Biblioteca / Centro de Recursos Educativos da Escola Secundária José Estêvão - Aveiro.
 
 

Recursos Audiovisuais


    

Retroprojector e Retrodiascópio

          De todo o material visual de projecção fixa deverá ser o retroprojector o de maior utilidade, aliado a uma grande simplicidade, facilidade e comodidade de utilização. Tal como o nome indica[1], permite projectar para trás da pessoa que o utiliza, não se tornando necessário voltar as costas aos presentes para exploração dos elementos de uma ima­gem, gráfico ou texto. É um meio audiovisual tão fácil de utili­zar e versátil que, hoje em dia, quase não conseguimos dispensá-lo em aulas, acções de formação, conferências, debates, em suma, em todas as actividades que envolvam situações de comunicação em grupo. A juntar à sua versatilidade, tem a vantagem de permitir efectuar a projecção de documentos à luz do dia, sem necessidade de escurecimento da sala. Mas das suas vantagens e potencialidades nos ocuparemos em breve. Antes de mais, convirá que o utilizador tenha alguns conhecimentos acerca das características deste utilíssimo meio de comunicação audiovisual.

         O retroprojector é uma máquina de projecção constituída essencialmente por uma fonte de luz e um sistema óptico, além de outros elementos também importantes, ainda que complementares. Observemos a figura 1. Tal como aí se mostra, o retroprojector é constituído por uma caixa de secção quadrada - o corpo do aparelho -, na qual existe uma fonte de luz, constituída por uma lâmpada de quartzo de 24 Volt e 250 Watt, e um espelho esférico para reflexão e concentração da luz. Alguns aparelhos mais modernos têm a hipótese de fazer variar a distância do foco de luz, por meio de uma cremalheira ou parafuso de ajuste, permitindo obter certos efeitos de iluminação e de pro­jecção. Outros apresentam ainda a lâmpada protegida por uma tampa de vidro especial que, além de protecção, funciona como um filtro calórico. Aparelhos mais sofisticados apresentam mesmo um sistema de mudança automática de lâmpada, quando esta se funde, prevenindo eventuais dissabores. Quando acontece o percalço de se fundir uma lâmpada num retroprojector, há que tomar a precaução de colocar a nova lâmpada de substituição segurando-a com a bolsa protectora de plástico, em que vem embalada, ou com um lenço de papel ou de tecido. Se tivermos o azar de lhe tocar com os dedos, deveremos imedia­tamente limpá-la com algodão embebido em álcool. Se o não fizermos, a gordura dos dedos atacará a ampola de quartzo e, ao fim de muito pouco tempo, com o calor gerado pela lâmpada, esta ficará deformada e inutilizada.

Figura 1 : Esquema de um retro­projector

         Nos retroprojectores mais antigos, quando se liga o interruptor da lâmpada, dever-se-á também ligar o ventilador para arrefecimento. Nas máquinas mais modernas, a ventilação é regulada por meio de um termostato. A ventoinha (n.º 4) funciona automaticamente, ligando ou desligando sozinha em função da temperatura do aparelho. Para segurança de trabalho, nunca se deverá tapar as janelas de ventilação, existentes lateralmente no corpo da máquina. Sem ventilação, a temperatura atingida inutilizará o retroprojector.

         Na parte superior do retroprojector, encontra-se uma placa de vidro (n.º 5), onde se colocam os elementos que queremos projectar. Sob essa placa está uma lente dupla de Fresnel, que concentra os raios luminosos na objectiva, situada na cabeça de projecção (n.º 7). Esta, fixa numa coluna de suporte (n.º 6), pode subir ou descer permitindo a focagem correcta da imagem. O espelho, acoplado à cabeça de projecção, permite regular a posição da imagem no ecrã, colocando-a na altura desejada.

         O retroprojector, como máquina que é, tem vantagens e inconvenientes, embora as primeiras sejam as dominantes. Como inconvenientes, apenas lhe apontamos o facto de ser necessário haver energia eléctrica no local onde for utilizado e de exigir algumas precauções durante a sua utilização: nunca deverá ser deslocado enquanto a lâmpada não tiver arrefecido, nunca deverão ser obstruídas  as entradas de ventilação e dever-se-á evitar dar-lhe qualquer encontrão enquanto estiver a funcionar, para que não se corra o risco de fundir ou soltar o filamento da lâmpada, inutilizando-a. Teremos ainda de ter o cuidado de colocar o aparelho em boa posição, de modo que o eixo óptico da projecção fique perpendicular ao plano do ecrã. Se não observarmos isto, a imagem ficará distorcida.

         Há também toda a vantagem em possuir um ecrã; no entanto, a sua ausência não impossibilitará a utilização deste meio audiovisual. Poder-se-á utilizar uma parede da sala, desde que esta seja lisa e de cor clara. O retroprojector deverá também ser colocado a uma distância do ecrã equivalente a cerca de uma vez e meia a largura deste, a fim de se obter uma imagem com dimensões que permitam uma fácil visão dos alunos.

         À excepção dos inconvenientes e cuidados a ter, que acabámos de apresentar, o retroprojector apresenta grandes possibilidades, permitindo projectar praticamente tudo, desde imagens transparentes a recortes de imagens ou objectos opacos e, sobretudo, sem necessidade de escurecermos a sala, permitindo que o utilizador esteja sempre voltado para a assistência.

         Vejamos algumas sugestões práticas, com base não só nas experiências feitas, como também na observação de aulas e de trabalhos executados por professores de diferentes níveis de ensino.

         Começaremos por falar da criação das imagens para o retroprojector. Estas são normalmente desenhadas sobre películas transparentes de acetato, à venda em qualquer papelaria avulso ou em caixas de 100 folhas de formato A4, podendo também ser dese­nha­das em qualquer suporte transparente. Mas podemos ainda criar imagens a partir de suportes opacos, recortando-as de jornais e anúncios publicitários, desenhando-as em folhas de papel A4 e recortando-as com uma tesoura, picotando-as com um alfinete, ou mesmo projectando directa­mente as silhuetas de pequenos objectos colocados em cima da placa de vidro do retroprojector.

         O sistema mais habitual de criação de imagens, e também o mais fácil, consiste em desenhá-las di­rectamente (ou, no caso da habilidade para de­senho ser diminuta, por sobreposição sobre imagens existentes) em película de acetato, utilizando canetas próprias de ponta média. Claro que também poderemos usar lápis dermográficos de cores diversas, mas o mais prático será o recurso às canetas próprias. Há dois tipos de canetas de acetato, tendo em conta a resistência do desenho ao apagamento: de tinta facilmente apagável com um pano ou de tinta só apagável por meio de álcool ou de uma borra­cha própria para acetato. Como as imagens, gráficos, esquemas e textos que elaboramos deverão poder servir para futuras utilizações, convirá utilizar canetas de tinta resistente ao apagamento e elaborá-las com uma certa qualida­de gráfica. Textos, imagens, gráficos e esquemas deverão ser claros, de tamanho adequado, havendo toda a vantagem em que estejam enquadrados por uma moldura rectangular, deixando-se mar­gens como se estivéssemos a utilizar uma folha A4 pautada. Esta prática, que para alguns poderá parecer um adorno secundário, uma perda de tempo e um desperdício de acetato, é bastante vantajosa. A cercadura rectangular à volta da imagem que, no caso por nós indicado, corresponde às margens de uma folha A4 pautada, facilita o enquadramento da imagem,  permitindo um alinhamento­ paralelo com as margens do ecrã, evitando o mau aspecto que dá uma imagem torcida ou inclinada para um dos lados. Por outro lado, do ponto de vista psicológico, ajuda a concentrar a atenção do aluno na área central. Posteriormente, a existência de margens no acetato permite um arquivo mais funcional num caderno de argolas de formato A4.

 

 
 

Figura 2: Como organizar um acetato com uma só imagem ou texto.

 

         Observemos os esquemas das figuras 2 e 3, que poderemos considerar como esquemas-tipo daquilo que habitualmente temos vindo a fazer para a organização de arquivos audiovisuais e que temos vindo a aconselhar em acções de formação. Se apenas apresenta­mos uma imagem por folha, começamos por desenhar uma moldura com caneta preta, boleando os vértices, a 2 centímetros da margem esquerda, a 1 centímetro das margens superior e direita e a 3 centímetros da margem inferior. Entre a moldura e a margem inferior, a cerca de 1,5 cm, traçamos uma linha horizontal a vermelho, na qual indicaremos o título do acetato, para arquivo por ordem alfabética no caderno de argolas. Deste modo, facilmente localizaremos os acetatos quando precisarmos de os voltar a utilizar.

Figura 3: Como organizar um acetato com mais de uma imagem.

­         Se pretendemos utilizar uma sequência de duas ou três imagens ou de esquemas na mesma película de acetato, deveremos separá-las por meio de molduras, tendo o cuidado de numerar cada uma no canto superior direito da moldura, tal como se documenta na figura 3. Note-se que só deveremos juntar mais do que uma imagem no mesmo acetato, se todas obedecerem ao mesmo tema ou assunto; caso contrário, não convirá misturar imagens de assuntos diferentes, pois impossibilitará um arquivo correc­to, dificultando, mais tarde, e sobretudo se se possui um arquivo já bastante gran­de, a localização do material pre­tendi­do, levando a perdas de tempo.

         Os sistemas de arquivo acaba­dos de apresentar aplicam-se também quando obtemos acetatos de imagens, textos, esquemas ou gráficos já existentes por meio de fotocópia. Convirá, já que falamos de acetatos obtidos por meio de fotocópias, lembrar que estas só podem ser feitas utilizando folhas de acetato especiais  para fotocopiador. Se usarmos folhas próprias para registo manual correr-se-á o risco da folha ser derretida pelo calor, podendo mesmo inutilizar a fotocopiadora.

         Por vezes, professores esta­giários queixam-se, ao tentarem colorir as imagens sobre a película de acetato, que a passagem do feltro da caneta sobre traços já fei­tos provoca uma esborratadela do trabalho. De facto, isso é muito natural que suceda, porque as canetas, ao passarem sobre traços já feitos, têm a mesma acção que um algodão embebido em álcool. Para evitar isto, quando se pretender colorir uma imagem, dever-se-á fazer o esboço de um dos lados e, em seguida, voltar a folha e efectuar a pintura de toda a superfície do desenho do lado contrário. Deste modo, não haverá o perigo de apagar traços já feitos, podendo-se, inclusive, efectuar uma mistura de cores por meio de tracejado, feito ora de um, ora do outro lado. De maneira semelhante, quando projectamos um texto ou um esquema e pretendemos efectuar sublinhados, durante a aula, ou cobrir ou mesmo preencher espaços deixados em branco, como, por exemplo, num exercício de carácter gramatical, o original ficará sempre protegido e sem nada escrito, pronto para outras utilizações, se lhe colocarmos ou­tra folha de acetato por cima, escrevendo-se sobre esta segunda folha. Mais tarde, poderá ser recuperada, limpando-a com algodão embebido em álcool.

         Quando, nas nossas turmas temos alunos deficientes motores, que necessitam do dobro ou do triplo do tempo para escreverem aquilo que o professor regista normalmente no quadro preto e que alunos normais copiam quase ao mesmo tempo, o retroprojector poderá dar uma grande ajuda. Em situações destas, que temos vindo a enfrentar, o retroprojector tem-nos permitido imprimir um ritmo quase normal às aulas. Há cerca de três anos, deparámo-nos precisamente com um caso difícil, o caso de um aluno que tinha dificuldades em escrever, exigindo um tempo demasiado longo para registar o que quer que fosse. Dar aulas ao ritmo deste aluno, prejudicaria os restantes dezanove. Para trabalhar ao ritmo da maioria, o aluno deficiente ficaria totalmente bloqueado, sem qualquer hipótese de efectuar os registos necessários. A solução para este problema encontrámo-la no retroprojector e no recurso a quatro folhas de acetato, sempre as mesmas, utilizadas em todas as aulas. Tudo quanto dizia, todas as perguntas formuladas, todas as indicações fornecidas aos alunos, eram por nós fornecidas oralmente, mas, ao mesmo tempo, íamos fazendo o seu registo nas folhas de acetato. Essas folhas eram, no final da aula, entregues ao aluno deficiente, permitindo-lhe, em casa, passar calmamente todos os elementos para o caderno. E, no dia seguinte, antes de começar a aula, entregava as folhas de acetato limpas, que nós voltávamos a utilizar. O resultado final foi francamente positivo para toda a turma. Embora o ritmo da aula se tivesse tornado  ligeiramente mais lento, os alunos habituaram-se a registar tudo nos cadernos, tendo diminuído consideravelmente a frequência de erros ortográficos e melhorando mesmo o aproveitamento de alguns alunos mais fracos da turma.

         O retroprojector apresenta ainda outras potencialidades de utilização, permitindo montagens interessantes com diversos acetatos sobrepostos e dobráveis. Pode-se, por exemplo, projectar imagens com movimento, por meio de montagens feitas em plástico transparente. A ilusão de movimento pode também ser conseguida por meio de projecção  de imagens obtidas com luz polarizada e adaptando um disco móvel com motor eléctrico aplicado na cabeça de projecção.

         As potencialidades do retroprojector são, pois, múltiplas, dependendo da imaginação do utilizador, que, seguramente, encontrará muitas outras aplicações. A título exemplificativo, poderemos mencionar alguns trabalhos feitos com professores do ensino básico. Depois de lhes termos mostrado um diaporama e explicado a maneira como o elaborámos, um grupo de trabalho decidiu criar um retrorama para utilização numa aula, intitulado «As Vozes dos Animais»[2]. Após a elaboração do guião, à semelhança do que se faz para um diaporama, o grupo, numa folha de acetato, desenhou seis rectângulos rigorosamente iguais, um para cada imagem, criou uma máscara rectangular numa folha de papel de formato A4 de maneira a projectar apenas uma imagem de cada vez. Gravou, em seguida, numa cassete o texto e os sons, deixando um breve intervalo de alguns segundos entre o texto correspondente a cada imagem. Durante a reprodução da cassete, a cada momento de pausa correspondia a mudança da janela para a imagem seguinte, resultando uma sequência audiovisual (som e imagem) idêntica à que se obtém com um diaporama. Daí a designação de retrorama que lhe atribuímos.

         Do exemplo anterior, pode-se concluir que as potencialidades do retroprojector estão dependentes da capacidade criadora do seu utilizador.

         A adaptação de uma cabeça especial de projecção, fixa na objectiva, permite a projecção de diapositivos, transformando o retroprojector num retrodiascópio. Podemos, pois, dizer que o retrodiascópio é um aparelho com características de dois diferentes reunidas num só. No entanto, as funções como diascópio são bastante reduzidas, ficando muito aquém das conseguidas com um diascópio, pelo que nos parece preferível ter aparelhos independentes para cada função.

         Embora ainda não tenhamos dito tudo acerca do retroprojector, apenas acrescentaremos que é possível adaptar-lhe rolos de acetato, que permitem ter sempre uma superfície limpa para escrita imediata durante a realização de uma aula, à semelhança do que habitualmente se faz com o quadro preto. Igualmente, o retroprojector permite efectuar desenho directo em acetato a partir de diapositivos. Se colocarmos um projector de diapositivos junto de um retroprojector, apontando o feixe luminoso para o espelho, obteremos uma imagem no acetato, que poderá ser facilmente desenhada por decalque[3].

         À maneira de memorando, aqui deixamos uma breve relação daquilo que um professor deverá ou não fazer, resultante da observação efectuada durante alguns anos em aulas de professores estagiários:

         1 - Nunca obstruir as janelas de ventilação, colocando livros ao lado do aparelho.

         2 - Nunca arrastar o aparelho com ele em funcionamento para centrar a imagem no ecrã ou para o colocar à distância conveniente. Uma lâmpada funde facilmente com as vibrações enquanto está quente.

         3 - Escrever os textos, os esquemas e os gráficos com letra legível e suficientemente grande, de preferência com cores escuras, para facilitar a leitura. As cores claras poderão servir para colorir as imagens.

         4 - Utilizar racionalmente a superfície do acetato, elaborando esquemas claros e sugestivos.

         5 - Não pôr a sala às escuras antes de utilizar o retroprojector. Isto revelará que o professor desconhece as características do retroprojector e que nunca o utilizou.

         6 - Ter a preocupação de manter as imagens bem focadas e centradas no ecrã.

         7 - Não deixar de utilizar o retroprojector somente por falta de um ecrã na sala. Conseguem-se boas imagens mesmo numa parede de cor clara.

         8 - Não deixar que a luz do sol incida na zona de projecção. Não há nenhum aparelho, por mais potente que seja, que consiga sobrepor-se à luz solar. A imagem ficará anulada.

         9 - Não criar acetatos apenas para uma única utilização. Fazendo-os com qualidade, poderão servir mais vezes, poupando tempo e dinheiro ao professor.

         10 - Havendo meios na escola, contribuir para o enriqueci­mento da mediateca, deixando arquivar cópias dos acetatos para utilização de todos os professores e para o próprio, mais tarde.
     In: Henrique J. C. de Oliveira, Meios audiovisuais e tecnológicos aplicados ao ensino, Aveiro, 1992, pp. 38-46. (edição limitada do autor). 

     [1] - O nome do aparelho é constituído por dois elementos - retro=`para trás' e projector -, precisamente pelo facto de que, ao contrário de outras máquinas da mesma classe, permite projec­tar para trás do utilizador. É também conhecido por outros nomes, tais como omniscópio, poliscópio, vistógrafo e até por diascópio, o que consideramos incorrecto, devendo este último termo ser deixado para designar um tipo específico de aparelho audiovisual.

     [2] - Este trabalho foi feito em Arouca, em 3 de Julho de 1989, durante uma acção de formação por nós dinamizada, pelo grupo de trabalho constituído pelos professores Laura Ataíde Magalhães, Carmen Almeida Cravo, Felicidade Costa Oliveira, Fausto Rodrigues Portugal e Berta Vieira.

     [3] - Utilizámos já o retroprojector para muitas outras funções, tais como para realização de cenários para teatro, como auxiliar da dramatização na sala da aula, para projecção de imagens com movimento recorrendo a tiras de acetato com desenhos, etc.

 

 

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