motivo de saúde e a juízo de alguns médicos e sacerdotes; mas nem por isso deixaria de se estimular num esforço voluntário e de continuar numa intensa actividade interior. "Esperava em Nosso Senhor de ser 'freira sem profissão' naquela Casa e nela viver e morrer, sem sair nunca para outro estado" — dissera antes a frei Antão de Santa Maria de Neiva, provincial da Observância Dominicana em Portugal e Castela.

Em Roma, a aura de D. Garcia de Meneses fora tal que Cósimo Rosselli, na altura empenhado na pintura dos seus quadros parietais na famosa Capela Sistina, retratou-o no afresco do Sermão da Montanha. Apresentando-se com singular realce, o bispo ouve Tiago de Almeida, cavaleiro de Rodes, notabilizado pela vitória do seu barco  contra dois corsários. Um português, ao entrar nesse espaço, se sobremaneira admira o génio artístico de MigueI Ângelo Buonarroti, bem expresso no Juízo Final sobre a parede do fundo e nas várias cenas bíblicas, nos profetas e nas sibilas do tecto, não pode deixar de olhar para a figura do bispo, destacado entre a multidão que ouve Jesus Cristo.

João Gonçalves Gaspar

Destaque fornecido por
 Maria Fernanda - Aveiro

Página anterior  Página inicial  Página seguinte

Actualizado em
20-04-2018