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O MEU PRIMEIRO DIA DE REFORMADO
Não há ninguém que não pense um dia vir a gozar a liberdade da reforma!
Uns,
chegado esse dia, ao iniciarem essas férias grandes (as férias que antecedem
as outras maiores ainda), têm vergonha da situação, põem-se à margem da
vida como trapos rotos — e choram!; outros, vão para os bancos do jardim, pau
na mão, tossir crónicas bronquites, babando-se e suspirando pelas moças que
passam!; alguns, mais caseiros, embiocam-se em velhos sobretudos e ruminam silêncios
ao canto da lareira; outros ainda, planeiam projectos grandiosos que nunca
chegam a realizar, gastando o tempo a filosofar ou a coçar as espondiloses!
Eu
devo pertencer a esta última classe: ai! tantos planos que eu tenho para a
reforma: Escrever um livro de memórias!
Não
por certo um livro de confissões... que essas, as confissões, só se fazem em
solilóquios muito íntimos, embora se saiba que certo tipo de confissões
servem mais o confessado que o juiz-confessor, facto que abrevia o julgamento e
é considerado atenuante para alívio da pena.
Não!
O livro que sonho é, fundamentalmente, um livro pedagógico, para jovens,
alegre e instrutivo quanto às matreirices da vida. É um guia!
O
supracitado livro é um dos meus sonhos mais caros, embora me escasseie os
conhecimentos técnicos para a sua estruturação. Mas essa deficiência conto
supri-la com a voz do coração.
Outro
plano, seguindo esta ordem prioritária, é sujeitar-me a uma dieta. A receita,
dada por amigo, consiste na cura pelas uvas:
—
levantar às 6 e meia, e comer um bom regaço de uvas; três horas depois, nova
dose; ao meio dia refeição frugal, tipo beduíno; às três da tarde, nova
remessa de cachos; e mais outra dose, três horas depois. À noite, antes do
deitar, uma tisana de alfavaca, acompanhada de bolachas de água e sal.
Garantiu-me
esse amigo que o tratamento é salutar para o sangue e não alterará em nada a
consistência das matérias fecais como é próprio das uvas.
Outro
dos meus propósitos seria deixar de fumar. Definitivamente. Aliás essa ideia
mais se arreigou no bestunto depois de ler as crónicas conselheirais de Lúcio
Lemos sobre as doenças do coração...
Por
último, uma revisão ao canastro, coisa que nunca fiz. Sempre tive um endémico
receio de vistorias e exames cá por dentro. É que, quando era criança e minha
avó me obrigava a confessar ao abade, eu procurava esconder as mazelas d’alma.
Mas ele, o abade prior, que era um autêntico «sherlockolmes», não só ficava
a conhecer o que eu confessava, como ainda acabava por saber de mim coisas que
eu nem já sequer me lembrava de as ter feito! Ora com os médicos sucede a
mesma coisa: — a gente queixa-se de nada ou de pouco, e, vai daí, descobrem açúcar
nas urinas, bicos de papagaio nas costas ou qualquer outra deficiência física.
De
qualquer forma terei de ir ao Dr. João, pois ouço falar tantas vezes da
necessidade duma revisão à nossa constituição... física, — claro! que não
posso deixar de me submeter a essa tortura.
Estas
eram as grandes linhas do meu plano para a reforma. VENHA O DIA DA LIBERDADE E
EU REALIZAREI TUDO!
E
veio o dia!
Levantei-me
cedo, meia hora antes de o Sol fazer brilhar as folhas altas dos eucaliptos.
Espreguicei-me: — sou livre, livre! Não mais marcar o ponto com máquinas
avariadas! Não mais a camioneta do Charlim de bancos sujos a encaixar a malta
para a fábrica! VIVA A LIBERDADE! E bati no peito com os dois punhos
fechados...
Soltei
o cão e fui com ele até ao pinhal. O cheiro da resina e do mentol, a maresia
que vem da Ria, e o aroma do pão quente saído da cesta da padeira —
abriram-me o apetite. E a dieta? Fica para amanhã. E agarrei-me a dois ovos
estrelados, com duas lascas de toucinho fumado, um copo do verde de Sever do
Vouga e arrotei
Porreiro
da vida, chupei um paivante até ao tutano.
Estirei-me
na cadeira fofa e liguei o rádio. Dei de caras com um belo discurso proferido
na Acrópole ou no Parténon, quando um certo político da nossa praça andava
em vilegiatura pelo mar Egeu, se calhar à procura do braço que falta à VENUS
DE MILO ou da flor-de-lis que ornava a coroa de pedra do túmulo de D. João I e
que afinal foi encontrada e restituída pela nossa Branca de Pinho!
Foi-me
fácil, por indução desse discurso, deixar o espírito deslizar para o Mundo
grego. Imaginei-me na era de Péricles, a ver o Fídias, qual Odemiro, de cinzel
na mão a modelar o mármore; ao longe, Demóstenes, o gago, num discurso de
alta eloquência, defendendo a democracia; um grupo de matutos, às tantas,
arrastava-me para a Escola dos Pitágoras, onde discutimos com Menelau, o Reis
Dias e o Eng.º Marnoto, os problemas d’
O Nosso Jornal; daí procurei no descampado o céptico e cínico Diógenes, com
quem comi nabos crus, melão da Jónia e amoras silvestres de Mileto ... eu, na
minha cadeira fofa, sonhando e vivendo a Grécia dos filósofos!
Deixei
o espírito vogar de estrela em estrela e adormeci.
Um
leve tocar no ombro e abri o olho que vê: era a minha mulher.
—
OLHA, LOGO QUE POSSAS HÁS-DE DESENTUPIR O CANO DA FOSSA. JÁ NÃO FAZ DESCARGA
DESDE ONTEM.
Ah!
meus amigos! Que queda vertical! Enquanto esfregava os olhos,
passou-me pela cabeça reivindicar a minha situação de reformado.
—
ANDA, TEM PACIÊNCIA, HOMEM!
Senti
a liberdade fugir-me como água por entre os dedos. Baixado, de cócoras, todo
salpicado, passei o dia inteiro entre a ânsia e o enjoo, a fugir de mim mesmo.
À
noite, depois dum banho salutar e desodorizante, deixei-me cair em reflexões,
abanando a cadeira fofa:
—
SE ISTO CONTINUA ASSIM, MAIS
VALE VOLTAR A MARCAR CARTÃO!
Dezembro - 1983
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