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Francisco José Rito, Palavras Litorais, 1ª ed.,ed. de autor, 2012, 66 páginas.

Mais uma História sobre o «Grande Naufrágio de 47»

No constante dobrar do tempo, os acontecimentos de maior ou menor importância que outrora ocorreram vão desaparecendo da memória dos vivos e caminharão depressa para o total esquecimento, se não houver documentos que os registem e que permitam às gerações seguintes conhecê-los.

Quem não ouviu falar do grande naufrágio de 1947 que vestiu de luto a Murtosa e outras povoações piscatórias, em que se perderam 4 traineiras de Matosinhos e a vida de 152 tripulantes, na fatídica madrugada de 2 de Dezembro?

O que muitos não sabem é que esse trágico incidente, amplamente documentado, acabaria por se cruzar com outras vidas, em pequenas histórias, mas não menos dignas de registo. Não sabem, porque muitas dessas histórias se perderam no arrastar dos anos e das vidas, sem que alguém as quisesse registar.

Naquele tempo, as varinas murtoseiras atravessavam na Bateira do Manuel Galinha, da Cova do Chegado para o outro lado, seguindo depois a pé, pelos campos de Sarrazola, até ao Areal da Angeja, local de paragem para os camiões carregados com o peixe de Matosinhos, onde elas enchiam as canastras e tomavam cada uma o seu rumo, pelas ruas de Frossos, Loure, São João de Loure, Eixo... e por onde mais as pernas as levassem, apregoando o que o mar dera.

Num rancho de mulheres e cachopas iam a Francisca Carôla, a Celeste Carôla, a Maria do Rosário Pinho, a Isméria Pinho, a Generosa Cunha, a Maria do Carmo Borras, a Maria do Rosário Carôla, a Ana Chanuca, a Lurdes Lamarôa, a Ana Iria, a Maria José Lélinha, a Rosalina Meleôa – já falecidas – a filha Celeste Iria e a Angelina Lélinha – minha mãe – as irmãs Maria Augusta e Ana Rosa Campeiras, estas últimas ainda meninas. De todas, a Ti Rosalina Meleôa era a que caminhava até mais longe, por ter a venda em Macinhata do Vouga.

Na véspera do naufrágio já o camião não tinha ali parado. E elas, sem peixe para vender e para não fazerem a mesma viagem no dia seguinte, decidiram esperar. Perto do Areal de Angeja havia o palheiro da Maria Joaquina "Louceira", apelidada assim por vender louça: canecas, pratos, travessas e assadeiras de barro vermelho. Quando não faziam venda e resolviam ficar para o outro dia, era no palheiro da "Ti Joaquina" que pernoitavam. A canastra virada de fundo ao ar servia de cabeceira e o oleado de cobrir o peixe, estendido por cima das pernas, amparava alguma goteira que caísse das telhas de fontela, na sua maioria partidas, de tão velhas.


Ao fim da tarde do primeiro de Dezembro, decididas que estavam a esperar pelo peixe da manhã seguinte, falou-se no que haveriam de jantar. Sem a venda desse dia, as algibeiras estavam tão vazias quanto o estômago e a noite prometia ser longa e penosa. Angelina, uma das mais novas e por isso mais afoita, resolveu-se a ir procurar o que comer pelas redondezas. Na entrada de Angeja, na beira do "Rio Velho", havia uma pequena tasca (hoje a Casa dos Leitões) que vendia também algumas mercearias, mas que já se encontrava fechada àquela hora. E que aberta estivesse, compraria o quê, se o dinheiro tinha ficado por ganhar?

Mas a fome apertava e o estômago dava sinais de impaciência. À porta da loja havia uma velha dorna onde se podiam ver uns rabos de sardinha salgados, amarelados, que o comerciante tinha deitado fora, provavelmente por já não estarem em condições de vender. Para ali atirava também a fruta apodrida e as folhas de hortaliças secas, que seriam depois dadas aos porcos.

Angelina não pensou duas vezes, pegou no peixe e levou-o consigo para o palheiro onde estavam as colegas. Se umas se recusaram a comê-lo, outras houve que se juntaram a ela e os rabos salgados, depois de lavados no Vouga, foram ali mesmo assados, com uns ramos secos que conseguiram esgravatar nas redondezas. Comeram o peixe só, sem pão, sem uma batata, sem uma pinga de água potável, que bem falta lhes fez durante a noite, depois de ingerirem tanto sal. E com esse jantar se deitaram e sentiram o temporal que toda a noite abanou o palheiro, sem saberem que ali bem perto, a metros da costa, tantos lutavam com as vagas e muitos perderiam a vida.

Na manhã seguinte esperaram pelo camião, que uma vez mais não apareceu.

Sem notícias, resolveram então regressar a casa, mas para não pagarem a travessia ao (;alinha, fizeram o percurso todo a pé, por Fermelã, Canelas e Estarreja, até à Murtosa. Foi na descida da Ladeira de (:anelas que souberam da desgraça que se tinha abatido sobre Matosinhos e correram para casa, aflitas por saber quantos filhos da terra tinham desaparecido nesse dia. Da Murtosa morreram treze. E mais não foram. porque o homem que viria mais tarde a ser sogro de Angelina, o Manuel Rito – meu avô – e os filhos, que tinham sido dispensados da Traineira São Salvador, por ser fim de safra e por terem ganha-pão na Ria, desobedeceram às ordens do Mestre, e não responderam à chamada...

 

 

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04-05-2018