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N.º 20

Publicação Semestral da Junta Distrital de Aveiro

Dezembro de 1975 

Mário Sacramento e o neo-realismo

Por João Seiça Neves

O problema central do neo-realismo, ou melhor, o que de novo traz à questão estética é o método. O problema central do neo-realismo é o problema do método. E, desde logo, o método de análise e interpretação histórica, o método que analisa a presença do homem no mundo, a sua capacidade de o transformar, a sua capacidade de reflectir a luta entre eles pela distribuição de bens, o método que analisa os meios de troca e os situa, o método que reflecte, estimula e analisa, em suma, a luta de classes.

O que de facto o neo-realismo traz de novo à arte é a luta de classes. A arte é uma importante arma da luta de classes. «Et voilà» a razão porque as classes dominantes veiculam a arte como seu instrumento, como templo sagrado das suas ideias políticas, morais e sociais.

Não é porém a arte quem move as pedras angulares do devir histórico, porque é uma super-estrutura, cuja base assenta num determinado modo de produção que a origina e desenvolve. É por isso que a arte, em cada época histórica, serve a um tempo os valores dominantes, e servindo-os ultrapassa-os e ultrapassa-se. A arte burguesa, por exemplo, desenvolvendo-se sobre o modo de produção capitalista, pretende justificar a propriedade privada e alienar as lutas que procuram apressar o seu declínio inevitável. Outra não é a razão porque, para combater, por exemplo, o nosso neo-realismo, nos aparecem os «slogans» de «arte pela arte», «arte pura» ou «arte descomprometida» e outros mais ou menos acrobáticos, segundo a cor que o camaleão capitalista veste.

O que, portanto, de algum modo, distingue o escritor neo-realista do escritor burguês é o seu compromisso com a história, o seu que-fazer no mundo, a sua presença na dialéctica da transformação.

Enquanto a poesia, o romance, a pintura, a música, a escultura ou a cerâmica realistas são a arte do nós, a arte burguesa é o extremo individualismo, é a muralha de altos muros fechados à realidade, à social, a estéril repetição de experiências pessoais, a ficção mórbida do fantástico, a recusa dos novos e permanentes enriquecimentos científicos, o eu fechado em mim, o eu para cá da vida, o eu, o eu, o eu.

O neo-realismo português é assim um movimento eminentemente ideológico e estético, que nos aparece encravado entre a segunda guerra imperialista, a Guerra Civil de Espanha, e o avanço do nazi-fascismo na Europa e no mundo; e reflecte ao nível estético o processo de ruptura entre as forças, mascaradas ou não, que pretendiam – e adiaram – a salvação do capitalismo e aqueloutras que, alinhando na consabida táctica do franquismo, procuravam as vias para uma democracia do tipo popular e socialista.

E, é assim que os iluminados feiticeiros da criação ficam divididos em dois grupos, como aliás Mário Dionísio afirma na Vértice, em 1948, vol. VII, a págs. 174:

«Sei bem que é difícil e traiçoeira esta distinção. Mas olhando o panorama geral dos nossos ficcionistas, não vejo remédio, tecnicamente falando, senão encará-los com mais ou menos precisão, divididos em dois grupos: o dos que põem acima de tudo o lado estético, para não dizer formal da sua obra; e os que põem acima de tudo a própria estrutura ideológica dela.»

E aliás, a mero título comparativo, citemos a opinião de Régio na Seara Nova n.º 619 de 1934:

«A incultura em Portugal ainda torna em Portugal tudo isto mais grosso... não admito que me encafuem carapuças, ainda que mais pequenas que a minha cabeça (refere-se a um artigo que Álvaro Cunhal publicou na Seara n.º 615 e, posteriormente transcrito no Diabo, onde atacava o individualismo, umbicalismo na fraseologia de Cunhal de Régio, a propósito das Cartas Intemporais deste), sobre o muito relativo interesse que lhe mereceu a literatura, a arte e a crítica. Mas então, / 36 / porque hão-de esses homens falar, quase exclusivamente, de literatura de crítica? Porque não hão-de ocupar-se directamente dos problemas que em primeiro lugar lhes interessam? Porque hão-de contribuir para a incultura geral persistindo em confundir tudo?»

E contrastando, ouçamos a voz de gigante de Joaquim Namorado em Vértice, vol. I, a págs. 56:

«Diferentes têm sido as reacções perante o constante aparecimento de obras de novos autores: gritam uns (certamente os mesmos que anteriormente lamentavam o não aparecimento de novos autores) que se assiste a uma invasão do país das «letras» – esse sagrado templo onde vegetavam os eleitos – e tratam como intrusos os jovens que se atrevem a apresentar-se sem cartão de visita, como em terreno conquistado; gemem outros pela falta de espiritualidade dos novos artistas, a quem acusam de ausência de nefelibatismo, de maquilhagem que fez o sucesso de certos talentos pelo seu exotismo».

O neo-realismo é fruto e o reflexo comprometido da discussão mais vasta que na Europa, ao nível da pena e da arma, travaram materialistas e idealistas. Enquanto alguns escritores importavam Nizan, descobriam Luckas e contemplavam à socapa Marx e Lenine, organizando simultaneamente a resistência ao fascismo em Portugal e procurando ainda a solidariedade com os republicanos espanhóis, primeiro, e com as resistências francesa e italiana, depois, outros, como por exemplo o próprio Régio, um dos grandes cavaleiros andantes da arte pela arte, escrevia no seu Cântico Negro:

«Criar desumanidade,

Não acompanhar ninguém».

 

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Assis Esperança, Mário Sacramento, Dr. Dulcídio Alegria, Ferreira de Castro, Álvaro Salema e João Sarabando, convivas de um almoço íntimo comemorativo dos 50 anos de vida literária de Ferreira de Castro. Na Pensão Suíça, em Vale de Cambra.


Daí que seja compreensível que muitos dos que construíram ou intervieram na construção do neo-realismo em Portugal tivessem associado uma indesmentível militância política a uma militância estética. E só para citar de memória lembremos: Soeiro Pereira Gomes, Joaquim Namorado, Alves Redol, Afonso Ribeiro, Manuel da Fonseca, Mário Dionísio, Álvaro CunhaI e muitos outros.

Finalmente, para situarmos, em resenha mais do que sumária, o aparecimento do neo-realismo, dir-se-á que após o surto de ficção naturalista, que atingiu em Eça e Teixeira, os seus mais vivos e coerentes símbolos, encontramos uma fase nebulosa em que o movimento desaparece com dinâmica e encontra representantes que nada de novo traziam, caindo no formalismo, no / 37 / tradicionalismo, no chauvinismo; e alguns, até, buscando a literatura erótica apenas como masturbação, caem na pornografia, e temos Abel Botelho, Carlos Malheiro Dias, Antero de Figueiredo, Alfredo Gális, Sousa Costa e outros.

Com Fialho de Almeida, ainda que partindo de uma base naturalista, anuncia-se o surto subjectivista, que se aprofundaria em Raul Brandão e se colectivizaria na expressão mais moderna e teorizada do movimento futurista de Régio, João Gaspar Simões, Branquinho da Fonseca, Almada Negreiros e alguns mais.

A literatura conhece depois, e que saibamos só em Portugal tal aconteceu, um período já de inquietação colectiva, normalmente bem intencionado, mas muito retórico, demagógico, medíocre e quase sempre místico e utópico, como acontece nos romances de Manuel Ribeiro e Nuno de Montemor. Neste período justo é destacar-se a obra enorme de excepção e exemplo que foi a de Ferreira de Castro, que apenas cronologicamente diz respeito a tal período, mas que se eleva muito acima dele, pela coerência, pela temática e até pela forma.

E quando em 39 Redol publica Gaibéus, havia já um movimento humanista amadurecido, que se traduzia em críticos, ensaístas, poetas e romancistas em busca de expressão própria, é certo, mas já profundamente consciente da sua posição no mundo e interveniente nos momentos próprios da sua transformação e que foram desfazendo, na prática, as acusações de esquematismo ideológico que era (e é costume) dirigir-se ao neo-realismo.

 

MÁRIO SACRAMENTO

Mário Sacramento não é um criador do neo-realismo. Nesta fase a sua única contribuição ao nível da imprensa oficial do neo-realismo é um pequeno conto – «Pigmaleão», publicado no Sol Nascente de 39. A contribuição de Sacramento é ao nível do ensaio, é a da reflexão histórica sobre a expressão de acontecimentos que sentiu na carne – «Caloiro de Medicina, eu fora transitoriamente para Coimbra, pouco depois de passar por uma experiência crucial que me obrigava a montar em pêlo, aos 17 anos, o que outros só conheceriam a vida inteira por ouvir dizer. (1)». É aliás o próprio Sacramento quem aceitando justifica o seu relativo pequeno papel de criador ao nível da experiência neo-realista:

«Se preferi vivê-los a escrevê-los por vezes, tem isso uma significação: a que obrigou o ensaísmo a transpor para o acto que modela a palavra que conduz ou interpreta».

Só já relativamente tarde, com alguns artigos em «O Diabo», começa a gastar a «sua primeira dentição intelectual», dentro do campo do realismo científico. E só depois da segunda grande guerra imperialista, ou próximo do seu terminus Sacramento aparece verdadeiramente empenhado na polémica entre realistas e naturalistas.

E talvez por estar empenhado nos acontecimentos que motivaram o neo-realismo, ou pelo menos lhe deram o conteúdo de movimento de resistência – que o foi sem dúvida – mas não estando directamente empenhado na sua organicidade intrínseca Mário Sacramento escreve:

«Surgiu assim uma dialéctica interna à geração de 40 (...). Menos sensíveis às exigências da literatura e, até, à compreensão dela, apressaram-se alguns a reduzir a complexidade da questão a esquemas demagógicos que, evidentemente, tinham larga audiência, pois sempre foi ambição comum dos homens dormir sobre a facilidade. António Sérgio punha objecções? Era um bluff. José Régio tinha um pendor místico? Instituía-se-lhe o umbigo em pelourinho público. João Gaspar Simões continuava agarrado aos cânones psicológicos em arte? Era um formalista. Quem hoje percorra essas páginas de doutrina e não tenha vivido a época, dificilmente compreenderá o mal necessário que houve nelas. A expressão das ideias fazia-se como podia e não como se queria (...)» (2).

E mais tarde:

«O neo-realismo foi colhido, ou tolhido, com efeito, por uma adversidade a que não conseguiu eximir-se: a de a literatura ser a única expressão viável de aspectos da vida social que, noutras circunstâncias, teriam cabido ao jornalismo, à política e ao livro doutrinário» (3).

E assim põe Sacramento um problema fundamental: o da recusa de uma perspectiva tão-só pragmática sobre o neo-realismo. E assim exprime uma preocupação que em algumas alturas se tornou realidade: a de se não compreender o neo-realismo como método dialéctico aplicado à arte. E isto porque o materialismo não é uma mera soma de dogmas, nem a actual fase (qualquer que ela seja) de desenvolvimento socio-político se explica por uma abstracção morta, como dogma estéril ou como profissão de fé.

O materialismo dialéctico é um método de investigação, mas ficaria ou ficará incompreensível com raciocínios metodológicos que não procurem aplicar o método justo ao estudo da realidade, ou melhor, que não procurem a solução concreta para cada problema concreto, como muito bem concluía Lenine. E não haja dúvida de que o neo-realismo português correu efectivamente esse risco, quando sobrevalorizou o aspecto meramente ideológico, independentemente do fenómeno estético, como se um e outro não fossem incindíveis. / 38 /

O outro problema fundamental que a obra de Mário Sacramento põe é este: a oposição da literatura de 50 à de 40, ou melhor, o problema dos dois neo-realismos.

Certo é que a década de 50 retoma o predomínio dos valores subjectivos, o que aliás tinha acontecido durante o modernismo, subjectivismo ora radicado na radical solidão do homem, na estratificação do poeta e do romancista perante o que faz ou o que cria, num certo sentido contemplativo não perante a realidade mas antes perante a obra. E o problema que o segundo neo-realismo poderá pôr é esse retorno ao intimismo. Intimismo que foi sempre apanágio do neo-realismo, como o próprio Sacramento afirma:

«É porque pressupõe uma filosofia de opção monista e materialista que o neo-realismo existe. E é porque dentro dela cabem todas as manifestações do existente e do subjectivo que o neo-realismo pôde ser, desde sempre, intimista, embora só recentemente o seja em mais largo âmbito» (4).

Mas, o que basicamente diferencia o primeiro do segundo neo-realismo é o primeiro ter tido o acento tónico no aspecto ideológico e o segundo no sentido filosófico-estético. E é exactamente aqui que Sacramento acerta no vinte, como soe dizer-se. É que a geração de 40, antes de poder contemplar o mundo ou recriá-lo ou dele participar, tem que o combater, seja na Guerra de libertação de Espanha, seja na 2.ª Grande Guerra, seja para deter o imperialismo financeiro que começa a abrir sobre o terceiro mundo (Portugal incluído) a sua gula assassina, seja para combater os regimes militaristas que o imperialismo vinha opondo às pequenas mas sucessivas vitórias do movimento operário internacional, seja tão somente para controlar as sequelas que o republicanismo entre nós havia deixado. Pelo contrário, são bem outras as motivações da geração de 50, que assiste ao grande gelo da guerra fria, à ameaça eminente de uma guerra atómica, à formação da Nato e do Pacto de Varsóvia, às guerras imperialistas da Indochina e da Coreia, ao cimento multinacional do muro de Berlim, à consolidação ameaçadora das sociais-democracias na Europa, onde o movimento operário mais do que cansado se sentira frustrado.

Mário Sacramento compreendeu isto como poucos, sem todavia nunca perder de vista que o problema da literatura de 40 e a de 50 não havia sequer oposição mas apenas, consequências de sucessivos contributos científicos, divergência de expressão ou de aprofundamento temático.

Daí que Sacramento escreva:

(«Entre opor a literatura de 50-60 à de 30-40 ou encadear entre elas um processo de interferência e evolução para o qual as designações distintivas nada têm, nem podem ter de axiológico, eu prefiro o segundo ponto de vista, mas recordando isto: por detrás de uma literatura há sempre uma ideologia. A neo-realista não só não se extinguiu ainda, como é hoje mais forte e rica do que em 40. Pelo que haverá tantos neo-realismos literários, explícitos ou implícitos, quantas as fases ou momentos em que ela incida. A sua persistência e presença terá de ser repercutida, qualquer que seja a matriz da linguagem literária usada ou os escopos a que se vote» (5).

E assim Sacramento explica claramente que o segundo neo-realismo não põe em causa o método de análise e interpretação histórica, que tinha guiado e orientado o primeiro, mas não sectariamente reconhece que o factum objectivo a que se dirige e explica é outro, porque a arte não é nem a explicação sociológica por parte do indivíduo, de uma elite ou sequer de uma geração mas a explicação do homem (elemento subjectivo) de uma realidade concreta e fáctica (elemento objectivo) componentes que se interligam e aliam no devir histórico. Não pode a arte caminhar longe do homem que constrói e transforma a realidade que retrata; não pode o homem isolar-se da arte porque ela é o seu produto mais acabado e que retratando a realidade por ele trabalhada a ele próprio o retrata.

Falamos hoje de Mário Sacramento. E falar dele devia ser falar de uma época de crítica literária neste País. Mas devia ser também falar da resistência organizada, da militância contínua, da conquista sem desfalecimentos da unidade possível, até ao nível literário, mas sobretudo ao nível político.

Falar de Mário Sacramento é falar no intelectual de província (o anti-provinciano como Mário Castrim em expressão feliz o epitetou) que entendia que era pelos pequenos jornais, pelas pequenas revistas, pelos pequenos exemplos urbanos de todos os dias, pela paciência só contida no estoicismo que se começavam a ganhar as primeiras batalhas da guerra de libertação.

Falar de Mário Sacramento era contar-te uma história, leitor:

Era uma vez uma Câmara de Aveiro que entendia que Mário Sacramento não tinha direito a busto nem a nome de rua, porque por Aveiro nada tinha feito... Coisas da outra senhora. Que convém... recordar!

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NOTAS:

(1) – Mário Sacramento, in «Fernando Namora – O homem e a obra», in prefácio.

(2) Mário Sacramento, in «Fernando Namora», pág. 9.

(3) Mário Sacramento, in «Há uma estética do neo-realismo?», pág. 30 e segs.

(4) Mário Sacramento, in «Fernando Namora». pág. 146.

(5) – Ibidem, pág. 139.

 

páginas 35 a 38

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