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N.º 20

Publicação Semestral da Junta Distrital de Aveiro

Dezembro de 1975 

Cartas para Mário Sacramento

José Régio

António Sérgio

Ferreira de Castro

Casais Monteiro

Manuel Mendes

 

Do incontável número de cartas recebidas por Mário Sacramento, ao longo de uma vida assaz breve mas cheia, subsistem algumas centenas, quase todas assinadas por nomes dos mais grados da Literatura, da arte, da ciência e da política portuguesas. Quando não do punho de um ou outro consagrado intelectual estrangeiro. As restantes desapareceram na voragem consequente de uma governação que utilizava grilhetas para amarrar ideias.

Da correspondência que subsiste, publicamos, seguidamente, sem preconcebido espírito selectivo, missivas de Régio, Sérgio, Ferreira de Castro, Casais Monteiro e Manuel Mendes. Expressivos documentos, servirão, além do mais, para darem a dimensão em que os seus autores tinham a figura de Mário Sacramento.

 

Portalegre, 1/12 /945

Meu prezado Camarada:

Há muito tempo que lhe queria escrever, pois deixei sem resposta a sua última carta; e, até certo ponto, ela tinha ou requeria resposta. Julguei que nos encontraríamos no Porto, durante as férias grandes. Escrever cartas ou conversar não são a mesma coisa; sobretudo, quando, por excesso de trabalho, quase sempre escrevo cartas à pressa. Não nos encontrámos então; – algum dia será. Está agora em Lisboa com permanência?

Já supôs que lhe escrevo hoje para lhe agradecer o seu livro. Li-o todo grandemente interessado, e creio que não é favor nenhum ao autor dizer que é um livro notável. Duas principais coisas, no meu entender, o valorizam, – e que são nada comuns em livros portugueses: a segurança de pensamento (ou a coerência, mantida em todo o livro, da teoria) e a penetração psicológica. Sem dúvida, o meu Amigo tem raras qualidades para o ensaio crítico ou especulativo; e pode tê-las ainda para outros géneros, (o romance psicológico, por exemplo) se, a par das qualidades já reveladas, tem as outras, mais puramente artísticas, necessárias à obra de arte literária. Alegra-me, profundamente me alegra, encontrar o livro dum rapaz em que – finalmente! – não encontro mais uma vez o petulante simplismo que os mais dos rapazes de hoje por aí exibem como título de glória.

Não quer isto dizer que sempre esteja eu de acordo com o seu livro – o que aliás não tem senão importância pessoal e secundária. Sendo um livro de interpretação, estruturado em relação a uma intuição central, – afigura-se-me que, por um lado, vários aspectos do Eça não chegam a poder ter cabido nele, e, por outro lado, aquele aspecto apreendido como centro da sua personalidade (a Ironia) sai dessas páginas engrandecido, complicado, enriquecido. Mais simplesmente: Há aspectos do Eça que o meu amigo deixa – e tem de deixar – de lado. Em contrapartida, a ironia do Eça aparece (ou aparece-me) mais rica no seu livro, do que na obra de ele próprio.

Um dia conversaremos, e então me explicarei melhor. Isto não é senão um apontamento do que gostaria de versar consigo. Em todo o caso, sobre este apontamento se desenvolveria a crítica mais séria que eu poderia tentar fazer à sua obra. Confesso, porém, que me não interessa isso de maior; – pois o que me interessa é poder aplaudir o livro dum novo em que (valha-me Deus! Agradar-lhe-á este louvor?) já se manifestam experiências e virtudes de homem maduro. Falo não de velhice – não – mas de maturidade, que é a verdadeira idade do homem.

Sou, com sincera estima,

                                    o seu camarada agradecido,

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Meu caro Camarada

Soube ontem que apresentou o seu Eça de Queirós ao concurso do Primeiro de Janeiro e que lhe preferiram um calhamaço que não li mas que pessoa competente me diz ser um amontoado infinito de imbecilidades (como era de prever). Fica percebendo o meu caro Camarada à sua custa por que tenho dito e repetido que Portugal continua sendo o Reino da Estupidez, onde a Estupidez triunfa sempre. Estas palavras não o podem consolar de ter nascido nesta terra, e de nela viver; mas senti eu a obrigação de dizer-lhas. A celebração do centenário de Queirós é espectáculo perfeito para a ironia queirosiana.

23-XII-1945                                                       Seu


Lisboa, 21 Set. 57 Meu prezado Amigo:

Gostei muito de saber, pela sua carta, que se vai realizar um Congresso Republicano em Aveiro. E gostei porque estou certo de que nele se exprimirão as nossas aspirações de justiça e liberdade entre os homens – duas conquistas sem as quais a vida é bem triste.

O meu actual trabalho – um trabalho muito longo realizado com uma saúde bastante precária não me permite escrever a tese que me pede. Envio-lhe, porém, uma entrevista que dei ao «Diário de Lisboa» sobre a censura, quando em 1945 houve uma ligeira concessão de liberdade entre nós; e ainda uma mensagem que enviei a uma reunião efectuada na Voz do Operário, onde examino também a situação do nosso pensamento algemado. Se lhe interessar ler ou que alguém leia alguns trechos desses dois documentos pode fazê-lo, pois o que escrevi então continua válido e não tenho que lhe alterar uma só vírgula.

Com as minhas saudações aos congressistas e com a minha fé na liberdade, no progresso humano e na justiça dos dias vindouros, mando-lhe um grande abraço.

Seu amigo e admirador

 

Rio de Janeiro, 21 de Fevereiro de 1959

Meu prezado Camarada:

Tenho-me visto em grandes dificuldades para organizar uma antologia da crítica portuguesa moderna, trabalho que me foi encomendado pelo Serviço de Documentação do Ministério da Educação, e o Mário Sacramento é um dos autores «responsáveis» por isso. Com efeito, tendo de conciliar exigências de espaço, género, qualidade, etc., os autores com menos obra publicada, oferecendo pouco por onde escolher, têm-me deixado por vezes interdito.

Pelo que particularmente lhe toca, pensei desde logo no seu «Retrato de Eça de Queiroz». A dificuldade começou por... não ter ainda conseguido o texto – ao passo que o seu livro posterior sobre Eça não me parecia susceptível de se lhe tirar um pedaço «a fingir» de coisa inteira, e eu prefiro, como é natural, escritos inteiros, a fragmentos, aos quais só penso recorrer em último caso, ou em circunstâncias especiais (no caso de Bruno, por exemplo, do qual me pareceu conveniente dar um excerto da «Geração Nova», a crítica ao Eça, por ser realmente um texto inaugural dum ponto de vista «moderno»). Vi um fragmento seu sobre a Florbela, mas esse demasiado breve. Pensei então em pôr-lhe o problema: autoriza-me a publicar o referido «Retrato», ou, caso o seu estudo sobre a «Florbela» seja, como suponho, ensaio curto (relativamente) preferirá que eu opte por ele, como expressão sua mais recente?

Aqui lhe deixo o problema, com o pedido de me conseguir, no primeiro caso, um exemplar do «Retrato», e, no segundo, de me mandar o texto completo da «Florbela», caso não exceda as 15 folhas dactilografadas (aproximadamente; claro que se tiver mais uma ou duas não haverá mal nisso).

O que lhe peço é uma pronta resposta. Vou em fins de Março para a Bahia, e queria ter até lá todo o material reunido. Também lhe peço os dados essenciais bibliográficos. Tenha paciência, e ajude-me nesta empresa, que, com a displicência habitual à nossa gente, deve calcular como se torna difícil!

Afectuosas lembranças do seu camarada que muito o estima

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Portalegre, 11/4/1959

Meu prezado Camarada:

Peço-lhe que me desculpe a demora destas linhas, demora só justificada pelo trabalho em excesso que sempre tenho, e o correlativo cansaço.

Muito obrigado por se ter lembrado de mim com a oferta do seu livro sobre Fernando Pessoa. É um denso, belo e ruminado ensaio, que vem enriquecer a bibliografia, já relativamente extensa, sobre o Poeta.

Vejo, aqui e além, que o Mário Sacramento voltou à actividade literária. É caso para todos nos felicitarmos! Sempre pensei que, apesar das dificuldades, se pode acumular tal actividade com outras. Doutro modo, como se faria arte, pensamento, cultura, em Portugal?

Li, e agradeço, o artigo (antes breve ensaio) que dedicou às minhas «Três Peças em um Acto». Com várias coisas que aí diz me achei de acordo. Prouvera a Deus que sempre me criticassem (ou até atacassem) com tal seriedade e inteligência.

Espero mandar-lhe breve o mais recente volume do romance cíclico «A Velha Casa».

Com o agradecimento e a alta estima do

 

Meu caro Mário Sacramento: Desculpe-me não ter respondido ainda à sua carta e sobretudo ao seu convite – ao convite sobretudo. Mas eu, neste momento, não sei para onde me hei-de voltar, com trabalho atrasado três palmos acima da cabeça. As colaborações, as traduções, os livros da minha pobre lavra – aquilo com que exclusivamente, e tão mal, ganho a vida, nem me deixam tempo para as boas devoções, que é o melhor do mundo. Paciência!

Quando tiver um momento livre não me esqueço de si. Conservo do bom tempo em que nos conhecemos um bom sentimento também. Eu começava a sentir, então, as primeiras sombras do Outono, embora ainda no quente Verão, e a vossa camaradagem jovem foi um belo sopro de alegria. E quando voltaremos nós à fraternidade dessa época? Tanto gostava que a 2.ª República se formasse numa atmosfera assim! Havemos um dia, vocês têm de me ajudar, de criar seja o que for, na vida pública portuguesa, sob o patrocínio do nome de Bento Caraça, a expressão mais alta, larga, comovida e inteligente dessa forma de convívio que tão grata nos foi e de que tanto carecemos.

Perdoe-me e creia-me seu muito amigo e admirador

10 Fev. 1960

 

páginas 40 a 42

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