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N.º 3

Publicação Semestral da Junta Distrital de Aveiro

Junho de 1967 

 

Subsídios para a História da Igreja de Nossa Senhora da Apresentação, de Aveiro

Por Francisco Ferreira Neves

Antigo professor efectivo do Liceu Nacional de Aveiro
Director da Revista "Arquivo do Distrito de Aveiro"

 

O bispo de Coimbra, D. João Soares, por provisão dada na sua quinta de S. Martinho a 10 de Julho de 1572, criou na vila de Aveiro três novas freguesias: uma na Igreja da Vera Cruz, outra na do Espírito Santo, e outra na de Nossa Senhora das Candeias, todas desmembradas da freguesia de São Miguel, a única que havia nesta vila. A igreja paroquial de São Miguel pertencia à Ordem e Mestrado de Avis de que o rei era governador e perpétuo administrador.

O rei D. Sebastião tinha dado prévio assentimento ao bispo para a erecção das novas freguesias e as três novas igrejas matrizes ficaram pertencendo também à Ordem de Avis.

A apresentação dos vigários das quatro freguesias pertencia ao rei por ser o grão-mestre da Ordem.

A igreja de Nossa Senhora das Candeias era uma ermida que também tinha a invocação de São Gonçalo e estava situada numa pequena elevação junto às salinas do Rossio, as quais já não existem desde os meados do século XIX.

Esta ermida, que tinha sido feita pelo povo nos princípios do século XVI, ficou sendo a matriz da nova freguesia de Nossa Senhora das Candeias, também denominada de São Gonçalo, e mais tarde, de Nossa Senhora da Apresentação.

Serviu este pequeno templo de igreja matriz durante cerca de quarenta anos, após os quais uma nova e espaçosa igreja construída noutro local nos princípios do século XVII passou a ser a matriz da freguesia. Esta foi extinta em 1835 e incorporada na da Vera Cruz. Mais tarde, em 26 de Dezembro de 1876, a igreja de São Gonçalo ou de Nossa Senhora da Apresentação passou a ser a matriz da ampliada freguesia da Vera Cruz, por ter sido demolida a igreja paroquial desta.

 

A NOVA IGREJA DE SÃO GONÇALO OU DE NOSSA SENHORA DA APRESENTAÇÃO COMEÇOU A EDIFICAR-SE NO ANO DE 1606

O Sr. Coronel Diamantino Antunes do Amaral publicou no n.º 1 de «Aveiro e o seu Distrito» um artigo subordinado ao título Coisas do passado que desenterrei da poeira dos arquivos, no qual, entre outros assuntos, estuda a data da construção da actual igreja de Nossa Senhora da Apresentação, assim denominada por ser esta Senhora a padroeira da igreja, discordando da afirmação de Marques Gomes, nas suas Memórias de Aveiro, de que foi edificada em 1606.

Pretende o Sr. Coronel Amaral que esta nova igreja foi concluída em 1627 e começada muito depois de 1606, baseando-se no registo que o vigário da freguesia fez do falecimento de Maria Pinheiro em 12 de Setembro de 1627, com a declaração de que foi sepultada na Igreja nova. E diz o Sr. Coronel Amaral: «Foi esta a primeira vez que se aludiu a enterramentos na Igreja Nova».

E conclui que, tendo-se começado a utilizar esta igreja no serviço paroquial em 1627, é de parecer que as obras de «Igreja Nova» só neste ano tinham sido completadas; e que não sendo admissível um gasto de vinte e um anos na construção desta igreja, ela devia ter sido começada muito depois de 1606.

Não são exactas as conclusões do Sr. Coronel Diamantino do Amaral nem as afirmações de Marques Gomes.

Demonstraremos que a igreja de Nossa Senhora da Apresentação não foi concluída em 1627 nem construída em 1606.

Comecemos então por transcrever o que diz Marques Gomes nas suas Memórias de Aveiro, publicadas em 1875:

«Esta igreja que é uma das melhores que Aveiro possui, foi edificada em 1606 no local de uma capela denominada de S. Gonçalo, erecta em freguesia do ano de 1512 (aliás 1572) pelo bispo Conde D. João Soares (pág. 109);

e na sua obra O Distrito de Aveiro, publicada em 1877:

«Foi edificada em 1606 sobre as ruínas duma capela denominada S. Gonçalo, que o Bispo / 19 / conde, D. João Soares, havia erigido em freguesia em 1512 (aliás 1572) sob a invocação de Nosso Senhora da Apresentação» (pág. 132).

Nisto há duas inexactidões:

a) A actual igreja de Nossa Senhora da Apresentação não foi edificada em 1606, mas sim foi começada a edificar no ano de 1606;

b) Não foi construída sobre as ruínas da capela ou ermida de S. Gonçalo, mas em local afastado desta, a qual existiu até aos princípios do século XVIII, e serviu de igreja matriz enquanto não foi edificada a actual igreja de Nossa Senhora da Apresentação, nos princípios do século XVII.

A dita ermida foi substituída por outra de planta hexagonal, acabada de construir em 1732, a qual ficou também com a invocação de São Gonçalo e ainda existe actualmente com a denominação popular de Capela de São Gonçalinho.

Para a demonstração que temos em vista, utilizaremos a informação paroquial de 1721 relativa à freguesia de São Gonçalo ou de Nossa Senhora da Apresentação, datada de 23 de Maio deste ano e dirigido ao Provisor do bispado de Coimbra pelo padre cura Manuel Simões Manso. (1)

Desta informação transcrevemos em ortografia actual o seguinte passo referente às capelas que então havia na freguesia de São Gonçalo:

«Houve outra capela que se arruinou, com o título de S. Gonçalo Velho, que se supõe erecta pelo povo haverá duzentos anos, em cujo sítio se edificou uma capela autorizada com o dito título de S. Gonçalo Velho pelo povo que ainda não está acabada.

E há a igreja paroquial de S. Gonçalo Novo que se começou a edificar na era de mil seiscentos e seis anos como consta de uma pedra que está na porta travessa da dita igreja, tem mais a dita igreja quatro capelas, exceptuando a capela-mor, erectas pelo povo com os títulos seguintes: uma do rei Salvador do mundo, outra de Nossa Senhora da Apresentação que é a padroeira, outra das Almas, outra de São Nicolou.»

Por isto se vê que:

A actual igreja paroquial de S. Gonçalo ou de Nossa Senhora da Apresentação começou a edificar-se no ano de 1606, mas não se indica quando foi concluída; e que esta igreja não foi construída no local nem sobre as ruínas da ermida de S. Gonçalo.

As designações de São Gonçalo Velho e São Gonçalo Novo foram inventadas pelo povo para se distinguir facilmente a velha ermida da nova igreja matriz.

É interessante notar que o padre-cura no final da sua referida informação de 1721, faz a seguinte observação:

«Suposto que eu diga nesta igreja de Nossa Senhora da Apresentação no primeiro interrogatório, o título dela e invocação é de São Gonçalo».

Vamos agora determinar a época em que a nova igreja entrou ao serviço paroquial, posto que o Sr. Coronel Amaral diga que tal facto se deu em 1627 e que neste ano ela deve ter sido concluída, mas, na realidade, a igreja foi concluída muitos anos antes de 1627.

Para demonstrarmos isto, vamos utilizar documentos coevos, que neste caso são o Livro das visitações da igreja de São Gonçalo ou de Nossa Senhora da Apresentação, que começa na carta de visitação de 19 de Junho de 1613 e finda na de 2 de Novembro de 1675.

Lamentamos não podermos dispor do primeiro livro que grandes esclarecimentos nos daria acerca deste assunto.

/ 20 /

A NOVA IGREJA ESTAVA QUASE CONCLUÍDA EM 1613

Começou a igreja a ser edificada em 1606, e atendendo à grande necessidade que dela havia, e à sua simplicidade, pois era de uma só nave e não tinha transepto, em poucos anos ela poderia ser construída. E assim sucedeu, como vamos ver.


Fachada da Igreja da Vera Cruz

 
 

A Igreja de S. Gonçalo foi visitada em 19 de Junho de 1613 por António de Soveral Osório, Comissário da Santa Inquisição, sendo bispo de Coimbra, D. Afonso de Castelo Branco, mas esta igreja devia ser a velha ermida que estaria a servir ainda de matriz.

O relatório da visita registado no referido Livro é muito pequeno e nele diz em especial o visítador:

«Faço saber que visitando eu esta igreja de São Gonçalo da Vila de Aveiro em presença do vigário e alguns fregueses por serviço de Nosso Senhor, ordenei o seguinte:

...   ...   ...   ...   ...   ...   ...   ...   ...   ...   ...   ...   ...   ...   ...   ...   ...   ...   ...   ...   ...   ...   ...   ...  

«E agora os vereadores mandarão acabar de todo a igreja e os fregueses irão tirar as esmolas que o senhor bispo mandou por uma provisão sob pena de o pagarem de suas casas.»

Não há, pois, dúvida de que a nova igreja de S. Gonçalo que havia sido começada no ano de 1606, já estava quase concluída em 1613.

A obra não foi, porém, feita e por isso o visitador seguinte, em 14 de Abril de 1614, manteve a mesma ordem do seu antecessor, agora com a pena de quinze cruzados, ou seis mil réis pagos pelos vereadores do seu bolso.

Assim, determinou:

«Os vereadores que hoje são mandem acabar de todo a igreja nova sob pena de quinze cruzados pagos de suas casas para a Santa Cruzada e meirinho.»

O que é certo, porém, é que os vereadores ainda não mandaram fazer desta vez as obras que faltavam.

Não sabemos de que natureza eram, mas por certo eram obras de pouca monta.

No ano seguinte, 1615, o visitador verificou que a ordem dos seus antecessores não havia sido cumprida, e insiste nela, tendo feito registar no livro das visitações o seguinte capítulo:

«Os vereadores do ano atrás não mandaram acabar de todo a igreja nova, incorreram em pena de seis mil réis mas somente os condeno em dois. Mando correr com a obra, e acabá-la perfeitamente os vereadores que hoje são sob pena de cinquenta cruzados pagos de suas casas, assim o cumpram até à visitação seguinte.»

O visitador, para coagir os vereadores a mandarem fazer as obras, aumentou-lhes a pena de quinze para cinquenta cruzados, mas nem assim as mandaram fazer, ou por não gostarem de ser ameaçados com castigo, ou por não terem recursos para o fazerem, ou por a ordem não ser legítima.

A IGREJA FOI CONCLUÍDA EM 1616

No dia 18 de Junho de 1616 houve nova visitação à igreja. Foi visitador «o arcediago Bento de Almeida cónego prebendado na sé catedral da cidade de Coimbra, visitador deste seu arcediagado de Vouga pelos senhores Deão, dignidades, e cónegos cabido sé vagante da dita cidade».

Ele verificou que as obras, apesar de serem insignificantes, não tinham sido realizadas, não obstante as ameaças de penas pecuniárias aos vereadores. Compreendeu que estas eram improfícuas, se não contraproducentes e então resolveu mudar de táctica: apelou para o coração e inteligência dos vereadores. E assim determinou na sua carta de visitação:

«Os vereadores que hoje são cumpram com mandar acabar a igreja nova até ao dia de São Miguel, e porque fio deles lho não mando com penas.»

Vê-se que pouco faltava para acabar de todo a igreja, pois que o visitador marcou um prazo de pouco mais de três meses para realizarem a obra.

Parece que esta foi efectivamente executada, pois que nas cartas de visitação de 1617 e dos anos seguintes não apareceram mais referências a ela.

   
 

Nossa Senhora da Apresentação – Padroeira da Igreja.

 

Podemos admitir, portanto, que a igreja de Nossa Senhora da Apresentação foi concluída no ano de 1616 e que entrou em serviço paroquial em 1617, tendo então deixado de ser matriz a velha ermida de São Gonçalo.

Estas afirmações são comprovadas com a questão dos sinos para a nova igreja, como vamos ver. 

DILIGÊNCIAS PARA AQUISIÇÃO DOS SINOS

Dissemos que a igreja tinha entrado ao serviço paroquial no ano de 1617 e assim deve ser, porque em 1618 já se tomaram providências para a compra de sinos para a igreja nova.

Com efeito, o visitador em 19 de Dezembro de 1618 deu a seguinte ordem:

«Tratem de finta ou imposição como é costume nesta vila para as igrejas novas de porem sinos nesta igreja porque não é bem que esteja uma paróquia em uma vila tão nobre sem eles

/ 21 / Chegou-se à visitação de 23 de Setembro de 1620 e a igreja ainda estava sem sinos. O visitador determinou então o seguinte: os fregueses «procurarão com toda a brevidade de haver sinos por ser indecente estar esta freguesia sem eles e sem cruz de prata». Mas os sinos não foram feitos por falta de dinheiro, pelo que, na visitação de 26 de Outubro de 1621, o visitador Doutor Sebastião Vahia, insistiu no assunto, como consta do seguinte capítulo do Livro:

«A grande necessidade que esta igreja tem de sinos, e o bom termo em que está posto para se prover deles, pois há provisão de Sua Majestade na qual manda se dê dinheiro para eles da imposição que tem esta vila, me força a fazer lembrança assim ao padre Vigário desta igreja, como aos mordomos e fregueses dela, tratem de dar execução à dita provisão pedindo ao senhor provedor e vereadores acudam a remediar cousa tão importante.»

Estas providências foram absolutamente ineficazes, pois decorreram oito anos sem ninguém dar remédio a tal falta, até que em 12 de Junho de 1629 faz pessoalmente a visitação da igreja o próprio bispo de Coimbra, D. João Manuel, o qual, reconhecendo a / 22 / grande necessidade dos sinos e a falta de recursos para os fazer, habilmente resolveu o problema, determinando o seguinte na sua carta de visitação:

«Os fregueses desta igreja mandarão pôr nela um sino pequeno

É de crer que a freguesia tenha adquirido um sino pequeno para o serviço da igreja, e neste serviço ficou até o dia 2 de Outubro de 1647, dia em que, segundo nos informa o Sr. Coronel Diamantino do Amaral, nela foram postos dois sinos grandes novos.

A torre da igreja teve sempre apenas dois sinos e só há poucos anos é que passou a ter quatro. Em 1898 ainda tinha só dois sinos.

O investigador aveirense José Reinaldo Rangel de Quadros publicou em Novembro de 1898, num jornal de Aveiro, algumas curiosas informações acerca da igreja de Nossa Senhora da Apresentação, que vamos reproduzir:

«Na festa de 2 de Fevereiro de 1848, quando eram tangidos os sinos, rachou o menor. Assim esteve até 23 de Julho de 1855, em que, depois de novamente fundido, foi colocado no seu lugar. Na mesma ocasião foi colocada no cimo da torre uma nova grimpa. É à imitação de um galo.»

O mesmo sino e o sino maior sofrera, por diversas vezes, desastres e novas fundições.

Quando esta igreja tornou a ser sede de freguesia (26 de Dezembro de 1876) estavam na torre dois sinos, que ainda hoje lá estão e que têm maiores dimensões, que os antigos.

O maior tem estes letreiros:

SEBASTIÃO DE CAMPOS ME FÉS

X

ECCE CRVCEM DOMINI

1864

 

No outro sino lê-se:

IN SIMBALlS BENE SONANTIBVS

LAVDATE DOMINI 1869

JOAQUIM DIAS DE CAMPOS

ME FES

CANTANHEDE

 

Aqui deixamos estes breves subsídios para a história da extinta freguesia de São Gonçalo e da antiga e actual freguesia da Vera Cruz, de Aveiro, esperando que outros possam corrigi-los e até mesmo acrescentá-los.

Aveiro, Novembro de 1966.

____________________________

(1) – Publicado por A. G. da Rocha Madahil no "Arquivo do Distrito de Aveiro", voI. I, pág. 41.

 

páginas 18 a 22

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