Bartolomeu Conde, Escritos, Cacia, ed. da Portucel, 1985, 94 pp.

ESTA COISA DE SER CONDE...

 

Em 1964, por sugestão da Comissão de Melhoramentos de Taboeira, o Governo de então, por diligência do Governador Civil, resolveu conceder o grau de Grande-Oficial da Ordem de Benemerência à Sr.ª D. Arcelina Moreira, sobrinha da Condessa de Taboeira e herdeira das suas propriedades aquando da sua morte.  

Embora a Sr.ª D. Arcelina não herdasse o título de Con­dessa, nem alguma vez o tivesse usado em vida, o certo é que o povo a tratava por Condessa de Taboeira, tratamento que a Se­nhora não rejeitava e a que era afecta.

Dadas as suas reais virtudes de caridade e bondade manifestadas a todos quantos recorriam aos seus préstimos, aquela senhora era muito benquista na região e, principalmente, no castiço povoado de Taboeira, onde tinha o seu Solar.

Não é de espantar, portanto, que toda a povoação se engalanasse no dia em que as autoridades, vindas de Aveiro, lhe foram prestar a solene homena­gem da imposição das insígnias de Grande-Oficial da Benemerência, acto realizado nos jardins do Solar, à sombra de fron­doso arvoredo.

O povo, sempre grato a quem o trata bem, trouxe para a rua, nesse dia, todos os vasos de flores que Taboeira tinha; e até os pobres, que aproveitam os penicos furados e panelas velhas para os seus manjericos e cravos, ornamentaram em alas floridas o trajecto por onde iria passar a comitiva oficial.

Eu, que nessa altura era um assíduo colaborador do «Ecos de Cacia», sensibilizado com estas manifestações de ternura, fiz naquele semanário um relato mais ou menos lírico do acontecimento. E escrevi às tantas, mais ou menos isto: «Senhora, quando um povo recebe assim os seus convidados, é porque a senhora vive no coração desse povo!»

Fosse por isso ou não — mas creio que foi por isso — a Sr.ª D. Arcelina escreveu-me uma amável carta convidando-me a passar pelo seu Solar, pois gostaria de me conhecer pessoalmente.

Não corri ao convite, mas, passados alguns meses, por companhia que fiz a um amigo que se ia avistar com a Condessa (sempre foi esse o tratamento) tive ocasião de me apresentar àquela distinta dama.

Agradeceu-me então o que a propósito da condecoração eu havia escrito no jornal de Cacia, desviando-se depois a conversa para assuntos triviais do quoti­diano.

Durante essa breve conversação sempre a tratei por Sr.ª Condessa, e ela, por sua vez, chamando-me de Sr. Conde.

Não dei conta, então, do caricato da situação: a Senhora, aceitando o título; eu enfiado no meu fato domingueiro, um Conde por benefício do nome.

Acabada a entrevista e já respirando o ar puro dos ciprestes do jardim do Solar, o meu amigo dá uma sonora gargalhada:

— Gaita!... Sr.ª Condessa para aqui, Sr. Conde para acolá, até me julguei na Corte do Rei de Inglaterra...

Saímos o portão da quinta, a rirmo-nos a bandeiras despregadas, Ainda hoje, quando encontro esse amigo, a nossa conversa é precedida duma boa e saudável gargalhada...

Fevereiro - 1984

Página anterior Página inicial Página seguinte