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Eu queria ser bombeiro... e dos "Novos"

 
           
 

 

 

ra muito miúdo ainda. E lá fui eu, pela primeira vez e pela mão daquela que o Senhor já levou há anos, tentar o contacto com os livros, com a lousa, com os lápis, com as tintas da D. Maria Augusta e com as canadas do saudoso Professor Remígio Sacramento. Naquela Escola do Adro. E logo ali tão longe, quando eu morava paredes-meias com o Bairro de Sá.

No Asilo é que não. Era uma escola muito pequena e não tinha Bombeiros. Eu lembro-me que pedi à minha Mãe que me levasse para a "escola lá de baixo", pois gostava tanto de Bombeiros. E como admirava tanto o senhor António Monteiro, a largar a casa, a largar tudo. As batatas e o bacalhau às vezes nem sequer ainda saboreado!

É que eu morava num primeiro andar e dava conta (ai os ouvidos da mocidade...) que estava a tocar ao fogo. E, lesto que nem um gamo, galgava as escadas e os poucos metros que separavam as nossas casas e gritava: "Senhor Monteiro: está a tocar ao fogo."

Motorista de profissão ele sabia que os carros das "bombas" como se diz na Madeira (e que me causou imensa confusão ao visitar a Pérola do Atlântico) não poderiam sair do quartel se ele ou outro colega da "rodinha" não chegasse lá. E era vê-lo a sair, ali do Beco das Galinheiras, na sua velha bicicleta a pedalar, qual Nicolau do seu tempo, para galgar os mil e tal metros que  o separavam do quartel, com a ladeira da Fonte Nova ainda para vencer.

Sim. Porque o "Ti António Monteiro" era dos "Velhos". Quantas vezes, sentados à soleira da sua porta, ele me contava histórias enormes dos bombeiros. Das corridas, do toque da sineta (que isso de sirenes era um luxo que existiria mais tarde), das agulhetas e da água que às vezes lá não chegava. Das escadas, das vacas que caíam aos poços. De tantas e tantas coisas que eu, embebecido, ia ouvindo. As vezes sozinho, outras com os catraios do meu tempo. Era a nossa "televisão" desses anos já longínquos. Histórias que fizeram história, feitos que nos faziam sonhar. Homens que admirávamos e respeitávamos.

Por tudo isso eu nunca me escusava de o chamar: "Ó Senhor Monteiro, ó senhor Monteiro, está a tocar ao fogo. E deve ser grande, pois já está a tocar há muito tempo". Mas quem se mostrava muito admirada era a minha Mãe. Ela não atinava que eu, sendo dos "novos", (torcendo pelos novos, sim, senhor) fosse tão pressurosamente dar o alerta ao "chauffeur" dos "velhos". Eu também não atinava com o porquê. Mas hoje não é difícil adivinhá-lo. Era o sentido do humanitarismo que, em cada um de nós, desponta, sem disso darmos conta. Como, afinal, envolve toda a vida do Bombeiro Voluntário Português.

Voltando aos nossos quatro anos de escola primária lembro-me que era uma algazarra / p. 52 / pegada sempre que o alarme era dado no velho quartel do Adro. Ninguém mais parava no lugar. Cabecitas ao alto, "traseiros" que se levantavam das carteiras, pedidos (quase sempre recusados) de "ó Senhor Remígio, dá licença que vá fora?". Quem é que descansava enquanto os bombeiros, meios vestidos, meios calçados, capacetes a reluzir nas cabeças ou enfiados nos braços, não se atiravam para os carros (que às vezes era preciso empurrar para que os motores pudessem dar sinal de vida) e depois voltavam a esquina, rumo às Pontes, ou pela Rua do Seixal em direcção à parte nascente da cidade. E se acontecia este último caso, eu ficava inquieto, porque morava para esses lados. É que havia mais um irmão pequenito, atraquinado, e nem sempre a minha Mãe estava em casa.

Bom. Era esse receio e também a possibilidade de um feriadito em que o "Ti Remígio" era parco (contando-se pelos dedos das mãos as faltas que deu ao longo desses quatro anos de escola primária).

Quando isso acontecia ninguém vinha para casa, primeiro era a algazarra do costume, com a D. Maria Augusta a ralhar-nos e a ameaçar-nos com isto e aquilo. Depois um joguito de futebol, com as balizas demarcadas uma entre as duas velhas árvores (ainda hoje companheiras silenciosas desses tempos de felicidade incontida) e a outra cá mais para baixo. Exactamente (muitas vezes) a porta do quartel. Tinha muita "ficha" a bola entrar sem quaisquer dúvidas. Com os calhaus era sempre uma confusão dos diabos. Na porta não. Se entrava, entrava mesmo. Era golo. E dos bons. Sem "engrapadelas".

No final e como "recompensa" do velho quarteleiro lá íamos nós todos, com panos, escovas e graxa, e vai de dar lustro aos capacetes, aos amarelos dos carros ou das botas dos bombeiros. Era uma coisa em que todos nos esmerávamos, porque aqueles eram os "nossos Bombeiros". Viviam paredes-meias connosco. Faziam parte das nossas pequeninas vidas. E entrávamos com eles na disputa, quando havia jogos com os nossos condiscípulos da Glória. Se perdíamos o jogo da bola, era certo e sabido que nos defend íamos com os "nossos Bombeiros". "Eles é que são bons". Dão cada coça nos vossos, que já são "velhos". Era a rivalidade que se manteve pelos tempos fora. Que alimentávamos em criança e que ainda (para que negá-lo?) ainda existe hoje uma resteazinha cá dentro do já cansado coração. Evidentemente que uma rivalidade sã, daquelas em quem chegar primeiro melhor e mais depressa serve o próximo, daquelas em que a maior beneficiária é a comunidade em que os nossos queridos "Bombeiros Novos" servem tão devotadamente.

Daí que eu dissesse em criança, num sonho que nunca fui capaz de materializar:

"Eu quando for grande quero ser Bombeiro, mas dos Novos..."

 
 

José Naia

 
 

págs. 51 e 52

   

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