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N.º 1

Publicação Semestral da Junta Distrital de Aveiro

Janeiro de 1966 

 

APROVEITAMENTO
HIDROELÉCTRICO

DOS RIOS PAIVA E VOUGA

 
 

A Hidro Eléctrica Portuguesa fez, há anos, um estudo sobre o aproveitamento hidro-eléctrlco dos Rios Paiva e Vouga.

Como tal trabalho não se limitou aos aspectos hidroeléctricos mas teve, também, «a preocupação de conseguir a melhor valorização da água nas suas múltiplas apIicações», julgámos do maior interesse dar a conhecer aos nossos leitores alguma coisa do que lemos nos vários volumes que integram o Plano Geral e seus Anexos.

O esquema recomendado para o aproveitamento consta de 4 barragens e 4 centrais no Rio Paiva e de 3 barragens e 3 centrais no Rio Vouga e, ainda, uma galeria de Iigação (17 Km) entre os 2 rios.

 

«Com tal aproveitamento, consegue-se:

– o domínio das cheias do Vouga e, como consequência, as condições para serem recuperados ou beneficiados no Baixo Vouga cerca de 11 000 ha de bons terrenos agora pouco produtivos;

– a garantia de um elevado caudal de estiagem no Vouga, e portanto: a possibilidade de intensificar e alargar as culturas de regadio; eliminação das dificuldades no abastecimento de água às indústrias ribeirinhas e do problema da poluição das águas do rio;

– aumento de tráfego no porto de Aveiro decorrente da valorização do Baixo Vouga.

Com o estudo económico-social apresentado no Volume I do Anexo 3 procurou-se não só avaliar as implicações nesse campo do esquema do aproveitamento preconizado, mas principalmente lançar a iniciativa do estudo de um plano de desenvolvimento da região que tende à melhoria de emprego da mão-de-obra local e, consequentemente, à subida do seu nível de vida e à descida da taxa de emigração.

O objectivo deste Plano Geral é o aproveitamento hidroeléctrico. Ele não pode, porém, ser esquematizado sem se terem em consideração as suas implicações sobre o uso da água para outros fins.

Com efeito, criadas embora as albufeiras com vista à produção de energia, elas também regularizam as cheias e possibilitam assim a recuperação de terrenos incultos; e também garantem maiores caudais de estiagem, que podem ser utilizados em novos regadios ou para fins industriais. Duma maneira geral há, portanto, benefícios a contabilizar para além dos hidroeléctricos.

No Rio Paiva eles não são sensíveis. Já no Rio Vouga podemos separar duas zonas com características e problemas bem distintos: / 36 /

– uma, o «Vouga», até à foz do Caima (1 030 Km2 de bacia hidrográfica). Rio de planalto e de montanha, com interesse essencialmente hidroeléctrico;

– outra, o «Baixo Vouga» (1 370 Km2, incluindo os afluentes Caima, Águeda e Cértima), em que o problema é de domínio de cheias para melhoria e defesa das explorações agrícolas e de garantia dos caudais e estiagem necessários para a rega e usos industriais.

Ao elaborar o esquema do aproveitamento do Vouga, houve portanto que analisar o problema sob três aspectos, dos quais o primeiro não é por certo o mais importante:

– o aproveitamento hidroeléctrico;

– o domínio das cheias, avaliando a importância dos seus benefícios e por conseguinte a força dos condicionamentos que ele virá a introduzir na produção de energia;

– as dotações de água necessárias em estiagem, comparando-as com o caudal garantido nessa época.

Quanto aos aspectos não hidroeléctricos do problema, essa derivação apresenta uma vantagem (o mais fácil domínio das cheias) e um possível inconveniente (a redução do desarmazenamento estival garantido na albufeira de Ribeiradio), inconveniente que, como veremos, não é efectivo, uma vez que o caudal de estiagem garantido pela parte da bacia não derivada é bastante para as necessidades previsíveis.

No anexo 3-VoI. 2, dá-se uma ideia geral dos benefícios de natureza hidroagrícola a colher da regularização dos caudais no Baixo Vouga, representados pela possibilidade de recuperação ou beneficiação de cerca de 11 000 hectares de bons terrenos agora improdutivos ou explorados em condições deficientes, e traduzíveis num aumento de rendimento anual bruto e 60 a 70 mil contos.

Nesse VoI. 2 determinam-se também as necessidades de água para rega no Baixo Vouga (44 x 106 m" por ano), largamente excedidas pelos desarmazenamentos estivais da albufeira de Ribeiradio (194 x 106 m2) garantidos em qualquer ano pela bacia do Vouga não derivada para Alvarenga.

Com o esquema de aproveitamento hidroeléctrico proposto para o Vouga domina-se o maior contribuinte para as cheias no Baixo Vouga. O domínio destas seria praticamente completo com a regularização, na albufeira de Rio Côvo, dos caudais do Águeda, o outro contribuinte importante. A água armazenada nesta albufeira (107 milhões de m3 garantidos em qualquer estiagem) poderia no caso de a excedente do Vouga se destinar à indústria, ser utilizada na rega dos campos a sul de Aveiro, campos incluídos no plano elaborado em 1935 pela Junta Autónoma de Obras de Hidráulica Agrícola para o aproveitamento do Rio Mondego como susceptíveis de serem regados a partir deste rio, mas que, podendo agora dispor-se para tal de água, sê-lo-ão sem dúvida em condições mais vantajosas a partir do Baixo Vouga.

Quanto às necessidades de água para a indústria elas são actualmente representadas pelas da Fábrica de Cacia, da Companhia Portuguesa de / 37 / Celulose, e à sua satisfação não causará embaraços a derivação do Vouga para Alvarenga.

Sob o ponto de vista económico-social o aproveitamento dos rios Paiva e Vouga terá duas ordens de consequências:

– a produção de energia, a integrar no sistema nacional e portanto de interesse geral;

– os benefícios, de ordem hidro-agrícola ou industrial, resultantes de regularização do regime dos rios – de âmbito regional.

 

CORRECÇÃO DO REGIME DO RIO VOUGA OBTIDA COM A EXECUÇÃO DO ESQUEMA DE APROVEITAMENTO PROPOSTO

Dado que têm características bem distintas, separámos, por comodidade de ordenação, o troço do Rio Vouga situado a jusante da foz do Caima, designando-o por «Baixo Vouga», do restante do rio, a que chamámos simplesmente «Vouga».

Ao Baixo Vouga afluem, além do Vouga, os Rios Caima, Águeda e Cértima.

Domínio das cheias

 O domínio das cheias no Vouga tem interesse na medida em que ele é o maior contribuinte para as do Baixo Vouga, dado que a montante da foz do Caima o rio corre em vale encaixado, sendo de pouco significado os prejuízos resultantes das cheias. Estas ficam praticamente dominadas na albufeira de, Ribeiradio, onde afluem 90 % da bacia do Vouga e onde se consegue um caudal de cheia regularizada não superior a 60 mais em cerca de 90 % dos anos, valor que representa uma pequena fracção do caudal de cheia natural, 

Domínio do caudal sólido

Não efectuámos medições de caudal sólido no Vouga, nem dispomos de dados a não ser os que resultam da simples observação directa. Estes, porém, aliados à natureza geológica da bacia hidrográfica e ao estado de cultura dos terrenos, levam-nos a concluir que, embora sem transportar elevado caudal sólido, o Vouga é também sob este aspecto o responsável pelas dificuldades no Baixo Vouga.

Ainda neste caso a albufeira de Ribeiradio, retendo o material sólido, teria papel decisivo no desassoreamento do leito do Baixo Vouga, que parece começar a esboçar-se no troço final talvez por virtude de melhoria da barra de Aveiro. 

Represamento dos Rios Águeda e Alfusqueiro, em Rio Côvo

O Rio Águeda e o seu afluente Alfusqueiro drenam as vertentes norte e oeste da Serra do Caramulo, muito declivosas e de elevada pluviosidade. Com uma bacia hidrográfica e 431 Km2 e sujeito a cheias bruscas e de grande amplitude, o Águeda é o outro grande contribuinte para as cheias no Baixo Vouga.

O domínio das cheias do Vouga representa sem dúvida um passo decisivo para a resolução deste problema. Se se pretender, porém, um domínio praticamente completo das cheias no Baixo Vouga, então torna-se necessário corrigir também o Águeda.

Isso seria possível represando o Rio Alfusqueiro na garganta situada / 38 / nas proximidades da povoação de Rio Côvo e derivando o Águeda para a albufeira assim formada. Com o represamento até à cota 90 m dispor-se-ia de uma capacidade útil de armazenamento de 140 milhões de metros cúbicos e com ela seria possível regularizar as cheias por forma a não ultrapassagem 50 m3/s em cerca de 90 910 dos anos.

 

ALGUMAS CONSEQUÊNCIAS DE CARÁCTER ECONÓMICO-SOCIAL DA EXECUÇÃO DO APROVEITAMENTO DOS RIOS PAIVA E VOUGA

Consequências de ordem hidroagrícola

Nos vales do Paiva e do Vouga (a montante da foz do Caima) seriam sem significado os benefícios de natureza hidroagrícola derivados da regularização do regime dos rios. Já outro tanto não pode dizer-se do Baixo Vouga, onde extensas zonas de bons terrenos se encontram agora permanentemente encharcadas ou sujeitas à acção das cheias. O Vol. 2 do anexo 3 é inteiramente dedicado à análise do aproveitamento hidroagrícola do Baixo Vouga e dele se conclui que o domínio das cheias possibilitaria a recuperação ou beneficiação de cerca de 11 000 hectares desses terrenos, com um aumento de rendimento anual da ordem dos 60000 contos. As necessidades de água para a sua rega são calculadas em 44 000 000 m3, volume excedido em muito pela garantia anual da albufeira de Ribeiradio (194000000).

A regularização das cheias do Vouga em Ribeiradio é essencial para o aproveitamento dos 11000 ha e permite sem dúvida, por si só, que se leve a cabo em boa parte deles. Seria, porém, necessário um estudo adequado das cheias do Águeda e do Baixo Vouga para se concluir se o domínio das do Vouga bastaria para o aproveitamento total desses terrenos, ou se pelo contrário haveria necessidade de regularizar também as cheias do Águeda.

Os 150000000 m3 sobrantes em Ribeiradio, e eventualmente mais os 107 000 000 m3 garantidos na albufeira do Rio Côvo, poderiam ser elevados para rega dos campos que se desenvolvem, até cerca da cota de 50 m, para sul de Aveiro e Fermentelos. Dispondo-se de água bastante para tal, seria ainda de encarar a intensificação do regadio nos campos de Murtosa a Pardilhó, sugerindo-se para talo estudo da possibilidade de se criar um armazenamento no Laranjo, junto de Murtosa. Assim se poderia beneficiar uma área que decerto facilmente atingiria a ordem dos 15 000 ha.

É portanto de encarar a possibilidade de recuperação ou valorização de cerca de 25 000 ha de bons terrenos numa zona densamente povoada, com os benefícios de ordem económico-social daí decorrentes, traduzidos na melhoria do nível de vida da população rural e sua consequente fixação.

Reflexos nas indústrias ribeirinhas

Vimos já como é reduzido o caudal de estiagem no Baixo Vouga, mesmo em anos muito chuvosos, o que cria dificuldades a indústrias já instaladas junto dele, nomeadamente à de celulose existente em Cacia.

Por outro lado o desenvolvimento em projecto do porto de Aveiro estimulará por certo o desenvolvimento do parque industrial da região pela maior facilidade e acesso em matérias-primas e de saída dos produtos fabricados. As / 39 / pesquisas de água subterrânea levadas a efeito na zona parece não terem conduzido a resultados muito animadores, e, se as perspectivas não melhorarem, a carência de água doce poderá vir a constituir um forte condicionamento à instalação de bom número de indústrias.

Garantindo a albufeira de Ribeiradio um caudal permanente de cerca de 15 m3/s, deverá ser vista como factor de grande importância não só na melhoria das condições de exploração de indústrias já existentes, mas ainda para a montagem de novas indústrias.

Cabe nesta nota referir que é já considerável o valor industrial da região que margina a Ria de A veiro; só nos concelhos de Aveiro, ílhavo, Estarreja e Ovar o valor bruto da produção atinge cerca de 1 500 milhares de contos, num total e 20000 milhares no Continente (excluindo Lisboa e Porto).

É portanto real e imediato, sob o ponto de vista industrial, o valor da garantia de elevado caudal de estiagem no Baixo Vouga, mesmo sem contar com o desenvolvimento que ele proporcionaria nas indústrias com base agro-pecuária. 

Diversos – Melhoria de ligações rodoviárias

Tanto no Paiva como no Vouga, as barragens previstas serviriam para melhorar as comunicações entre as duas margens. Parecem-nos contudo merecer especial referência: a de Alvarenga, que viria estabelecer a ligação da margem norte do Paiva com Arouca, possibilitando assim a saída pelo porto de Aveiro dos produtos da zona florestal da Serra de Montemuro; a de Portela que proporcionaria boa saída para a zona florestal da Serra de Leomil; a de Castro Daire que melhoraria grandemente o acesso a esta Vila; a de Ribeiradio que poderia vir a constituir uma alternativa para a velha ponte de Pessegueiro na passagem do Rio Vouga.

Situando-se as albufeiras em zonas essencialmente povoadas de florestas ocorre ainda perguntar se elas próprias não poderiam ser utilizadas para o transporte de parte dos produtos florestais e sua concentração junto das barragens, onde seriam recolhidos e eventualmente trabalhados.

Pesca fluvial – Turismo

O Rio Paiva e os seus afluentes possuem condições fisiográficas excepcionais para o habitat da truta (Salmo trutta fario, L) constituindo uma das bacias hidrográficas do nosso País onde este salmonídeo melhor se desenvolve. Além disso, nele entra a truta marisca (Salmo trutta, L) peixe migrador particularmente apreciado pelos adeptos da pesca desportiva e que muito valoriza as possibilidades haliênticas deste curso de água.

Aumento do tráfego no porto de Aveiro

O aumento da produção agro-pecuária, a instalação de novas indústrias, e, em suma, o desenvolvimento do «hinterland» do porto de Aveiro, a processarem-se como é de prever, traduzir-se-iam num aumento do tráfego nesse porto. Para tal daria sem dúvida apreciável contribuição o plano de aproveitamento agora apresentado, quer directamente, como no sector agro-pecuário e no das indústrias dependentes da permanência de água no rio, quer indirectamente, como por exemplo na eventual localização junto das barragens de indústrias à base de produtos florestais, conforme atrás sugerido».

 

páginas 35 a 39

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