Acesso à hierarquia superior.

N.º 14

Publicação Semestral da Junta Distrital de Aveiro

Dezembro de 1972 

A colónia de garças da mata de S. Jacinto - Aveiro

Por Nuno Gomes Oliveira

(Colaborador do Núcleo de Estudos Ornitológicos

de Ciências do Porto e da Sociedade Portuguesa de Ornitologia

Clicar para ampliar.
Fig. 1 – A mata florestal de S. Jacinto com os seus 41 talhões. Em 1972 as garças criaram no talhão n.º 12. As zonas pontuadas são terrenos particulares.

Partindo de Ovar, pela Estrada Nacional 327, em direcção a S. Jacinto, a cerca de 5 km desta última povoação, encontramos uma extensa e pujante mata, que os Serviços Florestais mandaram semear em 1888, para fixar as dunas. Situada numa longa faixa de areia, que separa a costa atlântica da margem poente do braço Norte da Ria de Aveiro, nela predomina em largo quantitativo, o pinheiro bravo, Pinus pinaster Sol, além de numerosas espécies arbóreas e arbustivas.

É precisamente no coração dessa mata que está estabelecida, há já mais de 20 anos, uma pequena, mas valiosa e interessante, colónia de garças.

Em Portugal, só há conhecimento da existência de mais quatro núcleos de criação de garças, a saber: No Paul do Boquilobo, na Golegã, a que faz referência o Dr. Agostinho Isidoro (1), no Leixão da Gaivota, em Portimão, de que dá notícia J. A. dos Reis Júnior (2), e na Herdade de Vale de Moura, freguesia de S. Jordão, concelho de Évora e na Barragem do Roxo, em Ervidel, de que deu conhecimento o Sr. Alberto Xavier, distinto colaborador dos Serviços de Anilhagem do Núcleo de Estudos Ornitológicos da Faculdade de Ciências do Porto.

Torna-se evidente o interesse desta colónia no panorama ornitológico nacional e, até, internacional, pois é, certamente, a mais setentrional de todas as colónias de garças-boieiras da Europa.

A colónia de garças de S. Jacinto começou a ser estudada pelo Prof. Dr. Santos Júnior e Dr. Osvaldo Freire (3), em 1963, até 1966. Em 1970, o estudo da colónia foi continuado por Francisco Londot (4), e por mim em 1971 (5). Em 1972 prossegui na colheita de elementos, e venho, agora, apresentar um resumo desse trabalho.

A COLÓNIA DE GARÇAS

Como disse logo de inicio, a colónia está estabelecida na Mata Florestal de S. Jacinto, mata esta que é cruzada por caminhos rectilíneos chamados arrifes e aceiros, orientando-se os primeiros no sentido Norte/Sul, ou seja, paralelamente à Ria e os segundos no sentido Leste/Oeste, perpendicularmente à mesma. / 11 /

São estas veredas que delimitam os 41 talhões ou manchas em que está dividida a mata (Fig. 1).

A colónia tem vindo a ocupar vários talhões no decorrer dos anos. Com dados colhidos nos trabalhos dos autores atrás citados e com base em algumas informações do Guarda-Florestal da Mata, pude elaborar a seguinte lista:

 

Período de ocupação

Talhão

     ?   – 1955

15

1956 – 1957

6

1958 – 1959

2

1960 – 1961

30

1962 – 1967

24

1968 – 1969

21

1970 – 1972

12

 

São duas as espécies de garças que nidificam em S. Jacinto, a saber: Egretta garzetta (Linn.) e a Bubulcus ibis (Linn.), a segunda em menor quantidade.

Para a primeira, o Dr. António Themido no seu livro Aves de Portugal (Chaves para a sua determinação), n.º 213 de «Memórias e estudos do Museu Zoológico da Universidade de Coimbra», Coimbra, 1952, regista os seguintes nomes vulgares: Garça ribeirinha, garça branca, garceta, chisco, lavandeira e garzeta do mar. Em Esmoriz é conhecida pelo nome vulgar de garçote.

Esta garça é totalmente branca, dum branco puro, com bico e patas negras e pés amarelos. Os adultos, no Verão, têm um penacho na nuca, formado por duas longas e estreitas penas brancas, e escapulares compridas, formando capa difusa e pendente.

A segunda, a Bubulcus ibis, é conhecida por garça boieira, mas, além deste nome, o Dr. António Themido, cit., regista mais os seguintes: garça, garciote e garça da Barbaria.

Esta ave apresenta durante a época de criação umas belas plumas vermelho-amareladas, na cabeça, dorso e peito, sendo branca a plumagem do resto do corpo. O bico e as patas são de tonalidade rosada.

Os juvenis diferem um pouco dos adultos, mas somente na cor do bico e das patas. Assim, os juvenis da Egretta garzetta apresentam bico preto, aguçado e comprido e patas pardas.

Os juvenis da Bubulcus ibis têm bico amarelado no vértice e escuro ou preto na base, mais curto e rombudo que o da E. garzetta e patas pardo-verdosas ou quase verdes. Estas diferenças foram muito úteis na distinção dos exemplares que anilhei, e de que falarei mais à frente.

Além dos caracteres citados, a respeito dos juvenis, outros há de ordem biométrica. Dos exemplares anilhados em 1972, medi um de cada espécie com o fim de os poder comparar. Segue-se o quadro das medições tiradas:

 

Elementos biométricos

Bubulcus ibis

Anilha n.º 1803.J 26-7-72

Egretta garzetta

Anilha n.º 1 804.J 26-7-72

Comprimento total (6)

340 mm

360 mm

Comprimento da asa

206 mm

190 mm

Comprimento da cauda

75 mm

58 mm

Comprimento do bico

67 mm

82 mm

Comprimento do tarso

73 mm

66 mm

Comprimento do dedo médio, com unha

62 mm

60 mm

Comprimento da unha do dedo médio

12 mm

9 mm

Comprimento do dedo polegar, com unha

40 mm

38 mm

Comprimento da unha do dedo polegar

17 mm

11 mm

Comprimento Altura do bico ao nível das narinas

15 mm

14 mm

 

/ 12 /  Os dois exemplares a que se referem as medidas acima indicadas estavam já totalmente cobertos de penas, muito embora ainda não voassem, o que, julgo, deviam estar prestes a poder fazer. 

NOTAS SOBRE AS VISITAS EM 1972

Em 1972 estive por 4 vezes em S. Jacinto: de 29 de Março a 5 de Abril, em 15 de Maio, 11 de Junho e de 25 a 29 de Julho. Durante as estadias acampei perto da colónia. As tarefas que me tomaram a maior parte do tempo foram a anilhagem, as contagens e as observações.

Clicar para ampliar.
Fig. 2 – Dois ninhos num pinheiro

Para estudar a vida social das garças, costumava emboscar-me na copa de um pinheiro. Entre os factos que daí observei, apenas destaco o seguinte, pois outros estão ainda em estudo.

A E. garzetta impõe o seu domínio sobre a B. ibis. Assim, se esta última ia pousar no ramo em que já estava a primeira, era, de certo, escorraçada por ela. Se o caso se passava ao inverso, isto é, se era uma E. garzetta que ia pousar no ramo em que estava uma B. ibis, esta partia muitas vezes de livre vontade, antes que a isso fosse obrigada, à bicada...

Um outro facto não quero deixar de relatar, pois, além de interessante, é muito importante para o estudo desta população de garças.

Verifiquei que os bandos de garças, aliás como diversas outras aves, voam em V, no vértice do qual segue um indivíduo que, em minha opinião, é um guia. É um assunto que procurarei averiguar em próximas campanhas de estudo.

Para alguns ornitólogos o facto de algumas aves voarem em V será para permitir a cada uma ver as que a precedem, evitando assim qualquer desastrosa colisão.

Clicar para ampliar.

Fig. 3 – Vista geral da colónia, de cima de um pinheiro.

Na opinião de outros ornitólogos, opinião essa que eu também partilho, a formação em V será uma engenhosa maneira de as aves, sujeitas a maiores ou menores deslocações, pouparem energias. A ave que vai no vértice da formação provoca uma agitação de ar que se propaga para trás e para os lados e facilita o voo da ave que vem imediatamente a seguir, que apoia uma asa na turbulência, ao mesmo tempo que, com a outra, provoca nova perturbação de ar que vai facilitar o avanço à sua seguidora, assim sucedendo com todos os elementos do bando que, em regra, é formado por 10 a 14 aves.

Em 1971 (5) ocupei-me do estudo do regime alimentar das garças e cheguei às seguintes conclusões, a respeito da alimentação dos juvenis:

 

Alimento

Percentagem

Gafanhotos pequenos

60 %

Peixes pequenos

20 %

Insectos diversos

10 %

Rãs pequenas

5 %

Camarões pequenos

5 %

 

Este ano verifiquei que a percentagem de gafanhotos desceu consideravelmente e apareceram restos de enguias, um deles com cerca de 25 cm.

 

ANILHAGEM

Como digo atrás, uma das tarefas em que me ocupei foi a anilhagem de garças nos ninhos. Coloquei 33 anilhas do lote 1 801 a 1 900.J, do Museu de Zoologia da Universidade do Porto – Portugal, em garças juvenis.

Clicar para ampliar.

Fig. 4 – Vista geral da colónia, de cima de um pinheiro.

Uma das garças que tinha sido anilhada em 1971, com a anilha n.º 6301.T, foi abatida em Paião, Figueira da Foz, nos primeiros dias de Setembro do mesmo ano. Segundo os registos esta ave tinha sido anilhada no / 13 / ninho em 9-7-1971. Atendendo a que só estaria apta a voar cerca de 15 a 20 dias depois da data da aniIhagem, conclui-se que gastou nesta deslocação cerca de um mês. A este tipo de movimento chama-se dispersão juvenil ou pós-nupcial. Quando o volume de recapturas for maior, será apresentado o seu estudo analítico.

RESULTADOS DAS CONTAGENS

Contei 287 ninhos, distribuídos por 94 árvores, na sua maioria pinheiros, Pinus pinaster Sol, embora algumas austrálias, Celtis australis. Os 287 ninhos equivalem a 287 casais ou 574 aves adultas. Pois se de cada ninho nascerem, em média, 3 aves, temos mais 861 aves. Deduzida a taxa de mortalidade infantil de 2 %, apontada por Londot (4), sobreviveriam cerca de 835 juvenis.

Assim, o total da população em 1972 seria de cerca de 1 409 aves. Verifica-se uma diminuição de 536 garças relativamente a 1971.

Seguidamente apresento um quadro e um gráfico onde resumo as contagens efectuadas de 1963 a 1966 pelo Prof. Santos Júnior e Dr. Osvaldo Freire, cit., em 1970 por Francis Londot, cit., e por mim em 1971 e 1972.

Pelo gráfico pode-se avaliar a oscilação da população.

AGRADECIMENTOS

Não quero deixar de expressar o meu voto de agradecimento:

– Ao Sr. Prof. Doutor Santos Júnior, que muito contribuiu para a realização deste estudo.

– Ao Sr. Álvaro Lopes Cachaço, Guarda-Florestal da Mata de S. Jacinto, pela colaboração prestada.

– Aos meus amigos José Manuel e Jorge Manuel P. Sousa, António P. Almeida, José Manuel e Inês Maria C. Costa, pela ajuda prestada nas contagens.

– À Junta Distrital de Aveiro pela aceitação que deu a este pequeno estudo.

clicar para ampliar.
Gráfico referente à oscilação da população.

 

Contagens de ninhos e árvores

 

1963

1965

1966

1970

1971

1972

N.º de ninhos

186

434

577

477

389

287

N.º de árvores

63

127

198

152

83

94

Ninhos por árvore

3,0

3,4

2,9

3,1

4,6

3,0

Taxa de crescimento

?

- 53 %

- 33 %

- 4,5 %

- 18,5 %

- 26,2 %

 

 

NOTA FINAL

Clicar para ampliar.

Como se pode ver pelo gráfico apresentado, o quantitativo populacional desta colónia de garças tem vindo a decrescer desde 1966. É evidente a urgência de averiguar as causas deste refluxo populacional e tentar, se possível, impedi-lo. Bem será que a Mata de S. Jacinto não fique privada desta bela colónia de garças, que tanta beleza lhe empresta.

Que todo o conjunto arbóreo da Mata de S. Jacinto e, portanto, a colónia de garças, fosse tornado numa Reserva, é o desejo de todos os que, como eu, pensam que proteger e conservar a Natureza é uma das mais prementes necessidades da actualidade: é que os homens de amanhã também têm direito de desfrutar das suas belezas.

Fig. 6 – Dois juvenis de Egretta garzetta, anilhados, perto do ninho.

Façamos tudo o que estiver ao nosso alcance / 14 / para que S. Jacinto venha a ser um desses santuários para aves aquáticas que, presentemente, estão a ser criados em toda a Europa. Num amanhã muito próximo, as reservas agora criadas serão os únicos refúgios da fauna, tesouros sem preço.

Porto, Novembro de 1972.

 ________________________________

NOTAS

(1) – Agostinho F. Isidoro – Aparecimento acidental de aves na fauna ornitológica de Portugal – in CYANOPlCA, VoI. 1. Fase. 1.º, Porto, 1968.

(2) – J. A. dos Reis Júnior – Catálogo sistemático e analítico das aves de Portugal – Porto, 19311

(3) –  J. R. dos Santos Júnior e Osvaldo Freire – The heronry at San Jacinto (Portugal) – in Anais da Fac. Ciências do Porto, Tomo XLVIII, Porto, 1985.
 – Idem, idem – A Colónia de garças de S. Jacinto – Aveiro, in Aveiro e o seu Distrito, n.º 3, Águeda, 1987.

(4) – Francis Landot – Contribution a l’étude de la Heronnière de S. Jacinto (Aveiro) en 1970 – in CYANOPlCA, VoI. I, Fase. 3.º, Porto, 1971.

(5) – Nuno Gomes Oliveira – A colónia de Garças da Mata de S. Jacinto (Aveiro) em 1971 – in CYANOPlCA, VoI. 1. Fase. 3.º, Porto, 1971.

(6) – A título de comparação cito o comprimento dos adultos: 560 mm para a E. Garzetta e 510 mm para a B. ibis. Segundo Perterson, Mountfort e Hollom – A field guide to the birds of Britain and Europe – Collins, Londres, 1954.

 

páginas 10 a 14

Menu de opções

Página anterior

Página seguinte