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N.º 17

Publicação Semestral da Junta Distrital de Aveiro

Junho de 1974 

Freguesia de S. Nicolau da Vila da Feira

Por Roberto Vaz de Oliveira


Licenciado nas Faculdades de Direito e Letras – Secção de

Ciências Histórico-Geográficas – pela Universidade de Coimbra

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LUGAR DA PIEDADE

K

CAPELA DE NOSSA SENHORA DA PIEDADE

1

Descrição

Esta capela está construída numa linda colina sobranceira à vila, perto da estação do Caminho de Ferro do Vale do Vouga, de onde se desfruta uma maravilhosa vista sobre a vila, castelo e terras que se prolongam até à orla marítima.

É uma das maiores desta vila e encontra-se em bom estado de conservação.

A sua arquitectura é simples, como se vê da fotografia que se reproduz: toda a edificação comporta três corpos.

Quanto ao exterior

No do nascente, correspondente à cabeça da cruz, tem três janelas.

Uma para norte e outra para sul, que alumiam a capela, onde está o altar central e ainda outra para nascente que não se vê do interior por estar detrás deste altar, dando luz ao espaço que dá acesso ao trono.

No do centro, transepto (correspondente aos braços da cruz), tem duas janelas, uma para o norte e outra para o sul.

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Capela de Nossa Senhora da Piedade – Poente.

No do poente tem, do lado norte, uma porta que serve a sacristia beneficiando, também, de uma janela e, do lado sul, quatro janelas, que facilitam a luz aos compartimentos destinados à irmandade, duas no rés-do-chão e duas no primeiro andar.

A face poente deste corpo corresponde à frente da capela, que deita para o adro. / 72 /

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No seu centro, está a porta principal de entrada, encimada por uma janela, com gradeamento de ferro que deita para o coro que, por sua vez, está sobreposta por um motivo triangular com uma cruz no seu vértice superior e um pilar sobre o seu Vértice esquerdo.

Capela de Nossa Senhora da Piedade – Norte.

O espaço formado por aquele triângulo está revestido por azulejo azul, com flores tendo, no seu centro, um óculo de pedra que está tapado e deita para o forro.

A cada lado da porta principal está praticada uma janela com gradeamento de ferro.

Do seu lado direito tem a torre sineira, encimada pela cruz luminosa, tendo pilares nos quatro cantos da faixa de pedra que fica superior aos dois sinos, colocados em dois dos seus quatro nichos.

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Capela de Nossa Senhora da Piedade – Sul e Nascente.

Ao nível desta faixa assentava uma calote de alvenaria que, há umas dezenas de anos, foi substituída pela torre que hoje aí se encontra.

À parte esquerda, encosta a edificação reservada à confraria com uma porta de entrada pelo adro, sobreposta por uma janela com varanda.

No exterior de todos estes corpos da capela existem vários pilares, de diversos tamanhos.
 

Quanto ao interior

Não é rico.

O corpo nascente (cabeça da cruz) é formado por uma capela onde está o altar principal, com uma imagem de Nossa Senhora de Fátima, ladeada por dois nichos, um, o da sua direita, com a antiga imagem de Santo António, de madeira (com sinais de ter sido protegida por uma redoma de vidro) e outro, o da sua esquerda, com a imagem do Sagrado Coração de Jesus.

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Capela de Nossa Senhora da Piedade – Altar-mor.

Este altar é relativamente recente.

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Capela de Nossa Senhora da Piedade – Altar-mor e os dois laterais, do transepto.

Por detrás dele estão arrecadados: parte de um antigo altar mor, e o seu presumível sacrário um nicho de madeira que tudo leva a crer ser o da imagem de Santo António, da capela da Praça Velha, referido no auto de arrematação de 21 de Abril de 1880 e a porta / 73 / de vidro que fechava o nicho onde hoje está a imagem do Cristo Crucificado, de madeira e em cruz também de madeira que, primeiramente, esteve no altar mor e daí foi retirado para este nicho, para dar lugar à imagem de Nossa Senhora de Fátima, que hoje centra o altar mor.

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Capela de Nossa Senhora da Piedade
Altar-mor. Imagem de Santo António.

A mudança teve lugar há cerca de 45 anos.

O corpo central (transepto) tem, na sua face norte, um altar reproduzindo a gruta de Nossa Senhora de Lourdes, revestido a cortiça, com a imagem desta Nossa Senhora e a figura da vidente Bernardete.

Na sua origem, teve ovelhas e carneiros (ainda existem arrecadados um carneiro e duas ovelhas, em mau estado de conservação) e um dispositivo para fazer correr a água que era recebida num pipo colocado por detrás do altar; no cimo também existiam uns troncos de sobreiro, cobertos de cortiça, com reprodução de canários e de ninhos.
 

Na face nascente, ladeando aquele altar, há um outro com a imagem de Santo António, conhecido pelo da Praça por ter estado naquela capela da Praça Velha (hoje do Dr. Gaspar Moreira) e, do outro lado do transepto, há um altar que tem, no centro, a imagem de Nossa Senhora da Piedade, no seu lado direito a de Nossa Senhora da Luz com o Menino ao colo (que presentemente não tem a coroa, nem o resplendor de prata deste Menino, inventariados em 1878) e, no seu lado esquerdo, a imagem do Mártir S. Sebastião.

Em plano inferior a estas imagens há uma outra pequena, da mesma invocação de Nossa Senhora da Piedade.

Todas estas imagens são de madeira, estando os altares com douramento recente.

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Capela de Nossa Senhora da Piedade
Altar de Nossa Senhora de Lourdes.

Parede norte do transepto

Naquele transepto há uma porta que liga com a sacristia que, como já disse, tem porta e janela voltada à parte norte do adro.

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Desta sacristia parte uma escada que dá acesso ao púlpito e, continuando, atinge a torre.

Por sua vez, na parte oposta do mesmo transepto (lado sul), há uma outra porta que dá acesso a uma sala onde se guardam as alfaias da irmandade de Nossa Senhora da Piedade, que também é servida pela já referida porta que deita para a frente da capela.

Esta sala dá acesso, por uma estreita escada de madeira, a uma outra que lhe fica imediatamente por cima (onde está a já mencionada janela com sacada aberta para a frente da capela): destina-se às reuniões da mesma irmandade e nela expõem-se os retratos dos benfeitores.

Capela de Nossa Senhora da Piedade

Presumível sacrário do antigo altar-mor.

Desta sala passa-se ao coro e, deste, por uma porta, à escada referida que vai para a torre. / 74 /

O corpo poente (correspondente ao pé da cruz) está separado do transepto por um arco abatido e por uma balaustrada de madeira, tendo do lado esquerdo, para quem está voltado para o altar mor, um púlpito com balaustrada e docel tudo de madeira e incrustado na parede, do mesmo lado um nicho com a referida imagem de Cristo crucificado que esteve no altar mor: até então, o nicho – defendido pela já aludida porta de vidro, guardava uma cruz de madeira, preta, com um pano branco e uma coroa de espinhos.

Neste corpo da capela existem dois quadros que, há cerca de um século e a pedido de António Vicente da Costa Neves, juiz da referida irmandade, foram oferecidos por uma tia de sua mulher, Maria Pinto Alves Brandão, que viveu junto à capela do Castelo.

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Capela de Nossa Senhora da Piedade.

Altar de Stº António da Praça.

Lado norte do transepto.

Este corpo termina, na porta principal de entrada, por um cata-vento encimado pelo coro com balaustrada de madeira.

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A capela está envolvida por um extenso adro, ou arraial, que termina, no seu lado nascente, em ponta aguda, junto ao caminho que segue para Casal de Matos, de Fornos.

Pelo sul é marginado por um arruamento onde se desenvolvem algumas cruzes da via sacra, que se completa com as três que estão na parte poente do adro e as demais implantadas na parte nascente, num ambiente encantador, o que será objecto de estudo particular no respectivo capítulo.

Do norte confina com terras já da freguesia de Sanfins, sobranceiras à linha do referido caminho-de-ferro, das quais está, em parte, separada por um paredão.

A parte da frente do adro, a que deita para poente, é formada por dois planos.

Capela de Nossa Senhora da Piedade.

Lado sul do transepto.

Um junto à frontaria da capela, pequeno, com acesso por escadas de pedra e o outro, que se lhe segue imediatamente para poente, com escadas para o exterior e que dá continuidade à restante parte do adro.

Esta parte é cercada por muro, assim como está, em parte, o restante adro, no espaço confinante com o já mencionado arruamento.

No muro exterior, que separa o adro do terreno público que lhe fica para poente, ao lado direito das escadas que dão acesso àquele segundo plano do adro, há uma inscrição que diz = Esta Obra Foi F. Em 1846 a 1848.

Deve referir-se ao muro que veda o adro na sua frente poente e em parte da do norte e da do sul.

Desde o termo deste muro, do lado norte, em direcção ao nascente, o limite foi assinalado por quatro marcos; o primeiro, que desapareceu, esteve colocado um pouco além do fim do muro e os outros três, que ainda existem, sucedem-se em linha recta, sendo de salientar que os dois últimos têm, respectivamente, as / 75 / datas de 1847 e 1848, enquadrando-se, assim, entre aqueles limites de 1846-1848.

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Capela de Nossa Senhora da Piedade.

Púlpito e nicho com a imagem de Cristo crucificado.

Publicam-se as suas fotografias.

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Capela de Nossa Senhora da Piedade.

Nicho com Cristo crucificado.

2

História

A primeira memória desta capela remonta a 1697 por, nesta data, ser indicada como ermida desta vila, no já mencionado «Ceo aberto na terra» do padre Francisco de Santa Maria.

Não figura, porém, na relação das ermidas referidas em 1690, pelo «Episcopológio» de Pereira de Novais, o que me leva a concluir que deve ter sido levantada entre estes anos de 1690 – 1697, a não ser que também correspondesse à que, com outra invocação, foi conhecida por Santa Margarida, como adiante se estuda.

É curioso notar que não vem relacionada entre as arroladas pela «Corografia Portuguesa» de António Carvalho da Costa, 1707, o que se deve interpretar como lapso, se não se verificar aquela dupla invocação.

Isto motivou a anotação a que já me referi e que se encontra, marginalmente, num exemplar datado de 6 de Junho de 1742 – «E outra da Piedade...».

O vigário Quintela, nas suas respostas para o «Dicionário Geográfico de Portugal», de 1758, indica: «A quinta he de Nossa Senhora da Piedade, Imagem muita milagrosa, porém sem ramagem, pertence ao povo».

No falado livro das Visitações à Igreja de S. Nicolau da Vila da Feira, encontrei referências a esta capela no decurso dos anos de 1746 a 1824.

10 de Maio de 1746: «E como por ele fui informado de que a Capela de Nossa Senhora da Piedade não tem pintadas as placas que estão junto à imagem da Sr.ª mando que logo se pintem e em quanto se não pintarem nela se não diga missa»;

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Capela de Nossa Senhora da Piedade.

Pedra do adro.

23 de Junho de 1754 – «Mandamos que as capas dos cálices assim da Capela da Snr.ª da Piedade como das mais Capelas da freg.ª se dourem as capas pela pt.e de dentro e tambem as patenas no tr.º de seis meses e passados eles se assim se não fizer co isso ficara suspenso todo o sacerdote que com eles celebrar e também se encaixarão nas taboas dos altares todas as pedras de Ara, que o não estiverem»;

1794 – «A Capela da Senhora da Piedade carece muito de um paramento de seda branca, um raxo e outro vermelho com seus veos e burços das mesmas cores e o solho consertado o que tudo se fara no espaço de quatro meses aliás fique suspensa»;

2 de Novembro de 1813 – «Da mesma sorte suspendo a Capela de Nossa Senhora da Piedade pela / 76 / falta de paramentos a excepção dos dias que pelo Kalendário deste bispado e permitido a cor branca ou para sacramentar algum enfermo indo competente paramento da Igreja na forma sobredita»;

17 de Janeiro de 1824 – «Visto que na Capela da Piedade se não achão satisfeitas as obras preceituadas na visitação passada mando que elas se fação na forma determinada no mesmo Capítulo o que encarrego ao cuidado do Reverendo Parocho».

Como a visita imediatamente anterior a esta foi aquela de 2 de Novembro de 1813, deve-se entender por «obras» o arranjo dos ornamentos mencionados nesta visitação. 

3

Património

A capela pertence à Corporação do Culto, ou seja à Fábrica da Igreja e é administrada pela Irmandade do mesmo nome que nela está erecta.

O seu arquivo antigo está perdido.

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Apenas encontrei, como de época mais remota, um livro com falta de algumas folhas (5 a 8), do qual consta o seguinte termo de abertura: «Serve este caderno para se inventariarem todos os moveis e mais alfaias que actualmente tem a Irmandade de Nossa Senhora da Piedade desta e que de futuro venhão a possuir por compra ou por oferecimento de devotos, o qual vai por mim numerado e rubricado. Feira 16 de Setembro de 1878 – o Juiz da Irmandade, António Vicente da Costa Neves».

Embora este livro diga respeita à Irmandade, como os seus, em parte, se confundem com os da capela, passo a transcrever o que julga ser, de interesse divulgar.

Adro da capela de Nossa Senhora da Piedade. Marco divisório, do norte.

O inventário mais antigo que nele se regista de «todos os moveis, objectos e mais alfaias» da mesma Irmandade, que estavam em poder do respectivo tesoureiro, reporta-se a 1878 e dele consta a seguinte existência:

N.º 1 – Um cálix de prata com patena e colarinho.

N.º 2 – Um diadema de prata de Nossa Senhora da Piedade.

N.º 3 – Uma coroa de prata de N. S.ª da Luz.

N.º 4 – Um resplendor de prata do seu menino.

N.º 5 – Um resplendor de prata de Sam Sebastião. / 77 / «Que tudo pesa vinte e oito onsas e meia oitava».

N.º 6 – Uma gargantilha de ouro.

N.º 7 – Um resplendor de prata de St.º António.

N.º 8 – Um dito de prata pequeno do menino do mesmo Santo.

N.º 9 – Uma cruz de prata do mesmo Santo.

N.º 10 – Uma patena de prata pequena.

 

Imagens

N.º 11 – Duas imagens de Nossa Senhora da Piedade, uma pequena e outra grande.

N.º 12 – Uma dita de Nossa Senhora da Luz com o menino nos braços.

N.º 13 – Uma dita de S. Sebastião.

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Adro da capela de Nossa Senhora da Piedade. Marco divisório, do norte.

N.º 14 – Uma dita de S. António.

N.º 14 – Um crucifixo e banqueta composta com 6 castiçais.

N.º 15 – Três castiçais de metal branco.

N.º 16 – Três sacras, uma grande e duas pequenas.

N.º 17 – Uma campainha de metal.

N.º 18 – Uma sineta.

N.º 19 – Uma alâmpada de metal amarelo.

N.º 20 – Uma campainha (repetido).

N.º 21 – Dois missais de dizer missa.

N.º 22 – Duas escadas.

N.º 23 – Dois andares.

N.º 24 – Vinte e oito bandeiras.

N.º 25 – Onze toalhas brancas.

N.º 26 – Uma dita vermelha.

N.º 27 – Dois mantos, um da Senhora e outro da S.ª da Luz.

N.º 28 – Dois paramentos, de missa, brancos esmaltados, completos.

N.º 29 – Um dito roxo usado completo.

N.º 30 – Um dito preto muito velho – completo.

N.º 31 – Três véus de cobrir o cálix.

N.º 32 – Quatro bolsas corporaes.

N.º 33 – Uma alva e amito e cordão.

N.º 34 – Nove bancos de pinho, velhos.

N.º 35 – Duas mesas de pinho.

N.º 36 – Dois títulos particulares de compra de terreno.

N.º 37 – Uma certidão passada.

N.º 38 – Uma dita passada pelo Ex.mo Joaquim Vaz de Oliveira Júnior.

N.º 39 – Uma escr.ª de doação feita pela T.am que foi nesta vila Bernardo Pereira de Campos em 20 de Setembro de 1738.

N.º 40 – Quatro jarras douradas.

N.º 41 – Quatro jarras verdes ordinárias.

N.º 42 – Uma banqueta de cera nova.

N.º 43 – Mais duas jarras azuis iguais às 4 de cima que também são azuis e não verdes como por equívoco se disse.

Declara-se que o número vinte (uma campainha) foi demais pois que é somente uma que é a de número dezassete. Feira, desasseis de Setembro de mil oitocentos e setenta e oito..,».

Tem a assinatura de António Vicente da Costa Neves, do Juiz, Tesoureiro e Mesários da Confraria.

Nesse livro, com data de 14 de Novembro de 1963, há um novo inventário, onde se registam os seguintes bens:

De ouro: duas gargantilhas, um par de brincos grandes sem argolas, uma volta, três pares de brincos pequenos, um anel partido.

De prata: um cálice com patena, caixa de Nossa Senhora da Luz, resplendores de Nossa Senhora da Piedade, do Senhor dos Aflitos, do Santo António e do mártir e mais quatro pequenos, uma palma e uma cruz, uma cruz partida e uma caixinha de Santo António. / 78 /

Uma cruz processional de metal, nove varas para irmãos (de metal) trinta e duas opas, uma cruz de ferro, duas gravuras, livros, documentos antigos da confraria, um estandarte e uma bandeira nova de cotim de Nossa Senhora da Piedade.

Em 17 de Julho de 1967 acresceu um par de brincos oferecidos a Nossa Senhora da Piedade.

Em referência aos altares e imagens apontadas, posso esclarecer:

a) a construção do altar dedicado a N.ª Senhora de Lourdes, revestido de cortiça, foi orientada por Manuel José Ribeiro que, em 20 de Agosto de 1882, fez publicar, nesta vila, o primeiro jornal do nosso concelho, intitulado «Jornal da Feira» (ver meu estudo sobre a «Imprensa periódica da vila e concelho da Feira», publicado na citada revista «Aveiro e o seu distrito», número oito, e ainda em separata).

A sua execução é atribuída a Manuel Pereira dos Santos (o Manuel do Juiz), Joaquim Ferreira Cardoso (Joaquim da Mariquinhas do sacristão), Francisco e Eurico de Freitas (filhos de João de Freitas), o que me foi informado por Francisco Vicente da Costa Neves.

b) a actual imagem de N.ª Senhora de Lourdes, que se encontra na capela, foi comprada em 1907, tendo-se realizado no Teatro de D. Fernando lI, desta vila, récitas (31 de Março e 7 de Abril do mesmo ano – oratória Santo António) para angariar fundos para essa compra.

No dia 2 de Fevereiro deste ano, a nova imagem foi benzida pela pároco – reverendo Manuel André Boturão, na Igreja da Misericórdia, seguindo depois, em procissão, para a Igreja Matriz de onde foi para a capela da Piedade, também em procissão, rezando-se aí missa a grande instrumental pela música de Souto.

Foi pregador o célebre orador sagrado, abade de Anta.

À tarde, a virgem foi colocada no altar, revestido de cortiça, que para ela foi feito, representando um rochedo, onde ainda hoje se encontra.

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c) a imagem de S. António, que está no meio do altar esquerdo do corpo central, pertenceu à capela deste nome, que existiu na Praça Velha (hoje do Dr. Gaspar Moreira), para nela se realizar missa para os presos da cadeia.

Quando esta capela foi demolida, a imagem e o seu nicho, depois de inventariados (11 de Julho de 1876), foram vendidos em hasta pública (21 de Abril de 1880).

António Vicente da Costa Neves, juiz daquela confraria, arrematou-os bem como outros objectos da capela por 60 000 réis.

Como ele não era abonado é de supor que tivesse feito a compra da imagem para a capela ou para a irmandade.

Adro da capela de Nossa Senhora da Piedade. Marco divisório do norte.

O que é certo é que ela está exposta naquele altar da capela – sendo conhecida por «S. António da Praça», tudo levando a crer que o seu nicho é o que está arrecadado atrás do altar mor.

Completarei esta informação no capítulo referente à «Capela de Santo António».

d) consta que a imagem de Nossa Senhora da Piedade, que está no centro do altar da direita do transepto, veio de uma capela dos Carvalhos, do concelho de Gaia.

e) na capela há várias colecções de sacras: duas (uma grande e outra pequena), correspondentes ao altar-mor, sem nome do impressor e sem data; três do altar de Nossa Senhora da Piedade, impressas por Gebr C. & N. Benseger In Emsiedele, sem data; uma do altar de Santo António, impressa em Paris L. Turgis & Fils Imp. Edit. r des Ecoles 60 n.º 412 – New York / 79 / Banlay St. 41, sem data; outra do altar de Nossa Senhora de Lourdes, impressão Typis et sumptibus Benzeger et souoiux in Helvetia 12005, sem data.

Todas estão encaixilhadas, sendo o desta última sacra, de cortiça, da mesma forma que o altar.

f) Guarda-se em casa particular, como pertença da capela, um missal que, provavelmente é o que foi arrematado, em 1880, entre os bens da antiga capela de Santo António da Praça.

Está em bom estado de conservação e com boa encadernação.

Do seu rosto consta Venetüs – Apud Nicolaum Pezzano MDCCXLI, com apêndices de MDCCXXI e MDCCXL, datas que se enquadram dentro do período que atribuo à existência da capela. 

4

Diversos

a

Festividades

Em vários anos, embora nem sempre seguidos e desde tempos muito antigos, tem-se realizado a festividade a Nossa Senhora da Piedade, com procissão.

No livro do padre Jorge de S. Paulo, já muitas vezes mencionado, lê-se, em referência à igreja do nosso convento: «Dia da nacensa da Sr.ª faz a condessa por sua devoção com toda a solenidade a dita festa e manda cera para o altar e todo o mais necessário».

Tem escrito com letra miúda «faz a festa na Snr.ª da Piedade agora» (§ 16 – fls. 37 v).

Sabemos que o padre Jorge escreveu o livro em 1649, como ele diz a fls. 41, § 5.º (cit. Ar. Dist. Av., Vol. XVI – fls. 209), mas o que não sabemos é em que data foi lançado aquela nota em «letra mais meuda».

O padre Quintela nas suas «respostas» disse, como referi, que a romagem à capela não era notável, o que denota, porém, a sua existência, notícia que nos faz remontar a 1758.

Segundo os estatutos da «Real Irmandade de Nossa Senhora da Piedade», já referida, aprovados pelo Governador Civil de Aveiro em 1 de Abril de 1882, esta foi erecta na sua capela da Piedade da Vila da Feira».

Consigna no seu artigo 45: «No segundo domingo do mes de Julho se solemnisará a festividade de Nossa Senhora da Piedade com toda a pompa e decência sendo a Imagem levada da sua capela em procissão até à Egreja matriz, com a solemnidade respeitante a tal facto.

§ único. No caso que em qualquer ano a meza não possa, por qualquer circunstância, fazer a festividade nos termos em que é expresso neste artigo será a mesma Imagem conduzida em procissão à volta da capela, ou exposta na mesma à veneração dos fieis e devotos».

Hoje, a procissão realiza-se no terceiro domingo de Julho.

Sai da capela pela porta de frente e, depois de alcançar a estrada que segue do lugar de Pombos para a estação do C. F. do Vale do Vouga, vai até ao encontro desta estrada com a nacional que liga a Vila da Feira a Mosteirô, voltando de novo à capela, entrando no adro, pelo sul, circuitando-a pelo nascente e norte, até entrar nela de novo.

É presidida pelo pároco desta freguesia de S. Nicolau da Feira e nela se incorporam andores com as imagens de Nossa Senhora da Piedade, de Nossa Senhora de Lourdes e do Santo António da Praça, além de diversas irmandades, a que não falta a referida de Senhora da Piedade e muito povo.

*

*  *

No vasto adro da capela, aproveitando a sombra do seu arvoredo, formado principalmente por plátanos (que substituíram carvalhos e austrálias) e velhos carvalhos e o belo horizonte que dela se desfruta, fizeram-se, em tempos, merendas memoráveis, entre as quais se destacou a de 1 de Agosto de 1896, com a assistência e colaboração da melhor sociedade feirense.

Da ementa destacamos uma das suas páginas com versos da «Comissão», feitos pelo Dr. Roberto Alves de Sousa Ferreira, o que se reproduz em fotografia.

Nela, podemos ver a cruz mais representativa da via sacra (12.ª – Cristo crucificado) e o velho carvalho que a acompanha, ainda existentes, o que merecerá melhor referência no capítulo dedicado às «Vias Sacras».

b

Obras

Há cerca, ou mais, de século a capela recebeu grandes melhoramentos por iniciativa de um mesário da Irmandade de Nossa Senhora da Piedade, de nome Francisco Pereira de Matos, conhecido pelo «Tintureira», / 80 / que foi proprietário da casa que hoje é de Francisco Vicente da Costa Neves, perto da capela.

A mulher daquele Francisco Pereira – Maria Soares (a Marquinhas da Piedade) faleceu há 65 anos, com mais de 80 anos.

Sucederam-se outras de que resultou a substituição do tecto sobre o coro até ao transepto, que era de madeira pintada a azul, por outro e estuque.

Em 28 de Junho de 1962 foi inaugurada a cruz luminosa que encima a torre da capela, tendo procedido à ligação da corrente o vigário desta vila, Padre Manuel Soares dos Reis que, nesse acto, também procedeu à bênção da mesma cruz.

Em 1971 outras e importantes obras se fizeram, sendo, então, colocado o sino que hoje lá se encontra: outras se fizeram em 1973.

Estas informações, na sua maior parte, foram-me dadas por aquele muito dedicado feirense Francisco Vicente da Costa Neves.

 

PRAÇA VELHA

L

CAPELA DE SANTO ANTÓNIO

1

Descrição

Na antiga Praça Velha, hoje do Dr. Gaspar Moreira existiu, na sua face norte, uma capela da invocação de Santo António, destinada a nela se rezar missa para os presos da cadeia, então instalada no edifício dos Paços do Concelho, a poente da mesma praça.

a

Localização

Huete Bacelar, no tombo que escreveu da sua casa, datado de 1774 (mas que pelos seus dizeres parece que já estava escrito em 1768), quando alude às casas que formavam a ala norte da praça, hoje unificadas na mão de Francisco Plácido Resende, diz a fls. 187 v: «é aquela corrente de casas, que fica entre a rua direita, da dita vila e a travessa que vai p.ª a Lavandeira, e estão pegadas à Capela de St.º António».

Nos meados do século XVIII, aquele friso de casas considerado do poente para nascente, era formado, sucessiva e imediatamente, a partir da rua Direita, pelas denominadas por «da Sisa», ou «da Almotaçaria», «do Meio», ou «grande casa do Estrado» e por outra que, com esta, alinhava para nascente, o que tudo era continuado e na mesma direcção, por terreno lavradio.

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Versos que acompanharam a ementa da merenda que se realizou no arraial da capela de Nossa Senhora da Piedade, em 1 de Agosto de 1896.

Seguia-se, marginando pelo poente, a congosta da Lavandeira, a propriedade dos morgados do mesmo nome.

Em 1720, data em que presumo ter sido construída a capela, este vínculo e propriedade estava na mão da morgada D. Joana Leite Pereira, casada com Fernando Campelo que, segundo me parece, mandou construir a pequena capela para os presos.

Se a sua propriedade, de qualquer modo, atingiu a praça é de crer que ele a implantou no seu topo poente: de contrário, construiu-a, de acordo com o município, já na praça, em terreno público.

São bem claras as referências à implantação da capela na Praça Velha, em diversos textos, entre os quais posso destacar:

– as já mencionadas respostas do vigário padre José de S. Pedro Quintela, em 1758, ao questionário / 81 / feito para a elaboração de «Grande Dicionário Geographico Portuguez»: «Ha mais na praça desta vila defronte da Cadeia e Casa da Câmara dela um oratório da invocação de Santo António para se diser missa aos presos».

– A provisão de 20 de Fevereiro de 1823 em que se mandou pagar, em primeiro lugar, de Cabeção das Sizas, ao capelão dos presos da cadeia desta vila, aos médicos e cirurgião mais antigos os seus ordenados (registo na Câmara Municipal em 3 de Março de 1823 –Livro de 1811–1827 – fls. 308): «Capela que fica na praça...».

– as actas das sessões da Câmara Municipal e, nomeadamente, na de 24 de Julho de 1858: «Capela para esse fim edificada na praça pública».

– no auto de arrematação dos bens da capela, de 21 de Abril de 1880: «pertencentes à extinta capela de Santo António da Praça».

– no livro das «Visitações» à igreja de S. Nicolau da Vila da Feira.

V no artigo que escreveu no «Povo Feirense» de 3 de Dezembro de 1938, quando diz «...Outra de Santo António na Praça da vila».

b

Orientação

Devia ser a de nascente a poente para poder ficar fronteira à cadeia, como é natural e está claramente dito na visitação à igreja de S. Nicolau desta vila, de 10 de Maio de 1746 – «...outro si achei mais que sendo a d.ª Cap.ª feita defronte da d.ª Cadeia para os presos somente ouvirem missa».

O padre José Quintela, nas referidas respostas de 1758, diz que ela estava «defronte da Cadeia e Casa da Camara».

Posso ainda citar a escritura de empréstimo outorgado em 11 de Janeiro de 1850, entre Manuel José da Silva Ribeiro e o padre António Joaquim Pereira (este como credor), onde ao prédio, que aquele hipotecou, foi dada a seguinte confrontação: «do poente (deve ler-se de sul) com a Praça e Capela de Santo António», o que só se pode compreender situando-se este imóvel a barrar, pelo seu lado esquerdo, parte da sua frente para a praça.

Comparando esta passagem com outra da visitação à mesma igreja, em 10 de Maio de 1746, onde se diz «e achey que no retabolo dela que e taboas tem um postigo e que os moradores das Casas que ficam por detrás da d.ª Capela ouvem missa pela d.º postigo...», convenço-me de que, depois de construída a capela, foi aumentada, para nascente, aquela casa que veio a ser da Ribeira e que por este, ou outro, foi feita construção urbana por detrás da capela.

Também devo salientar outros períodos do auto da mesma visitação onde se esclarece: «portanto mando os possuidores das ditas casas tapem logo de pedra e cal o dita postigo ou buraco que abrirão na parede das ditas casas tapem logo de pedra e cal o dito postigo ou buraco que abrirão na parede das ditas casas e que o postigo do retabolo se tape e pregue...» e «...achei mais que sendo a d.ª Cap.ª feita defronte da d.ª Cadeia».

Conclui-se, assim, que o postigo estava na parede divisória comum ao prédio e à capela, Onde encostava o retábulo de madeira.

Na citada provisão de 20 de Fevereiro de 1823 falava-se em «Capela... fronteira à cadeia».

c

Dimensão

A capela era muito pequena: por isso, o referido vigário Quintela, naquelas «respostas» lhe chamou «pequena» e a classificou de «oratório».

Também o citado V, no seu artigo no «Povo Feirense» a indica como «pequena».

Poucas pessoas lá cabiam, além do celebrante, assim como, praticamente, não tinha mobiliário: por isso, na já mencionada visitação se diz que a capela foro feita «para os presos somente ouvirem missa».

Uma velhinha (Maria Rosa de Jesus Ferreira), disse-me que os fiéis ouviam a missa de fora da capela e para nos dar uma ideia da sua capacidade classificou-a de nicho.

Esta mulher foi a única que me deu informações sobre a capela, firmando-se em conhecimento pessoal.

Disse-me, ao tempo da nossa conversa (8 de Dezembro de 1966), em sua casa, no lugar da Piedade, desta vila, que tinha 92 ou 93 anos, o que foi confirmado pela família.

Assim, teria 2 ou 3 anos quando foi, presumivelmente, extinta a capela, o que tira a credibilidade ao seu depoimento.

Verifiquei, através do registo do seu baptismo nesta freguesia de S. Nicolau da Vila da Feira, que ela / 82 / (Rosa de Jesus) nasceu em Setembro de 1878 e assim depois da provável data da demolição da capela, sendo filha de Domingos Pereira e de Engrácia de Jesus.

É certo que isto não é argumento decisivo, embora seja para considerar seriamente, porque pode-se admitir erro na data do registo do baptismo dado o mau hábito de, na época, se retardar o lançamento, em registo, por muito tempo, levando assim, à confusão e até à perca dos elementos necessários para um registo verdadeiro.

Uma sua irmã de leite, de nome Elvira Ferreira, que residia em casa do Dr. Horácio Alvim, na rua Dr. Eduardo Vaz, desta vila, que em Novembro do mesmo ano de 1966 fez 94 anos, afirmou-me que a Maria Rosa pouco mais nova era do que ela e que já se não lemhrava da capela.

Não me foi possível recolher outros depoimentos.

d

Forma

A capela devia ter a forma rectangular, senão quadrada e estava coberta de telha, como se infere da provisão de 22 de Fevereiro de 1797 em que a rainha D. Maria I atende um pedido feito pelo capelão da mesma capela, padre Bernardo José Ferreira da Silva Brandão.

Sobre a porta de entrada devia estar colocada a padieira, em pedra, que reproduzo em fotografia, de onde consta a data de 1720 que julgo ser a da sua fundação, conjugada com a de 1876, que deve corresponder à da reconstrução da casa daquele Manuel-Ribeiro coincidente com a da demolição da capela.

No auto da visitação feita em 1794 à igreja de S. Nicolau, foi determinado: «nesta mesma capela (a de Santo António) ponha uma cruz de pedra sobre o seu frontespício», o que nos esclarece sobre este importante pormenor da sua fachada principal.

A história desta capela e das casas que faceiam a praça pelo norte já foi objecto dos dois estudos já citados que publiquei na revista «Aveiro e seu Distrito» intitulados «Quatro Séculos de História...» e «Ainda a Praça Velha...», que foram divulgados em separatas.

2

História

Creio não ser ousado afirmar que a capela foi mandada construir pelo Fernando Campelo em 1720.

Fundamento esta suposição no facto de V (que julgo ser o padre Augusto de Oliveira Pinto), no citado artigo que publicou no «Povo Feirense», de 3 de Dezembro de 1938, informar que viu num exemplar da «Corografia Portuguesa» de Carvalho da Costa (1707) uma nota marginal, acrescendo às capelas por ele referidas «...outra de Santo António na Praça da Vila, pequena para os presos ouvirem missa, a qual mandou fazer o Campelo», anotação que estava datada de «Hoje, 6 de Junho de 1742».

Durante muito tempo estive sem saber quem era o Campelo, que tanto podia ser quem a mandou construir, como o mestre que a fez.

Do que não resta dúvida é que se tratava de pessoa bem conhecida na época, pela desnecessidade encontrada de lhe dar mais completa identificação.

Como já disse, a capela foi construída já no espaço da Praça Velha, à entrada da rua da Lavandeira, que lhe dava acesso pelo nascente, junto a um prédio que veio a pertencer a Manuel José da Silva Ribeiro.

Marginando esta rua, até este prédio, ou a perto dele, desenvolvia-se o lavradio do prédio pertencente aos morgados da Lavandeira.

Aquele padre Augusto de Oliveira Pinto, no seu estudo intitulado «Resenha Histórica das Freguesias de Souto – S. Vicente de Pereira e S. Martinho da Gandra», que publicou em folhetim no jornal, que foi desta vila, «Tradição», folhetim que teve princípio em Maio de 1935, diz que foi Manuel Roque de Miranda quem instituiu aquele «vínculo da Lavandeira, no século XVII, do qual foi primeiro administrador seu sobrinho, o Dr. Manuel Pereira Berredo, filho do Desembargador Gaspar Leite Cabral, vínculo que foi acrescentado por doações do abade de Arrifana, João Cardoso de Miranda e de Rui Lourenço de Carvalho».

Aquele Dr. Manuel faleceu na referida quinta em 1662, sendo sepultado na igreja desta vila (do antigo convento).

Do seu casamento com D. Luísa Lemos nasceu um filho de nome José Leite Pereira de Berredo (2.º morgado da Lavandeira), que morava habitualmente no Porto.

Este, por sua vez, teve uma filha – D. Joana Leite Pereira, que casou com o referido Fernando Campelo.

Como faleceram sem sucessão, o morgadio encabeçou-se na irmã, seguinte na idade, de D. Joana, de nome D. Mécia de Barredo Tendeiro, que casou com o morgado de Eiriz, António Cabral, para o solar de quem ela foi viver.

Não sei determinar, ao certo, a época em que / 83 / aquele Campelo se manteve na administração do vínculo, como marido da morgada.

Mas, levando em apreço aquela data de 1662, em que faleceu o avô da sua mulher, ele devia ser proprietário da quinta da Lavandeira na segunda década do século XVIII e anos seguintes.

Do exposto julgo, como verosímil, que foi este Campelo que, por qualquer motivo, mandou fazer a capela em 1720 (data que justificarei), utilizando parte da sua propriedade, ou já em terreno público (o que é mais provável), para nela se rezar a missa para os presos.

Averiguei que, por aquela época, em 22 de Março de 1723, tomou posse de Juiz de fora desta vila e seu termo, por carta do Sereníssimo Infante D. Francisco, o Dr. Roiz Campelo que, em razão de apelido tão pouco vulgar, devia ser parente do Fernando Campelo. (Livro dos registos da Câmara Municipal de 1714-1767 – fls. 86 v).

A respectiva carta de mercê, datada de 22 de Fevereiro do mesmo ano, foi transcrita no citado livro – a fIs. 87.


Capela de Santo António. A padieira do portal interior da casa de Francisco Plácido de Resende.

*

*  *

Quanto à data da sua construção, socorro-me do que está gravado numa pedra que serve de padieira de um portal (que deita para um pátio) da casa hoje de Francisco Plácido Resende, na parte em que esteve implantada a de Manuel José da Silva Ribeiro, que devia marginar a capela de S. António.

Devia ser a da porta de entrada desta capela, o que também convence a gravação, nela feita, de uma cruz.

Esta encontra-se ladeada por duas datas sobrepostas que, como disse, devem corresponder à da sua construção e à da sua inutilização: como parece que esta precedeu ou coincidiu com a reconstrução da casa do Ribeiro, é provável que fosse esta a circunstância que motivou esta segunda inscrição.

Como facilmente se consegue ler nas fotografias que se publicam desta padieira, as datas aí gravadas são, como disse, 1720 (a da construção) e 1876 (a da reconstrução da casa do Ribeiro, que corresponde à da demolição da capela).

Um meu velho primo José Adriano de Meneses da Silva Canedo, que nasceu nesta vila (onde viveu muitos anos) em 14 de Janeiro de 1853 e muito bem conheceu a capela disse-me (e até ficou escrito numa fotografia que possuo no meu arquivo) que quando o aludido Manuel Ribeiro fez a sua casa (ou a reconstruiu) deitou-se abaixo a capela, o que não podia deixar de ser antes de 8 de Setembro de 1877, data em que faleceu este Ribeiro.

Na referida casa do Ribeiro, hoje de Francisco Plácido de Resende existe, a fazer de padieira de uma pequena janela interior, uma pedra com uma inscrição que só poderá ser lida quando for tirada da parede onde está incrustada, o que já sugeri ao seu proprietário.

Em nenhum livro ou documento anterior a 1720 encontrei qualquer menção à capela.

Posteriormente já a vemos referida na provisão de D. João V – de 12 de Junho de 1726, transcrita a fls. 221 do Livro de registos da Câmara, correspondente a 26 de Julho desse ano e nos mesmos livros, respeitantes a 26 de Julho e 21 de Agosto do referido ano.

Mais tarde, em 1758, nas «respostas» dadas pelo padre Quintela, no tocante às capelas desta freguesia de S. Nicolau da Vila da Feira: «...Ha mais na praça desta, defronte da Cadeia e Casa da Camara dela um oratorio da invocação de Santo António para se diser missa aos presos. Todas as sobreditas capelas e oratorio (o sublinhado é meu) estão subordinadas a jurisdição paroquial do vigario desta freguesia».

Depois, em 1774, no tombo da casa de Huete Bacelar, manuscrito em meu poder a que muito me tenho referido e, em 1775, a provisão de 28 de Março dada por D. José I (livro de registos da Câmara Municipal, correspondente a 1768-1778, com data de 13 de Junho de 1775 e em 22 de Fevereiro de 1797 a provisão / 84 / de D. Maria I (fls. 60 v e 61 do livro de registos da Câmara – na parte referente a 1794-1805).

Do século XVIII ainda podemos consultar os autos de visitação à nossa igreja matriz.

Do século XIX podem-se consultar:

a) os livros dos registos e das actas das conferências e das sessões da Câmara Municipal;

b) os livros da escrituração diária do tesoureiro da Câmara, os do mesmo tesoureiro, os cadernos B da escrituração diária da receita e despesa e os livros dos registos dos mandados de pagamento;

c) diversas escrituras, entre as quais a outorgada em 11 de Janeiro de 1850 entre Manuel José da Silva Ribeiro e o padre António Joaquim Pereira;

d) autos de arrematação de 21 de Abril de 1880 e inventário dos bens da capela de 11 de Julho de 1876;

e) diversos jornais desta vila.

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Capela de Santo António. Outro aspecto da mesma padieira.

No decorrer deste estudo sobre a capela de Santo António terei ocasião de me referir propositada e detalhadamente a cada uma destas citações evitando, assim, repetições inúteis.

Pelo interesse que tem para a história desta capela, pela sua curiosidade e conforme o critério adoptado no estudo de outras capelas, transcrevo o texto dos autos de visitação à Igreja de S. Nicolau da Vila da Feira, já referidos neste estudo.

São três – 1746, 1762 e 1794.

a) 10 de Maio de 1746: «Também vesitei pessoalmente a Capela de Santo Antonio filial tambem desta Igr.ª aonde se diz missa aos prezos da Cadeia da vila e achei que no retabolo dela que e taboas tem um postigo e que os moradores das Casas que ficam por detraz da d.ª Capela ouvem missa pelo d.º postigo nos dias de preceito o que se lhe não pode permitir não só pelo prejuizo e inquietação que podem causar aos celebrantes de se divertirem vendo as pessoas que pelo referido postigo ouvem missa maximamente sendo mulheres que podem causar inquietação maior a sacerdotes mas tambem por ser opinião seguida que as pessoas que ouvem a missa por detraz do altar ou de outras partes improprias não satisfazem ao preceito da Igr.ª portanto mando os possuidores das ditas casas tapem logo de pedra e cal o dito postigo ou buraco que abriram na parede das ditas casas e que o postigo do retabolo se tape e pregue o que tudo se cumprira no termo de tres meses e não se fasendo assim passado o dito termo de tres meses mando que nenhum sacerdote de qualquer qualidade que seja diga missa na dita Capela sob pena de suspensão de suas ordens ipso facto incurrendo outro si achei mais que sendo a d.ª Cap.ª feita defronte da d.ª Cadeia para os presos somente ouvirem missa pelo impedimento que tem de a ouvirem com o que satisfazem ao preceito por previlégio especial e moral os moradores vizinhos da mesma Cadeia ouvem tambem missa de suas casas nos dias de preceito para a sobred.ª Capela e tambem de logeas falando e conversando uns com os outros no mesmo tempo e causando escandalo grave entendendo satisfazerem ao dito preceito de ouvirem missa nos Domingos e dias Santos, por tanto lhe declaro não satisfazerem ao preceito todas as vezes que não sairem das suas casas e ouvila com toda a atenção e o R.do Paroco constando lhe se não emendam procedera contra aqueles que com efeito obrarem em o contr.º salvo ouvindo a por devoção ou com necessidade urgente».

b) 24 de Junho de 1762: «na capela de St.º António se pora crucifixo na Cruz».

c) 1794: «O R.º capelão da Capela da Praça exorte os fiéis que assistem à Missa a fazerem aquela moral união que se pratica nos sagrados templos para se não exporem ao perigo de não cumprirem com o preceito da S. Igreja. Nesta mesma Capela ponha uma cruz de pedra sobre o seu frontespicipio e se doure o calix da mesma, tudo com a brevidade possível».

O ano de 1876, em que se fez o inventário dos bens existentes na capela (11 de Julho) deve coincidir, aproximadamente, com a sua demolição.

Nos seus primeiros meses trocaram-se ofícios entre a Câmara Municipal e o Ministério das Obras Públicas, satisfazendo a formalidades e garantias necessárias para se proceder à abertura e construção do lanço da estrada Municipal de 1.ª classe da Feira a Arouca, compreendido entre a Praça e a Lavandeira, conforme / 85 / autorização dada pelo alvará de 15 de Setembro do ano anterior.

Sabe-se pela acta da sessão da Câmara Municipal de 8 de Fevereiro de 1876 que ela deliberou solicitar ao Governo um subsídio para a construção daquele lanço de estrada, tornando-se bem concludente, em apoio da tese que formulo de a capela ter sido demolida em 1876, a seguinte deliberação tomada, pela mesma Câmara, em sessão de 18 de Março seguinte: que se respondesse que, no orçamento daquele ano económico, já estava lançada «uma verba com aplicação à referida estrada, e com a qual se satisfizeram algumas expropriações e se deu princípio aos trabalhos de abertura da mesma estrada e que no próximo orçamento tencionava lançar no mesmo a quantia precisa para completar o pagamento dos terrenos e dois terços da construção e que em atenção a tudo isto espera que o Governo de Sua Magestade deferira ao pedido da concessão do subsídio».

E na verdade, no livro da escrituração diária de receita e despesa da mesma Câmara figura o pagamento feito, em 30 de Dezembro de 1875, ao Silva Pereira, de 26$750 réis, valor do terreno do seu quintal e respectivo muro de vedação que amigavelmente se expropriou para a passagem do lanço de estrada da Praça à Lavandeira na estrada da Feira a Cebeçais» e da acta da sessão da Câmara Municipal de 9 de Junho de 1876, consta a deliberação para a expropriação, a Duarte Huete Bacelar, do terreno da «sua propriedade da Lavandeira desta vila para a passagem da estrada Feira-Arouca no seu lanço da Praça à Lavandeira».

Comparando os dizeres destes trechos, convenço-me de que a propriedade da Lavandeira não chegava à Praça.

Esta abertura, que levou ao alargamento da congosta da Lavandeira, é que deve ter originado a demolição da capela em 1876, que estava à entrada desta congosta, embora ainda localizada na praça.

Ao mesmo tempo e pelo mesmo motivo, o Silva Ribeiro deve ter recuado a sua casa confirmando-se, assim, a informação que me foi dada por José Canedo.

Em virtude desta obra, a frente da casa ficou recuada em relação à linha das demais que corriam, face à praça, até à rua Direita.

Daqui originou-se uma janela, voltada para nascente, na esquina da casa, correspondente ao prédio que foi emprazado, em Maio de 1745, por José de Sá Pereira Brandão e mulher Bernarda Caetano de Almeida, a já falada «casa do Meio, chamada grande casa do Estrado».

A essa época deve também remontar a obra da reconstrução da casa hoje do Dr. Belchior Cardoso da Costa.

É de estranhar que nas actas da Câmara não conste qualquer deliberação sobre a demolição da capela: quanto ao terreno compreende-se o silêncio naquelas actas, pois ele pertencia à Câmara e deve ter sido absorvido pelo leito da estrada o que mais convence que a capela foi construída em terreno público.

Por qualquer motivo o Silva Ribeiro colocou, na sua nova casa, a velha padieira da porta de entrada da demolida capela de S. António e para memorar a data da obra que fizera mandou gravar, envolvida na já falada data de 1720, aquela de 1876.

Assim, creio que bem interpreto o significado das datas que aquela padieira nos oferece.

Mas, o que não merece dúvida é que a capela já não existia em 1880, pois no caderno B da escrituração diária da receita e despesa, com data de 21 de Abril de 1880 e no livro da conta da mesma Câmara com o tesoureiro há referência, com a mesma data, à Capela «inutilizada».

O auto de arrematação de 21 de Abril de 1880 é mais expresso quando consigna «extinta capela de Santo António».

*

*  *

A capela foi pertença da Câmara não sei a que título, nem desde quando.

É provável que o Campelo lha entregasse logo que a construiu, desobrigando-se, assim, dos encargos inerentes e possivelmente já a construiu em terreno público, como disse.

A Câmara, em conformidade, praticou os necessários actos de administração, fazendo obras de reparação (acta da sessão de 19 de Agosto de 1842), comprando, para ela, paramentos e outros objectos (actas das sessões de 22 de Dezembro de 1842, 28 de Março de 1849, 26 de Junho de 1850 e citados pagamentos de 10 de Agosto de 1868 e de 18 de Junho de 1869).

Sempre pagou aos capelães e mandou fazer, à sua custa, obras na capela (acta da sessão de 17 de Agosto de 1842), dispondo dos seus bens aquando da sua extinção, vendendo-os, em hasta pública, como consta do já referido auto de arrematação de 21 de Abril de 1880.

Também afirmou expressamente o seu direito de propriedade: assim consta da acta da sessão de 26 de Junho de 1850 e do seu livro de registo de mandados de pagamento com o lançamento, em 10 de Agosto de / 86 / 1868, da despesa com a compra de um paramento vermelho para uso «na Capela dos presos propriedade da Câmara».

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Houve tempos em que o encargo da compra dos paramentos coube ao capelão (Provisão de 22 de Fevereiro de 1797).

O mesmo sucedia ainda em 1823, pois na citada provisão de 22 de Fevereiro de 1823, claramente se disse: – «Hei por bem que do saldo existente deles (cabeção das sisas) seja pago inteiramente e em primeiro lugar o Padre Capelão dos presos da Cadeia da mesma Vila porque alem de perigarem os deveres religiosos dos mesmos presos acresce ter o dito Capelão em virtude de Provisões antigas os concertos a sua custa a Capela que fica na Praça fronteira a mesma Cadeia, ornala de todos os paramentos para o culto, dar cera, vinho, ostias para a Missa que deve celebrar nela todos os Domingos e dias santos e fazer anualmente uma Festa a Santo António Padroeiro dela...».

Imagem de Santo António da Praça. Exposta na capela de Nossa Senhora da Piedade.

Da acta da sessão da Câmara Municipal de 12 de Novembro de 1857, vê-se que o capelão já estava aliviado de muitos destes encargos que, em consequência, foram transferidos para o município: «dizer missa todos os Domingos e dias santos aos presos das Cadeias desta vila, dar cera, vinho e hostias para a missa, de abrir a capela e tratar da lavagem das roupas e fazer todos os anos uma Festa a Santo António no seu dia...».

E ainda provou e exerceu o seu direito de propriedade e de administração quando do conflito que opôs os padres António José Gomes da Silva e Bernardo José Ferreira da Silva Brandão, na posse das chaves e fruição da capelania em 1786, como adiante referirei.

DIVERSOS

a

Património

Bens mobiliários

Como já disse, a capela era muito pequena, de capacidade muito limitada.

Além do altar, com seu retábulo feito de tábuas e suas imagens, mais alguma coisa se sabe do seu reduzido recheio.

A primeira e principal notícia sobre ele, colhi-a através do referido litígio entre os dois mencionados pretendentes à sua capelania; da acta da conferência da Câmara Municipal de 29 de Julho de 1786 (fls. 181 v do respectivo livro), consta:

«Convocaram os Reverendos Doutores João de Oliveira Dias e Sebastião José Peixoto para com eles oficiais da Câmara irem a capela da Praça desta vila onde com efeito foram averiguar o estado dos paramentos e o que se precisava neles e na mesma capela para a decencia necessaria com que se devia praticar o culto divino na forma que tinham determinado e indo os ditos Reverendos Doutores nesta conferencia declararam em suas consciencias atestaram depois de verem e examinarem o calix e patena estavam nos termos de se poder celebrar e da mesma forma o paramento de seda branco e suposto haviam mais dois de damasquilho de lã em bom uso e outro verde contudo na forma das pastorais deviam ser de seda e de uma só cor cada um deles e assim também o de cor encarnada por se não achar o que existe em termos. Que a alva precisava de uma renda com seu remate, mas que o melhor seria comprar uma de pano mais fino aparelhada mas que a renda nas margens fosse sobreposta e não saida. Quanto as bolsas e corporais se devia vestir a de lã com seda das mesmas cores com que se acha a de lã. Que se carecia de um cordão novo por se achar quebrado o que examinamos com o qual se não podia nem devia dizer missa. E que o Missal necessitava de nova encadernação com o aditamento dos santos novos e que se carecia de uma caldeirinha ou pia para agua benta e que não podem dourar-se as sombras do douramento que aparece no calix e assinaram».

Da acta da sessão da Câmara Municipal de 22 de Dezembro de 1842, consta que foi vendida uma mesa para ajudar à compra de uma alva e na da sessão de 26 de Junho de 1850, fala-se de uma deliberação tomada para a compra de dois lampiões para a capela da Praça «pertencente a esta Câmara».

Sabemos, como já informei, que a mesma Câmara, em sessão de 21 de Abril de 1880, deliberou mandar proceder à «arrematação dos paramentos e mais objectos da extinta Capela de Santo António» e que, do respectivo auto, consta que, nesse dia, nos Paços do Concelho e na presença do presidente e vereadores da Câmara Municipal e escrivão da Câmara «foi mandado ao oficial de diligencias Antonio José das Neves metesse a pregão os paramentos e mais objectos pertencentes a extinta Capela de Santo Antonio da Praça que foi propriedade da Câmara e constantes do respectivo inventário, com data de onze de Julho de 1876, o que o oficial cumpriu e passando a lançar pregoens por espaço de tempo, afinal deo fé, que o maior lanço que achava fora o que oferecera o Reverendo Abade / 87 / de Paços de Brandão José Henriques da Silva da quantia de vinte e quatro mil e duzentos reis por duas casulas, uma vermelha e branca, uma pedra de ara, uma alva, um cerigelo, e amito, um calix, patena e colher de prata e o de sessenta mil reis que ofereceu António Vicente da Costa Neves, da Lavandeira desta vila por um nicho de madeira com a imagem de Santo António e um Santo Christo e uma cruz tudo de madeira, tres casulas com as suas pertenças, um missal usado, tres sacras em mau estado, umas toalhas ordinarias, uma campanula e uma lamparina e um par de galhetas de vidro, muito usados e sendo afrontado o lanço e não havendo quem mais aparecesse, por ordem da Câmara entreguei o ramo aos ditos dous licitantes, que o receberam e tomaram entrega cada um deles dos objectos que licitaram, obrigando-se cada um deles por suas pessoas e bens a entrar no cofre com as quantias porque licitaram...» (livro dos autos de arrematação com início em 10 de Setembro de 1879 e seu termo em 25 de Janeiro de 1888 – fls. 28).

Este auto foi assinado pelo presidente da Câmara, Manuel Pinto de Almeida e pelos vereadores Roberto Alves de Sousa Ferreira, António da Mota Valente e José Corrêa Marques.

Vê-se, assim, que na capela não existiam móveis e que os seus paramentos e objectos do culto eram muito pobres, o que tudo denota quanto ela era de reduzidas dimensões.

É para estranhar, porém, que não se faça qualquer referência ao altar e seu retábulo, naturalmente porque tudo isto se reduziu a madeira para queimar.

Aquela imagem de Santo António, arrematada pelo António Vicente da Costa Neves, está hoje num altar da capela de Nossa Senhora da Piedade, e o seu nicho está por detrás do seu altar-mor, como já tive ocasião de referir.

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Capela de Santo António da Praça. Presumível nicho da imagem do seu padroeiro.

 

 

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Em 1878 ele era o juiz da Irmandade deste nome e é de presumir que ainda o fosse em 1880: por isso, ou por encargo recebido pelos mesários desta Irmandade, interveio nesta compra que não se pode compreender ter sido feita em proveito próprio, pois não tinha capela ou oratório, nem era abonado.

No mencionado livro de inventário daquela Irmandade apenas se encontra registada (sob número quatro) uma imagem de Santo António, que deve ser a que se encontra no nicho junto ao altar-mor.

A da capela de Santo António deve ser a que está, em altar próprio, no transepto.

Capela de Santo António da Praça. Outro aspecto do presumível nicho da imagem do seu padroeiro.

A já falada velhinha Maria Rosa de Jesus Ferreira confirmou dizendo-me que ela era conhecida por a do «Santo António da Praça» e que fora levada para a capela de N. Senhora da Piedade por seu pai e outros mesários da referida Irmandade.

Pode-se admitir que o «Santo Christo e uma cruz tudo de madeira», referidos naquele arrolamento de / 88 / 21 de Abril de 1880, sejam os que estão na capela de Nossa Senhora da Piedade, num nicho praticado na parede norte do seu primeiro corpo (o do poente).

D. Maria Júlia Rifa de Araújo possuía uma imagem de Santo António de proporções mais reduzidas do que aquela, que pertenceu a sua avó materna, D. Maria José Rodrigues da Graça, casada que foi com Bernardo José da Costa Rifa, antigo farmacêutico nesta vila, que dizia ter vindo, essa imagem, da capela de Santo António.

Não é fácil averiguar a veracidade desta tradição de família: se por um lado causa estranheza que a imagem, sendo de barro, pertencesse à capela, é de considerar que, em regra, nas capelas da época, era costume haver duas imagens do seu padroeiro: a principal que, quando das festas anuais, saía em procissão e a outra que, nestas ocasiões, ficava na capela a atestar a invocação.

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Imagem de Santo António. Pertença de D. Maria Júlia Rifa de Araújo.

Demais, naquele tempo (século XVIII), era muito vulgar o uso de imagens de barro.

Como, em 1797, foi imposto ao sacerdote da capela fazer a festa anual ao Santo António, o que foi confirmado em 1857, conforme já foi dito, é possível que esta imagem de barro se destinasse a ser conduzida na aludida procissão ou que ficasse na Capela a substituir a de madeira que seria utilizada nessa procissão.

O erudito padre A. Nogueira Gonçalves teve a gentileza de me dar o seu parecer sobre as referidas imagens, o que já referi no meu estudo sobre a «Praça Velha...» e passo a transcrever:

«a) A escultura de madeira de Santo António pertencera aos começos do século XVIII, executada por artista bastante corrente. Representa o vestido de franciscano e com a capa curta, de agasalho, que poucas vezes aparece. O hábito está levantado, isto é, apanhado sobre o braço esquerdo, deixando ver a sub-veste, fórmula que vem do século anterior, para se obterem efeitos de pregueado, isto é, de mero fim artístico. O Menino, voltado para a frente e com pequeno globo na mão esquerda, senta-se no livro que o Santo sustenta horizontalmente.

b) A escultura de barro será já dos meados do século XVIII, tendo saído da mão de artista de maior categoria que a de madeira; o movimento da figura bem como o do Menino, bastante graciosa, manifesta essa categoria superior.

A escultura de madeira é naturalmente de altar. A pequena, de barro, é mais propriamente de oratório doméstico, podendo ser usada nas procissões breves, em volta da Igreja ou da Capela, levada nas mãos do Sacerdote, que pequeno véu protege e que dava distinção ao acto; procissões habituais outrora, aos Domingos, no fim da Missa». / 89 /

Este douto parecer vem ao encontro da tese que defendo, atribuindo a fundação da capela a 1720.

b

Capelães

O fim a que se destinava a capela impunha a contínua assistência de um sacerdote para rezar, pelo menos, as missas dominicais e em dias santos.

O mais antigo capelão, de meu conhecimento, foi o padre Joaquim Soares de Melo que, possivelmente, foi o primeiro, o que averiguei no livro dos registos da Câmara Municipal da Feira, correspondente ao de 26 de Julho de 1726 (fls. 221), onde se lavrou o da provisão datada de 12 de Junho imediatamente anterior, em que D. João V autorizou que no cabeção das sisas se lançassem quinze mil réis em cada ano para côngrua do sacerdote que dissesse as missas aos presos.

Deste modo se deu atenção a um pedido feito pelos vereadores e o procurador da comarca em virtude de os presos não ouvirem missa, por não haver sacerdote que a quisesse rezar sem que lhe «fizessem congrua e a Câmara ser tam pobre que nam tinha rendimento algum para poder conservar o dito sacerdote no que padecião os ditos povos grande enconveniencia com a falta de uma tam pia obra que se podia satisfazer repartindo-se do cabeção das sisas quinze mil reis para congruas do sacerdote que dissesse as ditas missas».

A fls. 223 do citado livro está exarado o registo da mercê concedida pelo mesmo rei, em 21 de Agosto do mesmo ano de 1726, confirmando a nomeação feita pelos «oficiais da comarca da Vila da Feira», do padre Joaquim Soares de Melo para aquela capelania com a congrua de quinze mil réis em cada ano – «pagos no Cabeção das Sizas».

Destes dizeres conclui-se que, até então, o cargo de capelão era gratuito e que, verificando-se não ser possível manter-se essa situação (que penso durava há seis anos, atribuindo-se a fundação da capela a 1720), foi necessário remunerá-lo e nomear aquele sacerdote.

Aquele padre Joaquim Soares de Melo devia ser aparentado, muito de perto, com o José Soares de Melo (filho do licenciado Matias Soares) que, em 1708, emprazou ao convento desta vila, a já referida casa das «Sizas» ou da «Almotaçaria».

Em 6 de Julho de 1742 era capelão o padre Baltazar Joaquim Pereira: por isso é de presumir que este tenha sucedido àquele J. Soares de Melo.

A fls. 254 do livro dos mencionados registos, correspondente a 1775, com data de 13 de Junho desse ano, consta o da provisão que alcançou do rei D. José, em 28 de Março anterior, o padre Fernando Botelho Pinho Pereira e Lacerda, confirmando a nomeação com que o «Senado da Câmara» o beneficiara de «capelão dos presos da Cadeia da dita vila com obrigação de lhes dizer Missa todos os Domingos e dias Santos por falecimento do padre Baltazar Joaquim Pereira, com o mesmo ordenado de quinze mil réis que seu antecessor tinha».

Este padre Fernando Botelho, quando foi nomeado capelão, vivia nesta vila, pois em 15 de Julho de 1773 já assinava o auto de posse dada ao doutor Luís António Vaz da Silva e Sousa, de ouvidor da comarca da Feira.

Deve ser o que Felg. Gaio, no seu citado Nobiliário, tomo XXI, pág. 56, designa por Fernão Botelho, Clérigo, dando-o como filho de Bernardo Moreira de Vasconcelos e de sua mulher D. Bernarda Sofia de Leão e, assim, tio de D. Vitória de Lacerda, senhora que foi de uma das Casas da Praça (ver o meu citado estudo sobre a «Praça Velha...»).

Das actas das conferências da Câmara de 22-2-1786 (fls. 134 a 135), 8-7-1786 (fls. 177), 15-7-1786 (fls. 178v e 179), 19-7-1786 (fls. 180), 27-7-1786 (fls. 180 v e 181), 29-7-1786 (fls. 181 v a 182 v), 2-8-1786 (fls. 184 v e 185), 12-8-1786 fls. 185 v a 186 v), das quais extracto o principal, verifiquei que, quando este padre Fernão Botelho desistiu do seu cargo de capelão iniciou-se um grande pleito entre os padres António José Gomes da Silva e Bernardo José Ferreira da Silva Brandão, pois ambos se arrogavam ao direito da capelania na capela de Santo António.

O primeiro, com o fundamento de ter sido designado pelo padre desistente e o segundo por ter sido nomeado pela Câmara.

O certo é que o padre António José, antes de as chaves da capela serem entregues ao padre Bernardo, como foi ordenado na conferência da Câmara Municipal de 2 de Agosto de 1786, embora este dissesse, na conferência de 22 de Fevereiro deste ano, que ele «so interinamente era substituto do caplão desistente (referido padre Fernão Botelho) e por intervenção e vontade deste», a Câmara não deixou de lhe chamar «capelão actual» na acta de conferência de 19 de Julho do mesmo ano.

Não conheço, detalhadamente, as razões com que cada um deles fundamentou o seu direito, mas creio que nos elucida suficientemente o que consta da acta da conferência da Câmara de 22 de Fevereiro de 1786 (fls. 134 a 135 do respectivo livro) e demais a que me refiro: / 90 /

«Requereu o Procurador do concelho que para se deferir ao requerimento que se propoem do Reverendo Bernardo José Ferreira da Silva Brandão com atenção a diversidade deste Senado viesse um vereador imediato e juntamente o procurador do concelho seu antecessor por certas rasoins que tem para não votar aquele respeito o que sendo necessario jurava ser suspeito. Deferindo mandaram fosse chamado o veriador Dr. Luiz Pereira de Andrade e Araujo e o procurador do concelho imediato Antonio Soares da Silva Ferreira na forma requerida. Propondo-se a votos a decisão do requerimento do reverendo Bernardo José Ferreira da Silva Brandão pela diversidade que ha neste Senado para ser capelão da capela da praça desta vila votou o procurador do concelho imediato Antonio Soares da Silva Ferreira no mesmo Rev.do Bernardo Ferreira da Silva Brandão ratificando a nomeação nele feita no ano de mil setecentos e oitenta e quatro a treze de Março por ser primeira e não se mostrar impedimento no nomiado por onde fica excluido o direito adquirido pela dita primeira nomiação não sendo a desistencia do impedido capelão o R.do Fernando Botelho prejudicial ao primeiro nomiado por so depender a nomiação e ratificação dela desta Camara e não do arbitrio do desistente e não constar que o segundo nomiado o Reverendo Antonio José Gomes da Silva exercesse por nomiação ou despacho desta Camara e so interinamente era substituto do capelão desistente e por intervenção e vontade deste» (o sublinhado é meu).

O vereador imediato Dr. Luiz Pereira de Andrade e Araújo e o vereador Capitão Fernando José de Sousa votaram, em conformidade, com o procurador do concelho.

Contudo: «Disse votando o veriador Dr. José Justino da Assumpção que a vista que pedia o segundo nomiado se lhe devia dar para deduzir o direito que lhe assistia e que não era deferivel ainda a decizão do requerimento tanto pela razão da dita vista que fazia suspender como por que a nomiação ou demissão do capelão Fernando Botelho constava ser aprovada por Sua Magestade sem cuja resolução se não deva rescindir esta aprovação na vida do dito demitente ou este praticar a mesma demissão expressa e sem condição que se verificou no segundo nomiação com a aprovação do senado».

Continua dizendo a acta da mesma conferência: «E disserão os primeiros votantes que visto a nomiação ser da Camara e o desistente suposto tivesse Provisão de confirmação era para vencer o ordenado e se não duvidar dele no Cabeção se desse a vista ao segundo nomiado sem prejuizo da retificação do nomiação feita no primeiro nomiado».

O padre António José, por intermédio de seu irmão e procurador Dr. Manuel José da Silva, pediu vista da decisão para embargos; suspenderam-se os efeitos de todo o procedimento, sendo deferida a vista pedida.

Em conferência de 8 de Julho de 1786 (fls. 177) não foi aceite a suspeição do procurador do concelho para não votar «nesta pendência de eleição em que deve votar por não haver suspeição legal mandou o mesmo Ministro Presidente que o dito procurador votasse na dita eleição como entendesse».

Em conferência de 19 de Julho de 1786 (fls. 180) levanta-se novo incidente, que julgo ter sido motivado por um pretexto para alcançar as chaves da capela que estavam na mão do padre António José Gomes da Silva: – «nesta por informação que tiveram de que os paramentos e mais peças e ornamentos da capela da Praça desta vila precisavam de alguns concertos mandaram vir a chave da mesma capela e vindo pedi-la o oficial Bernardo Carneiro ao capelão actual (o sublinhado é meu) deu fe que ele lhe respondera que os mesmos paramentos estavam vistos e não dava a dita chave depois do que veio a esta conferencia seu irmão Bacharel Manuel José da Silva declarar estava pronto o dito seu irmão capelão a vir abrir a mesma capela para a inspecção desta Camara sem que o viesse fazer o dito capelão» (fls. 180 v).

Na conferência de 27 do mesmo mês e ano (a que chamaram «de providencia») foi deliberado que «...por se precisar de concerto os paramentos da capela da praça desta vila, dourar o cálix e outras mais rasões que haviam e se mandar pedir a chave ao Reverendo António José Gomes da Silva para averiguação do preciso na conferência de 19 do corrente mez que a negou na forma da fe prestada na mesma conferencia por isso e por não ter até ao presente satisfeito e em tais circunstâncias pertencer à inspecção da Camara a necessaria providencia não so pela necessidade dos concertos mas pelo vilipendio com que assim o praticou injuriosamente mandaram que o alcaide, com pena de suspensão, com um carpinteiro, fizesse arrancar a fechadura da porta da mesma Capela, pregar-lhe outra e trazer a chave fazendo da mesma entrega ao procurador do concelho que diligenciara um Reverendo padre para interinamente satisfazer com as missas da obrigação ate a decisão do litigio que pende sobre quem ha de ser legitimo capelão não entregando a nenhum dos nomiados litigantes nem sendo eles os que satisfaçam por ora a dita obrigação sendo obrigado o dito alcaide ou um oficial de seu mandado ir abrir e fechar a mesma capela para a satisfação das ditas missas e recolher as chaves ao dito procurador / 91 / sobre o que na primeira coferencia se dariam as providencias que mais fossem necessarias».

Seguiu-se a conferência de onde consta, como já referi, o resultado da inspecção feita, com data de 29 de Julho (fls. 181 v).

Desta conferência consta ainda «Apareceu o Bacharel Silva como procurador do Reverendo Padre Antonio Jose Gomes da Silva e requereu se lhe madasse entregar a chave da capela da praça desta vila conservada assim na posse em que estava ate decisão dos requerimentos que traz com o Reverendo padre Bernardo Jose Ferreira da Silva Brandão e muito mais tendo cessado o motivo porque se procedeu na conferência de providencia que se fez neste senado. Deferindo mandaram que autuado na forma determinada no requerimento ou petição do requerimento fosse concluso» (seguem-se os termos em que foram recebidos os recursos interpostos).

Da acta da conferência de 2 de Agosto seguinte (fls. 184) consta o que se deve considerar o desfecho do incidente: «Mandaram que visto se não ter apresentado neste Senado a decisão do agravo que interpos o Reverendo padre Antonio Jose Gomes da Silva sobre o recebimento de apelação antes sim constar dos mesmos autos que este lhe juntou uns documentos que de nada valem so a fim de querer fazer eterna a mesma causa querendo disfrutar as regalias deste Senado se entregasse as chaves da capela respectiva ao Reverendo padre Bernardo Jose Ferreira da Silva Brandão capelão nomeado por este Senado (o sublinhado é meu) como lhe e permitido para cumprir com as obrigações da mesma capela sendo desnecessario o estar-se pagando pelos bens do concelho sendo o mesmo capelão pago pelos bens de raiz ao qual determinaram que logo se entregassem as chaves e paramentos ainda em atenção a ser filho do tesoureiro deste Senado, lavrando de tudo o escrivão termo e fazendo-se do que se achar na mesma capela e sendo chamado pelo alcaide compareceu e disse aceitava obrigando-se a cumprir tudo o determinado e mandaram se procedesse aprontar os paramentos na forma necessaria e declarada na conferência precedente e assinou».

Na conferência seguinte, de 12 de Agosto (fls. 185 v) apareceu o bacharel Silva, como procurador de seu irmão – o padre António José Gomes da Silva, a interpor recurso da deliberação tomada na conferência anterior ao que «disse o Bacharel Conceição (?) procurador do padre Capelão da mesma capela Bernardo José Ferreira da Silva Brandão que o padre agravante não exercia a ocupação de capelão por razão de nomiação que tivesse deste nobre Senado, nem mesmo por confirmação de Sua Magestade pois que esta lhe desatendera seu requerimento como se mostrava em uma certidão que se achava junta aos autos e requereu...» (segue-se controvérsia processual com protestos e contra-protestos).

Não encontrei os livros das actas das conferências da Câmara a partir da de 16 de Agosto de 1786 até à de 4 de Abril de 1829 e assim, quanto a esta matéria, e em relação a este período de tempo socorri-me do que consta dos livros dos registos da Câmara.

Destes livros, no tocante aos anos de 1794 a 1805, consta a fls. 60 v e 61, a transcrição da provisão já citada, por meio da qual o padre Bernardo José Ferreira da Silva Brandão – «alcançou de acrescento ao ordenado de capelão dos presos cinquenta mil reis».

Por ela sabemos que, em 22 de Fevereiro de 1797, D. Maria I tomou em consideração um pedido feito por aquele padre, que então era «Capelão da capela de Santo Antonio da mesma Vila provisão minha», aumentando para cem mil reis a anuidade que, então, era de cinquenta mil reis, nos seguintes termos:

«Tendo a tudo consideração: Hey por bem faser ao suplicante Mercê de lhe acrescentem mais cincoenta mil reis a outra tanta quantia que já tem ficando percebendo anualmente de seu ordenado cem mil reis pagos pelos sobejos ao Cabeção da dita vila, havendo-os com a obrigação mais alem que tem de fazer uma festa anual a Santo Antonio Padroeiro da dita Capela».

Considerava-se nesta provisão «que percebendo de ordenado a quantia de quinze mil reis fora Eu servida acrescentarlho com mais trinta e cinco em rasão de ser o suplicante obrigado a celebrar o Santo Sacrificio da Missa aos Domingos e Dias Santos impreterivelmente per si proprio aos prezos dos carceres da dita vila comprando sera, vinho, hostia e fazendo lavar e engomar a roupa da referida capela, tudo a sua custa havendo-se lhe imposto de novo na provisão do mesmo acrescento a obrigação da fazer concertar os telhados, forro e solha da sobredita capela, de alvala barrela, e de comprar a sua custa paramentos de vestir o altar e sacerdote, a cujos encargos se obrigara, prestando fiança nos livros da respectiva Câmara, como constava da dita provisão que juntava: cujas obrigações estava cumprindo exactissimamente, conservando a capela com a decencia devida, paramentando-a com paramentos de damasco e de ceda de todas as cores, na forma das pastorais e capitulos de visita dos prelados tudo com o tenue ordenado de cincoenta mil reis; porem como todas as couzas que se fazião necessarias para satisfazer os ditos encargos subião cada vez mais a preço extraordinario; recebia o suplicante gravissimo prejuizo nesta consideração, e de todo o exposto se considerava / 92 / merecedor de maior ordenado. Pedindo-me fosse servida acrescentar lho ao que já tinha, mais setenta mil reis para perceber a quantia de cento e vinte mil reis anuais pagos pelos sobejos dos bens de Raiz do mesmo concelho, havendo os, visto que sempre havia acrescimos como mostrava pela certidão que oferecia».

Foi concedido o aumento de cinquenta mil réis com a informação do corregedor desta vila, depois de ouvidos «os oficiais da Camara e Nobresa e Povo dele» que reconheceram «ser o suplicante merecedor do acrescento no dito ordenado com o que se conformou o procurador da minha Coroa na sua resposta».

Por ser oportuno, transcrevo o que já disse no meu estudo, já mencionado. – «A Praça Velha...» pág. 230 e seguintes da separata) quando dei notícia dos capelães que se sucederam na capela desde 1839 a partir daquele padre Bernardo da Silva Brandão.

[«Nos mesmos livros de actas e ainda nos das contas do tesoureiro da mesma Camara encontram-se muitas referências à capela desde 1839, apurando-se que era ela quem nomeava e pagava aos seus capelães.

Na de 30 de Janeiro de 1839 consta que, nessa sessão, foi nomeado capelão, com posse nesse dia, o padre José Máximo Corrêa de Sá, com o ordenado de 60000 réis anuais e a obrigação de rezar missa para os presos, todos os domingos e dias santos, lugar vago pelo falecimento do padre Bernardo José Ferreira da Silva Brandão (que havia sido nomeado para o mesmo fim e com o ordenado de 50 000 reis anuais, em sessão de 16 de Dezembro de 1835) e na sessão de 12 de Novembro de 1857 que, por falecimento daquele padre José Máximo foi nomeado capelão, da mesma capela, o padre Dom António do Patrocínio Peixoto, mas logo, em sessão de 16 de Outubro de 1858, era nomeado capelão, por falecimento deste, o padre José Caetano Corrêa de Sá, da freguesia de Sanfins.

Já em 1849, como se vê da acta da sessão de 28 de Março, o nome deste padre se encontra ligado à capela, pois dela consta a autorização de pagamento, a ele feito, de 8705 réis, importe da despesa feita com o «concerto da Capela de Santo Antonio e compra de alguns paramentos para a mesma capela segundo conta apresentada pelo mesmo padre». Então era dado como sendo da «vila».

Nos livros de registo dos nascimentos, da paróquia da Feira, entre 5 e 12 de Dezembro de 1852, o dito padre José Caetano assina, nos respectivos actos de registo, por comissão do Rev. Reitor padre Thomaz Máximo de Aquino Corrêa de Sá e, em 8 de Setembro de 1856, volta a assinar tais actos, então como vigário encomendado da freguesia de Sanfins, por comissão do padre Joaquim Celestino Albano Pereira, então pároco da vila.

Na referida acta da sessão da Câmara de 12 de Novembro de 1857 foram, mais uma vez, definidas as obrigações do capelão – «dizer missa todos os domingos e dias Santos aos presos das cadeas desta vila, dar cera, vinho e hosteas para a Missa, de abrir a capela e tratar de lavagem das roupas e fazer todos os anos uma festa a Santo Antonio, no seu dia, vencendo o ordenado anual de cincoenta mil reis pagos pelo cofre desta Câmara e sendo lhe entregue os paramentos e mais utensilios da dita capela obrigando-se por termo a sua boa guarda e conservação».

Em sua sessão de 24 de Julho de 1858 e reagindo contra o parecer do Conselho do Distrito sobre o orçamento para 1858-1859, a Câmara respondeu «que a supressão da verba de cincoenta mil reis de ordenado para um Capelão dos presos se torna inadmissivel, porquanto, desde que existe a Vila da Feira, sempre houve um Capelão para dizer Missa aos presos da Cadeia em Capela para esse fim edificada na praça publica d'esta vila de cuja missa se utilisão tambem centenas de pessoas das freguesias deste municipio que concorrem ao mercado que se costuma celebrar todos os Domingos nesta mesma Vila, tendo o respectivo Capelão antigamente o ordenado de cento e vinte mil reis, que hoje se acha reduzido a cincoenta mil reis, cativa a decimas e as despesas inerentes a mesma Capela não aparecendo Eclesiastico algum que por menor quantia se encarregue da administração da Capela, atenta a falta de eclesiasticos que ha neste Concelho».

Afora o exagero, que parece verificar-se quanto à antiguidade atribuída à Capela, este trecho é bem elucidativo sobre a veneração que era dedicada à capela de Santo António da Praça.

Pelo livro de escrituração diária do tesoureiro da Câmara, que teve o seu início em Julho de 1853 e seu termo em 1859, consegui apurar que, em 11 de Março deste ano, foi feito o pagamento de 11$919 réis ao Rev. Padre Manuel Carlos Peixoto, de Fornos como herdeiro de seu irmão, o aludido D. António Patrocínio Peixoto «imposto do ordenado que se ficou devendo ao falecido como capelão dos presos desde 1 de Julho até 9 de Outubro de 1858».

Do mesmo livro consta que, em 5 de Fevereiro de 1859, a Câmara pagou ao capelão dos presos, padre José Caetano Corrêa de Sá, do seu ordenado de 17 de Outubro de 1858 até 31 de Janeiro de 1859, a quantia de 12$650 réis.

No livro das contas do tesoureiro da Câmara (de 31 de Agosto de 1860 a 30 de Junho de 1862) ainda / 93 / encontrei uns registos de pagamentos, especificadamente referidos ao capelão dos presos – José Caetano Corrêa de Sá, com data de 19 de Fevereiro e de 3 de Abril de 1861, este último de importe dos seus ordenados dos meses de Setembro a Fevereiro deste ano – 30$010 réis»].

Foi este o último pagamento que encontrei registado.

Se outros se fizeram posteriormente, como é natural, devem ter sido incluídos na folha do pagamento dos empregados da Câmara que, no livro da receita e da despesa do município tem esta designação, sem descriminação (como sucedeu na folha de 19 de Fevereiro de 1861): por isso, só vendo tais folhas, que ainda não se encontraram, se pode, com certeza, fixar a data do último pagamento feito ao capelão.

Não sei se o José Caetano Corrêa de Sá se manteve na capelania até à extinção da capela em 1876, ou se algum sacerdote lhe sucedeu neste cargo: é certo, porém, que ele ainda era capelão da referida Capela em 1869, porque do livro de registo de mandados de pagamento da Câmara Municipal consta que em 18 de Junho deste ano foi pago a este «Capelão da Capela da Praça» a quantia de 1 400 reis – «importancia da despesa com paramentos da mesma Capela».

Quanto ao padre Bernardo José Ferreira da Silva Brandão notamos que é dado como capelão em 1797 (citado livro dos registos da Câmara Municipal correspondente aos anos de 1794 a 1806 – fls. 60 v e 61), com o ordenado de cem mil réis anuais e que em 1835 é nomeado para o mesmo cargo com o ordenado de cinquenta mil réis anualmente.

Deve tratar-se da mesma pessoa dada a absoluta identidade do seu nome e apelidos e, assim, ou esteve capelão desde aquele ano de 1797, motivando a sua nova nomeação em 1835, a diferença de ordenado, ou ocupou o cargo por mais de uma vez, interpolando-se um ou outros, cujos nomes não me foi possível averiguar.

Este padre Brandão era filho de José Ferreiro Brandão (já falado na história da capela de Nossa Senhora de Monserrate) que foi senhor, como enfiteuta, do mato do Bita, hoje incorporado na Quinta do Castelo, pertencente à Federação das Caixas de Previdência e era cunhado do advogado, que foi desta vila, Dr. Apolinário José da Costa.

Assim, podemos seriar os capelães da capela de S. António, pela ordem de sucessão, talvez completamente, pela ordem seguinte: – Joaquim Soares de Melo, Baltazar Joaquim Pereira, Fernando Botelho Pinho Pereira de Lacerda, António José Gomes da Silva (com as restrições atrás apontadas), Bernardo José Ferreira da Silva Brandão, José Máximo Corrêa de Sá, Dom António do Patrocínio Peixoto e José Caetano Corrêa de Sá.

Cobriram o período de tempo da existência da Capela – pouco mais de século e meio.

c

Festividades

Pelo que consta da mencionada provisão de D. Maria I, de 22 de Fevereiro de 1797, foi então imposta, ao capelão, a obrigação de «fazer a festa anual ao Santo António, padroeiro da capela», obrigação que, neste documento, aparece pela primeira vez e se repete na provisão, já falada, de 20 de Fevereiro de 1823.

Isto veio a dizer-se na acta da sessão da Câmara Municipal de 12 de Novembro de 1857, ao definirem-se os deveres do capelão, onde se enuncia o de «fazer todos os anos uma festa a Santo António no seu dia».

Ficamos, assim, a saber que entrava nas obrigações dos capelães, fazer esta festa e, possivelmente, com procissão, desde 1797 a 1857 (pelo menos 60 anos).

d

Santo António Padroeiro

Tenho encontrado este santo como padroeiro de algumas capelas destinadas à assistência religiosa aos presos.

Assim, posso citar, além da que estudo, a de Aveiro, referida pelo ilustre escritor e historiador Eduardo Cerqueira, no seu artigo «Um irmão de José Estêvão, esquecido», no Arq. Dist. Av. n.º 150, fls. 83: – «Capela de Santo António dos Presos, defronte da cadeia».

 

páginas 55 a 93

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